2 de novembro de 2015

Trinta e um

Quando paro na entrada e estaciono, admito sentir uma apreensão rápida, porém intensa. Minha mente gira, cheia de perguntas: Eu deveria mesmo fazer isso? Será que terei chance de fazer isso? Ela me expulsará logo, como fez com o visual emo do ano passado?
Percebo que nunca saberei se não tentar, então aguardo um momento para me acalmar, me concentrar, reunir forças lá de dentro e me encher daquela luz brilhante, radiante, curativa, como Ava me ensinou. Passo a mão no amuleto sob o vestido apenas para ter certeza, desço do carro e sigo para a porta. Nem sei se ela ainda mora aqui, agora que está poderosa, ilimitada, com o mundo todo a seus pés, mas imagino que seja o melhor lugar para começar.
— Oi. — Sorrio, tentando olhar por cima do ombro da empregada, aliviada em ver que, daqui, tudo parece igual, o que significa que está em seu estado normal de caos e desordem. — Haven está? — continuo, com a voz esperançosa, ansiosa para que ela diga sim.
Ela confirma com a cabeça, abre mais a porta e aponta para o quarto de Haven enquanto subo as escadas, seguindo a direção de seus dedos e sem me dar tempo para mudar de ideia. Paro na frente do quarto e bato duas vezes.
— Quem é? — ela grita, claramente irritada, como se a última coisa que quisesse fosse uma visita. E quando digo que sou eu, bem, imagine a reação. — Ora, ora — ela ronrona, abrindo apenas uma fresta da porta para confirmar, olhando-me de cima a baixo, sem me de— Bem, na verdade eu ia dizer seduzir meu namorado, mas, é, pensando bem o único contato físico que teve foi comigo. Ela sorri, mas não de um jeito bom e alegre, não, não, longe disso. — E então, Ever, o que traz você aqui? Veio terminar o serviço?
Olho para ela, mantendo o olhar o mais aberto, sincero e direto que posso, e digo:
— Não, nada disso. Na verdade vim aqui com a esperança de colocar um ponto final nisso tudo... explicar e pedir uma trégua. — Contraio-me ao usar essa palavra, lembrando a última vez que a usei com Roman e como as coisas não acabaram muito bem.
— Uma trégua? — Ela levanta a sobrancelha e inclina a cabeça. — Você? Ever Bloom? A menina que fingiu ser minha melhor amiga, roubou o cara por quem eu tinha uma queda bem debaixo de meu nariz... hum, lembra o Damen? — ela diz, balançando a cabeça em resposta à minha expressão confusa. — Se não lembra, eu falei que estava a fim dele bem antes de você, mas mesmo assim foi lá e o tirou de mim, tudo bem, que seja, no final deu tudo certo, acho, mas mesmo assim. E então, mesmo depois disso tudo, mesmo aparentemente tendo tudo o que uma pessoa pode querer, parece que não é o suficiente para você, então decide ir atrás de Roman também, porque só um imortal gostoso não é o bastante. Ah, e você é tão obcecada em sua busca que decide tentar me matar se isso for necessário para conseguir ficar com ele. Mas agora, de repente, mudou drasticamente de ideia e aparece em minha porta pedindo uma trégua. É isso mesmo? É isso que está realmente acontecendo aqui?
Faço que sim com a cabeça.
— Basicamente, mas há muito mais do que isso, algo de que precisa saber. A verdade é que tentei enfeitiçar Roman, com um feitiço que o faria ficar amarrado a mim e me dar o que quero. Só que o tiro saiu pela culatra, e eu acabei me amarrando a ele de um modo que... bem, de um modo que ainda não entendo totalmente. — Torço o nariz e balanço a cabeça só de lembrar. — Mas foi só por isso que agi assim. Eu juro. A magia assumiu o controle, e eu não estava em meu juízo perfeito. Não era bem eu que estava fazendo aquelas coisas, pelo menos não totalmente. - Balanço a cabeça. - Sei que parece loucura, e não é tão fácil explicar, mas é como se eu tivesse sido obrigada por uma força externa a mim. - Olho para ela, querendo que acredite. - Eu não estava no comando.
