3 de novembro de 2015

Trinta e quatro

A primeira coisa que noto quando volto para Laguna Beach é que estou curada.
De tão empolgada que estava, acho que desci a trilha e materializei o véu com tanta rapidez que nem percebi que meu corpo não está mais flagelado e ensanguentado, e minhas roupas não estão mais destroçadas (embora estejam bem sujas).
A segunda coisa que noto é o clima.
Está quente.
Tipo muito, muito quente.
Tipo quente demais para as meias grossas e as botas que ainda estou usando. Olho pelas ruas estreitas e movimentadas do centro à minha volta. O sol reflete nas vitrines de uma forma que me obriga a proteger os olhos até que eu consiga materializar um novo par de óculos escuros. Parte de mim espera que eu esteja incomodada apenas porque a temperatura em Summerland não varia muito, sempre tendendo ao ameno — enquanto outra parte teme que o que estou sentindo não seja apenas um calor fora de época, e sim um calor bem próprio desta estação.
Tenho a horrível e esmagadora sensação de ter ficado fora muito, muito mais tempo que o planejado.
Embora o tempo não exista em Summerland, nada impede que continue passando aqui, e, se o clima servir como indicação, minhas férias de inverno foram muito além das duas semanas dadas pela escola. Na verdade, posso ter até passado da semana de saco cheio na primavera, o que também não é nada bom.
Mas ainda mais estranho que o tempo, bem, pelo menos quase mais estranho, é o fato de que posso sentir a força da gravidade no plano terreno. Eu me sinto mais pesada, mais lenta, o que é muito esquisito. Por mais que eu tenha feito muitas viagens entre Summerland e aqui, nunca cheguei a perceber a diferença. Ou pelo menos não assim. Não de modo tão intenso e óbvio. Mas também nunca passei tanto tempo seguido em Summerland, então deve ter alguma relação com isso.
E só de pensar nessa possibilidade, tento achar meu celular para ver a data.
Só então me lembro de que não estou com ele, o que faz sentido, já que não há sinal em uma dimensão mística. Espio a vitrine mais próxima, procurando algum tipo de pista de que dia é hoje ou de que horas são. Até mesmo o mês me satisfaria. Mas só vejo um monte de produtos caros para o lar, incluindo uma cama para gatos em forma de coroa, feita de pelo falso, o que nada revela sobre nada.
Ajeito no ombro a trouxa improvisada, confirmando, pelo peso, que o fruto sobreviveu à viagem, porque sei que as coisas materializadas em Summerland nunca chegam ao plano terreno. Mas eu não materializei o fruto. A árvore é responsável por isso, e esse deve ser o único motivo pelo qual ele ainda está comigo.
Sigo para a loja de Jude, pensando em entrar, ver se ele está bem e encontrar um modo sutil de perguntar a data. Mas, em vez de Jude, acabo encontrando a última pessoa que eu poderia esperar.
Certo, talvez não a última pessoa, porque essa seria Sabine. Ainda assim, não vou mentir: assim que vejo Honor trabalhando atrás do balcão da Mística e Raio de Luar, conversando com uma cliente enquanto registra o que parece ser uma grande venda, bem, paro na hora. Meu corpo fica paralisado e eu a encaro com olhos arregalados e queixo caído.
Esperava ver Jude, ou talvez Ava, ou mesmo qualquer outra pessoa. Mas nunca esperava ver Honor. Na verdade, ela nem estaria na longa lista de suspeitos.
Ela ergue a vista por cima da registradora, lança um olhar apressado para mim, depois volta a digitar números, passa o cartão e empacota. Seu rosto não demonstra sinais de como pode estar se sentindo por me ver ali parada, o que é muito mais que posso dizer de minha própria reação ao vê-la.
A última notícia que ouvi é que Jude havia desanimado de ensinar Desenvolvimento Mediúnico nível 1 (com pequena ênfase em autorrealização e magia) quando Honor acabou sendo sua única aluna. E, depois de algumas aulas particulares, achou que seria melhor parar de vez. O que, preciso admitir, me deixou aliviada, já que Honor não estava usando suas habilidades recém-descobertas com a melhor das intenções ou para o melhor dos propósitos.
Quer dizer, mesmo que Stacia seja uma pessoa terrível (e, acredite, ela é real e verdadeiramente terrível), eu não podia deixar que a conspiração que Haven e Honor faziam contra ela continuasse. Não era certo — muitas pessoas acabaram se machucando no processo. E nenhuma das duas estava se mostrando melhor que Stacia ao assumir o lugar dela. Na prática, estavam apenas imitando o que havia de pior em seu comportamento.
Que eu saiba, Honor e Stacia fizeram as pazes, por assim dizer, mas só porque eu praticamente as forcei a isso. E, depois de ter ficado fora por sei lá quanto tempo, não tenho ideia de como isso evoluiu. Imagino que tenham voltado a ser as meninas terríveis de sempre, comportando-se do jeito horroroso de costume. Ainda assim, espero estar enganada. Espero que elas tenham pelo menos tentado seguir em frente e fazer algo um pouco mais produtivo da vida.
