2 de novembro de 2015

Um

— Mas que merda!
Haven deixou seu cupcake cair, um com confeito rosa, granulados vermelhos, e saia prata. Seus olhos pesadamente pintados buscam de migalhas, enquanto eu olho ao redor da movimentada praça de alimentação. Imediatamente lamentando a minha decisão de vir para cá, tola o suficiente para pensar que uma viagem para o seu lugar favorito em um dia agradável do verão seria o melhor lugar para dar a notícia. Como se aquele bolinho de morango fosse de alguma maneira adoçar a mensagem. Mas agora eu estou desejando ter ficado no carro.
— Abaixa a voz. Por favor — eu aponto para as pessoas em volta, mas acabou soando como uma velha professora de colégio ranzinza. Observando enquanto ela se inclina para frente, tira sua longa, franja com uma mecha loira-prateada e prende atrás da orelha, e me olha.
— Desculpa? Mas você esta falando sério? Quero dizer, você me joga uma enorme bomba dessas – e eu quero dizer enorme mesmo – enquanto meus ouvidos ainda estão apitando e minha cabeça esta girando e eu meio que preciso que você repita novamente para eu me certificar que você acabou de dizer o que eu penso que disse, e você só está preocupada com o tom da minha voz? Você está de brincadeira comigo?
Eu balanço minha cabeça e olho ao redor, deslizando para o modo controle sem danos e eu abaixo minha voz para dizer, — Eu só... Ninguém pode saber. Isso tem que ser segredo. É imperativo.— Eu argumento, percebendo muito tarde que estou falando com uma pessoa que nunca foi capaz de guardar um segredo de ninguém, nem dela mesma.
Ela rola os olhos e se encosta em seu acento, murmurando baixinho enquanto eu tomo um momento para estudá-la de perto, consternada com os sinais já presentes: sua pele pálida e luminosa, limpa, assim como praticamente sem poros, seus cabelos castanhos ondulados, com uma mecha loura na frente tão brilhante e lustrosa que serviria para um comercial de shampoo. Mesmo seus dentes ficaram retos, brancos, eu não posso evitar, mas fico me perguntando como isso aconteceu tão rápido, só com alguns goles de elixir, quando levou muito mais tempo para mim.
Meus olhos ainda estão nela enquanto eu tomo um longo fôlego e desisto. Esquecendo minha promessa de não usar meus poderes para investigar os pensamentos mais íntimos dos meus amigos, enquanto eu o uso para obter uma melhor aparência, um vislumbre de sua energia, as palavras que ela não compartilha. Com certeza espionar nunca foi uma boa justificativa, até agora.
Mas ao invés do meu acento na primeira fileira como de costume, eu estou satisfeita em ficar junto à parede dura dos fundos do bar. Mesmo depois que eu casualmente deslizo minha mão para frente e toco meus dedos contra os dela, fingindo interesse no anel de caveira de prata que ela usa, eu não pego nada.
Seu futuro está escondido de mim.
— É tudo tão — Ela engole duro e olha em volta, olhando para a fonte borbulhante, a jovem mãe empurrando um carrinho enquanto grita falando ao celular, as meninas saindo de uma loja de natação com os braços cheios de sacolas – olhando para qualquer lugar menos para mim.
— Eu sei que é muito para absorver, mas mesmo assim — Eu dei de ombros, sabendo tenho que fazer melhor, mas não sabendo como.
— Muito para absorver? É assim que você vê?— Ela balança a cabeça e bate com os dedos no braço de metal da cadeira verde enquanto seu olhar me varre lentamente.
Eu suspiro, desejando que eu fazer isso melhor, desejando que eu pudesse fazer algo mudar tudo, mas é tarde demais para isso. Eu não tenho escolha, a não ser lidar com a bagunça que eu fiz, — Eu acho que eu estava esperando que você visse isso.— Eu dou de ombros. — Loucura. Eu sei.
