3 de novembro de 2015

Trinta

— Ela está mentindo.
Rafe vira o corpo para ver o que eu já vi, saber o que já sei.
Marco está aqui.
E, como sempre, Misa se insinua ao lado dele, com seus exóticos olhos escuros, cabelos pretos arrepiados e orelhas cheias de piercings.
Jogo a luz da lanterna sobre eles e os observo atentamente, tentando descobrir algo, definir se sua aparição é um problema para mim, para Rafe ou apenas problemática em geral. Só tenho duas certezas: não importa quem é seu alvo (embora provavelmente seja eu), suas intenções não são boas. E, assim como Rafe, eles mostram sinais de envelhecimento.
— Ela veio em busca do fruto. — Os olhos de Misa alternam entre mim e Rafe. — Lótus a mandou. Convenceu-a a encontrar a árvore, assim como tentou nos convencer há tantos anos. Mas agora parece que aquela velha acha que Ever é a única que pode conseguir. Então Marco e eu a seguimos. E imagino que você esteja fazendo o mesmo.
Rafe semicerra os olhos, mas não se mexe, nada diz. Está ocupado demais analisando a situação, atento demais para responder.
— Lótus vem procurando alguém para fazer esta jornada há séculos. — Misa dirige suas palavras a mim, enquanto Marco bufa a seu lado. — No início achamos que ela fosse louca... Bem, principalmente porque ela é. Mas agora, com Roman morto, Haven consumiu cada gota do estoque de elixir e do jeito que Damen... Bem, não há necessidade de medir palavras aqui, não é? Do jeito que Damen é egoísta, não tivemos escolha além de ser amigável com ela, aprender sobre essa árvore e descobrir como encontrá-la. Ela nos trouxe a Summerland, mas foi só isso. Disse que não sabia como encontrar a árvore, que você é a única que pode achá-la, que é seu destino, como se você fosse uma espécie de escolhida, ou algo assim.
Ela me encara por algum tempo, com uma expressão mordaz, e então revira os olhos de modo exagerado, querendo deixar claro que acha tudo isso ridículo.
— Não importa. — Ela dá de ombros. — Estamos aqui para que você nos leve até ela, depois assumiremos.
— Só que eu cheguei aqui primeiro. — A ameaça na voz de Rafe é bem evidente. — Um pequeno detalhe que vocês parecem ignorar.
Observo-os ficarem tensos, endireitando os ombros e se posicionando como se fossem brigar bem ali, naquela trilha estreita, para defenderem o direito de me usar a fim de conseguirem o que querem.
— Estão ouvindo o que dizem? — Alterno o olhar entre eles. — É sério. Vocês são inacreditáveis! E ainda chamam Damen de egoísta. — Balanço a cabeça em reprovação, sem tentar esconder que estou indignada. Mas a verdade é que, enquanto meus lábios continuam se movendo, dizendo uma série de palavras similares, e minha expressão muda para acompanhar o que quer que eu esteja falando, minha mente está em outro lugar. Está trabalhando com afinco para encontrar uma saída desta confusão, sabendo que eu teria sido capaz de derrubar Rafe enquanto ele ainda estava sozinho, mas agora que são três imortais contra uma... não tenho mais tanta certeza.
Embora eles não possam me matar, ainda podem provocar alguns danos sérios ou, até pior, me impedir de chegar à árvore primeiro.
— Nem sabemos se esse fruto existe de verdade — digo, olhando de um a outro. — Mas imaginemos que sim, que o encontraremos bem ali, esperando para ser colhido. Por que não podemos dividi-lo? Por que cada um de vocês não dá uma mordida e depois me entregam o que sobrar para que eu dê a Lótus? Assim, todo mundo sai ganhando. E ninguém se machuca.
Mas, no lugar da recusa que eu esperava, recebo um silêncio absoluto. Um silêncio horrível e duradouro, muito pior que qualquer briga que eles pudessem travar.
Eles não estão mais interessados em mim.
Toda sua atenção está voltada para outra coisa.
E não preciso olhar para saber o que é. Posso sentir pela forma como a brisa sopra contra minha nuca. Posso ver no brilho repentino que aparece em seus olhos.
Eles a veem.
A árvore.
O que significa que não precisam mais de mim.
E, embora eu tente me movimentar, faça o máximo para correr, é tarde demais.
Há muitos deles e só uma de mim. E parece que, pelo menos neste caso, optaram por trabalhar juntos. Optaram por colaborar um com o outro.
Misa e Marco agarram meus braços enquanto Rafe vem por trás de mim.
Ele pressiona o rosto contra o meu, os lábios gelados empurrando minha pele enquanto ele diz:
— Lembra quando contei que perdi o equilíbrio e caí no cânion?
Engulo em seco, me firmo, sabendo muito bem o que vem em seguida.
— Acontece que menti. — Ele sorri, posso sentir seus lábios se curvando em minha pele. — Se eu tivesse o azar de ter caído, nunca conseguiria subir novamente. Sabe, Ever, é uma queda violenta. Uma queda muito violenta sem nenhuma saliência rochosa... nada em que se agarrar. Mas acho que é melhor deixar que você veja com os próprios olhos. Não há necessidade de estragar a surpresa, não é?
Eu brigo.
Eu chuto.
Eu arranho e mordo, ataco e grito, agito-me e luto com toda a minha força de imortal.
Mas, apesar de ficar feliz por conseguir machucar todos eles, no final não é suficiente.
Não posso vencê-los.
Não sou páreo para eles.
Quando me dou conta, Rafe está me empurrando no exato momento em que Misa e Marco me soltam.
Eles me mandam pelos ares.
Planando.
Esbarrando na borda da trilha e caindo no cânion sem fim.

2 comentários:

  1. Ai que raiva eu sabia que não era Damen...Se ele tivesse ido com ela nada disso teria acontecido.

    Ass: Claudia

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  2. Por que essa louca simplesmente não disse a verdade? De que o negócio não vai dar exatamente oq querem, e sim, o oposto? Mds Ever.

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