A cliente pega a sacola e passa por mim a caminho da porta, enquanto Honor se ocupa guardando o recibo com cuidado na caixinha roxa onde Jude os coloca, antes de se sentar no banquinho e se dirigir a mim.
— Ora, ora... — Ela balança a cabeça enquanto me olha de cima a baixo, examinando-me por inteiro, com cuidado para esconder qualquer pista que indique como se sente por eu ter aparecido aqui. — Você é praticamente a última pessoa que eu esperava ver.
— Jude está por aqui? — pergunto, sem vontade de entrar em seu jogo, se é que se trata de um jogo. É meio difícil dizer o que ela está tramando ou qual pode ser sua motivação. — Ou mesmo Ava? — acrescento, deixando claro que estou disposta a falar com qualquer pessoa, menos com ela.
— Ava chegará logo — diz ela, ainda me analisando. — Jude também. — Ela sorri, uma curva involuntária nos lábios que desaparece tão rapidamente quanto surge.
Aproximo-me do balcão, fitando seus olhos do mesmo modo que ela fita os meus. Vejo-a dar de ombros, apoiar-se na parede e continuar a me analisar.
— Há quanto tempo trabalha aqui? — pergunto, em vez de fazer a pergunta que realmente quero: em que dia, hora e/ou mês estamos? Acredito que devam tê-la contratado em meu lugar e imagino que sua resposta me dará algum indício de quanto tempo fiquei fora.
— Há uns seis meses, mais ou menos. — Ela dá de ombros, coloca uma mecha dos cabelos cor de cobre atrás da orelha, depois se concentra em analisar suas cutículas, enquanto minha mente gira com sua resposta.
Seis meses.
Seis meses?
Seis meses!
O interior da loja começa a rodar a meu redor, forçando-me a segurar no balcão, numa tentativa de me manter equilibrada.
Seis meses me levam a maio.
Levam ao fim do segundo semestre de meu último ano na escola.
Levam ao grande risco de ser totalmente reprovada, a menos que eu faça uma mágica e tanto na Administração do colégio!
E não consigo deixar de pensar se Damen está na mesma situação. Se também corre o risco de ser reprovado. Ou se conseguiu voltar a tempo, enquanto a jornada até a Árvore da Vida me deixou em uma situação bem difícil, com todas aquelas estações pelas quais tive que descobrir uma forma de passar.
De qualquer maneira, Damen nunca ligou muito para a escola. O único motivo pelo qual ele se matriculou era o mesmo pelo qual ficou: eu. Depois de seiscentos anos de vida, ele não vê motivos para estudar. E, embora eu tenha adotado uma postura semelhante recentemente (como dá para notar por minhas faltas, mesmo antes de partir em minha jornada), nunca quis ser reprovada.
Nunca sonhei em abandonar os estudos.
Quer dizer, mesmo que eu já tenha pensado que não preciso passar por vestibular, avaliação de médias ou inscrições em faculdade, mesmo que eu presumisse que, por ser imortal, estivesse livre desse tipo de coisa, nunca imaginei não terminar o ensino médio.
Jogar o capelo para o ar na formatura é praticamente a única coisa normal que eu achei que faria.
E agora, pelo visto, perderei isso também.
Suspiro e balanço a cabeça. Tento me concentrar de novo no presente, onde estou agora, e digo:
— Uau. Faz... faz um bom tempo... — Sem saber o que mais dizer.
— Você ficou bastante tempo fora. — Ela ergue os ombros junto com as sobrancelhas. — Então, como foi lá? Como tem andado Summerland? — ela pergunta de modo tão casual que parece que sempre conversamos sobre esses assuntos. Mal olha para mim e já volta a inspecionar suas cutículas, tirando uma pele solta no canto do polegar enquanto penso em um modo de responder. Mas nenhuma palavra vem. — Eu sei sobre Summerland.
Ela enfia o polegar na boca, terminando o serviço com os dentes, e depois coloca as mãos no colo e olha para mim de repente.
— Claro que nunca fui até lá, mas não foi por falta de tentativa. — Sua expressão é mal-humorada. — Mas é difícil para uma iniciante como eu. Jude disse que foi você quem o levou até lá pela primeira vez, e agora ele está tentando fazer o mesmo por mim. Não tive muita sorte até agora, mas não vou desistir. Tenho estudado muito e já li praticamente tudo o que pude sobre o assunto. É mesmo tão mágico como Jude diz que é? — Ela passa os olhos sobre mim, observando minhas roupas sujas, mas, em um gesto louvável (para minha surpresa), não demonstra os sinais de maldade disfarçada que eu esperava dela. — Não fique tão chocada. Não é nenhum grande segredo. — Ela ergue as sobrancelhas e torce a boca para o lado. — Bem, acho que o fato de você ir até lá toda hora é um grande segredo, mas, ainda assim, a existência do lugar não é. E eu também não contei a ninguém sobre ele, nem sobre você. Acredite, Jude já me alertou. Só faltou me ameaçar se eu dissesse qualquer coisinha sobre você ou suas habilidades. Então pode respirar fundo e relaxar agora, tá?
