2 de novembro de 2015

Trinta e um

Por mais que todos os sinais indiquem que isso vai se transformar em uma situação insanamente desconfortável, Damen ainda insiste em ir até a Mística e Raio de Luar. E desta vez, pouco antes de descermos do carro e entrarmos, sou eu que questiono se ele quer mesmo ir em frente com aquilo.
Ele apenas olha para mim e diz:
— Ever, faz quatrocentos anos que cercamos um ao outro. Não acha que finalmente chegou a hora de um cessar-fogo?
Faço que sim com a cabeça, sem duvidar por um minuto sequer disso, mas não acredito muito que Jude vá concordar. É mais fácil enxergar as coisas de forma lógica e racional quando se está no time vencedor.
Ele mantém a porta aberta para que eu passe. Vejo alguns poucos clientes assíduos pela loja — a mulher que coleciona estatuetas de anjos, o cara que vive nos perturbando para colocar uma máquina de fotografar auras, embora, pelo que tenha visto dele, vá se decepcionar com os resultados, e a mulher mais velha cercada por um belo brilho de púrpura, que, no momento, Ava ajuda a encontrar CDs de meditação — enquanto Jude está sentado atrás do balcão, sorvendo seu café. Sua aura vibra no momento em que ele nos vê, principalmente Damen, mas não demora muito para que se acalme, o que me faz respiras aliviada. Sei que é apenas uma reação automática muito antiga, do tipo que leva algum tempo para se abandonar por completo, mas que algum dia, se o que Damen pretende fazer der certo, vai acabar.
Ele caminha na minha frente, ansioso para começar. Vai direto ao balcão com um sorriso preparado e um suave “ Oi”. Jude toma outro gole de café e só acena com a cabeça em resposta. Alterna o olhar entre nós dois, apreensivo e inseguro, e realmente espero que não pense que viemos aqui para contar vantagem.
— Estava pensando que talvez pudéssemos conversar. — Damen aponta com a cabeça para os fundos da loja. — Em particular, sabe?
Jude hesita por um instante, sorvendo uma série de goles lentos, contemplativos. Depois deixa a xícara de lado e nos acompanha até o escritório. Ele se ajeita atrás da velha escrivaninha de madeira enquanto Damen e eu nos sentamos do outro lado.
Observo Damen se inclinando para a frente, com o olhar decidido, a expressão séria, determinado a ir direto ao ponto, diz:
— Acho que deve me odiar de verdade agora.
Se Jude fica surpreso com essas palavras, não demonstra. Apenas balança os ombros, se recosta em sua cadeira e apoia as mãos na barriga, com os dedos abertos sobre a mandala colorida em sua camisa branca.
— E não o culpo por isso. — diz Damen, com os olhos firmes, focalizados em Jude. — Porque sem dúvida cometi minha cota de atos odioso nos últimos... — Ele olha brevemente de relance para mim, ainda desacostumado ao dizer em voz alta, embora ultimamente faça isso cada vez mais. — Nos últimos seiscentos e poucos anos. — Suspira.
Ambos vemos Jude empurrar o encosto de sua cadeira o máximo possível para trás, olhar um instante para o teto, unindo as pontas dos dedos, até que a cadeira não aguenta e ele volta para a frente e, olhando fixamente nos olhos de Damen, diz:
— Cara, sério, qual é?
Damen estreita os olhos e eu me movo com certo desconforto na cadeira. Isso foi uma má ideia. Nunca deveríamos ter vindo aqui assim.
Mas Jude se inclina para a frente, escorrega os cotovelos pela mesa, tira seus dreadlocks do rosto e continua:
— É sério, como é isso?
Damen balança a cabeça, emite um som que é algo entre um rosnado e uma risada e de repente relaxa. A tensão desaparece de seu rosto e ele se acomoda na cadeira, cruza a perna sobre o joelho e, batendo o chinelo para a frente e para trás contra o calcanhar, dá de ombros e diz:
— Bem, acho que posso dizer que tem sido... — Faz uma pausa, procurando a palavra certa. — Longo. — Ele ri, enrugando o canto dos olhos. — Tem sido... muito, muito longo, na verdade.