Ela toma um longo fôlego, seu rosto tão estável, tão calmo, é impossível de se ler, eu estou prestes a começar a pedir perdão, quando ela diz, — Sério? Você me fez imortal? Como, sério mesmo?
Eu aceno com a cabeça, meu estômago com um nó de nervos enquanto sento-me reta e puxo meus ombros para trás, me preparando para o golpe que certamente estava vindo na minha direção. Sabendo que seja lá o que ela dê, seja verbal ou psíquico, eu não tenho escolha a não ser aceitar. Eu não mereço nada menos por destruir a vida dela, como ela sabe disso.
— Eu só — Ela suga o ar e pisca várias de vezes, sua aura invisível, que não oferece nenhum indício de seu humor, agora eu a fiz gostar de mim. — Bem, eu estou em total estado de choque. Quero dizer, sério. Eu não sei o que dizer.
Eu aperto meus lábios e solto minhas mãos no colo, mexendo em meu bracelete de cristal com uma ferradura que eu sempre uso, limpo minha garganta e digo, — Haven, escuta, eu sinto muito. Sinto muito, muito mesmo. Você não tem ideia. Eu só – eu balanço minha cabeça, sabendo que eu deveria cortar a enrolação, mas sentindo que eu preciso explicar o meu lado das coisas, possivelmente da escolha que eu fui forçada a fazer, como me senti ao vê-la tão pálida, tão indefesa, oscilando à beira da morte, a cada respiração superficial, muito difícil para consegui-las...
Mas antes que eu consiga começar, ela inclina-se para mim, os olhos brilhando enquanto ela me olha fixamente. — Você é louca?— Ela balança a cabeça. — Você está realmente se desculpando, enquanto eu estou apenas sentada aqui, assim empolgada, tão completamente amedrontada, eu não posso nem imaginar como eu nunca vou recompensá-la!
O quê?
— Quero dizer, isso é muito legal!— Ela sorri, saltando para cima e para baixo em sua cadeira, o rosto iluminando como uma lâmpada de mil watts. — Isso é seriamente a coisa mais legal que já me aconteceu – e eu devo tudo a você.
Eu travo, olhando em volta nervosamente, sem ter a certeza de como reagir. Isto não é o que eu esperava. Não era para isso que eu estava preparada. Pensando que era exatamente sobre isso que Damen me alertou.
Damen – meu melhor amigo – minha alma gêmea – o amor de todas as minhas vidas. Meu incrivelmente lindo, sexy, esperto, talentoso, e compreensível namorado que sabia que isso ia acontecer e implorou pra vir junto exatamente por essa razão. Mas eu fui muito teimosa. Insisti em vir sozinha. Foi eu que fiz isso com ela – eu que fiz ela tomar o elixir – então sou eu quem tem que explicar. Só que não está acontecendo da forma que eu pensava. Nem perto disso.
— Eu quero dizer, é como ser um vampiro, certo? Menos os sanguessugas?— Seus olhos brilhantes ansiosamente buscando os meus. — Oh, e sem os caixões e não se expor ao sol também!— Sua voz se elevando em alegria. — Isso é tão maravilhoso, como um sonho se tornando realidade! Tudo o que eu sempre quis finalmente esta acontecendo! Eu sou uma vampira! Uma linda vampira, mas sem os horríveis efeitos colaterais!
— Você não é uma vampira.— Eu digo, minha voz monótona, indiferente, me perguntando como isso chegou a esse ponto. — Não é esse tipo de coisa.
Não, sem vampiros, sem lobisomens, sem elfos, sem fadas – só imortalidade, cuja fila, graças a Roman e eu, está meio que se multiplicando...
— E como você pode ter certeza disso?— Haven pergunta com a sobrancelha levantada.
— Porque Damen tem estado por ai há mais tempo que eu,— eu digo. — E ele nunca encontrou nenhum por aí – ou conheceu alguém que conheceu algum. Nós figuramos a lenda dos vampiros como figura de imortalidade com algumas grandes distorções, como sanguessugas, não serem capazes de sair ao sol, e todos serem alérgicos a alho.— Eu me inclino para ela. — Isso tudo foi adicionado para dar um drama extra.
