3 de novembro de 2015

Trinta e seis

Minha próxima parada é a casa de Sabine.
Imagino que, por ser um fim de tarde de domingo, há grande probabilidade de eu encontrá-la em casa.
Talvez esteja até com Muñoz.
E, quanto mais perto chego de sua rua, mais torço para que Muñoz esteja lá, pois parece que ele está em meu lado, pelo menos na maioria das vezes. O que significa que poderá me ajudar a convencê-la da verdade.
Da verdade surpreendente, incrível e atordoante que prova que tudo o que ela nega com tanto vigor é real.
A verdade que ela provavelmente lutará como louca para rechaçar, não importa quantas provas eu lhe dê.
E, mesmo que eu esteja cem por cento preparada para recorrer a todos os meios possíveis, fazer o que for preciso para que ela acredite (sabendo que pode ser necessário nada menos que um juiz, um júri de cidadãos cuidadosamente selecionados e talvez alguns suplentes, para garantir), ainda assim será bom ter Muñoz por perto para ajudar a defender meu caso.
Bem, seriam dois contra um.
Força da maioria.
Esse tipo de coisa.
Dirijo até o portão, sentindo-me ainda mais culpada por minha longa ausência quando percebo como a segurança olha para mim, claramente confusa, analisando-me várias vezes antes de sinalizar para que eu entre. Quando paro na entrada e vejo que o jardim mudou — tendo saído da estação que eu perdi e mergulhado de cabeça em outra, que espero ter tempo o bastante para aproveitar —, o sentimento de culpa foi até as nuvens.
Ainda assim, não é nada comparado ao modo como me sinto quando chego à porta, toco a campainha e vejo o rosto de Sabine refletir uma série de expressões que quase parecem caricaturas. Começa com uma reação inicial de surpreso reconhecimento, passa por um choque profundo, para completar com uma total descrença e uma leve pitada de esperança, chegando à resistência absoluta e logo estacionando na grande preocupação quando vê o estado triste e deplorável de minhas botas desgastadas, minha calça jeans suja e a regata branca imunda, pois me esqueci de materializar outra para vestir no lugar.
— Por onde você andou? — ela pergunta. Sua voz é uma estranha combinação de raiva e curiosidade, enquanto seus olhos azuis continuam a análise.
— Confie em mim, você não acreditaria se eu contasse — respondo, sabendo que as palavras são bem mais verdadeiras que ela pode imaginar.
Ela cruza os braços e aperta os lábios numa linha fina. Volta a seu lado severo, fácil de reconhecer, e diz:
— Pois tente.
É a Sabine brava.
A Sabine incontestável.
A Sabine que me deu o ultimato que acabou me convencendo a ir embora.
Espio atrás dela, sabendo que Muñoz está em algum lugar aqui, já que vi seu Prius prata na entrada. Solto um grande suspiro de alívio quando o vejo vindo da saleta, seu rosto expressando praticamente as mesmas reações que o dela, menos as partes de resistência e de preocupação, o que considero um bom sinal.
— Adoraria explicar. — Esforço-me para manter a voz calma, nem um pouco agressiva, pois sei que o único modo de chegar a ela é deixando as emoções de lado. — Na verdade, é por isso que estou aqui. Pretendo contar tudo o que aconteceu. Quero contar tudo o que aconteceu. Mas é um pouco complicado, então pensei que talvez pudesse entrar, me sentar e daí continuarmos.
Seu rosto cora de indignação. Mal pode acreditar em minha audácia de esperar que me deixe entrar em sua casa depois de aparecer na porta sem aviso algum, após ter ficado meses sem dar qualquer notícia. Quase posso ouvir os pensamentos girando em sua cabeça, mesmo tendo prometido a mim mesma que não bisbilhotaria. Na verdade, nem preciso bisbilhotar quando posso ver como sua energia irradia à sua volta, piscando e faiscando em uma onda crescente de raiva. De qualquer maneira, ela abre a porta e faz um gesto para que eu entre, acompanhando-me até a saleta, onde me sento em uma das cadeiras excessivamente estofadas e observo Sabine e Muñoz se posicionando lado a lado no sofá à minha frente.
