2 de novembro de 2015

Trinta

— Certo, agora quero que se concentre em alimentar sua energia. Purificar, elevar, acelerar a velocidades cada vez maiores. Acha que pode fazer isso?
Fecho bem os olhos e me concentro. A parte da aceleração é sempre a mais difícil para mim. Lembro-me de quando Jude tentou me ensinar para que eu pudesse ver Riley novamente. Mas não importa o quanto tentasse, minha energia continuava muito estagnada, muito entorpecida, muito confusa, e eu acabava sintonizando com entidades terrenas, e não com aquelas que haviam cruzado para o outro lado, as que eu queria ver.
— A cada inspiração, quero que imagine uma luz branca bonita, curativa, brilhante, enchendo você, começando no alto da cabeça e descendo até os dedos dos pés. Depois, a cada expiração, quero que imagine toda a negatividade que restou, qualquer dúvida, tudo que se associe à expressão “não posso” indo embora para sempre. Encare isso como um trabalho árduo, sujo, e pesado, se quiser. Sempre funciona para mim. — Ela ri. Sua voz é como um sorriso.
Faço que sim com a cabeça, e, como meus olhos estão fechados, só consigo imaginar que as gêmeas estejam concordando também. A relação delas com Ava é praticamente a mesma que têm com Damen - idolatria total e completa e disposição para fazer tudo o que ela diz. E embora não tenham ficado tão animadas com o fato do Livro das sombras ter sido banido de seu plano de estudos, mesmo depois que contei meu próprio caso de magia que deu errado, mostrando como as coisas podem se desviar quando a intenção é um pouco obscura e o bom senso é vencido pela obsessão, não perderam tempo em dizer que elas nunca seriam tão burras quanto eu. Nunca realizariam nenhum tipo de ritual na lua negra. Tentariam manipular apenas matéria, nunca as ações de outro ser humano. Mas Ava foi firme, e é por isso que estamos de volta à purificação da energia e à meditação.
Mesmo seguindo com o plano, imaginando o fluxo de luz branca passando por mim enquanto expulso a crosta negativa que tende a se formar do lado de dentro, mesmo que depois de apenas algumas semanas fazendo isso eu já tenha notado uma tremenda diferença em minha aparência, na maneira como me sinto e, mais importante, no modo como voltei a materializar e me comunicar telepaticamente com Damen, mesmo sabendo que participar dessa meditação em grupo é bom para mim e vai me ajudar a alcançar o destino que quero... Apesar de tudo isso, minha mente não para de pensar no dia anterior, na praia, quando tirei folga do trabalho para ficar com Damen.
Estendemos nossas toalhas lado a lado, tão próximas que as bordas ficaram sobrepostas. Além disso, havia uma pilha de revistas a meu lado, uma prancha de surfe personalizada, recém-materializada, ao lado dele (já que a antiga se partira no infeliz desmoronamento da caverna alguns dias antes), junto com algumas garrafas de elixir gelado e um iPod que passávamos de um para o outro, mas que eu usei na maior parte do tempo. Nós dois determinados a aproveitar o verão que havíamos planejado, mas ainda não tínhamos vivenciado. Nós dois buscando um dia longo e relaxante na praia, como qualquer outro casal.
— Quer surfar? — perguntou ele, levantando-se e pegando a prancha. Mas eu fiz que não com a cabeça. No que diz respeito a surfe, é melhor para todos que eu fique onde estou e assista de longe.
E foi o que eu fiz. Vendo-o caminhar para a água, erguendo os ombros e deslocando o peso para os cotovelos enquanto ele se movia pela areia de forma tão ligeira, fiquei me perguntando se mais alguém estava tão hipnotizado por aquela visão quanto eu.
Meu olhar ainda estava em Damen quando ele jogou a prancha no mar e começou a remar, transformando o que antes eram ondas pequenas em uma sucessão de tubos quase perfeitos. Ignorei com prazer minhas revistas e o iPod para ficar contemplando, até que Stacia apareceu a meu lado, colocou os cabelos longos, com luzes recém-feitas, atrás da orelha, ajeitou a bolsa de marca no ombro, abaixou os óculos de sol e disse:
— Nossa, Ever, que branquela!