Ela olha para mim com a cabeça inclinada, apenas uma sobrancelha levantada.
— Um feitiço? Espera mesmo que eu acredite nisso?
Faço que sim com a cabeça, olhando atentamente em seus olhos. Quero confessar toda a história sórdida, o que for preciso para que ela confie em mim de novo. Mas não aqui. Não no corredor.
— Ouça, acha que eu poderia... ? — Aponto para dentro do quarto.
Ela franze a testa, os olhos são duas frestas, e pensa por um minuto. Abre a porta apenas o suficiente para eu poder me espremer para entrar e diz:
— Já vou avisando que se fizer alguma coisa que não me agrade, Deus me ajude, porque vou acabar com você tão rápido que nem vai saber o que a acertou...
— Relaxe — digo, jogando-me em sua cama como nos velhos tempos, só que não é como nos velhos tempos, nem perto. — Não estou me sentindo violenta hoje, garanto. Na verdade, não vou mais me tornar violenta basicamente todos os dias a partir de agora, e não tenho intenção de perseguir você, de modo algum. Tudo que eu quero é paz, e nossa amizade de volta. Mas, se isso não for possível, posso me conformar com uma trégua.
Ela se apoia na cômoda, braços cruzados sobre o espartilho de couro preto apertado que veste sobre um vestido rendado de época.
— Sinto muito, Ever, mas depois de tudo que passamos não é assim tão fácil. Não tenho motivo algum para confiar em você, e vou precisar de um pouco mais de garantia do que isso.
Respiro fundo e passo a mão em sua antiga colcha florida, surpresa por ela não tê-la trocado ainda.
— Acredite — digo, olhando para ela , — eu entendo, entendo de verdade. Mas, Haven. — Faço uma pausa, balanço a cabeça e começo de novo: — A verdade é que não suporto o que aconteceu com a gente. Sinto sua falta. Sinto falta da nossa amizade. E odeio saber que, em parte, a culpa é minha.
— Em parte? — ela grita, revirando os olhos e balançando a cabeça. -Lamento dizer, mas não acha que essa afirmação poderia ser um pouco mais precisa se admitisse que foi tudo culpa sua?
Olho para ela, diretamente em seus olhos, e digo:
— Certo, admito a maior parte, mas certamente não tudo. Haven, a questão é... mesmo não gostando de Roman, e, acredite, tenho meus motivos, entendo que ele seja seu namorado, e entendo que não importa o que eu disser sobre ele, não posso fazer você mudar de ideia, então, nem vou tentar. E sei que pode achar difícil acreditar, principalmente depois do que viu naquela noite... Mas acontece que, bem, como eu disse antes, não era exatamente eu.
— Ah, claro... Era o importuno feitiço do mal. — Ela balança a cabeça e revira os olhos, mas não a deixo me interromper.
— Ouça, sei que não acredita em mim e que devo estar parecendo maluca agora, mas acho que, considerando as circunstâncias, você deveria saber que as coisas mais loucas muitas vezes são verdade.
Ela olha para mim com a boca torcida para o lado, um sinal claro de que não está descartando, de que na verdade está levando minhas palavras em consideração.
— Estamos do mesmo lado, você e eu... E espero que com o tempo perceba isso também. Acredite... Não estou tentando atrapalhar sua felicidade. E nunca tentaria roubar ninguém de você... Apesar do que possa ter parecido. Eu só... Bem, só espero que ainda exista algum jeito de sermos amigas novamente, um jeito de consertar nossa amizade, apesar de tudo o que aconteceu. Quer dizer... Sei que não será como antes. Nem espero que seja, depois de do o que passamos, e sei que está bastante ocupada com o trabalho, saindo com aqueles... Hum, outros imortais... — digo, esquecendo temporariamente os nomes deles.
— Rafe, Misa e Marco — ela murmura, claramente irritada.
— Isso, eles. Mesmo assim. As aulas vão começar em algumas semanas, e Miles logo estará de volta, e pensei que talvez, bem, não todos os dias, se você não quiser, mas talvez de vez em quando poderíamos nos sentar juntas na hora almoço. Sabe? Como fazíamos antes.
