3 de novembro de 2015

Trinta e sete

Tinha toda a intenção de ir à casa de Damen. Toda a intenção de dar boa noite a Sabine e a Muñoz e seguir direto para lá. Só que nada saiu exatamente como eu planejara. Sabine e eu ficamos acordadas até tarde. Até bem, bem tarde. Bem depois de Muñoz ter se despedido com um boa-noite e voltado para casa.
Nós duas continuamos no sofá até as primeiras horas da madrugada, beliscando sobras de pizza (sim, eu comi uma ou duas fatias e não pude acreditar no que perdi durante todo esse tempo!), enquanto nos colocávamos a par das novidades uma da outra. Quando vi, faltavam apenas poucas horas até eu precisar estar na escola.
Segundo Muñoz, se eu quisesse me formar com minha turma, não teria nenhuma outra escolha a não ser aparecer na escola e ainda fazer algum tipo de manifestação mágica na Administração ou um esforço sobre-humano para compensar tudo o que tinha perdido — ou ambos.
Então, em vez de ir para a casa de Damen, escolhi passar algumas horas de um sono muito necessário em meu antigo quarto, porque queria estar totalmente descansada e recarregada quando chegasse lá. Não sabia como ele reagiria ao me ver de novo, com o fruto em mãos. Mas sabia que teria que dar o melhor de mim.
Assim que vejo seu BMW preto no estacionamento dos alunos, percebo que não terei que esperar tanto. Ao que tudo indica, ele ainda está indo todos os dias, frequentando as aulas, seguindo aquela terrível rotina, embora, por tudo neste mundo, eu não consiga imaginar por quê.
— Porque prometi a você — diz ele, que surge a meu lado e responde à pergunta em minha mente, e segura aberta a porta de meu carro, esperando que eu saia e me junte a ele. Mas, por um momento, permaneço paralisada.
Passo os olhos sobre ele, saboreando a visão, a sensação de sua presença perto de mim, enquanto a pontada profunda e dolorosa em meu estômago me lembra quanto senti falta de estar com ele.
Apesar da emoção de minhas conquistas recentes, apesar do triunfo de cumprir meu destino, sem Damen a meu lado tudo fica ofuscado, tudo parece não ter valor, ser vazio demais.
— Eu procurei por você. — Seus olhos me examinam atentamente, sedentos, absorvendo-me, mostrando que ele sentiu tanto minha falta quanto senti a dele. — Procurei em toda a Summerland. E, mesmo sem poder encontrá-la, fui capaz de senti-la. Foi dessa maneira que soube que você estava bem. Longe, fora de meu alcance, mas bem. E foi esse conforto que me fez seguir adiante, à espera do dia em que você encontraria o caminho de volta para mim.
Engulo em seco, sentindo um nó na garganta. Sei que devo dizer alguma coisa, mas não consigo. A única coisa que sou capaz de fazer é ficar olhando para ele.
— E então? Quando voltou? — Seu olhar é firme, e, embora ele se esforce para manter uma aparência calma e casual, receio que minha reação tenha sido o oposto.
Sua pergunta me ativa — uma atividade terrível e nervosa. Pego a bolsa, fico brincando com o cabelo, coçando o braço e me mexendo no banco, até finalmente desviar de sua mão estendida e sair sozinha do carro. Meus olhos se movem descontrolados, até encontrarem um lugar seguro em que pousar, que acaba sendo qualquer um onde ele não esteja.
Minha respiração fica irregular, muito rápida, quando digo:
— Ontem. — A verdade é tão horrível que não consigo deixar de me encolher.
Sei exatamente como ele interpreta minha afirmação — do único jeito que pode ser interpretada. Por mais que eu queira desmentir, não posso. Não há como negar o fato de eu ter voltado da jornada há um dia inteiro e não ter encontrado tempo para vê-lo até agora. Não há como negar o fato de que coloquei outras pessoas na frente dele. Muitas outras pessoas, inclusive Jude.
Damen fica parado ao lado de meu carro, considerando cuidadosamente aquela única palavra, até que ela se torna permanente, irreversível, como uma pegada deixada sem querer sobre cimento fresco que não tento apagar.
E, mesmo sabendo que preciso dizer algo, não tenho ideia de quê.
Ele me olha, claramente dividido entre se sentir ainda mais magoado ou ainda mais confuso, e acaba em algum lugar intermediário.
— Fiquei com medo de ver você — confesso. — Principalmente porque não quero brigar de novo. Não aguento mais brigar com você. E, ainda assim, acho que ambos sabemos aonde isso vai dar. Mas, antes de chegarmos a isso, quero que você saiba que o fato de eu ter adiado este momento não significa que não tenha sentido sua falta... — Minha voz falha e fico tão engasgada que sou obrigada a limpar a garganta algumas vezes antes de continuar. — Por favor, nunca pense que não senti sua falta. — Meus olhos ficam molhados, embaçados, suplicantes.