Engoli em seco, respirei fundo, pisquei algumas vezes, mas foi só isso. Não demonstrei tê-la escutado. Estava determinada a ignorá-la, a agir como se ela fosse invisível, e me concentrar em Damen.
Ela ficou parada, fazendo um som de reprovação com a boca enquanto me olhava de cara feia, mas não demorou muito para se cansar do jogo e ir embora, arrastando os pés na areia e escolhendo um lugar perto da água, onde eu ainda podia vê-la.
E foi quando me deixei levar. Quando fui contra tudo o que Ava havia me ensinado sobre me fortalecer e não dar ouvidos a Stacia e a todas as outras pessoas como ela, dando preferência à minha própria, e mais positiva, trilha sonora. Foi quando deixei suas palavras se repetirem em minha cabeça, olhei para meu corpo e concordei com ela. Mesmo que alguns minutos antes eu estivesse me sentindo bem em relação à minha aparência, empolgada porque meu corpo enfraquecido e doente já estava mais cheio novamente, não havia como negar o fato de que eu estava branca - ofuscantemente branca -, um branco que definitivamente exigia o uso de óculos escuros e que só podia ser descrito como pálido. E quando se somava isso aos cabelos claros e ao biquíni branco... a verdade é que não era nada bonito. Eu podia perfeitamente ser confundida com um fantasma.
Naquele ponto eu já estava tão arrasada, tão convencida de sua visão negativa a meu respeito, que para me livrar dela precisei de uma longa sessão daquelas respirações purificadoras de que Ava tanto gosta. E ainda assim eu não consegui esquecê-la totalmente e fiquei observando-a cochichar com Honor, rir alto, jogar os cabelos para trás de modo teatral e virar a cabeça de um lado para o outro, observando o tempo todo para ver se alguém a notava, mas sempre voltando a olhar para mim, com um sorrisinho falso, revirando os olhos, balançando a cabeça indignada, praticamente fazendo todo o possível para me mostrar como me achava revoltante. Embora tivesse sido mais fácil sintonizar meu controle remoto quântico e ouvir tudo o que elas estavam ou não dizendo, resolvi parar.
Mesmo tendo ficado tentada, principalmente depois de saber todo o plano de Honor para derrubar Stacia e estrelar seu próprio golpe social no último ano de escola, sem mencionar seu extraordinário, bem, pelo menos segundo Jude, progresso nas aulas de Desenvolvimento Mediúnico nível 1, aprendendo tão rapidamente e com tanta facilidade, dominando tantas técnicas que ele passou a lhe dar aulas particulares. Apesar de tudo isso, não fiz nada. Não escutei a conversa delas às escondidas. Já sei que vou passar por isso muitas vezes quando as aulas voltarem. Em vez disso, mudei o foco para Damen, apreciando como ele se movia na água com tanta graça e elegância. O modo como ele praticamente brilhava ao sol. Uma combinação surpreendente de pele bronzeada, músculos trabalhados e uma beleza de deixar qualquer um de queixo caído quando saiu da água com a prancha debaixo do braço, caminhando em minha direção.
Ele passou imune ao olhar duro e brilhante e ao cumprimento meloso de Stacia, e largou a prancha na areia, deixando cair gotas de água salgada em minha barriga enquanto se inclinava para me beijar, ignorando o olhar atento dela, que nada deixou escapar, e sentou-se a meu lado e beijou-me novamente com o véu de energia entre nós, mantendo-nos a salvo, mas invisível para elas.
Ou pelo menos foi o que pensei, até que levantei a cabeça e percebi como Honor estava olhando para nós, principalmente para ele. Seu olhar me lembrava o de Stacia: prolongado, ansioso, mas também, pelo menos em seu caso, cheio de uma grande dose de percepção e visão.
