2 de novembro de 2015

Trinta e três

Quando chego à casa de Roman, tudo está tranquilo.
Exatamente como eu esperava. Exatamente como eu havia planejado.
Quando Haven me contou que ia a um show com Misa, Marco e Rafe, eu soube que era a oportunidade perfeita para pegar Roman sozinho, sem nada para nos perturbar, para poder me aproximar dele de uma forma pacífica, razoável, e calmamente defender minha causa.
Fico parada na porta e por um momento fecho os olhos e fico em silêncio.
Volto a atenção para o fundo do meu ser e não encontro nem mesmo o menor sinal de um monstro ali. É como se ao abandonar toda a raiva e todo o ódio que sentia por Roman eu tivesse privado a chama negra do oxigênio de que ela precisava para sobreviver... e eu fiquei em seu lugar.
Só depois de bater algumas vezes, e mesmo assim ele não atender, permito-me entrar. Sei que ele está ali, não apenas porque seu Aston Martin vermelho-cereja está estacionado na rua, más também porque posso percebê-lo, sentir sua presença. Mas, por mais estranho que pareça, ele não parece perceber ou sentir a minha, ou certamente já estaria aqui.
Atravesso o corredor, dou uma espiada na sala, na cozinha, através da janela vejo a garagem atrás da casa, e quando percebo que está escuro, que não há sinal dele, caminho na direção do quarto, chamando seu nome e fazendo muito mais barulho do que o necessário ao me mover, pois prefiro não surpreendê-lo nem pegá-lo no meio de uma situação constrangedora.
Encontro-o deitado no meio de uma cama com dossel enorme e cheia de detalhes, com tantas cortinas e franjas que lembra uma daquelas que Damen e eu temos em nossa versão de Versalhes em Summerland. Ele veste uma camisa de linho branca desabotoada e jeans velhos e desbotados, está com os olhos bem fechados, tem um par de fones de ouvido pendurados na cabeça e segura, apertado contra o peito, um porta-retratos com uma foto de Drina. Eu paro, imaginando se talvez não devesse apenas dar meia-volta e ir embora, encontrá-lo em outro momento, quando:
— Ah, pelo amor de Deus, Ever, não me diga que derrubou a maldita porta de novo. — Ele se senta, jogando os fones para o lado e devolvendo cuidadosamente o porta-retratos na gaveta do criado-mudo. Parece não estar nem um pouco constrangido por ter sido pego em um momento tão íntimo e sentimental. — Toda essa sua cena está ficando meio exagerada, não acha? — Balança a cabeça e passa os dedos por aqueles cachos dourados, colocando-os no lugar. — Sério, é possível que um cara tenha um pouco de privacidade aqui? Entre Haven e você... — Ele suspira e balança os pés descalços em direção ao chão como se fosse se levantar, só que não se levanta, permanece sentado. — Bem, estou ficando meio cansado... Entende o que quero dizer?
Olho para ele, sabendo que provavelmente não deveria dizer isto, mas estou curiosa demais para ignorar.
— Você estava... Estava meditando? — Olho de soslaio, por nunca tê-lo imaginado como o tipo que vai fundo e tenta se conectar com a força universal.
— E se eu estivesse, gata? E se eu estivesse? — Ele esfrega as mãos na testa, então se vira para mim e diz: — Se quer saber, estava tentando encontrar Drina. Sabe que não é a única por aqui que tem... Poderes.
Engulo em seco, já bastante ciente daquilo, tentando adivinhar a resposta para minha próxima pergunta quando pergunto:
— E... Você a viu? — Aposto que não, especialmente pelo que sei sobre Shadowland.
Ele olha para mim, seu rosto carrega uma fugaz expressão de dor quando diz: — Não. Não vi. Certo? Satisfeita? Mas algum dia verei. Não pode nos manter separados para sempre, sabia? Apesar do que você fez... Pretendo encontrar Drina.
Respiro fundo, pensando: Ah, espero que não. Você não vai gostar daquele lugar. E sinto-me péssima pelas vezes que o enganei fingindo ser ela, mesmo não sendo eu quem estava no comando quando tudo aconteceu.