— Gostaria de beber alguma coisa? — pergunta ela, com a voz dura, enquanto se levanta novamente. Incapaz de conter a própria energia nervosa, sem saber como lidar com minha presença repentina, ela incorpora a anfitriã, papel que conhece bem.
— Água — digo, vendo suas sobrancelhas se juntarem, já que não está acostumada a me ver ingerir algo além do elixir, sem me dar conta de que faz uns seis meses desde meu último gole. — Água seria ótimo, obrigada. — Recosto-me devagar na cadeira, cruzando as pernas na altura dos tornozelos, enquanto ela vai até a cozinha e Muñoz se acomoda no sofá, os braços abertos sobre as almofadas, do modo confortável e relaxado que os homens têm quando se sentem totalmente em casa.
— Não esperávamos vê-la. — Sua voz é cautelosa. Ele não sabe o que pensar sobre minha presença, está preocupado com minha motivação, com o que me traz aqui.
Olho pela saleta, aliviada por encontrá-la igualzinha depois de ter visto tantas outras mudanças. Depois olho para minhas roupas imundas e rapidamente materializo outras limpas no lugar.
— Ever... — Muñoz fala baixo para que Sabine não ouça. — Acho que não é uma boa ideia...
Olho para meu vestido azul recém-materializado e minhas sandálias bege de couro e dou de ombros. Tamborilo os dedos nos braços encapados da cadeira e digo:
— Ouça, posso precisar de sua ajuda hoje, então, por favor, apenas tente confiar em mim. Não estou aqui para continuar brigando, nem para piorar a situação. Só quero esclarecer algumas questões antes que seja tarde demais e se torne impossível.
Ele olha para mim alarmado, prestes a pedir uma explicação, quando Sabine volta para a sala, me entrega um copo d'água e se senta ao lado dele.
Cruzo e descruzo as pernas, passo as mãos sobre o vestido até puxar a barra quase ao joelho. Faço vários gestos nem um pouco sutis, praticamente implorando que ela note, pergunte como consegui trocar de roupa tão rápido, diga algo, qualquer coisa, mas é difícil combater uma negação tão arraigada quanto a dela.
Difícil, mas não impossível.
Não posso acreditar que seja impossível, senão não teria motivos para estar aqui.
Ciente de que é melhor simplesmente tomar a iniciativa e pular de cabeça, olho para ela e digo:
— Senti sua falta.
Ela se mexe pouco à vontade, mexe a cabeça, chega um pouco mais perto de Muñoz, que a aconchega em seus braços e lhe dá um apertão reconfortante no ombro. Mas ela só consegue responder:
— E então, não vai me dizer onde esteve?
Comprimo os lábios, um pouco aturdida com sua resposta, mas imagino que ela considere muito alto o custo emocional de admitir que também sentiu minha falta. Mas tudo bem. Mesmo que não admita, sei que ela sentiu, sim, minha falta. Posso ver quando sua aura pisca com uma leve pitada de cor-de-rosa no meio de todo aquele vermelho ainda enfurecido.
Auras não mentem. Só as pessoas.
— Eu estava em Summerland — digo, alternando o olhar entre ela e Muñoz.
— Em Santa Bárbara? — Ela me lança um olhar de descrença, mas desvio rapidamente.
— Não. Não a cidade litorânea de Santa Bárbara, a verdadeira Summerland. A primeira Summerland. A dimensão mística que existe entre esta e aquela logo além.
Muñoz fica tenso, seu corpo totalmente alerta, preparado para o pior.
Sabine fica séria e, com os olhos semicerrados, ela diz:
— Não estou entendendo.
Eu me inclino para a frente, escorregando para a beirada da cadeira, e digo:
— Eu sei. Acredite, eu entendo você. É muita informação para absorver. Principalmente na primeira vez que se ouve falar a respeito. Aconteceu o mesmo comigo. Optei por negar durante muito tempo. Quase até não poder mais. Também sei que será ainda mais difícil para você, devido à relutância que tem em acreditar em tudo o que sai de sua zona de conforto e sua preferência por desconsiderar o que quer que não veja acontecendo bem diante de seus olhos. Mas decidi confidenciar a você mesmo assim, apesar da difícil batalha que enfrentarei, porque cansei de fazer joguinhos. Cansei de mentir para você o tempo todo. Cansei de esconder coisas de você. Porém, mais que tudo, cansei de ralar para ser essa versão falsa e totalmente inventada de mim só para que você possa continuar a acreditar no que é mais confortável.
