2 de novembro de 2015

Trinta

Assim que passamos pelo portão, começamos a procurar por Haven. Mas ela nos vê primeiro.
Percebo isso pela forma como ela para — para de falar, de se mover, praticamente para de piscar e respirar — e fica boquiaberta.
Ela achou que eu estivesse morta.
Abandonou Jude acreditando que estivesse morrido.
Mas aparentemente as coisas não saíram como ela planejara.
Cumprimento-a com um gesto de cabeça, jogando os cabelos sobre os ombros para lhe proporcionar uma visão clara de meu pescoço — ainda sem o amuleto, do jeito que ela o deixou. Quero que saiba que já não sou vulnerável. Já não tenho um ponto fraco. Não sou mais ameaçada pela falta de discernimento, por confiar nas pessoas erradas ou por mau uso do conhecimento.
Superei completamente tudo isso.
O que não lhe deixa escolha senão lidar comigo, agora que não pode acabar comigo.
Quando tenho certeza de que ela teve tempo suficiente para processar tudo, levanto a mão que está entrelaçada à de Damen a uma altura em que ela possa ver. Quero que saiba que ainda estamos juntos, que sobrevivemos à tempestade, que ela não pode nos derrotar, nada pode, então é melhor nem tentar.
Mesmo virando-se rapidamente, voltando a seus amigos e tentando prosseguir como se tudo estivesse normal, ambas sabemos que não está. Causei um grande estrago em seus planos, e ela ainda não entendeu completamente, mas logo compreenderá.
Passamos por ela e seguimos até o banco em que Stacia está sozinha, com um capuz na cabeça e fones de ouvido e óculos enormes cobrindo o rosto, em uma tentativa de desviar e ignorar os insultos que vem de praticamente todos os alunos que passam, enquanto espera que Damen apareça e a defenda.
Eu paro, chocada com o modo como ela se parece comigo, ou pelo menos com a antiga Ever, imaginando se ela vê o mesmo, se percebe a ironia da situação.
Damen aperta minha mão. Seu olhar é questionador e confunde a minha hesitação com relutância em continuar com isso, mesmo que já tenhamos conversado sobre o assunto um milhão de vezes.
— Eu dou conta. — Confirmo com a cabeça. Então olho para ele e completo: — É sério. Não se preocupe. Sei exatamente o que dizer.
Ele sorri e se inclina para me beijar, os lábios macios e doces tocando minhas bochechas. Um lembrete rápido e fácil de que me ama, de que está comigo, de que sempre estará. E, como isso é incrivelmente bom e eu gosto muito, não questiono mais.
Stacia tira os olhos do iPod, encolhendo-se assim que me vê. Não posso deixar de notar que seu rosto fica sério, ela curva involuntariamente os ombros e os afasta quando me sento a seu lado.
Ela não tem ideia do que posso querer, mas está obviamente convencida de que, o que quer que seja, não pode ser bom. Levanta os óculos e lança a Damen um olhar que pede socorro.
Ele se senta a meu lado enquanto balança a cabeça e digo:
— Não olhe para ele, olhe para mim. — Eu a encaro. — Acredite se quiser, sou eu quem vai tirar você desta confusão. Sou eu quem vai fazer tudo voltar a ser como era. Ou pelo menos quase como era.
Ela alterna o olhar entre nós dois, segurando a barra enrolada do vestido, sem saber se estou mesmo sendo sincera ou se ela está sendo envolvida em algum tipo de plano de vingança criado por mim.
Está prestes a se levantar e sair, arriscar-se em meio à massa hostil, quando a interrompo, dizendo:
— Mas, como certamente já deve ter adivinhado, há uma condição.
Ela me olha desconfiada, à espera do pior.
— A condição é que, quando voltar à mesa dos populares, vai usar sua influência para o bem, e não para o mal.
Ela balança a cabeça e depois solta uma risada nervosa que logo desaparece. Incapaz de saber se estou brincando ou falando sério, olha novamente para Damen em busca de resposta.
Mas ele apenas sacode os ombros enquanto se aproxima de mim.
— Não estou brincando. Estou falando a sério. Caso não tenha notado, caso já tenha esquecido, você me sacaneou desde o primeiro dia em que cheguei a esta escola. Divertiu-se muito ao fazer da minha vida um inferno. E aposto que passou mais tempo tramando contra mim que estudando para as provas.
Ela olha para os joelhos, contrai-se e cora diante de minha lista de acusações e minha análise minuciosa. Sabiamente, opta por não abrir a boca. Ainda não acabei, e há muito mais de onde veio tudo isso.
