2 de novembro de 2015

Trinta e seis

Assim que meus pés chegam à varanda da casa, começo a correr. Não quero desperdiçar o tempo que levaria para ir até a garagem, pegar o carro, dar a partida, manobrar até a saída e todos os demais passos de toda a rotina “normal” que me esforcei tanto para manter apenas com a intenção de acalmar Sabine (embora praticamente todas as minhas ações até agora tenham feito tudo menos acalmá-la), mas também não quero materializar nada enquanto ela ainda está olhando pela janela. Sei que isso apenas resultaria em toda uma nova leva de perguntas. Perguntas às quais não tenho intenção alguma de responder.
Ela me segue com o olhar. Posso sentir o peso dele me envolvendo em uma terrível mistura de raiva, preocupação e medo.
Os pensamentos têm matéria. São feitos de uma energia bastante tangível. E os dela estão me acertando diretamente no coração.
Mas, apesar de me sentir muito mal com tudo o que acabou de acontecer, não posso simplesmente parar e me preocupar agora. Haverá muito tempo para isso depois. Sem dúvida terei minha cota de trabalho para tentar achar um jeito de fazer as pazes com ela, no entanto, por ora, minha única preocupação é encontrar Haven.
Saio da entrada e chego à rua, pensando que finalmente estou livre de casa, mas dou de cara com Muñoz parando seu Prius e vindo bem em minha direção.
Ótimo, resmungo, vendo-o abaixar a janela e chamar meu nome. Seu rosto mostra uma preocupação genuína quando ele pergunta:
— Está tudo bem?
Paro, levando um segundo para olhar para ele e dizer:
— Na verdade, não. Quase nada está bem. Aliás, não está nem perto.
Ele encolhe as sobrancelhas e olha para a casa e para mim.
— Posso ajudar?
Balanço a cabeça em negativa, preparando-me para voltar e correr, mas penso melhor, viro para ele e digo:
— Sim. Por favor, diga a Sabine que sinto muito. Que sinto muito mesmo, de verdade, por tudo... Por todos os problemas que causei, por magoá-la do jeito que fiz. Ela provavelmente não acreditará, provavelmente não aceitará minhas desculpas, e não posso dizer que a culpo por isso, mas, mesmo assim... — Dou de ombros, sentindo-me um tanto estúpida por ter compartilhado tudo aquilo, mas isso não me impede de continuar: — Ah, e se não funcionar, pode dar isso a ela... — Fecho os olhos e materializo um grande buquê de narcisos bem amarelos, sabendo que não deveria ter feito isso, pois só vai criar mais perguntas que não tenho tempo para responder, mas ainda assim os empurro para ele e digo: — São as preferidas dela. Só não conte como as conseguiu, está bem?
Antes que ele possa reagir, antes que eu possa ver todo o impacto da surpresa em seu rosto, vou embora.
Após ter perdido mais tempo do que poderia, levo mais um segundo para materializar um BMW preto para mim, igual ao de Damen. Percebo a confusão de Muñoz, seu completo espanto, enquanto ele continua a me observar pelo retrovisor. Vejo seu queixo caído até os joelhos, com aquele olhar esbugalhado, tipo eu realmente acabei de ver o que eu acho que vi?, enquanto vou embora.
Sigo em direção à Coast Highway, imaginando que encontrarei um jeito de lidar com ele mais tarde, enquanto acelero pela série de curvas e tento descobrir para onde Haven pode ter ido.
Sinto um aperto no estômago no momento em que a resposta aparece em minha mente.
camisa.
Agora que ela conseguiu o que queria, graças à interferência de Sabine, não planeja honrar sua parte de acordo. Ela me odeia tanto que prefere destruir a única coisa que quero, a única coisa a qual não somente pedi, mas insisti em receber em troca do suco, apesar de a camisa ter claramente grande valor sentimental para ela.
Embora eu tenha certeza de que ela não faz ideia da esperança que aquela peça representa para mim.
Mas não é isso o que importa de verdade. Até onde Haven sabe, o fato de eu querê-la, o fato de eu estar disposta a barganhar por ela, é motivo suficiente para destruí-la.
Posso notar pelo modo como olhou para mim. Podia parecer um pouco trêmula, um pouco mais que instável, mas tinha tomado elixir suficiente para permitir que pensasse e agisse de forma mais ou menos lógica.
Então, quando lhe ofereci um belo suprimento de suco se me desse algo em troca, ela apenas deu de ombros e disse:
— Tudo bem. Tanto faz. Vá em frente e diga de uma vez. Que coisa é essa de que você precisa tão desesperadamente?