Mas, em vez de admitir que sentiu minha falta também, em vez de me consolar como eu esperava que fizesse, ele diz:
— Por que tem tanta certeza de que vamos brigar?
Ele me devora com aqueles olhos escuros, chocado quando pego a bolsa, encontro o pacote que Honor me deu e o entrego a ele, dizendo:
— Por causa disto.
Ele observa o pequeno embrulho, examinando-o de todos os lados.
— É a planta. — Olho para ele. — É a encomenda especial, a erva difícil de encontrar de que você precisa para finalizar o antídoto. O antídoto que permitirá que fiquemos juntos do modo como queremos, para seguirmos com nossa vida imortal.
Ele aperta os dedos, fazendo o papel amassar em protesto, e me encara. O peso daquele olhar me faz perder o fôlego. O primeiro sinal toca, e o som deixa todos os alunos agitados, correndo na direção da entrada, enquanto Damen e eu permanecemos no lugar. Por mais que eu precise ir para a aula, para compensar minha ausência prolongada, precisamos terminar esta conversa primeiro. Precisamos chegar a alguma conclusão antes que eu vá a outro lugar, faça outra coisa.
— Mas ainda acredito que esta vida esteja cosmicamente errada. Que, mesmo que tomemos o antídoto, outra coisa surgirá para nos separar. O único modo de cumprirmos de fato nosso destino, de ficarmos juntos para sempre, é reverter nossa imortalidade. Comer do fruto. — Olho para o chão, para o brilho escuro de seu carro, para o portão prestes a ser fechado, ouvindo o último sinal quando o encaro. — Damen, agora eu sei como fazer isso. Encontrei a árvore. Ela é real.
Ele não reage, não se mexe, não vacila.
— Fui até lá. Vi com meus próprios olhos. Escalei seu tronco enorme, me pendurei em seus galhos longuíssimos... — Faço uma pausa para me certificar de que tenho sua total atenção antes de continuar: — Eu colhi o fruto.
Continuo observando seus olhos, mas ainda não vejo reação. Nenhuma indicação de que ele tenha me ouvido.
— Por isso fiquei fora tanto tempo. Foi uma jornada longa, árdua, traiçoeira, solitária, assustadora e completamente impressionante. Passei por uma série de estações para chegar lá, enfrentei um inverno tão rigoroso que achei que me transformaria em uma massa congelada, tomei tanta chuva que cheguei a pensar que nunca mais ficaria seca, e, ainda assim, mesmo que nem sempre estivesse convencida de que conseguiria, eu consegui. Fui bem-sucedida no que pretendia fazer. E agora estou aqui para dizer que a árvore não é um mito, como você pensa. Na verdade, é ainda melhor que o mito. Lembra quando Lótus disse que a árvore era generosa? Ela tinha razão. A árvore não para de dar frutos. O boato de que ela dá apenas um fruto a cada mil anos é falso. Pelo que vi, nunca há escassez. Apenas abundância. A Árvore da Vida é a definição perfeita da abundância. E eu trouxe um saco cheio de frutos para provar isso.
— Você trouxe para cá? — A expressão em seu rosto é completamente insondável. — Por que fez isso? Por que não entregou a Lótus e deixou que ela resolvesse o que fazer?
— Porque estou assumindo o lugar de Roman — digo, fazendo um gesto afirmativo com a cabeça e confirmando para mim mesma. E, assim que digo isso em voz alta, um plano começa a se formar em minha mente.
Mas Damen apenas olha para mim, sem entender.
— Sabe a festa que ele dá a cada cento e cinquenta anos? — Reprimo um sorriso, mas não consigo conter a empolgação. — Sou eu quem vai organizá-la desta vez. Reunirei todos os imortais que ele transformou e lhes darei a oportunidade de escolher entre a imortalidade física e a imortalidade verdadeira.
— E se eles não aceitarem? — ele pergunta, claramente convencido de que não aceitarão, já que ele mesmo pensa assim.
— Se não aceitarem, tudo bem. — Dou de ombros. — Mas depois que eu explicar tudo a eles, depois que virem os efeitos, não acho que isso vá acontecer.
Damen arregala os olhos, seu rosto fica pálido, e eu demoro alguns segundos para entender o motivo. Ele me interpretou errado. Presumiu que eu já tivesse experimentado o fruto.
— Você... ? — ele começa a dizer, mas sou rápida em afastar a ideia.
— Não. — Nego com a cabeça, meus olhos fixos nos seus. — Quis esperar por você. Quero que revertamos nossa imortalidade juntos. Não sei o que farei se você recusar, se escolherei esta vida com você ou uma vida mortal sozinha. Sinceramente não sei. Mas espero que não me faça escolher. Espero que pense bem e divida o fruto comigo. É o único jeito de termos o futuro que queremos.
Olho para ele, suplicando. Mas encontro apenas remorso, então me viro e sigo para o portão.

2 comentários:

  1. Titia Alyson, a senhora está complicando de mais! Por que os dois não podem logo ficar juntos e acaba com tudo isso?!
    Ass: Bina.

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