Faço uma pausa, dando-lhe a chance de responder, mas ela parece fria e impassível como sempre, então sigo em frente:
— Nas duas primeiras semanas depois que saí daqui, fiquei na casa de Damen. E sei que você sabe disso, porque soube que ele lhe contou. Mas o que você provavelmente não sabe é que eu estava totalmente decidida a não voltar mais. Havia jurado me mudar para bem longe depois da formatura e nunca mais vê-la. E não porque estivesse sendo vingativa ou tentando puni-la. Apesar do que possa achar, nunca nutri qualquer sentimento ruim por você. Eu pretendia partir para sempre porque de fato acreditava que a vida de nós duas ficaria mais fácil. Mas agora a situação mudou, ou pelo menos está prestes a mudar drasticamente...
Engulo em seco, olho para Muñoz e o vejo fazer um gesto positivo com a cabeça, encorajando-me a continuar. E é o que faço:
— Mas, antes que essa grande mudança aconteça, queria confessar tudo para você. Queria, pela última vez, tentar fazê-la acreditar.
— E em que exatamente devo acreditar? — ela pergunta, mas posso perceber pelo arco de suas sobrancelhas e pelo tom desafiador de sua voz que ela já sabe.
— Preciso que acredite que não sou apenas uma adolescente doida, triste, sedenta por atenção, que está tão abalada pela perda da família que finge ter poderes paranormais. Preciso que acredite que não sou uma impostora que ganha a vida explorando as pessoas. E preciso que acredite nisso porque é verdade. Eu sou paranormal. Posso ouvir, e ouço, o pensamento das outras pessoas. Também posso ver toda a história de vida de alguém com apenas um toque, assim como enxergar auras e me comunicar com todos os espíritos que escolheram ficar no plano terreno por mais tempo que deviam. E, para completar tudo isso, também sou imortal. — Paro, dando tempo suficiente para que minhas palavras sejam absorvidas, para que minha confissão surta efeito. E sei que está funcionando quando sua aura começa a arder de forma tão brilhante e furiosa que fico surpresa com o simples fato de ela não estar soltando fumaça pelos ouvidos ou pelo nariz.
— Sabe o suco vermelho que estou sempre tomando? — Inclino a cabeça e olho para ela. — Acontece que aquele é o elixir da vida eterna. Aquele que a humanidade vem buscando há tempos. Só que Damen foi um dos poucos que conseguiu descobrir sua fórmula secreta, há mais de seiscentos anos.
— Ever, se acha que eu... — Ela balança a cabeça em negativa, está irada demais para terminar a própria frase, embora consiga pensar, e dessa vez eu escuto. Escuto apenas porque isso pode me ajudar a provar o que estou dizendo.
Meus olhos encontram os dela, observando-a com atenção enquanto repito lentamente as palavras que não foram ditas.
— Não, realmente não acho que você esteja disposta a levar em consideração algo tão absurdo, tão ridículo, tão forçado, tão... triste... nem por um segundo.
Vejo seus olhos se arregalarem em choque, mas ela desfaz a expressão logo em seguida, garantindo a si mesma que o que estava pensando era óbvio. Apesar de ser verdade, não pretendo parar por aqui.
— E, se isso não a convenceu, talvez isto convença. Mas devo alertá-la de que farei o que for preciso para provar que não estou mentindo, que não sou louca e que não sou uma impostora carente. Vou mostrar exatamente tudo de que sou capaz, algo que já deveria ter feito há muito tempo. E só não fiz porque nenhuma de nós estava pronta. Mas agora estamos. Ou pelo menos eu estou e tenho bastante certeza de que você também está. Quanto a Muñoz — olho para ele —, ele já sabe. Na verdade, já sabe há algum tempo.