— Sem contar que tentou roubar meu namorado bem diante de meu nariz... Mais de uma vez. — Olho fixamente em seus olhos, sem qualquer compaixão. — Mas não vamos fingir que fui a única torturada por você, porque acho que ambas sabemos que não é o caso. Praticamente qualquer pessoa que considerasse mais fraca ou de alguma forma inferior a você, ou, que seja, até mesmo algum tipo de ameaça podia virar alvo. Perseguiu até sua suposta melhor amiga.
Ela olha para mim com o nariz enrugado, os olhos semicerrados, obrigando-me a dizer:
— Alô-ou? Honor! — Balanço a cabeça, perguntando-me se não estou apenas perdendo meu tempo, se é realmente possível tocar alguém tão vaidoso, egoísta e emocionalmente ignorante como ela. — Por que acha que ela se virou contra você? Acha que é tudo culpa de Haven? Pense bem. Ela já vem planejando isso há algum tempo, principalmente porque você a tratava como lixo. Do mesmo modo como trata todo mundo. Mas também porque você tentou roubar o namorado dela. Pelo que fiquei sabendo, essa foi a gota d’água.
Ela engole em seco, passa os dedos pelos cabelos e arruma-os de modo que cubram parcialmente seu rosto, nem um pouco disposta a olhar para mim e sem querer que eu a veja.
Mas pelo menos não está tentando negar o que ambas sabemos que é verdade — E também ouvi dizer que foi tão bem-sucedida com isso quanto foi ao tentar roubar Damen. — estreito os olhos e balanço a cabeça, mas deixo as coisas como estão, imaginando que já me deleitei muito com esta conversa. — Apesar do fato de seu comportamento ser absolutamente cruel, calculista e desnecessário, vou ajudá-la a reconquistar sua antiga posição.
Ela analisa meu rosto, tentando determinar se é realmente verdade. Assim que confirmo, ela volta ao intenso estudo de seus joelhos bronzeados artificialmente.
— E não é por gostar de você. Porque eu realmente não gosto. E não é por achar que você merece. Porque definitivamente sei que não é verdade.
É porque o que Haven está fazendo, acredite se quiser, é ainda pior que aquilo que você fazia. E, como não tenho interesse em ser abelha-rainha da escola, decidi devolver a posição a você. Mas, como eu disse, sob algumas condições. A principal delas é que, a partir de agora, encontre outro modo de se promover. Terá que parar de derrubar os outros a fim de se destacar, porque é praticamente a atitude mais baixa e mesquinha que alguém pode ter. E se essa sua experiência, esse revés em sua prosperidade social, não lhe serviu de lição, não sei o que servirá. Agora que experimentou como é estar do outro lado, agora que sentiu na pele como é ser excluída e maltratada como costumava fazer com os outros, imagino que não queira que ninguém mais passe por isso. Mas talvez não seja vem assim. Quando se trata de você, nunca se sabe.
Ela permanece ali sentada, com os ombros curvados e o cabelo formando uma cortina entre nós. A cabeça balança enquanto ela bate uma sandália de marca na outra, o único indício de que está me ouvindo, de que está me levando a sério, e é tudo de que preciso para continuar.
— O negócio é o seguinte: você é bonita e inteligente, tem todas as vantagens que qualquer pessoa poderia querer no mundo e, sinceramente, só isso deveria bastar para lhe dar poder. Então, talvez, só talvez, em vez de agir como uma fedelha gananciosa e tentar roubar tudo o que sabe que não pode ter, poderia se concentrar em descobrir uma forma de usar essas dádivas para se tornar uma boa influencia para as pessoas. Pode achar meio piegas, pode achar que sou ridícula, mas estou falando sério. Se quiser voltar a ser a estrela desta escola, é exatamente isso que vai fazer. Senão, não tenho interesse em ajudá-la. Por mim, pode passar o restante do ano assim. E nem eu nem Damen levantaremos um dedo para ajudá-la.
Ela respira fundo, depois olha para nós dois, suspirando e balançando a cabeça, dirigindo suas palavras principalmente para Damen quando diz:
— Ela está falando a sério? Isso é verdade?
Damen faz que sim com a cabeça, me envolve com os braços e me puxa para mais perto.
— É, sim. Então é melhor ouvir o que ela está dizendo e anotar se for preciso.
Ela suspira, olhando para a escola que costumava dominar e a qual agora teme. Mesmo estando claro que ela não está nem perto de mudar, que só está aceitando isso porque chegou ao fundo do poço e não tem mais nada a perder, nenhum lugar para ir além de afundar ainda mais, já é um começo.
Já é o suficiente para mim.
Então lhe dou mais um momento para absorver tudo aquilo, esperando até que ela se vira e concorda, mexendo a cabeça. Depois digo:
— Certo, então é aqui que você começa.
Por mim ela teria começado bem ali, naquela hora.
E Damen e eu a teríamos visto ir até Honor e colocar o plano em ação.
Mas Stacia precisava de mais tempo.
Tempo para refletir, acostumar-se com a ideia. Mesmo querendo voltar ao topo, estava tão pouco acostumada à necessidade de se desculpar que precisou ser convencida, além de ter que receber a orientação para encontrar as palavras certas.
Ainda assim, por mais que eu a tenha pressionado, por mais que tenha tentado convencê-la de que era o certo a fazer, no fundo não esperava que funcionasse — pelo menos não de pronto. Estava mais interessada em que se acostumasse coma ideia de ser uma pessoa melhor e, para ser totalmente sincera, também devo dizer que queria que não restassem dúvidas de que estava falando a sério.
Minha ajuda vinha com algumas condições. E se ela quisesse, bem, teria que merecer.
Eu não seria enganada novamente.
Então, na hora do almoço, quando Haven e seus seguidores saem da aula e veem sua mesa ocupada por mim, Damen, Miles e Stacia... Bem, eles não sabem o que pensar.
E fica claro que Haven também não sabe muito bem o que pensar a meu respeito.
E nem Honor, por sinal.
Elas apenas param atabalhoadas e observam, sem acreditar, quando Craig e seus amigos lentamente vêm em nossa direção, ocupando os assentos que Damen acaba de lhes oferecer.
Reconhecem o gesto com um “Oi” e um aceno de cabeça, o que parece simples, mas é definitivamente algo que nunca se deram o trabalho de fazer antes.
Enquanto Haven continua ali parada, com as mãos tremendo de fúria, os olhos semicerrados e vermelhos, eu finjo não notar. Olho através da nuvem de ódio que emana dela e digo:
— É bem-vinda a se juntar a nós se quiser, contanto que se comporte.
Ela revira os olhos, murmura algumas obscenidades e começa a se virar, certa de que seu grupo de seguidores a acompanhará, mas seu poder sobre eles não é mais o mesmo. Está em queda. E, para ser sincera, está claro que todos estão ficando meio cansados dela. Quando eles aceitam a oferta de Damen e se juntam a nós, ela se vira para Honor com os olhos em chamas, praticamente desafiando-a a escolher.
Assim que Honor começa a nos dar as costas e caminhar na direção de Haven, Stacia pula de seu lugar e diz:
— Honor, espere... Eu... Eu sinto muito!
As palavras soam tão agudas, tão desconfortáveis, tão estranhas vinda dela que Miles começa a rir e eu preciso apertar seu joelho — com força — para obriga-lo a parar.
Stacia se vira para mim com os olhos semicerrados e as sobrancelhas unidas, como se dissesse: Viu? Eu tentei, mas não funcionou!
Aponto com a cabeça para Honor, ao ver o modo como parou, se virou e inclinou a cabeça com o olhar cheio de dúvidas, vacilando entre duas supostas amigas e sem gostar muito de nenhuma delas.
Ela hesita tanto que Haven sai bufando de raiva. Mesmo tentada a ir atrás dela, a encontrar um meio de acalmá-la, de ajudá-la, de pôr algum juízo em sua cabeça, não o faço. Talvez depois, mas não agora. No momento, preciso ver o que vai acontecer aqui. Cutuco Stacia. Cutuco-a com os olhos, com a mente, jogo minha energia contra ela, estimulo-a a continuar, a não parar agora, mesmo que o terreno pareça assustados e desconhecido.
Logo depois, elas já se foram.
Estão andando lado a lado. Honor grita, cita a longa lista de acusações, todos os bons motivos pelos quais Stacia deveria se desculpar, enquanto Stacia ouve com paciência, exatamente como a orientei.
— Você as está espionando? — pergunta Miles, cutucando-me com o cotovelo e apontando para elas.
— Deveria? — Olho para ele.
— Bem, sim. — Ele estreita os olhos. — E se não for o que está pensando? E se estiverem tramando contra você?
Eu apenas sorrio, vendo a aura se Stacia se modificar, tornando-se um pouco mais vibrante a cada passo. Sei que ela ainda tem um longo caminho a percorrer, que pode nunca chegar ao fim dele, mas continuo certa de que as auras nunca mentem. E a dela indica um começo quase bom.
Tomo um gole de meu elixir, olho para Miles e digo:
— Confiança é uma via de mão dupla. Não foi você que me disse isso?

2 comentários:

  1. É isso ai Ever! Tô gostando mais dela agora!

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  2. Parece que a experiência pois morte fez muito bem a ela!
    Ass: Bina.

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