— Interessante.— Ela concorda, mas sua mente está claramente em outro lugar.
— Eu ainda vou poder comer bolinhos?— Ela se movimenta em direção a bagunça de morango amassado, uns dos lados cederam, achatados contra o seu recipiente de papelão, enquanto o outro permanece macio, implorando para ser comido. — Ou tem alguma outra coisa que eu supostamente deveria — Seus olhos ampliam de tamanho, ela nem me da tempo de responder antes dela bater na mesa e gritar. — Oh Meu Deus, é aquele suco, não é? Aquela coisa vermelha que você e Damen vivem bebendo! É isso, não é? Então o que você está esperando! Me dê um desses, vamos fazer isso oficial, eu mal posso esperar para começar!
— Eu não trouxe nenhum— eu digo, vendo o rosto dela cair em decepção enquanto eu me apresso para explicar. — Escuta, eu sei que você pensa que tudo isso é muito legal e tudo, e algumas dessas coisas são mesmo, não há duvida sobre isso. Eu quero dizer você nunca vai envelhecer, não vai ter espinhas ou rugas, você nunca vai ter que trabalhar fora, e você pode até crescer mais um pouco – quem vai saber? Mas tem outras coisas também, coisas que você precisa saber, coisas que eu tenho que explicar a fim de — Minhas palavras foram interrompidas com a visão dela pulando para fora da cadeira de uma forma rápida e graciosa, como se ela fosse um gato – ainda outro efeito colateral da imortalidade.
Mudando de um pé para outro enquanto ela diz, — Por favor. O que há para saber? Se eu posso pular mais alto, se eu posso correr mais rápido, nunca envelhecer ou morrer – o que mais possivelmente eu vou precisar? Parece que eu sou boa para ir por toda a eternidade.
Eu olho ao redor nervosamente, determinada a encobrir o entusiasmo dela antes que ela faça alguma besteira, alguma besteira que vai chamar o tipo de atenção que não queremos.
 — Haven, por favor. Sente-se. Isso é sério. Há mais coisas a serem explicadas. Muito mais, — eu sussurro com palavras firmes e brutas, mas que não surtem nenhum efeito. Ela apenas está lá diante de mim, sacudindo a cabeça e recusando a ceder. Então, bêbada com seu novo poder imortal, ela salta desafiadoramente e deliberadamente.
— Tudo é sério com você Ever. Até mesmo cada coisa que você diz ou faz é tudo uma droga de grave. Eu quero dizer, sério, você me dá as chaves do reino, em seguida, quando eu começar a colocar a chave lá você vem e me fala do lado negro disso? Quão loucura isso é?— Ela rola os olhos. — Vamos lá, libera um pouco, sim? Me deixe sair, fazer um teste drive, ver do que eu sou capaz. Eu vou apostar uma corrida com você! A primeira que chegar ao meio fio ganha a liberdade!
Eu balanço minha cabeça e suspiro, desejando que eu não precisasse fazer isso, mas sabendo um pouco de força psíquica está em ordem. É a única coisa que eu tenho para colocar um fim a tudo isso e mostrar-lhe quem realmente é responsável por aqui. Estreitando os olhos, me concentro rígida em sua cadeira, dirigi-la através do chão tão rápido, que força seus joelhos a cederem, fazendo-a se sentar novamente.
— Hei, isso dói! — Ela massageia a perna e me olha.
Mas eu simplesmente dou de ombros. Ela é imortal, não é como se ela fosse se machucar. Além disso, há muito mais a se explicar e não vai sobrar muito tempo se ela ficar agindo assim, então eu me inclino para ela, tendo a certeza que eu tenho toda a sua atenção enquanto eu digo, — Confie em mim, você não pode jogar o jogo se você não conhece as regras. E se você não conhece as regras, alguém obrigatoriamente vai se machucar.

Um comentário:

  1. Alguma coisa me diz que isso não vai dar certo!
    Ass: Bina,

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