Sabine se vira para Muñoz, implorando com os olhos. Mas ele respira fundo e confirma com a cabeça, dirigindo a atenção dela de volta a mim ao dizer:
— É verdade. Sabine, querida, Ever não está mentindo. Ela tem poderes nada menos que impressionantes. Só peço que lhe dê uma chance. Tente ver e ouvir com a mente aberta, e acho que ficará surpresa com o que verá. E se, ainda assim, não quiser acreditar... — Ele olha para ela, esperando que não seja o caso. — Bem, então a escolha é sua. Mas, por enquanto, por que não tenta abrir seu mundo para novas ideias que talvez nunca tenha considerado?
Ela cruza os braços e as pernas, o que, quanto à linguagem corporal, é uma demonstração um tanto desencorajadora. Seus olhos focam cuidadosamente em mim quando digo:
— Para começar, o que eu estava vestindo quando abriu a porta?
Ela estreita os olhos, começa a me inspecionar e, quando se recusa a responder, quando se fecha ainda mais, pergunto:
— É a mesma roupa que estou vestindo agora?
Ela se mexe, se contorce, mas se recusa a responder, o que, em meu ponto de vista, já vale como resposta.
— Ou era isto? — Materializo as roupas sujas que usava quando cheguei aqui, mas não é o bastante para tirar uma resposta dela. — Ou talvez fosse isto? — Materializo um vestido de festa verde-escuro de seda, igual ao que uso no pavilhão quando Damen e eu revivemos cenas de minha vida em Londres, quando eu rica e mimada. Permaneço daquele jeito, sentada diante dela com um traje elegante e cheio de brilho de séculos atrás.
Quero que diga algo, qualquer palavra, mas ela nada responde. Não está nem um pouco disposta a abrir mão das ideias a que há tanto tempo está apegada.
— Meus poderes não se limitam apenas a mudanças rápidas de roupa — digo. — Posso materializar um elefante com a mesma facilidade. — Então fecho os olhos e faço exatamente isso, segurando o riso ao ver como ela se esforça para continuar calma. É tão dedicada à sua rígida visão de mundo que se recusa a reagir quando um elefante aparece a seu lado e balança a tromba em sua cara. — Posso materializar flores também — continuo a dizer, cobrindo a mesa de centro com uma grande pilha de narcisos amarelos. — Posso materializar joias. — Fecho os olhos e, quando os abro novamente, Sabina está cercada de diamantes, rubis e esmeraldas, e ainda assim sua expressão é cada vez mais impassível. — Posso até materializar carros, barcos, casas, bem, praticamente tudo o que se puder imaginar. Nada é impossível... Bem, exceto pessoas. Não é possível materializar uma pessoa porque não é possível materializar uma alma. Se bem que dá para materializar a imagem das pessoas, como fiz uma vez com Orlando Bloom. — Sorrio de leve ao me lembrar da reação de Damen quando viu o que eu havia feito. — Mas o que não consigo materializar, mesmo me esforçando muito, é sua disposição em parar de negar o que está bem diante de seus olhos. Isso se chama livre-arbítrio e pertence apenas a você.
Ela levanta o queixo e estreita os olhos, parecendo brava, desafiadora, mas sua voz logo entrega o medo por trás da expressão em seu rosto:
— Não sei o que pretende, Ever, mas precisa parar com isso! Precisa parar com... — Ela olha em volta, procurando a palavra certa. — Precisa parar com esses truques de mágica, agora!
Ela está tão abalada, tão chocada, que acato rapidamente. Gesticulo e pisco até acabar com todos os vestígios do que fiz — até tudo voltar ao normal, incluindo minhas roupas, que voltam a ser o vestido azul com sandálias bege, mais confortáveis, porém bem menos impressionantes.
Observo seus olhos e não consigo deixar de pensar que a conversa está sendo ainda pior que eu esperava. Ainda assim, nego-me a desistir. Não posso parar agora, quando ainda tenho mais alguns truques na manga.
— Tem mais. — Assinto com a cabeça, materializo uma faca com cabo cravejado de joias e a posiciono na palma de minha mão aberta. — Sei que você sente náuseas, que odeia ver sangue, mas prometo que será rápido.