Mas não digo isso. Na verdade, não digo nada. Só fico lá, parada, recompondo meus pensamentos, minhas palavras, a mim mesma, esperando pelo momento certo para começar.
— Roman, escute, eu... — Balanço a cabeça e começo novamente, dizendo a mim mesma que consigo fazê-lo, reunindo forças de algum lugar lá no fundo. Então, olho direto para ele e digo: - Não é o que está pensando. Não estou aqui para seduzir, brincar, provocar nem tentar conseguir algo de você pelo menos não do jeito que pensa. Estou aqui para...
— Pegar o antídoto. — Ele levanta os pés e os coloca de volta na cama amarrotada. Cruza os braços, protegendo o peito, encosta na cabeceira revestida de seda e me olha com os olhos semicerrados. — Vou dizer uma coisa, Ever, você é no mínimo persistente. Quantas vezes planeja fazer isso? Toda vez que vem aqui, tem um novo plano de ataque, um novo projeto em mente, e ainda assim todas às vezes fracassa, apesar de eu dar grandes oportunidades para você conseguir o que quer. Isso me faz pensar se você realmente quer isso. Talvez só pense que quer, mas seu subconsciente não permite, já que conhece a verdade sobre si mesma. A verdade profunda... Sombria. — Seus olhos brilham, querendo que eu reconheça que ele sabe sobre o monstro e como considera tudo divertido. — E desculpe, gata, mas preciso perguntar: como Damen se sente a respeito dessas suas visitinhas? Suponho que não fique muito satisfeito com isso, ou com o fato de que Miles está prestes a desvendar mais um dos seus segredos. Ele tem muitos, sabe. Segredos que você ainda mal começou a descobrir... Histórias que nem pode imaginar...
Concordo com a cabeça, calma, com sinceridade, recusando-me a deixar que suas palavras me atinjam. Simplesmente não sou mais aquela garota.
— Então me diga, ele sabe que está aqui agora?
— Não. — Dou de ombros. — Não sabe. — E quando lembro a mensagem de texto que mandei para ele pouco antes de sair do carro e entrar aqui, sei que não vai demorar muito até que saiba. Assim que sair da sessão do filme que foi ver com Ava e as gêmeas, vai checar as mensagens e tomar conhecimento de meus planos de encontrá-lo no Montage, então vai saber. Mas, por enquanto, não, não faz ideia.
— Sei. — Ele sacode a cabeça, seus olhos sobre mim. — Bem, pelo menos tirou o tempo para se purificar. Na verdade, está melhor do que nunca... Radiante... Até meio incandescente. Diga, Ever, qual é seu segredo?
— Meditação. — Sorrio. — Você sabe, purificação, foco, concentração no que é positivo... Coisas desse tipo. — Sacudo os ombros e continuo firme, enquanto ele irrompe em uma gargalhada de chacoalhar os ombros e fecha os olhos.
Parando com a histeria, ele diz:
— O velho Damen também fez você escalar o Himalaia, é? — Ele reclina a cabeça e olha para mim. - Aquele grande pentelho nunca aprende. E isso faz um bem danado para ele.
— Bem, lamento dizer, mas não era você que estava meditando?
— Não desse jeito, gata. Não, não desse jeito. Não estava... - E balança a cabeça. — Sabe, meu jeito é diferente. Estava procurando uma pessoa em particular... Não apelando para uma dessas baboseiras sem sentido do tipo ―tudo é uma coisa só‖. Não entende, Ever? É assim. Aqui e agora. — Ele dá tapinhas no lençol amarrotado a seu lado. — Este é o nosso paraíso, nosso céu, nosso Nirvana, nosso Shangri-La... Como quiser chamar. — Levanta as sobrancelhas e umedece os lábios com a língua. — Isso é tudo. E quero dizer tanto no sentido figurado quanto literalmente. É tudo que temos, e está perdendo seu tempo procurando por algo mais. Agora, é verdade, tem muito tempo para desperdiçar, devo admitir, mas mesmo assim é uma pena ver como pretende passar a eternidade. Aquele Damen é má influência, devo lhe dizer. — Ele faz uma pausa, como se parasse um pouco para pensar melhor. — Então, o que me diz? Vamos tentar de novo? Quer dizer, você vem aqui desse jeito, e, bem, como me curo rapidamente e tal, estou pronto para perdoar o que fez da última vez, o que passou, passou, e tudo o mais. Só não tente fazer nenhum movimento repentino ou se passar por Drina novamente e está tudo certo. Você aprontou algumas das últimas vezes, mas, engraçado, acho que só me fez gostar mais de você. Então, o que me diz? — Ele sorri, joga um travesseiro para o lado, para abrir espaço para mim, vira a cabeça mostrando sua tatuagem e me olha daquele jeito hipnotizante.