— Quero a camisa. — disse, andando até ficar parada bem na frente dela e vendo-a estreitar os olhos em resposta, enquanto eu prosseguia: — A que Roman usou em sua última noite. Aquela que você arrancou de minha mão antes de me ameaçar e me mandar embora.
Seus olhos ficaram mais apertados, e pela forma como olhou para mim, bem, estava claro que ela ainda a tinha. Mas também ficou claro que Haven não fazia ideia da razão pela qual eu a queria, qual seria o possível significado disso. E espero que continue assim, pelo menos até que a camisa esteja segura comigo.
— Está falando da camisa que ele estava usando na noite em que você o matou? — ela questionou, com as sobrancelhas tremendo de forma estranha.
— Não. — Balancei a cabeça, mantendo a voz firme e confiante, os olhos focados nos dela. — Estou falando da camisa que ele estava usando na noite em que de maneira trágica morreu acidentalmente pelas mãos de Jude. — Com o olhar fixo, para ter certeza de que tinha toda a sua atenção, continuei: — Você me entrega aquela camisa branca de linho que ele estava usando, e estou me referindo àquela mesma, porque acredite, Haven, saberei se tentar trocá-la por outra falsa, mas, de qualquer forma, dê-me isso, e em troca darei a você todo o elixir de que precisar.
Ela olhou para a caixa de elixir que eu acabara de encher — a caixa à qual me referi como um bem-intencionado pagamento, já que era tudo o que tinha à mão — e depois para mim.
Querendo muito recusar, mas completamente dominada por sua dependência, por sua necessidade arrebatadora, no fim, ela foi incapaz de fazer qualquer escolha que não fosse concordar relutantemente.
Enfim, assentindo com um aceno de cabeça, ela disse:
— Tudo bem. Negócio fechado. Que seja! Vamos acabar logo com isso, está bem?
E foi então que descemos as escadas. Ela levando uma garrafa novinha em folha que estava prestes a beber, e eu carregando a caixa por segurança, determinada a mantê-la longe de Haven até que a troca fosse completada.
Mas então Sabine chegou e estragou tudo.
Suspiro, voltando o foco para o presente, prestes a parar em sua antiga casa, aquela na qual ainda mora seus pais e o irmão pequeno, imaginando se ela poderia ter se escondido aqui por algum razão, principalmente porque parece ser o último lugar em que alguém iria procurá-la, quando tenho um impulso irresistível de, em vez disso, ir para outro lugar.
Sem saber se é algum tipo de mensagem, algum tipo de sinal, ou talvez até mesmo alguma maluca e poderosa intuição, acato assim mesmo. Sempre que ignoro meus instintos mais fortes, acabo me arrependendo, então esta vez faço um retorno rápido e sigo para onde a intuição me manda.
Fico desapontada ao me ver em um lugar onde já havia procurado. Onde Miles e eu já havíamos procurado, mas vou em frente de qualquer jeito. Aproximo-me da porta, pensando em como — apesar de afirmar que a casa é dela, já que mora há meses aqui — não consigo deixar de vê-la como a casa de Roman, enquanto uma torrente de lembranças inunda minha mente.
Lembro-me de todas as vezes que estive aqui... das vezes que derrubei a porta, das vezes que briguei com ele, quase sucumbi a ele, da vez que presenciei Jude matando-o... Então afasto os pensamentos enquanto atravesso um confuso labirinto de móveis. Objetos que até recentemente ficavam no depósito e que agora estão aqui deixam apenas uma minúscula passagem pelo corredor em direção à saleta, que também está tão abarrotada que levo algum tempo para assimilar tudo.
Passo os olhos pelos armários antigos, pelos sofás de seda e veludo, pela brilhante mesa de centro de acrílico que parece um refugo dos anos oitenta e pela grande pilha de pinturas à óleo com molduras douradas, todas amontoadas umas sobre as outras, encostadas na parede, enquanto vários itens de vestuário, de diversas épocas a contar de centenas de anos atrás, estão espalhados sobre praticamente toda a superfície disponível, incluindo o bar onde Roman guardava as taças de cristal que enchia de elixir, bem como o sofá onde eu, controlada pela chama negra dentro de mim, tentei seduzi-lo descaradamente enquanto usava um disfarce que me fazia parecer com Drina. O mesmo sofá no qual tudo mudou na noite em que fiz Haven beber o preparado especial de Roman.