Mas, mesmo que ela me garanta que posso relaxar, não consigo. Qualquer pensamento relaxante que eu pudesse ter foi levado pelo modo como ela disse "Jude".
Jude disse que foi você quem o levou até lá pela primeira vez.
Jude diz que é mágico.
Jude me alertou de que não contasse.
O nome parece inofensivo e casual — a menos que se ouça o modo como foi pronunciado: com carinho, intimidade, beirando uma familiaridade que vai muito além do relacionamento aluna/ professor/ funcionária/ patrão.
Sem contar a quantidade de vezes que foi falado, como uma garota toda apaixonada que encontra qualquer desculpa para inserir o nome de seu amado no meio de uma frase.
— Então, você e Jude, hem? — Olho dentro de seus olhos, tentando determinar como me sinto a respeito disso. Procuro sinais de ciúme e fico aliviada por perceber que não é isso o que me incomoda.
Sinto vontade de protegê-lo, e não ciúme. Não quero que ele se magoe.
Jude tem um longo histórico de se apaixonar pelas garotas erradas — garotas que o acabam magoando —, inclusive eu.
E, ou as habilidades mediúnicas de Honor progrediram muito, ou sou completamente incapaz de disfarçar, porque ela olha para mim e diz:
— Olhe, Ever, sei que você não gosta de mim, ou não confia em mim, ou ambos, ou o que for, mas, de qualquer modo, muita coisa aconteceu nos últimos seis meses. Acho que você ficaria surpresa.
— Bem, da última vez que você disse isso, estava falando de mudanças que não eram nem um pouco para melhor. — Eu a encaro, sustentando olhar por um momento antes de observar o restante dela.
Noto que seu antigo guarda-roupa super da moda se transformou completamente, resumido a uma camiseta com o símbolo yin-yang que termina bem abaixo da cintura da calça jeans velha e desbotada, um anel de malaquita, ou melhor, o anel de malaquita de Jude reajustado com uma fita de seda e enfiado em seu dedo médio, enquanto um par de chinelos de borracha pende de seus pés. Acho que ela não está apenas namorando Jude, mas também saqueando seu armário.
— Você tem razão — diz ela, nem um pouco intimidada com a confissão, o que já é um bom indício de progresso. — Mas o que eu quis dizer foi que acho que você ficaria surpresa no bom sentido. Não estou mais contra você, Ever. É sério. Sei que não acredita, mas é verdade: eu mudei. Toda a minha perspectiva mudou. E, só para você saber, gosto mesmo de Jude. Não vou magoá-lo como você.
Olho para ela, esperando que termine a frase, certa de que na verdade quis dizer "Não vou magoá-lo como você pensa" e que logo ela corrigirá o erro.
Mas não, ela deixa por isso mesmo. Ao que tudo indica, disse exatamente o que pretendia, e não posso negar que seja verdade.
— E Stacia? — pergunto, preferindo mudar para um assunto tão ruim quanto o anterior, ou mesmo pior. — Ela também está mudada como você? — prossigo, ciente de quanto ela é egoísta e sem-noção, lembrando como foi difícil apenas convencê-la a se desculpar pelas coisas terríveis que havia feito. Mas, bem, milagres acontecem, e nunca é tarde para mudar sua vida e conquistar algo melhor. Pelo menos é o que dizem.
Mas Honor é bem realista no que diz respeito à amiga, o que significa que apenas ri ao afirmar:
— O que posso dizer? Stacia é um projeto em andamento. Mas, acredite, ela já não é tão ruim quanto costumava ser, o que já é alguma coisa, não? De qualquer modo, se Jude achou por bem gostar de mim, e Ava achou por bem confiar em mim, bem, talvez você pudesse tentar... Pelo menos me tolerar, e depois vemos aonde isso leva.
— E Ava achou por bem confiar em você para quê? — pergunto. — Digo, além de ajudar na loja.
Honor fica de pé, sua atenção voltando-se momentaneamente para o sino da porta, que anuncia que alguém entrou, e diz:
— Para começar, ela me pediu que localizasse umas ervas raras para Damen. Algo relacionado a um antídoto que ele está preparando. — Ela ergue as sobrancelhas, acena para o cliente que está olhando as prateleiras e depois se volta de novo para mim. E, por coincidência, a encomenda chegou há mais ou menos uma hora. Estou com ela aqui. — Ela pega sob o balcão um pacote pequeno e sem graça e o coloca à sua frente. — Eu ia ligar para Damen, avisando para que viesse busca-lo, mas agora que você está aqui talvez possa levá-lo para ele. Imagino que não o veja há um bom tempo, não é?
Olho para o pacote, sentindo meu coração disparar e minha garganta apertar, ciente da atenção dela pesando sobre mim.
— Que dia é hoje? — pergunto.
Ela me olha de um jeito estranho.
— Domingo, por quê?
— Domingo.
— Domingo, 24 de maio. — Ela contorna o balcão e vai até o cliente, enquanto eu pego o pacote, coloco-o no bolso da frente da calça e saio pela porta.

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