Mas desta vez não funciona. Apesar de me mover em sua direção, na direção do brilho esperançoso em seus olhos, não é pelo motivo que ele pensa.
— Não estou aqui para isso — digo, e vejo ele dar de ombros, como se de qualquer forma não se importasse.
Inclino a cabeça para a frente e vejo suas unhas perfeitamente cortadas e lixadas, quando ele diz:
— Então por que está aqui? Vamos, vamos logo com isso. Haven vai acabar passando por aqui assim que o show acabar, e acho que nenhum de nós dois precisa de uma cena daquelas de novo.
— Não quero magoar Haven. — Dou de ombros. — Não quero magoar você também. Só estou aqui para apelar ao seu eu superior, só isso.
Ele fica boquiaberto e olha para mim, esperando a pegadinha que acha que estou preparando.
— Sei que você tem um. Um eu superior. Na verdade, sei tudo a seu respeito. Sei tudo sobre seu passado, que sua mãe morreu no parto, que seu pai bateu em você e depois o abandonou... Sei tudo... Eu...
— Espere aí... — ele diz, com os olhos azuis arregalados, a voz tão suave, tão abalada que quase não ouço. — Ninguém sabe disso... Como diabos você...
Mas apenas dou de ombros: o como não importa.
— E depois de descobrir tudo isso, percebi que não consigo mais odiar você. Simplesmente não consigo. Não é do meu feitio.
Ele olha fixamente para mim, com os olhos semicerrados, cético. Mas sua insolência habitual retoma quando ele diz:
— Claro que odeia, meu bem, ama me odiar, é só o que faz. Na verdade, ama tanto me odiar que só consegue pensar em mim.
Ele sorri, concordando com a cabeça, como se estivesse dentro de mim, como se soubesse disso o tempo todo.
Mas apenas balanço a cabeça, sento-me na beirada da cama e digo:
— Embora isso fosse a verdade, não é mais. E a única razão de ter vindo aqui foi para dizer que sinto muito pelo que aconteceu com você. Sinto mesmo, de verdade.
Ele desvia o olhar, range os dentes, chuta o cobertor e diz:
— Bem, nem deveria sentir nada! Só tem uma coisa pela qual deve se sentir culpada, gata, e é pelo que fez com Drina. Pode me poupar de todo o restante. Não estou nem um pouco interessado nas dádivas que equivocadamente concedeu aos pobres, destituídos e oprimidos. Não preciso de sua compaixão. Se não percebeu, não sou mais aquele menino. Tenho certeza que pode ver isso. Ever, olhe para mim. — Ele sorri e abre bem os braços, convidando-me a prestar bastante atenção em sua inegável boa forma. — Estou melhor do que nunca. Estou assim há séculos.
— E é isso. — Inclino-me em sua direção. — Você vê tudo como um grande jogo, como se a vida fosse um tabuleiro, e você, a peça que tem sempre que estar três passos à frente de todas as outras. Nunca baixa a guarda, nunca se permite ficar próximo de alguém... E não faz ideia de como é amar ou ser amado, já que nunca recebeu amor de ninguém. Quer dizer, claro que poderia ter feito escolhas diferentes, e não há dúvida de que deveria ter feito, mas ainda assim é um pouco difícil oferecer o que nunca teve, o que nunca experimentou, e eu o perdoo por isso.
— O que é isso? — Ele olha para mim, furioso. - Show de talentos? Vai cobrar alguma coisa por essas psicobaboseiras ridículas? É isso?
— Não — digo, com a voz calma, olhos fixos nos dele. — Só estou tentando dizer que acabou. Eu me recuso a continuar lutando contra você. Escolho, em vez disso, amar e aceitar quem você é. Goste ou não.