E quando ela me encarou, vi o sorriso em seus lábios. Um sorriso que apareceu e desapareceu tão rapidamente que cheguei a me perguntar se de fato existira. Depois, fiquei apenas com uma sensação prolongada de terror, virei-me e voltei para Damen...
— Ever? Olá-á! — Ava me chama enquanto Romy ri e Rayne resmunga baixinho. - Ainda está aqui conosco? Ainda está fazendo suas respirações purificadoras?
E, de uma hora para outra, minha lembrança da praia se desfaz e volto à casa de Ava.
Balanço a cabeça e meu olhar encontra o dela enquanto digo:
— Hum... não, eu me distraí um pouco.
Mas Ava mexe os ombros, ela é uma daquelas professoras boazinhas, não há demérito em suas aulas.
— Acontece — diz ela. — Podemos ajudar?
Olho para Romy e Rayne, balanço a cabeça e digo: — Não. Está tudo bem.
Observo enquanto ela levanta as mãos sobre a cabeça, alongando-se de um lado para o outro, lenta e languidamente, e depois olha para mim e pergunta: — O que acha? Quer tentar?
Aperto os lábios e dou de ombros. Não sei bem no que vai dar, mas estou pronta para fazer uma tentativa.
— Que bom. Acho que já é hora. — Ela sorri. — Quer companhia ou prefere ir sozinha?
Olho para as gêmeas, vendo o modo como olham para os pés, para os quadros na parede, para a barra de seus vestidos, para tudo, menos para mim. As últimas tentativas de levá-las para Summerland deram errado e, sem querer correr o risco de deixá-las mal novamente, digo:
— Hum, acho que vou sozinha, se estiver tudo bem para vocês.
Ava olha em meus olhos, fixando-se neles por um instante antes de juntar as palmas das mãos, abaixar a cabeça e dizer:
— Faça uma boa viagem, Ever. Boa sorte.
Suas palavras ainda ecoam em minha cabeça enquanto atravesso o grande campo perfumado e caio bem em frente aos Grandes Salões do Conhecimento. Limpo-me ao ficar de pé, sentindo-me pronta, purificada, total e completamente inteira de novo, esperando que o responsável por permitir as entradas concorde comigo.
Espero que a fachada mutável fique visível para mim, subo as escadas, sem querer perder um segundo, sem querer deixar tempo para dúvida. Olho para a grandiosa construção diante de mim, as colunas imponentes, o grande teto inclinado, e respiro aliviada quando começa a piscar e mudar. Transformando-se em todas as maiores belezas do mundo, nos lugares sagrados, enquanto a porta se abre diante de mim.
Estou dentro! Estou de volta.
Sigo pelo piso de mármore brilhante, passo pela longa fileira de mesas e bancos em que várias pessoas buscam alento espiritual. Cada uma delas com suas placas de cristal, cada uma delas procurando respostas. De repente, percebo que não sou muito diferente delas, estamos todos aqui pelos mesmos motivos: estamos todos em algum tipo de busca.
Então fecho os olhos e penso:
“Primeiro, obrigada por me dar uma segunda chance e permitir que eu entre aqui novamente. Sei que fiz umas bobagens e saí um pouco dos eixos, mas agora que aprendi algumas lições prometo que não vou estragar tudo novamente, pelo menos não do mesmo jeito. A verdade é que minha busca não mudou. Ainda preciso pegar o antídoto com Roman para que Damen e eu possamos... Bem... Ficar juntos E já que Roman é a chave, o único que tem acesso ao antídoto, preciso saber como lidar com ele, como me aproximar dele de um modo que consiga o que preciso mas sem... sem manipulá-lo ou... fazer feitiços, ou me deixar enganar daquele jeito de novo. Então, acho que o que estou tentando dizer é que preciso saber como abordá-lo. Não sei muito bem como agir agora, e se puder me ajudar com isso, dar algum tipo de dica, mostrar o que acha que eu preciso saber para lidar com ele da maneira certa... bem, eu ficarei muito agradecida.”