Meus olhos passeiam por tudo aquilo e vão em direção à lareira de pedra, onde Jude está encolhido de medo. Parece assustado, surpreso, derrotado e confuso, enquanto Haven está parada na frente dele, segurando com uma das mãos a camisa branca de linho manchada e, com a outra, o braço de Jude. Já transformada em uma versão ligeiramente curada de si mesma, ou pelo menos no que se refere aos dentes, embora ainda esteja longe de ser a antiga Haven. Ela ainda está completamente dominada pelo vício irresistível e pela raiva.
— Bem, bem — diz, virando-se para mim, com os olhos injetados e semicerrados. — Realmente achou que poderia me enganar?
Faço que não com a cabeça. Estou tão confusa quanto ela em relação ao que está acontecendo aqui.
Alterno rapidamente o olhar entre ele, vendo como Jude se encolhe, imobilizado, claramente horrorizado por ter sido pego fazendo... Bem, eu não sei o quê. Não consigo encontrar um sentido na cena que vejo, ou qual exatamente poderia ser seu objetivo.
Será que ele descobriu a verdade por trás da camisa, a esperança que ela representa, e está tentando obtê-la como um tipo de demonstração de paz para mim e Damen?
Ou, pior ainda, e muito mais provável, será que está aqui para roubá-la e destruí-la, tendo apenas fingido ser amigável com Damen, tê-lo perdoado pelo passado, quando na verdade esteve planejando este momento o tempo todo, recusando-se a desistir de sua vingança final?
E, antes que eu possa fazer qualquer coisa para impedi-la, Haven está sobre ele. Energizada pelo elixir que se alastra violentamente dentro dela, o suco que lhe dei, Haven solta o braço de Jude, mas o agarra pelo pescoço. Ela o ergue bem alto, os pés dele ficam suspensos, chutando o ar, e, balançando Jude em minha direção, ela pergunta:
— Mas que diabos está acontecendo aqui?
— Não sei — digo, com o cuidado de manter a voz baixa, firme, aproximando-me dela lentamente, com as mãos onde ela possa vê-las. — É sério. Não tenho ideia do que ele está fazendo. Talvez seja melhor perguntar a ele.
Ela olha de relance para Jude e vê como seus olhos se arregalam, como o rosto fica inchado e vermelho, e solta-o bem rápido, agarrando depois seu braço para impedir que fuja, enquanto ele cospe e tosse e luta para recuperar o fôlego.
— Vocês planejaram isso juntos? — Ela olha para mim com raiva.
— Não. — Olho para os dois, perguntando a mim mesma por que ele sempre tem que aparecer na hora errada.
Por que ele sempre estraga tudo.
Mas tenho certeza: não é coincidência. Isso não existe. O universo é harmonioso demais para permitir uma casualidade dessas.
Então o que é? Por que toda vez que estou perto de conseguir o que quero, Jude aparece e frustra todos os meus planos?
Tem que haver algo mais por trás disso, algum tipo de razão ou explicação lógica, mas qual pode ser essa razão, ou essa explicação, está totalmente além de meu entendimento.
Haven segura a camisa, a examina, a inspeciona, tentando descobrir por que eu a quero, por que Jude se arriscaria tanto para pegá-la, que valor poderia ter para outra pessoa que não ela.
Ela então alterna o olhar entre nós dois, observando que ele olha fixamente para a mancha, que eu faço o mesmo... E é quando ela descobre.
É quando a ficha cai e todas as peças de juntam.
É quando ela cai em uma gargalhada de balançar os ombros.
Ela ri tão alto que mal consegue se conter. Inclina-se para a frente, com uma das mãos no joelho, e se levanta, e tosse em uma série de espasmos, até que finalmente retoma o controle, endireita-se e diz:
— Agora eu entendo. — Ela deixa a camisa pendurada na ponta dos dedos e um sorriso sinistro se espalha por suas bochechas. — Entendo, entendo mesmo. Mas, infelizmente para você... — Ela aponta para mim. —... Ou, talvez, possivelmente até para você... — aponta a cabeça para Jude. —... Parece que a Ever aqui tem uma decisão muito importante a tomar.

4 comentários:

  1. Já até imagino que decisão vai ser essa...

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  2. Jude sempre atrapalhando tudo!
    Ass: Bina.

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  3. Concordo ele sempre chega na hora errada

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  4. Poxa sempre que parece que vai dar certo alguém estraga tudo...
    Essa decisão é bem difícil...Ai Jude pq vc não ficou em casa???


    Ass:Claudia

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