Jude olha para ele, fazendo um gesto afirmativo com a cabeça de um modo que indica que quer ouvir mais a respeito, e Damen atende. Segurando a bainha desfiada se seu velho jeans desbotado, continua:
— E, para ser sincero, às vezes é meio cansativo. E às vezes parece muito frustrante, principalmente quando sou forçado a observar os mesmos velhos erros sendo cometidos repetidas vezes, com as mesmas desculpas torpes para justificá-los. — Ele balança a cabeça, perdido em uma torrente de lembranças sobre as quais a maioria das pessoas só poderia aprender em livros de história. Sua expressão imediatamente se transforma e se ilumina quando ele sorri e diz: — E só estou falando dos erros que eu cometi. — Ele olha nos olhos de Jude. — Mas também há momentos de beleza e alegria extremas que, bem, fazem tudo valer a pena, sabe?
Jude faz que sim com a cabeça, mais em sinal de contemplação que de concordância, como se ainda estivesse assimilando, refletindo sobre o que foi dito, embora isso seja o suficiente para levar Damen a dizer:
— Por quê, está interessado? Quer experimentar?
Jude e eu olhamos para ele, surpresos, incapazes de saber se está falando a sério.
— Porque posso arranjar para você. Conheço um cara...
E só quando seus lábios formam um sorriso percebo que está brincando e recosto na cadeira, aliviada.
— Mas é o seguinte — Damen diz, voltando a falar seriamente. — No final das contas, é tudo praticamente a mesma coisa. Posso viver por séculos, você pode viver por quase um século, mas nos dois sempre nos descobriremos preocupados com o quer que esteja bem na nossa frente... ou, mais frequentemente, com o que quer que pareça estar fora do nosso alcance.
Mas Jude só fica ali sentado, remexendo em um clipe de papel que encontrou na escrivaninha, retorcendo-o, dobrando-o e remodelando-o até que esteja totalmente irreconhecível.
Ele finalmente olha para a frente e diz:
— Entendo.
Ele olha para nós, principalmente para mim, até que levanto a cabeça e encaro.
— Entendo mesmo. — Seu rosto é tão sincero que não tenho dúvida de que fala a verdade. — Mas se veio aqui para se desculpar ou tentar consertar o que fez ou... seja o que for... é melhor esquecer.
Prendo a respiração, enquanto Damen permanece impassível, esperando que ele continue.
— Isto é, não vou mentir. Acho tudo isso uma droga. — Ele tenta rir, mas não tem muito sucesso. Não está a fim. — Mas, mesmo assim, eu entendo, de verdade. Sei que não é apenas questão de jogar limpo ou não. Sei que não tem a ver com sua imensa fortuna e seus truques de mágica. E também sei que provavelmente fui muito injusto ao fingir que era assim. Porque o negócio é que Ever não é tão superficial. Nem Evaline era, nem nenhuma outra.
Ele me encara. Seu olhar está tão cheio de calor, amor e bondade que é impossível desviar dele.
— A única razão de eu nunca ter tido uma chance com ela é porque não era nosso destino. Vocês dois foram feitos para ficar juntos.
Solto o ar lentamente, meus ombros encolhem, o estômago para de se revirar, me livro da tensão que nem sabia que sentia até agora.
— E o incêndio... — Damen começa, desesperado para explicar isso também.
Mas Jude dispensa a explicação, fazendo um sinal com as mãos.
— Também sei sobre isso, graças a Summerland e aos Grandes Salões do Conhecimento. — Ele dá de ombros. — Tenho passado muito tempo lá, talvez tempo demais, ou pelo menos é o que Ava acha. Mas às vezes, bem, pelo menos ultimamente, prefiro estar lá a ficar aqui. Acho que é por isso que estou tão fascinado por usa vida superlonga. Quer dizer... não sei como aguenta, quando definitivamente há momentos em que a duração de uma vida normal já parece mais que suficiente, entende?
Damen concorda. Diz a Jude que certamente entende, entende muito bem. E então conta a história de sua primeira viagem a Summerland, na época em que estava perdido e solitário, em busca de algum propósito mais profundo, e acabou indo estudar na Índia, ao lado dos Beatles.
E, como já ouvi essa história, tipo, milhares de vezes, discretamente me levanto, saio e volto para a loja, curiosa por ver o que Ava está fazendo.