— Mostre — ele diz, voltando a alisar a cama. — Por que não sobe aqui e me mostra esse amor, Ever?
— Não é esse tipo de amor. É amor real. Incondicional. Sem críticas ao amor físico. Amo você como uma alma semelhante a mim, que habita este mundo. Amo você como outro imortal. Amo você porque estou cansada de odiar, e me recuso a continuar fazendo isso. Amo você porque finalmente entendi o que tornou você quem é. E, se pudesse mudar isso, mudaria. Mas não posso ... Então, em vez disso, escolho amar. E minha esperança é que, ao aceitar você como é, eu o estimule a fazer algo de bom também, mas se não acontecer ... — Dou de ombros. — Ao menos posso dizer que tentei.
— Nossa — ele resmunga, revirando os olhos como se minhas palavras não fizessem nada além de lhe causar dor. — Alguém andou bebendo suco hippie! — Ele balança a cabeça e ri, e ao se acalmar olha para mim e diz: — Tudo bem, Ever, você me ama e me perdoa. Bravo. Muito bem. Mas, para sua informação, ainda não vai ganhar o antídoto, certo? Ainda me ama? Ou voltou a me odiar? Quão profundo é seu amor, Ever... Citando o verso de uma música dos anos setenta que tenho certeza de que você nunca ouviu. — E solta as mãos sobre o colo, deixando-as abertas, relaxadas. — Tenho pena da sua geração. Todo esse lixo de música que escutam. Devia ouvir a banda que Haven foi ver... os Mighty Hooligans? Que tipo de nome imbecil é esse?
Apenas dou de ombros. Sei quando está usando uma tática de fuga, mas não importa o quanto tente, recuso-me a ser jogada para fora da pista como ele quer fazer.
— A escolha é sua — digo. — Não estou aqui para pedir nada a você.
— Então está aqui para fazer o quê? Qual é a intenção desta sua visitinha? De acordo com o que diz, não está atrás do antídoto, não está atrás de uma transa, embora me pareça bem óbvio que precisa desesperadamente de uma. Só entrou aqui e invadiu minha privacidade para poder dizer que me ama? É sério, Ever? Porque, lamento informar, mas acho isso tudo meio difícil de engolir.
— Claro que acha — digo completamente inabalada. Isso é bem o que eu esperava, tudo está caminhando exatamente como eu havia planejado. — Mas só é assim porque nunca experimentou isso. Seiscentos anos e nunca teve um momento de amor real e verdadeiro. É triste. Trágico mesmo. Mas a culpa não é sua. Então, só para ficar registrado, é isso o que se sente, Roman. É com isso que se parece. Só quero que saiba que, apesar de tudo o que fez, eu o perdoo. E porque eu o perdoo, porque liberto você, não consegue me atingir nem me machucar novamente. Se nunca me der o antídoto... Bem, Damen e eu daremos um jeito de superar, porque é o que as almas gêmeas fazem. O amor real é assim. Não pode ser destruído, não pode ser enfraquecido, é eterno, perene, e capaz de suportar qualquer tempestade. Então, se está determinado a continuar desse jeito, só quero que saiba que não vai sofrer oposição de minha parte. Cansei disso tudo. Tenho uma vida para viver... E você?
Ele olha para mim e, por um breve momento, sei que o convenci. Vejo o lampejo em seus olhos, uma pontinha de compreensão de que o jogo terminou. Que são necessários dois jogadores, e um acabou de se retirar. Mas então, quase tão rápido quanto veio, foi embora, e o velho Roman retoma, dizendo:
— Fale a verdade, gata... Tudo isso é sério? Está querendo me dizer que planeja passar o restante de sua vida imortal conformada em apenas andar de mãos dadas? Bem, nem isso você pode fazer... Mesmo com a camisinha de energia que criou... Não tem nada a ver com o contato de verdade, não é? Nada parecido com isso.
E antes que eu perceba, ele está a meu lado, agarrando minha perna, com o olhar penetrante, intenso, direto em meus olhos, e diz:
— Talvez eu nunca tenha conhecido o tipo de amor de que está tagarelando a respeito, mas tive muito do outro tipo, deste tipo. - E move os dedos mais para cima. — E estou dizendo, gata, como o substituto é tão bom quanto, se não for melhor. E não consigo aceitar a ideia de que você possa perder a chance de ter isso.