— Então é uma trégua para a hora do almoço? — ela pergunta. Seus olhos são uma carapaça multicolorida, firmemente fixos nos meus.
— Não - balanço a cabeça. — É uma trégua para todas as horas. Só estou esperando que se estenda a um almoço ou outro também.
Ela franze a testa, cutucando as cutículas, que eu sei que não estão irregulares, já que os imortais não têm pedaços de pele solta. Também sei que é uma desculpa para me evitar, evitar meu olhar, fazer com que eu pense e espere enquanto ela reflete sobre minhas palavras.
— Nunca mais vai ser como antes — ela diz finalmente, levantando os olhos. — E não só por causa de tudo o que aconteceu com Roman, o que foi um grande erro, por sinal. Mas o verdadeiro motivo de não podermos voltar é o fato de que eu estou diferente agora... E acontece que eu gosto de estar diferente. Não quero voltar a ser como antes. Nunca mais quero ser aquela fracassada triste e patética.
— Você nunca foi patética, nem fracassada... Apenas um pouco triste algumas vezes — digo, mas ela ignora.
— Além disso, tanta coisa mudou... Talvez até demais... Que não sei se vou conseguir superar.
Faço um gesto positivo com a cabeça. Também percebi isso, mas ainda espero que ela supere.
— E, sim, Misa, Rafe e Marco são legais e tudo, não me entenda mal, mas, além da imortalidade e de trabalharmos na loja, na verdade não temos muito em comum, sabe? Temos históricos totalmente diferentes, referências totalmente diferentes, eles nunca ouviram falar da maioria das minhas bandas favoritas, o que me incomoda um pouco.
Dou de ombros e reconheço com a cabeça, entendendo completamente. — E mesmo que nunca tenha me sentido como você e que também não tivéssemos tanto em comum, sempre senti que você me entendia, sabe? Como se talvez não pudesse se identificar exatamente, mas ainda assim me aceitasse, não me julgasse e, bem, isso significava muito... Ou significava algo, não importa.
Aperto os lábios e espero pelo restante, sei que ela ainda não terminou.
— Está bem, eu também senti sua falta. — Ela olha para mim, levantando os ombros, e acrescenta: - Seria legal manter pelo menos uma amiga pelo restante da eternidade. Mas tem certeza de que não podemos transformar Miles também?
— Não! — solto, antes de me dar conta de que ela estava brincando.
— Nossa, você nunca relaxa? — Ela ri, descruza os braços e se joga na cadeira com estampa de leopardo, formando uma pilha de couro e renda, e arruma o vestido em volta dela antes de descansar a cabeça na mão. — Poderia ajudar na carreira de ator... Ele certamente conseguiria todos os melhores papéis.
— E isso é bom por quanto tempo? — Olho para ela. — Até em Hollywood as pessoas iam começar a reparar no fato de ele nunca passar dos dezoito anos.
— Não pareceu ser ruim para Dick Clark.
Aperto os olhos, sem ideia de quem é Dick Clark.
— America‘s Oldest Teenager? New year‘s Rocking Eve? - Dou de ombros, ainda sem saber.
— Deixa pra lá. — Ela ri e balança a cabeça. — Bem, eu tenho esta teoria de que há muito mais gente igual a nós do que pensamos. Atores, top models... É sério. Como explicar alguns deles?
Balanço os ombros.
— Sorte, genes bons, cirurgia plástica e muito, muito Photoshop. — Rio.
— É assim que explica.
— Bem, cá entre nós, Roman nem sempre libera os detalhes. Ele costuma esconder muita coisa.
Jura?
— Uma vez, perguntei quantos de nós haviam por aí e quantos ele mesmo tinha transformado, e ele murmurou alguma frase sem sentido, tipo eu que sei, o mundo que descubra, ou algo assim. E não importa o quanto eu tenha perturbado, ele só disse isso. Repetiu várias vezes, até que fiquei tão irritada que desisti.
— Foi isso que ele disse? — pergunto, tentando esconder o alarme em minha voz, mas não sendo muito bem-sucedida. — Ele disse — eu que sei, o mundo que descubra? — Respiro fundo; não gosto de como soa sinistro. Não gosto nem um pouco.