Respiro fundo e fico parada, ciente de um zumbido distante que sibila à minha volta, e quando abro os olhos vejo que estou em um salão. Não o mesmo de antes, com o corredor infinito e as inscrições hieroglíficas na parede; este salão é mais largo e menos comprido, mais como um corredor que leva às fileiras de assentos em um estádio fechado ou em uma casa de shows. Quando chego lá, quando chego à outra extremidade, vejo que estou em um estádio, tipo um coliseu, só que particular. Há apenas um assento, e está reservado para mim.
Eu me acomodo, desdobro o cobertor que está a meu lado e o coloco no colo. Olho para as paredes, as colunas... tudo parece velho, rachado, como se fosse construído há muito tempo, na Antiguidade. Fico imaginando se devo fazer alguma coisa, dar o primeiro passo, quando um holograma colorido aparece bem diante de mim.
Eu me inclino naquela direção, olhando com os olhos semicerrados para a visão quase alucinatória de uma família. A mãe está pálida, febril, deitada de costas, sentindo muita dor, gritando de agonia, implorando para Deus levá-la, sem nem mesmo ter a chance de segurar o filho que nasceu um pouco antes de seu desejo ser atendido. Ela dá um último suspiro e se vai. Sua alma ascende enquanto o bebê, o pequeno recém-nascido, é limpo, envolvido em um pano e entregue a um pai muito ocupado, chorando por sua mulher morta, para lhe dar qualquer atenção.
Um pai que nunca para de chorar pela esposa e que culpa o filho por sua perda.
Um pai que recorre à bebida para anestesiar a dor, e depois à violência, quando a bebida não funciona.
Um pai que bate no pobre filho desde que ele começa a engatinhar até o dia em que, em um estupor bêbado, começa uma briga com alguém muito maior e mais forte, uma briga que não pode vencer. Seu corpo surrado e ensanguentado é deixado em uma viela, sem chance de restabelecer, mas ainda dando os últimos suspiros, quando o doce alívio que ele buscou o tempo todo finalmente chega. Ele deixa para trás uma criança faminta e abandonada, que logo passa à guarda da Igreja.
Uma criança com pele morena, grandes olhos azuis e cachos dourados que só podem pertencer a Roman.
Só podem pertencer a meu rival, meu inimigo, meu eterno antagonista, a quem não posso mais odiar. De quem apenas sinto pena depois de ver a maneira como ele, mais novo que os outros e pequeno para sua idade, luta para se encaixar, para agradar, para ser notado e amado, mas apenas passa de filho negligenciado, ignorado e maltratado a empregado de alguém, a flagelado favorito de alguém.
E mesmo quando Damen prepara o elixir e manda todos beberem, para que não sejam levados pela peste negra, Roman é o último a ser servido. Estava sendo completamente ignorado até que Drina chamou a atenção para ele, insistindo que as últimas gotas fossem dadas ao menino.
Embora me obrigue a ficar até o final, assistindo a centenas de anos de seu ressentimento cada vez maior em relação à Damen, centenas de anos de amor a Drina sendo negado várias vezes, centenas de anos de Roman ficando tão forte e tão perfeito a ponto de ter qualquer coisa ou pessoa que quisesse, menos aquela que queria mais - aquela que roubei dele para sempre - mesmo assistindo a tudo isso, eu não precisava.
A fera nasceu há seiscentos anos, quando o pai o espancou, quando Damen o negligenciou, quando Drina foi gentil com ele. Certamente ele poderia ter vivido de outra forma, feito escolhas melhores, se pelo menos alguém tivesse lhe mostrado o caminho. Mas ninguém pode dar o que não tem.
Quando o holograma termina, quando as imagens desaparecem e as luzes se apagam, sei o que fazer. Mesmo sem me dizerem, sei exatamente como proceder.
Então eu me levanto do assento, agradeço em silêncio e retorno ao plano terreno.

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