Furo a palma bem no meio com a ponta da faca e arrasto a lâmina afiada por toda a extensão dela. Ouço o suspiro que Sabine não consegue reprimir e vejo sua expressão horrorizada ao ver o sangue jorrando — O modo como ele respinga em meu vestido e se acumula no tapete... até que... até que... até que não existe mais.
A faca se foi.
Minha mão está curada.
E não há sinal algum do sangue que acabei de perder.
Mesmo em se tratando de uma demonstração impressionante, preciso admitir que estou começando a me sentir um pouco envergonhada, estou começando a me sentir no principal número do circo dos horrores.
— Ouça. — Alterno o olhar entre ela e Muñoz, que nem tenta esconder o espanto diante do que acabou de ver. — Eu poderia continuar por horas a fio. Poderia mostrar todos os truques que sou capaz de fazer. E é o que farei se for preciso. Mas, na verdade, basta que você saiba que tudo o que viu é real. E, embora possa deixá-la desconfortável, embora possa deixá-la com vontade de virar as costas e fingir que não viu, nada impedirá que tudo isso seja verdadeiro. Desculpe, Sabine. Sinto muito precisar fazer isso com você. E, mesmo sabendo que a escolha entre acreditar ou não é sua, mesmo entendendo que há uma boa chance de que eu não consiga mudar sua opinião, não importa quanto tente, a questão é a seguinte: a escolha entre acreditar ou não depende totalmente de você, mas, se quiser voltar a me ver, se quiser ter algum tipo de relacionamento comigo, então terá que superar seus preconceitos arraigados e aprender a me aceitar. Como um todo. Mesmo as partes de que não gosta. Mesmo as partes que a assustam. Porque foi exatamente isso que escolhi fazer em relação a você. Sua tendência ao falso moralismo e à teimosia e sua inclinação a me evitar em vez de tentar me entender, bem, isso me assusta tanto quanto meu showzinho de truques imortais a assustaram. Mesmo assim, ainda prefiro aceitá-la a encarar um futuro sem você. Acho que eu esperava que, fazendo tudo isso, chegaríamos a um meio-termo. Mas repito: a escolha é sua. Vou aceitar sua decisão, qualquer que seja.
Eu me recosto na cadeira, vendo a tensão se esvair do corpo dela, vendo sua aura diminuir até ficar como um balão a gás murcho.
— Há quanto tempo você é assim? — ela finalmente pergunta.
E, quando fito em seus olhos, noto que ela acha que sempre fui assim — que sou uma aberração desde que nasci. Imagina que esse deva ser o motivo pelo qual sobrevivi ao acidente que matou o restante de minha família. Mas logo explico.
— Eu morri no acidente — digo. — Passei pelo que é chamado de experiência de quase morte, embora ache o termo um tanto inadequado, já que não há nada de quase. Bem, Muñoz deve saber mais sobre isso que eu. Ele já leu muito sobre o assunto. — Olho para eles, vendo-a lançar um olhar inquisidor sobre Muñoz, que responde com um gesto afirmativo de cabeça e um sacudir de ombros.
— Seja como for... em vez de cruzar a ponte com minha mãe, meu pai e Buttercup, preferi ficar em Summerland, naquele campo surpreendentemente belo. E era isso que minha alma estava fazendo quando Damen encontrou meu corpo perto do carro e me fez tomar o elixir que me trouxe de volta à vida.
— E Riley? — Sabine se inclina para a frente com os olhos arregalados, presumindo o pior.
— Riley ficou presa um tempo. — Eu me remexo.
— Presa?
Suspiro.
