2 de novembro de 2015

Trinta e quatro

Já que a loja acabou se revelando um completo e total fiasco, deixo Damen em casa, para que possa ajudar Miles a ensaiar, e decido ir para casa também, para me reorganizar e talvez até mesmo traçar um novo plano de ataque. Sinto-me mais determinada que nunca a localizar aquela camisa, sobretudo agora que Damen e eu estamos firmes e nos eixos de novo.
Entro na garagem e imediatamente solto um suspiro de alívio ao ver que está vazia. A vaga desocupada de Sabine indica que ela ainda está no trabalho ou saiu com Muñoz, e sei que em ambos os casos isso me dá a esperança de ter a casa vazia, o tão esperado tempo sozinha, e umas poucas horas, calmas e tranquilas, de silêncio, sem discussões, que é exatamente aquilo de que preciso antes de sair de novo.
Acabo de passar pela porta e estou prestes a subir as escadas até o meu quarto quando algo me atinge:
Uma fria rajada de energia.
O efeito dela é tão cortante e gélido que só pode ter um significado:
Não estou tão sozinha quanto pensava.
Viro para trás, nem um pouco surpresa em encontrar Haven ali. Seu corpo está agitado, inquieto, seu rosto que era tão bonito, reduzindo a uma composição pálida de osso aparentes, um nariz pontudo, lábios feios e encolhidos e olhos avermelhados tão pequenos e fundos que é como se eu estivesse olhando para a foto da cena de um crime.
Seus lábio se retorcem de uma forma tão repugnante que ela imediatamente se torna ainda mais fantasmagórica que um minuto atrás. Olhando para mim com raiva, pergunta:
— Onde está, Ever?
E de repente sei exatamente quem destruiu a adega da loja.
Sei exatamente o que ela quer aqui.
Misa e Marco invadiram a casa dela para roubar seu elixir, tudo faz sentido agora.
Roman nunca deu a receita a ninguém e, sem ele, o suprimento dos imortais perigosos acaba.
E agora é apenas uma questão de tempo até que seus poderes definhem e, por fim, sua juventude e beleza se esvaiam.
Sou a única esperança de Haven para manter seus novos poderes.
Sua nova vida.
Mesmo assim, não estou a fim de facilitar as coisas para ela. Não quando essa pode acabar sendo exatamente a solução de que precisava.
Ela quer algo que tenho... e eu quero algo que ela tem. Então, nessas circunstâncias, isso me deixa em uma posição muito boa para propor um acordo.
Apenas preciso ter muito cuidado. Não posso deixar que ela desconfie do verdadeiro valor que a camisa tem, no caso de ela ainda não haver descoberto.
Erguendo meus ombros casualmente, digo:
— Não sei sobre o que está falando. — E sorrio, parando por um tempo, tentando entende-la melhor enquanto formulo um plano.
Mas ela não está a fim de cooperar, está com muita pressa para isso. Está definhando rápido demais, mal se aguenta e não tem tempo para esse jogo em particular.
— Pare de enrolar e me dê logo! — Ela revira os olhos e bufa baixinho, balançando a cabeça de um jeito que a deixa completamente sem equilíbrio, forçando-a a segurar no corrimão para se recompor.
Estreito os olhos e paro para analisa-la de verdade, percebendo como parece ansiosa, irrequieta, tão confusa e instável que mal consegue ficar de pé, mal consegue se manter ereta sem apoio. Concentro-me em seu plexo solar, enxergando-o como um alvo pintado bem no meio de seu tronco, totalmente preparada para derrota-la se for preciso, apesar de não querer chegar a esse ponto. Então tento sintonizar sua energia, sua mente, tento obter alguma leitura do que ela quer e quão longe pretende chegar para conseguir, mas não consigo nada.
Ela não está desligada somente de mim... mas também de todo o restante.
Não pertence a nada nem a ninguém.
Mal pertence a si mesma.
É como uma Shadowland que anda e fala.
Sombria.
Solitária.
Totalmente presa ao passado o qual está obcecada em vingar, ainda que a verdade não seja nada parecida com a versão em que escolheu acreditar.
— O elixir, Ever! Dê-me logo o maldito elixir! - Sua voz está trêmula, esganiçada, mais áspera que nunca, revelando quanto o desespero tomou conta dela. — Já procurei em todos os refrigeradores, o da cozinha, o que fica ao lado da churrasqueira, até a reserva na lavanderia. Estava prestes a ir para a saleta do lado de fora de seu quarto quando você chegou e me pegou aqui. Então suponho, já que está aqui, que posso pedir educadamente, porque costumávamos ser amigas e tal. Então, vamos, Ever, em nome dos velhos tempos, em nome da velha amizade, entregue o maldito elixir que roubou!
— Essa é a sua forma de pedir educadamente? — ergo a sobrancelha, notando que ela olha fixamente para o espaço entre o corrimão e eu, como se planejasse se esgueirar por ali, o que faz com que eu imediatamente me mova, bloqueando a passagem.