Encontro-a num canto, reabastecendo uma prateleira cheia de cristais.
Ela se vira para mim e diz:
— Tudo bem quando termina bem, certo?
Dou de ombros, sem ter ideia do que ela está falando.
— Sua escolha. — ela sorri, voltando-se para a prateleira. — Deve ser bom ter resolvido tudo isso, não?
Suspiro. Porque ao mesmo tempo em que não há duvida de que foi bom deixar isso para trás, o negócio com os problemas é que o estoque deles nunca acaba. Logo que resolvemos um, outro ocupa seu lugar.
Ela enfia a mão em uma sacola de cristais de quartzo rosa, o cristal do amor, e, balançando uma grande pilha da mão, olha para mim de relance e diz:
Mas... — E propositalmente arrasta a palavra o máximo de tempo que consegue.
Mas... — Dou de ombros e, com a mão estendida para frente, pego uma pedra que está caindo e a devolvo a Ava. — Ainda há Haven, que está cada vez mais fora de controle, e então, é claro, também há o antídoto e o fato de que Damen e eu não podemos nos tocar de verdade... — Não fora do pavilhão, pelo menos, mas não pretendo inteirá-la desse assunto. — E também há...
Ela olha para mim com a sobrancelha arqueada, esperando pacientemente enquanto reflito se devo ou não confiar nela e contar sobre o lado negro de Summerland que descobri e sobre a velha estranha, aparentemente maluca, com a qual Damen e eu cruzamos.
Mas algo me impede de fazê-lo. Algo me diz para não tocar nesse assunto. Pelo menos não agora. Não até que eu tenha a chance de fazer uma investigação mais profunda.
Então respiro fundo, pego um pedaço de ametista da prateleira e, examinando todos os seus lados cuidadosamente, digo:
— Bem, você sabe, todo aquele drama com Sabine ainda persiste. — Balanço a cabeça, devolvo a pedra a seu lugar, sabendo que, se aquilo não é exatamente mentira, também não é exatamente verdade. Isso não me perturba tanto quanto costumava. Infelizmente, estou me acostumando a viver desse jeito.
— Quer que eu converse com ela? — ela sugere, mas eu rapidamente descarto a ideia.
— Acredite, não vai funcionar. A cabeça dela está feita, e tenho a sensação de que só o tempo poderá mudar isso.
Ela concorda, limpando a mão na frente de seu jeans enquanto volta a inspecionar a prateleira. Com a cabeça inclinada para o lado, torcendo a boca, ela troca a lágrima-de-apache de lugar com o quartzo-fantasma, e então sorri em aprovação.
Quando olho para ela, quando olho de verdade para ela, não consigo evitar me perguntar o motivo de Ava estar sempre sozinha. Quer dizer, ela tem as gêmeas para cuidar, então acho que não está sozinha, sozinha, mas, ainda assim, está solteira desde que a conheço e, até onde sei, não teve nem um só encontro.
Antes que consiga parar de pensar nisso, digo:
— Acha que todo mundo tem uma alma gêmea?
Ela se vira e me encara com uma expressão séria.
— Quer dizer... acredita que todos têm aquela pessoa com quem estão destinados a ficar, como Damen e eu?
Ava fica em silêncio por algum tempo, como se estivesse mesmo parando para refletir. E quando já estou certa de que não vai responder, ela faz algo que eu definitivamente não esperava: solta uma gargalhada.
Com o rosto todo sorridente, os olhos brilhantes, ela olha para mim e diz:
— Por quê? Com quem está mais preocupada aqui, Ever, com Jude ou comigo?
Fico vermelha. Não havia percebido que fora tão óbvia, mas, considerando que ela é uma médium tão talentosa, deveria ter adivinhado que não se deixaria enganar por mim.
— Bem, com ambos. — E dou um sorrisinho.
Observo enquanto ela volta a trabalhar: dobra as sacolas agora vazias, empilha-as umas sobre as outras e depois dobra todas ao meio e enfia em uma sacola maior. Com a voz suave, quase imperceptível, ela diz:
— Bem, para ficar registrado, sim, acredito nisso. Mas se somos ou não capazes de reconhecer essa pessoa e fazer algo a respeito, aí é outra história.

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