3 de novembro de 2015

Trinta e um

Como em um sonho em que caímos sem parar, porque não há onde se agarrar e você perde todo o controle do próprio corpo: essa é a sensação exata.
Só que, quando tenho um desses sonhos, meu corpo acaba me acordando antes que qualquer desastre aconteça.
Mas desta vez já estou acordada. E, pelo que posso ver, o desastre está acontecendo agora e está prestes a piorar.
Meu cabelo levanta, agitando-se sobre minha cabeça, enquanto as pernas chutam furiosamente na tentativa de diminuir a velocidade, de me desacelerar, mas não adianta. O esforço é tão inútil quanto meus braços, que continuam a se debater, procurando algo em que agarrar, mas apenas confirmando que Rafe estava certo.
Não há nada que me salve.
Nada que me detenha.
O despenhadeiro é uma queda violenta rumo ao vazio.
Quanto mais caio, mais escuro fica, até que já não vejo nada diante de mim, já não vejo nada abaixo de mim, já não vejo aonde estou indo.
Só sei que a queda parece ficar mais rápida, ganhando velocidade, enquanto sigo na direção de um fim que não existe. A terrível verdade de minha existência, a ironia absoluta de tudo isso é que, se eu não encontrar um jeito de parar, passarei o restante da eternidade assim.
Não posso morrer — meus chacras são tão fortes que não permitiriam.
E os machucados que eu sofrer não irão se curar — esta parte de Summerland não permite esse tipo de coisa.
São dois pensamentos horríveis que acho avassaladores demais para considerar.
Então não os considero.
Opto por focar a mente em outro lugar.
Repasso a longa lista de coisas que aprendi no último ano — desde o dia em que morri no acidente de carro que levou minha família toda até esta fenda infinita em que me encontro agora. Relembro o que Lótus disse sobre o conhecimento aparecer quando mais precisamos dele e espero que o conhecimento que acumulei me ajude a encontrar uma saída.
perdão cura... Tudo é energia... Pensamentos criam... Estamos todos conectados... Quando se resiste, a situação persiste... amor verdadeiro nunca morre... A imortalidade da alma é a única imortalidade real...
Repito essas palavras várias vezes, até que se tornem um tipo de mantra, até que comecem a tomar forma, a se consolidar.
Até que minha respiração comece a se estabilizar, meu corpo comece a se acalmar e meu coração seja capaz de descarregar o fardo do medo.
perdão cura ... Envio um pensamento silencioso de perdão a Misa, Marco e Rafe por serem tão desamparados e cheios de desconfiança a ponto de sequer tentarem agir diferente.
Quando se resiste, a situação persiste... Paro de resistir ao fato de que estou caindo e começo a me concentrar na solução.
Pensamentos criam... Mesmo quando a materialização instantânea não funciona, nossos pensamentos ainda criam por nós.
Solto a mochila de um dos ombros, escorrego-a para a frente do corpo, abro o zíper e enfio a mão lá dentro. Pego o casaco leve que havia materializado antes — aquele que passou comigo por uma série de estações, protegendo-me do calor, da chuva, do vento e da neve — e solto a mochila. Seguro o casaco pelas mangas e ergo os braços acima da cabeça, usando-o para cortar o vento e direcionar minha trajetória, enquanto inclino o corpo na direção que espero ser a lateral do penhasco. Sei que consegui quando fico momentaneamente aturdida pelo impacto repentino de meu corpo contra uma camada de pedras pontiagudas. Minha carne é cortada e arranhada, enquanto as pontas afiadas da rocha rasgam minhas roupas, ralando pequenos pedaços de mim, e meu corpo continua a cair.
Meus olhos queimam de agonia e meus dentes rangem com a dor excruciante de ser esfolada. Asseguro a mim mesma que não vou curar agora, mas que, em algum momento, ficarei bem. Assim que eu conseguir encontrar uma saliência rochosa, algo a que me agarrar, algo para interromper a queda Assim que eu conseguir chegar ao fruto e voltar à parte boa de Summerland.
Meu corpo é um tobogã de sangue, carne e osso que continua a se chocar desfiladeiro abaixo, e quando estou certa de que não posso aguentar nem mais um segundo, algo me acerta. Algo que se projeta contra meus pés, golpeia meu joelho e me dá uma pancada tão forte no estômago que me rouba o ar antes de furar meu pescoço — algo que, no último instante, eu alcanço e seguro, impedindo que me decapite.
Sei que é minha única chance, que não posso segurar meu paraquedas improvisado e me agarrar nesta saliência estranha ao mesmo tempo, então fecho os olhos e solto.
Meu casaco é levado instantaneamente pela corrente de ar, minhas mãos pegam algo no escuro e eu coloco toda a fé que tenho nesta saliência curiosa e pontuda que sequer consigo enxergar.
Meus dedos se enroscam, agarrando com toda a força que conseguem. As palmas das mãos esfolando-se enquanto meu peso me faz deslizar.
Para baixo.
Mais baixo ainda.
Tão baixo e tão rápido que só rezo para que termine logo. Sei que se soltar estarei de volta onde comecei: em queda livre no vazio e na escuridão, só que dessa vez sem a mochila, sem qualquer ferramenta para me ajudar. Enquanto faço o que posso para afastar esses pensamentos da cabeça, lanço o corpo para cima de repente, e me dou conta de que estou pendurada no final dessa estranha formação.
Suspensa no ar, as pernas balançando descontroladamente, agarro com ainda mais força, tentando mudar de posição, usando os joelhos em carne viva para subir nessa coisa desconhecida.
Começo devagar. Bem, bem devagar. Lembro quando tive que escalar uma corda na aula de educação física do primeiro ano. Quando ainda era apenas mais uma mortal. Quando, além de ser líder de torcida, eu não era capaz de nenhuma proeza atlética. Cada centímetro parece uma lição de como superar uma dor insuportável, de fé em algo que não sou capaz de ver. Meu progresso é medido em centímetros, não em metros, até que finalmente me arrasto perto o suficiente do topo a ponto de ser recompensada com um pouco de luz — apenas o suficiente para revelar o que me salvou.
É uma raiz.
A raiz longa e esguia de uma árvore.
A raiz longa e esguia que pertence à árvore, a que venho procurando. Sei disso instintivamente.
A Árvore da Vida me salvou.

2 comentários:

  1. Uouuu, já tava aflita pra saber o que ia acontecer!!

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