Ela resmunga baixinho e agarra o corrimão com tanta força que os nós de seus dedos ficam de um tom incrivelmente branco. Olha para mim com os olhos tão injetados que praticamente sangram com o esforço, sem deixar a menor dúvida de que ela está pertinho de surtar quando repete:
— Entregue logo para mim!
Respiro fundo e me concentro em envolvê-la com uma onda de energia tranquilizadora.
Espero que isso ajude a apaziguá-la, a relaxá-la, a atenuar um pouco da raiva e do mau humor e abrandar sua fúria. A última coisa de que preciso é que ela surte, exploda em algum tipo de crise nervosa. Apesar de não representar mais ameaça para mim, ela ainda é uma ameaça bem real a todos à sua volta, e não posso deixá-la chegar a esse ponto.
Mas quando vejo que minha bolha de paz não consegue penetrá-la novamente e quica, mais ou menos como aconteceu da última vez em que tentei, decido dar a ela que quer. Imagino que alguns goles de elixir não farão mal, e talvez, pelo que possa ver, até ajudem a domar a fera.
E me viro, devagar, cuidadosamente, para não assustá-la ou irritá-la de forma alguma, subo as escadas e faço um sinal para que me siga. Olho para trás e digo:
— Fico feliz em compartilhar, Haven. Tenho mais que o suficiente, então não se preocupe com isso. Mas estou curiosa... — Paro no final da escada e encaro. — Por que precisa do meu elixir? O que aconteceu com o seu?
— Acabou. — Ela dá de ombros, fuzilando-me com os olhos, e continua: — Acabou porque você roubou um monte dele, e agora vou pegar de volta.
Ela dá um meio sorriso, a promessa de uma bebida parece aplaca-la só um pouquinho, mas suas palavras me deixam arrepiada. Não tenho ideia de quanto suco Roman mantinha à mão, mas se ele era como Damen, devia ser um suprimento bem grande, para durar um ano no mínimo. Já que é necessário que fermente durante as fases certas da lua e não é possível preparar um lote da noite para o dia. E o fato de Misa e Marco terem fugido com apenas uma mochila cheia significa que deu um jeito de tomar todo o resto num período bem curto, o que não é apenas alarmante, como também ajuda muito a explicar o estado em que se encontra.
Vou para a saleta e até uma pequena geladeira que fica logo atrás do bar. Pego uma garrafa nova em folha e digo:
— Não roubei seu elixir. Não tenho interesse nem preciso desse tipo de coisa.
Vejo como ela fica parada na minha frente com as mãos trêmulas de indignação.
— Você é uma mentirosa! Acha que sou idiota? Então como sobreviveu? Sei tudo sobre os chacras, Roman me contou, e foi Damen quem contou a ele! Foi quando Roman o estava controlando, quando o convenceu a revelar todos os segredos. Eu a acertei em seu ponto fraco e você sabe disso. Eu a acertei antes que caísse e depois que caiu, e até acertei mais uma vez só por segurança, logo antes de abandoná-la, pensando que estivesse morta. Deveria ter matado você! Achei que tivesse matado. Tinha certeza de que a única razão de não ter se desintegrado e virado uma grande pilha de pó era não ser tão velha quanto os demais. Mas agora conheço o verdadeiro motivo de estar aqui...
Olha para ela, sabendo muito bem qual é esse motivo: o fato de que vi minhas vidas passando à minha frente. O fato de que testemunhei a verdade. E, por conta disso, fiz a escolha certa, a única escolha, a que me permitiu superar meu chacra fraco. Nem mais, nem menos. Mesmo assim, estou interessada em ouvir sua versão a respeito.
— Você bebeu o elixir de Roman. — Ela balança a cabeça, fazendo que as pedras azuis de seus brincos batam e produzam um som suave. — É muito mais poderoso que o seu, como bem sabe, e foi exatamente por isso que o tomou. Foi a única coisa que salvou sua vida.
Dou de ombros, vejo nossos reflexos no espelho do lado oposto, atrás dela, e noto a diferença entre nós duas, a escuridão dela versus minha luz.
O contraste é tão gritante que me faz perder o fôlego. Então desvio o olhar rapidamente, determinada a não me concentrar demais no estado triste, lastimável em que ela se encontra.
Não posso me dar ao luxo de sentir compaixão, não quando posso vir a ser obrigada a matá-la.
Volto a olhar para ela e digo:
— Se isso é verdade, então por que o elixir não salva você? E por que não conseguiu salvar Roman também?
Mas Haven não quer mais conversar. Está determinada a conseguir o que veio buscar.
— Dê-me o elixir. — Ela dá um passo lento e cambaleante em minha direção. — Dê-me o elixir e ninguém se machuca.