— Então me dê o antídoto e não terei que perder — digo, sorrindo com doçura, sem tentar tirar seus dedos de minha pele. É o que ele quer que eu faça. Quer que eu me desespere e resista. Que o arremesse contra a parede. Que me torne uma ameaça. A rotina habitual. Mas não desta vez. Não mesmo. Desta vez tenho muito a provar. Muito a perder. Além disso, estou prestes a mostrar a ele como o jogo pode ser chato quando só uma pessoa decide jogar.
— Gostaria disto, não? De vencer esta?
— É um ganho mútuo, não acha? Você faz algo de bom, algo de bom será feito para você... É carma. É um efeito cascata. Não falha.
— Ah, voltamos para aquilo, não é? — Ele revira os olhos. — Eu disse, Damen realmente estragou você.
— Talvez. — Sorrio, recusando-me a morder a isca. — Ou talvez não. Nunca se sabe como é até experimentar, certo?
— O quê? Acha que nunca fiz nada de bom?
— Acho que já tem um tempo que não faz. Deve estar meio enferrujado.
Ele joga a cabeça para trás e ri, mas não afasta a mão, não, ela permanece bem ali, alisando minha coxa.
— Tudo bem, Ever, falando hipoteticamente, digamos que eu faça uma coisinha por você. Digamos que eu lhe dê o antídoto que permitirá que você e Damen transem até cansar. E então o quê? Quanto tempo vou ter que esperar até esse suposto carma bom voltar para mim? Pode me dizer?
Dou de ombros.
— Pelo que vi, não pode forçar o carma. Ele funciona em seus próprios termos. Tudo que sei é que funciona.
— Então eu devo simplesmente entregar uma coisa a você, algo que quer desesperadamente, e arriscar não ganhar nada em troca? Isso não parece justo, gata, então talvez deva reconsiderar, talvez haja algo que possa me dar. — Ele sorri, escorregando as mãos mais para cima, muito mais para cima, para cima demais. E quando olha fixamente em meus olhos e tenta me dominar, atrair-me para dentro de sua mente como costumava fazer ... Não funciona. Permaneço exatamente onde estou, parada no lugar.
E esse simples ato faz brotar uma ideia, que pode fazer as coisas acontecerem mais rápido do que eu esperava e me levar para o Montage, onde disse a Damen que nos encontraríamos.
— Bem — digo, fazendo o melhor que posso para ignorar a sensação de seus dedos em minha coxa. — Se não acredita no carma, pelo menos acredita em mim?
Ele olha para mim com a cabeça virada, a tatuagem de Ouroboros aparecendo e sumindo.
— Porque, pense nisto, eu tenho algo para dar a você. Algo que tenho certeza de que quer. Algo que só eu posso oferecer.
— Finalmente! — Ele sorri. — Agora, sim. Sabia que uma hora ia mudar de ideia, sabia que veria a luz. — E salta para ainda mais perto, apertando minha perna com mais força.
Mas permaneço sentada, respirando de maneira firme e calma, ciente da luz que ainda brilha dentro de mim, e digo:
— Não é isso... É... É algo bem melhor. Ele estreita os olhos.
— Não seja tão exigente consigo mesma, Ever. A primeira vez sempre é uma droga. Prometo que vamos ter muitas oportunidades para você aperfeiçoar suas habilidades e melhorar.
E, embora ele ria enquanto diz isso, obviamente esperando que eu ria também, não o faço. Ainda estou pensando a respeito do que acabei de dizer, um novo plano se formando em minha mente. Sei que não vai ser exatamente o que ele espera, e talvez faça com que me odeie mais ainda, mas, mesmo assim, é a única forma que consigo imaginar para que ele se conecte... Bem, se é que alguém pode mesmo se conectar com uma alma perdida, quer dizer...
— Solte minha perna. — Meus olhos estão fixos nos dele.
— Ah, droga! — Ele balança a cabeça. — Está vendo, eu sabia que você era cheia de... Você não faz nada além de provocar, Ever, sabia disso? Nada além de...