Haven olha para mim, tentando recuar quando vê minha expressão, ouve o jeito como minha voz se eleva e percebe que pode ter ido um pouco longe demais. Que sua lealdade não se estende mais a mim, e, definitivamente, equilibra-se a favor de Roman.
— Ou talvez tenha dito para eu descobrir... — Ela levanta os ombros e fica mexendo na renda da manga. — Bem, não importa, talvez seja melhor não falarmos de Roman, já que eu o amo e você o odeia, então, se quisermos ser amigas, teremos que coexistir em uma zona livre de Roman, certo? Teremos que concordar em discordar.
— Você ama Roman?
Ela olha para mim por um bom tempo, depois abaixa a cabeça e diz: — Amo. Amo muito, muito.
— E é... recíproco? - pergunto, duvidando que Roman seja capaz de amar alguém, especialmente depois de saber que esse sentimento nunca foi mostrado a ele, nunca foi oferecido a ele de forma real ou duradoura, baseada no que vi. É muito difícil dar algo que nunca se vivenciou. Até mesmo o que ele sentia por Drina não era amor. Era mais uma obsessão por algo fora de seu alcance, como um objeto brilhante que você deseja, mas não pode tocar. Exatamente a mesma sensação que ele está tentando reproduzir com Damen e comigo. Só que não vai funcionar. Com ou sem o antídoto, ele nunca ganhará essa. O que Damen e eu temos é muito mais profundo do que isso.
— Sinceramente — ela olha para mim, — na verdade eu não sei. Mas, se tivesse que chutar, diria que não, não é recíproco. Ele não... Não me ama nem um pouco. Bem, mesmo mantendo os sentimentos escondidos, muitas vezes fingindo que não tem nenhum... Às vezes... Às vezes ele foge deles. Eu chamo de lapso obscuro quando ele se tranca no quarto, não quer falar com ninguém, nem sair por horas... E, bem, não tenho ideia do que ele faz lá dentro. Mesmo tentando respeitar, tentando deixar que ele tenha o espaço dele, fico muito curiosa. Mas acho que, se eu ficar bastante com ele, finalmente vai confiar em mim, deixar eu entrar e... — ela dá de ombros — mudar tudo.
Olho para ela, surpresa por estar tão comedida, agindo com mais segurança do que nunca.
Ela olha para baixo, para a calça legging estrategicamente rasgada que usa sob o vestido, passa o dedo em um dos buracos e diz:
— Sabe, Ever, em todo relacionamento sempre tem um que ama mais, não é? Da última vez, com Josh, era ele. Com certeza ele me amava mais do que eu o amava. Sabia que Josh até escreveu uma música sobre mim depois que terminamos, tentando me reconquistar? — Ela ergue as sobrancelhas e balança a cabeça. — Era muito boa, e fiquei lisonjeada, mas era tarde demais, eu já estava a fim de Roman, que eu com certeza amava mais. Ele apenas concorda em passar um tempo comigo, nós nos divertimos, e não tem nenhuma outra garota na jogada... Bem, fora você... — Ela olha para mim, com os olhos semicerrados de um modo que me faz contrair os músculos, mas rapidamente começa a rir e faz um gesto indicando que não é sério. — O que estou querendo dizer é que, não importa o que você pense, não importa o que possa parecer quando visto de fora, a verdade é que nunca é igual. Não funciona assim. Sempre há o caçador e a caça, o gato e o rato, é assim que as coisas são. Conte para mim, Ever, quem ama mais em seu relacionamento... Você ou Damen?
A pergunta me pega desprevenida, mesmo sabendo que viria. Mas, quando vejo a forma como ela para, com a cabeça inclinada, os dedos enrolando uma mecha de cabelo, esperando pacientemente minha resposta, acabo murmurando um monte de bobagens aleatórias, que finalmente resultam em:
— Ah, não sei. Acho que nunca parei para pensar no assunto. Eu nunca nem notei, por sinal...
— Sério? — Ela se vira e olha para cima, para o teto cheio de estrelas que brilham no escuro. — Bem, eu notei — ela diz, ainda concentrada nas constelações. — E acho que é Damen, não você. É Damen que ama mais. Ele faria tudo por você. Você só está curtindo.

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