— Ficou presa entre o plano terreno e Summerland. Ela começou a me visitar quando eu estava no hospital. Depois, quando me mudei para cá, começou a passar por aqui quase todos os dias, até que a convenci a cruzar a ponte e seguir adiante. Embora ache que ela me visite em meus sonhos de vez em quando, nunca mais consegui vê-la. Não consigo ver aqueles que cruzaram a ponte. A energia deles vibra rápido demais. Mas um amigo meu costumava vê-la... — Faço uma pausa, lembrando que Jude tentou me ensinar a vê-la também, mas em vão. — Ele disse que ela falou que estava bem. Na verdade, mais que bem. Está feliz. Mamãe, papai e Buttercup também estão felizes. Aparentemente, eles se sentem mais vivos que nunca. — Olho para ela. — Sabe, o fato de não podermos vê-los não significa que eles não existam mais. A alma é eterna. É a única imortalidade verdadeira.
Não sei que parte de meu discurso enfim a comoveu, mas, quando percebo, Sabine está chorando encostada na blusa de Muñoz. Seus ombros estão tremendo violentamente enquanto ele passa a mão em seus cabelos louros cortados na altura do queixo, e então por suas costas, sussurrando baixinho, confortando-a, transmitindo segurança, até que ela começa a se recompor e consegue me encarar de novo.
Fico em silêncio, sabendo exatamente como ela se sente. Lembro-me muito bem de como reagi quando vi minha irmãzinha fantasmagórica diante de mim pela primeira vez. Como neguei que fosse real. E como tratei Damen no estacionamento da escola no dia em que ele me contou a verdade sobre minha existência — como preferi bani-lo da minha vida, mandá-lo embora com palavras cruéis, movidas pelo medo, em vez de enfrentar uma verdade com a qual não me sentia nem um pouco preparada para lidar.
Não somos tão diferentes, Sabine e eu.
Sei o que é ter tudo em que se acredita virado de cabeça para baixo. Então, digo depois de algum tempo:
— Sinto muito jogar tudo isso em cima de você. Sei que é muita informação para processar. Mas queria que soubesse antes que...
Ela levanta a cabeça, com os olhos cheios de lágrimas, e olha para mim.
— ...só queria que você soubesse antes que eu voltasse ao normal.
Ela pisca, balança a cabeça e murmura:
— O quê? — Limpando o rosto com a manga, continua: — Não estou entendendo.
Respiro fundo e baixo os olhos para meus pés, hesitando por um instante, reunindo as palavras antes de olhar para ela e dizer:
— Para ser sincera, também não sei se entendo. É uma história tão longa, com tanto a explicar... mas os detalhes não são tão importantes assim. Só pensei, bem, só tinha esperanças de que, se esclarecesse quem eu sou agora, talvez, quando não fosse mais assim, ainda pudéssemos ficar juntas. Sabe, sem toda aquela briga, gritaria e xingamentos. Bem, se você quiser. Depende de você. Prometo respeitar sua escolha.
Sabine se levanta do sofá e abre os braços, vindo em minha direção, mas sou mais rápida — tanto que já estou abraçada a ela antes mesmo que chegue ao canto da mesa de centro.
E é tão bom estar de volta que começo a chorar também. Nós duas nos transformamos em uma bagunça molhada, ensopada, com desculpas exageradas, até que me lembro de Muñoz, passo a mãos nos olhos e pergunto:
— Ei, há algo que vocês queiram? — Olho para eles e acrescento: — Bem, viram do que sou capaz, as coisas que posso fazer. Com isso em mente, o que querem? Um carro novo? Uma casa de veraneio em algum lugar exótico? Ingressos especiais com acesso ao camarim para o show do Bruce Springsteen? — Levanto as sobrancelhas olhando para Muñoz, que é grande fã do cantor.
Mas ambos fazem que não com a cabeça.
— Têm certeza? — Franzo a testa, querendo desesperadamente dar algo a eles. — Bem, não sei se ainda serei capaz de tudo isso quando... Quando voltar a ser como antes. Posso perder todos os meus poderes, ou pelo menos alguns deles. O que significa que esta pode ser sua última chance.
Sabine se vira para Muñoz e eu observo quando ela pousa a mão em seu ombro e diz:
— O que mais eu poderia desejar quando já tenho tudo com que sonhei bem aqui?
E é quando vejo.
É quando vejo a aliança de noivado novinha e brilhante que ela usa.
— Família é só o que importa para mim — diz, puxando-me para perto deles. — E agora que você voltou, tenho tudo. Tenho tudo de que preciso.

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