3 de novembro de 2015

Trinta e três

Agarro-me ao galho, sem vontade de ver, mas também incapaz de desviar os olhos. Sou tomada pela vergonha e a humilhação da derrota. Derrubada pela horrível certeza de ter fracassado na única coisa que nasci para fazer.
Meu corpo não passa de uma confusão pulsante e ensanguentada, minha alma gêmea está convencida de que o abandonei, enquanto Rafe demonstra o quanto está aproveitando o fruto.
E para quê?
Qual o motivo de tudo isso?
Por que lutei tanto? Para que completei cada passo se iria fracassar na etapa que valia mais que todas as outras?
Esse amargo gosto de derrota me faz lembrar o que eu disse uma vez a Damen depois que confessei toda a história sobre minha viagem frustrada no tempo:
Às vezes o destino não está a nosso alcance.
E fico surpresa ao descobrir que isso já não é verdade.
Meu destino ainda está bastante ao meu alcance.
Não acaba aqui de jeito nenhum.
Dou um salto.
Superando a dor excruciante em meu corpo — superando meus músculos esgotados, as mãos ensanguentadas em carne viva. Salto o mais alto que posso e agarro o galho acima de mim, e depois o outro acima dele. Balanço-me como um macaco ágil, até estar apenas um galho abaixo de Misa e Marco, que agora também estão apenas um abaixo de Rafe.
Quando Rafe nos surpreende pulando de seu galho para o deles, vejo que seu rosto ainda está envelhecido, ainda está marcado pelo tempo, mas não há como negar seu brilho. Ele, sem duvida, está radiante, tem uma aura luminosa — o que é a prova que eu precisava para saber que funcionou, que sua imortalidade foi revertida.
Ele larga o que sobrou do fruto na mão estendida de Misa, depois se apressa em voltar para o chão, enquanto eu me movimento para onde os outros dois se encontram.
Viro-me na direção deles, encolhendo-me ao ouvir o som do galho rangendo sob o peso de nós três. Mas eles parecem não notar, parecem não se importar. Estão distraídos demais com o fruto e com o grito distante do barulhento Rafe que desce até as raízes.
— Não chegue mais perto — diz Marco ao perceber minha presença.
Fico paralisada. Não porque ele mandou, mas porque meus olhos veem algo extraordinário, algo que eu nunca esperaria encontrar.
— Fique bem aí onde está. — Ele olha para Misa, faz um gesto para que ela continue, e eu a observo colocar o fruto entre os lábios, cravando os dentes brancos e brilhantes na polpa firme e aveludada enquanto fecha os olhos, saboreando-a antes de entregá-la a Marco, que olha para mim e diz: — Se eu estivesse me sentindo generoso, se tivesse a mínima consideração por você, dividiria esse último pedaço. Afinal, parece que há o suficiente para nós dois, não acha?
Mordo os lábios, esperando que ele esteja tão preocupado em me ridicularizar que não perceba o milagre que está ocorrendo a apenas alguns galhos de distância.
É isso?
Será que é mesmo?
Devo confiar no que meu instinto está me dizendo?
Devo confiar em algo que vai contra todos os mitos, todo o conhecimento que adquiri a respeito desta árvore?
Ou devo lidar com Marco bem aqui, neste exato momento? Tentar pegar o último pedaço do fruto enquanto posso, sabendo que eles estão tão ensanguentados, cansados e enfraquecidos quanto eu?
Ele segura o fruto diante de si, zombando, provocando, abrindo a boca de modo exagerado. E eu sei que é hora de tomar uma decisão, hora de escolher entre o que me disseram e o que vi acontecer diante de meus olhos, quando ele diz:
— Mas acontece que não estou me sentindo nem um pouco generoso em relação a você, então acho que vou aproveitar a oportunidade e comer tudo sozinho.
Um passo à frente, enquanto ele enfia o fruto na boca.
Outro, diminuindo o espaço entre nós, enquanto ele fecha os olhos e dá uma mordida.
A imagem perde o foco quando me lembro da voz de Lótus na minha cabeça, dizendo: A árvore é generosa.
Eu paro. Perco o equilíbrio. Vejo-me caindo de costas, rodopiando em direção ao chão. Minha queda é interrompida por um emaranhado de folhas apenas alguns galhos abaixo, enquanto, acima de mim, Marco se exibe engolindo o fruto e limpando o sumo do queixo com a manga da camisa.
Eu observo me dou conta de que, como Rafe, eles se transformaram. Embora ainda envelhecidos, sua aura brilha com energia e vividez, fazendo com que fiquem luminosos enquanto descem da árvore de mãos dadas. Ignoram-me ao passarem por mim, mas não me importo mais. Minha atenção está em algo que eles são míopes demais para ver — algo que muda tudo.
É o fruto.
O fruto em sua perfeita abundância.
Acontece que a Árvore da Vida não se limita a apenas um fruto a cada mil anos, como diz a lenda. Para cada unidade colhida, outra aparece em seu lugar.
De repente, entendo o que meu instinto estava mostrando — de repente, sei o que Lótus quis dizer quando mencionou que a árvore era generosa.
De repente, sei o que significa quando dizem que o universo é abundante — que oferece tudo de que precisamos, que a única carência é aquela criada pela mente.
Trato de subir, tentando chegar ao local onde está o fruto maduro. Então arranco minha blusa esfarrapada e ensanguentada, expondo a igualmente esfarrapada e ensanguentada regata branca de algodão que está por baixo. Abro a blusa sobre o colo, arranco aquele fruto único, coloco-o no centro do tecido e aguardo. Espero não estar errada, espero que seja mesmo o que estou pensando, e rio como louca quando, alguns minutos depois, outro fruto aparece no lugar. Então arranco aquele também... Repito a tarefa várias vezes até que minha blusa esteja tão cheia que não comporte mais nada, então puxo as pontas, amarro-as e jogo nos ombros a trouxa improvisada.
Estou prestes a descer quando testemunho ao longe a mais maravilhosa exibição de luz que corta a neblina de modo tão surpreendente, brilhante e colorido que é impossível de identificar.
— O que é aquilo? — sussurro, boquiaberta com o espetáculo, imaginando que, como estou tão no alto, devo estar testemunhando algum tipo de luz celestial.
Mas não demora muito até que eu ouça uma gritaria trazida pelo vento, um som que me diz que é Misa, Marco ou Rafe, ou mesmo todos os três. E de repente entendo por que Lótus os enviou atrás de mim.
Ela sabia sobre a árvore. Sabia que era generosa. Sabia que, não importando o que acontecesse, não importando quanto tentassem me impedir, no final eu conseguiria.
Ela pode não ter sido muito franca a respeito do tipo de imortalidade que o fruto realmente oferece, mas eles lhe disseram apenas que buscavam o elixir da vida, então Lótus tinha todo o direito de mandá-los seguir em frente.
E, mesmo que não tenham compreendido em que estavam se metendo, pelo som dos gritos empolgados, pelo modo como o brilho ilumina o céu, o que eles encontraram é ainda melhor que aquilo que procuravam.
Eles encontraram iluminação — a verdadeira imortalidade.
Do tipo que seguro nas mãos.
Ansiosa por minha vez, desço e dou início a minha jornada de volta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!