— Acho que acabamos de falar sobre isso. — Mantenho a garrafa bem atrás de mim, segurando-a fora de seu alcance. — Não pode mais me machucar, lembra? Não importa o que faça ou quanto se esforce, não conseguirá me atingir, Haven. Então talvez, em vez de fazer ameaças, você poderia tentar uma nova abordagem e ficar do meu lado.
Mas ela apenas sorri, o que faz seu rosto se alargar e crescer de um jeito tão medonho que só serve para enfatizar seus olhos fundos e vermelhos.
— Talvez não possa ferir você, mas acredite, Ever, ainda posso machucar bastante as pessoas que lhe são próximas e queridas. E, por mais que seja boa e rápida, bem, não pode estar em todos os lugares o tempo todo. Não seria capaz de salvar todo o mundo.
E é então que ela age. Tirando vantagem de minha surpresa momentânea ao ouvir suas palavras, avança direto no elixir que seguro.
E é então também que reajo apenas um pouquinho mais rápido do que ela esperava.
Jogo a garrafa para o lado, fico observando enquanto ela pousa bem na outra extremidade do quarto, totalmente fora do alcance, e então ataco Haven. Ataco de forma tão certeira e rápida que ela nem percebe antes que seja tarde demais para reagir.
Derrubo-a no tapete e envolvo sua garganta impulsivamente com os dedos. Afasto o emaranhado de colares e logo percebo que ela está sem o amuleto.
Mas, embora seu rosto esteja ficando azul, embora eu esteja lentamente privando-a de oxigênio, ela apenas ri. O movimento do riso impulsiona sua garganta com força contra a palma de minha mão, e ela emite um som tão ameaçador, tão terrível, que me sinto tentada a matá-la só para acabar com isso.
Mas não posso agir precipitadamente. Não posso arriscar fazer nada desse tipo. Não até que consiga o que quero, e se o preço forem algumas garrafas de elixir, que seja.
— Entregue o maldito elixir! — Ela grita assim que afrouxo as mãos de sua garganta. Seu corpo se agita embaixo do meu, se move frenética e violentamente, debatendo-se de um lado para o outro enquanto ela me arranha e espeta com suas afiadas unhas pintadas de azul.
Investindo contra mim como um animal raivoso.
Como um viciado que está há muito tempo sem sua droga.
Ela se arrasta pelo chão assim que levanto, pega a garrafa, tira a tampa e enfia o gargalo entre seus lábios com tanta força e velocidade que seus dentes da frente se quebram.
Mas ela não para. Nem liga para isso. Só continua a engolir, bebendo o líquido tão rapidamente que é uma questão de segundos até a garrafa ficar vazia e ser jogada de lado. Um pouco de cor retorna a sua face, mas seus dentes não se regeneram — não que ela pareça notar ou se importar. Ela só olha diretamente para mim, lambendo os lábios, e diz:
— Mais. E traga dos bons dessa vez. Aqueles que roubou. O gosto desse seu suco é uma droga.
— Não pareceu ter incomodado você. — Dou de ombros, sem intenção de lhe dar mais nada até que eu consiga o que quero. — Por mim, pode ficar com todo o meu estoque. Não sou viciada como você. — Eu a examino lentamente, confirmando quanto aquela visão me perturba. — Mas só para que saiba, não roubei seu elixir. Foram Misa e Marco. — Observo ser rosto, vendo como muda, como se transforma enquanto ela para e pondera minhas palavras, calculando a possibilidade de elas de fato conterem algum fundo de verdade.
— E você sabe disso porque...? — Ela arqueia a sobrancelha e coloca as mãos no quadril, balançado a cabeça de um lado para o outro.
Olhos nos olhos dela, certa de que preciso dar uma resposta rápida, mas sem saber qual. Se lhe contar que estava lá, que vi, estão saberá que eu estava procurando por alguma coisa, algo cujo valor ela talvez não reconheça. Então apenas dou de ombros, forçando minha voz e comportamento a permanecerem tranquilos, calmos e sob controle, e digo:
— Porque não fui eu que roubei. E porque também não foi Damen. E porque não é essa a razão de eu ter sobrevivido ao seu ataque. E só porque faz sentido, se parar um pouco para pensar a respeito.
Ela olha para mim e franze o cenho. É tudo de que preciso para saber que ela não engoliu.
Que ainda está convencida de que fui eu.
— OU... ou talvez tenha sido Rafe? — digo, tendo temporariamente me esquecido dele. — quero dizer, quando foi a última vez que o viu?
Mas, ao olhar para ela de novo, fica claro que não está funcionando.
Embora tudo o que disse faça sentido, não está me levando aonde quero chegar, e eu preciso chegar e, graças ao elixir que acabou de beber, agora ela está alerta o bastante para perceber isso.
Ela alisa a frente de seu vestido com as mãos cheias de anéis e arranca da manga alguns pelos do tapete.
— Não importa — ela diz. — Cuidarei deles. Mas, enquanto isso, já que estou mesmo aqui, o que acha de me dar logo o restante de seu suprimento?

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