— Solte minha perna e segure minhas mãos — digo com a voz calma e determinada. — Confie em mim, não tem nada a perder, prometo.
Ele hesita, mas só por um instante, e faz o que pedi. Nós dois nos sentamos na cama com as pernas cruzadas, meus joelhos nus encostados nos dele, suas mãos segurando as minhas, toda a cena me lembrando vagamente do feitiço de amarração que deu início a toda essa confusão.
Só que não é nada parecido com aquilo.
Nada mesmo.
Eu prestes a dar um enorme salto de fé. Estou prestes a compartilhar com Roman algo que, definitivamente, vai fazê-lo me dar o antídoto. Olho bem nos olhos dele e digo:
— Seu argumento é falho.
Ela aperta os olhos.
— Seu argumento. Sobre não haver nada além do aqui e agora. Se acreditasse mesmo nisso, por que estaria tentando se conectar com Drina? Se realmente acreditasse que não há nada além disso, do plano terreno onde estamos agora, então com o que exatamente está tentando se conectar?
Ele olha para mim, evidentemente desnorteado, e diz:
— A essência dela... A... — Ele balança a cabeça, tenta largar minhas mãos, mas eu as seguro com mais força. — Que diabos é isso? — ele pergunta, claramente aborrecido comigo.
— Não termina aqui, Roman. Há mais, muito mais. Mais do que poderia imaginar. O que você vê aqui... É apenas um pontinho minúsculo em uma tela muito maior. Mas tenho a sensação de que, não importa o que eu diga, você já sente isso. E por já sentir, está aberto à ideia. E então, com isso em mente, imagino que possamos fazer algum tipo de acordo.
— Eu sabia! — Ele ri e balança a cabeça. — Sabia que não havia desistido. Nunca diga nunca, certo, Ever?
Mas apenas ignoro e sigo em frente, dizendo:
— Se eu levar você até Drina, se mostrar onde ela está, você me dá o antídoto? Ele larga minhas mãos, fica com o rosto pálido, surpreso, claramente lutando para continuar firme.
 — Está me sacaneando?
— Não. — Balanço a cabeça. — Não estou. Mesmo. Juro.
— Então por que está fazendo isso?
— Só porque parece justo. Você me dá o que eu mais quero e eu dou a você o que mais quer. Pode não gostar do que vai ver, é até provável que acabe me odiando... Mas estou determinada a tentar a sorte. E prometo que darei uma visão completa, sem obstáculos. Não esconderei nada.
— E... e se você me der o que quero e mesmo assim eu não lhe der o antídoto? E aí?
— Mostrará que o julguei mal. — Dou de ombros. - Então vou embora sem nada. E não vou odiá-lo, não o perturbarei outra vez. Mas acho que você definitivamente vai acreditar em carma depois de experimentar os efeitos de um ato como esse. Então... Está pronto?
Ele olha para mim por um longo momento, pesando as possibilidades, refletindo, até que finalmente concorda e, olhando fixamente em meus olhos, diz: — Quer saber onde guardo?
Engulo em seco. Minha respiração acelera.
— Bem aqui. — Ele vai até o criado-mudo, abre a gaveta, puxa uma pequena caixa revestida de veludo, incrustada de pedras preciosas, e retira dali um pequeno frasco cheio de um líquido opaco que parece bastante com elixir, só que verde.
Observo enquanto ele o agita na minha frente, vejo o líquido borbulhar e brilhar, e mal posso acreditar que a solução de todos os meus problemas é tão pequena e contida.
— Achei que tinha dito que não o guardava aqui — digo, e minha boca seca de repente enquanto assimilo o que vejo, o brilho suave do antídoto bem à minha frente.
— E não guardava. Não até aquela noite. Antes disso, guardava na loja.  Mas é isso, gata, uma única dose sem receita conhecida, a lista completa dos ingredientes existe apenas aqui. — Ele aponta para sua cabeça e me olha com cuidado. - Então temos um acordo, certo? Mostre o que tem... E eu lhe dou o que tenho. — Ele sorri, colocando o antídoto no bolso da camisa, e olha fixamente para mim enquanto diz: — Mas você primeiro. Cumpra sua parte do acordo. Leve-me até ela ... E o felizes para sempre‖ será seu.

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