2 de novembro de 2015

Trinta e sete

Ela se vira e, alternando rapidamente o olhar entre nós dois, diz:
— Sabe, no começo eu mantinha a camisa comigo o tempo todo. Carregava-a para onde quer que fosse. Para a escola, para a loja, até mesmo dormia com ela só para não ter que ficar longe dele. — Ela dá de ombros. — De que restou dele que eu poderia ter de verdade. Mas agora entendo de outra forma. Tudo o que vê aqui é meu. Roman nunca planejou morrer, então não se preocupou em fazer um testamento. O que significa que ninguém pode reivindicar essas coisas de forma alguma, e desafio alguém a tentar. Isso é minha ligação com Roman. — Ela agita a camisa no ar, e o tecido balança suavemente enquanto aponta para a coleção de antiguidades. Usa a outra mão para segurar mais forte a manga de Jude e continua: — esta casa, estas coisas, tudo, tudo mesmo, pertence a mim. Tenho lembranças dele em todo lugares que olho, então não preciso de uma camisa branca estúpida. Não, você é que precisa dela, Ever. É tudo por causa da mancha, certo? É o que sobrou daquele infame antídoto que chegou tão perto de conseguir, não fosse por este cara. — Ela agarra Jude com mais força ainda, levando-o a se encolher, mas ele se recusa a gritar, se recusa a dar a Haven a satisfação de saber que está causando nele dor de verdade. — E agora parece que ele fez de novo. — Se este cara não tivesse se metido no caminho, você estaria vivendo feliz para sempre agora, não? Ou pelo menos essa seria sua versão da história. Então pergunto: ainda está disposta a defender essa tese? Ainda está disposta a culpa-lo por tudo?
Mantenho o olhar fixo nela, meu corpo tenso, estou pronta para qualquer coisa, embora me recuse a responder, a cair em qualquer que seja a armadilha que ela preparou.
Mas ela apenas revira os olhos, nem um pouco convencida pelo meu silêncio, e diz:
— Bem, de qualquer jeito, não importa, porque o que passou, passou, e não preciso que você saiba o que está acontecendo aqui de verdade. Você será sinceramente convencida de que todas as respostas estão aqui. — Ela sacode a camisa na minha frente. — Em uma mancha grande, verde e redonda numa camisa branca de linho. Realmente planeja deixá-la em algum tipo de laboratório de criminalística ou, melhor ainda, levá-la ao laboratório de ciências da escola para ganhar créditos extras por analisar todos os componentes, bem como finalmente colocar as mãos em uma receita que permitirá que você e Damen, como diria Roman, transem até cansar! — Haven ri e balança a cabeça, e sua tatuagem de ourobóros aparece e some enquanto ela me lança um olhar de pena, como se mal pudesse acreditar na insensatez daquilo tudo. — Então diga, Ever, como estou me saindo até agora? Tenho razão? Estou mais ou menos no caminho certo?
Mas, muito embora ela continue a olhar para mim, muito embora tenha praticamente adivinhado a verdade, não respondo e tenho cuidado para não deixar transparecer. Apenas continuo ali parada e aviso Jude com os olhos para que não faça nada precipitado e estúpido como da última vez. Continuo observando Haven, que ainda tem muito caminho a percorrer até chegar a seu auge, mas que mesmo assim é capaz de fazer um belo estrago e causar uma grande confusão, pelo que vi.
Tomo muito cuidado para não deixar que ela me pegue enquanto peço ajuda em segredo.
Envio uma mensagem telepática para Damen, que consiste em nada além da imagem que se desenrola à minha frente.
Sei que é apenas uma questão de tempo até que ele apareça.
Tudo o que preciso fazer é não me mexer até lá.
— Escute, Haven... — começo a dizer, mas não vou muito longe.
Ela viu.
Notou a mudança em mim.
E por causa disso não permitirá que eu continue.
Antes que eu possa fazer qualquer ação para impedi-la, ela segura Jude pelo pescoço novamente, chuta para longe a grade da lareira e balança a camisa branca de Roman acima das chamas.
Seus dedos tremem e a camisa fica pendurada de forma precária. Deixando que o fogo produza fagulhas que tocam as bordas e as deixam escurecidas, ela olha pra mim e diz:
— Não adianta perder mais tempo aqui, não é? Então, o que acha de irmos direto ao ponto? Vamos? Hora de decidir, Ever. A escolha é sua, e só sua. O que vai ser? Ter uma vida de transas felizes e ininterruptas ou... dar a Jude a chance de ter uma vida longa?
Jude fica ofegante e luta contra ela, mas, quando olha para mim, em vez de pedir ajuda, seu olhar implora apenas por perdão. Sua reserva de oxigênio diminui cada vez mais à medida que ela aperta mais forte, e ainda assim ele me permite ver dentro de sua mente.
Ele veio aqui por mim.
Só por mim.
Queria cumprir sua palavra, provar que realmente só quer me ver feliz. Ele queria compensar o que fez tantos meses atrás, bem aqui, nesta casa. E agora está pronto para morrer por isso se for necessário. Está totalmente preparado para se sacrificar a fim de que eu finalmente consiga o que quero, para saber que tudo acabou.
Vá em frente!, ele insiste, com os olhos fixos no meu, uma sensação tão calorosa, tão amável que rouba meu ar. Por favor, só quero que você seja feliz. E, por causa de tudo o que me mostrou, de tudo o que aprendi em Summerland, estou livre do medo. Pense nisso como o último presente que lhe dou. Estava quebrando a cabeça, tentando encontrar um jeito de compensá-la por tudo o que fiz, quando me lembrei da camisa de Roman, me lembrei de como você reagiu no dia em que derrubei meu café e sequei com a manga da camisa. Depois de juntar as peças, percebi que esse seria o modo perfeito de apagar meus erros.
Ele fecha os olhos, mas seus pensamentos não acabam aqui. Ele prossegue: Mas agora que só piorei a situação, e sinto muito. Sinto de verdade, mesmo. Só quero que saiba que meu amor sempre foi verdadeiro e minhas intenções, boas. Nunca, nem por uma vez sequer, quis prejudicar você.
Engulo o choro, resisto ao nó na garganta, pisco para evitar que as lágrimas saiam e alterno o olhar entre ele e a camisa que Haven segura bem pertinho das chamas.
E sei que tudo o que tenho que fazer para conseguiu aquilo que busco há tanto tempo é escolher a opção a que ambos me incitam.
Jude já me deu seu consentimento. Já está praticamente implorando que eu faça.
E Haven, bem, Haven mal pode conter o entusiasmo. Esse é exatamente o tipo de coisa para que ela vive agora.
Exatamente o tipo de coisa de que aprendeu a gostar mais que tudo no mundo.
Então respiro fundo, deixando as palavras perdoe-me passarem da minha mente para a de Jude enquanto me viro para Haven e digo:
— Sabe, este é exatamente o tipo de besteira que Roman costumava fazer. E, como disse a ele, digo a você: não entro mais neste tipo de jogo.

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