2 de novembro de 2015

Trinta e quatro

— Feche os olhos — sussurro, segurando as mãos geladas de Roman entre as minhas, nossos joelhos colados, nosso rosto tão perto um do outro que posso sentir sua respiração fria. — E agora abra sua mente. Livre-a o máximo que puder de todos os pensamentos externos. Apenas a esvazie, deixe-a em branco, livre-se de tudo e apenas... Seja. Entendeu?
Ele confirma com a cabeça, apertando mais ainda meus dedos. Está tão concentrado nisso, quer tanto saber onde Drina vive agora, que é de partir o coração.
— Agora, quero que entre em minha mente. Vou abaixar meu escudo e permitir que entre, e... Estou avisando, Roman... Pode não gostar do que vai ver, pode ficar com muita raiva de mim, mas quero que se lembre de que estou honrando minha parte do trato, certo? Nunca disse que você iria gostar, só que eu o levaria até onde ela está. — Abro um dos olhos e vejo ele confirmar com a cabeça mais uma vez. — Certo, então, agora... Venha ... Encontre devagar um caminho... Está me acompanhando?
— Estou — ele sussurra. — Estou... É tão escuro... Tão... Não consigo enxergar nada... E estou caindo... Tão rápido... Tão... Onde?
— Logo vai acabar... Apenas aguente firme — tento convencê-lo.
Sua respiração fica mais rápida, e a frieza de sua expiração, uma nuvem gélida de fumaça, atinge meu rosto.
— Parou a queda... Mas ainda está tão escuro... E tão... Estou... Suspenso... E... Sozinho tão sozinho... Mas não estou há mais alguém aqui... Ela está aqui... E... Oh, Deus... Drina... Onde você está... — Ele agarra minhas mãos com força, aperta tanto que ficam quase dormentes, sua respiração se torna mais curta, irregular, seu corpo ensopado pelo suor devido ao esforço, e então ele desaba sobre mim, levado pelos eventos que se desenrolam em minha mente...
Na mente dele... Uma excursão sem paradas por Shadowland, o abismo infinito, o lugar de descanso final para todas as almas imortais... Incluindo a nossa.
Ele resmunga uma sequência de palavras tão baixo que não consigo entender, só noto pelo tom que são agitadas, perturbadas, infelizes. Roman paira na escuridão, movendo-se com dificuldade e se agarrando, procurando desesperadamente por ela. Pressiona a testa contra a minha, com o nariz apoiado em minha bochecha, os lábios tão próximos, toda a sua energia e força concentradas nela.
E é desse jeito que Jude nos encontra.
É isso o que ele vê.
Roman e eu juntos, suando nos lençóis dele, nosso corpo bem juntinho, agarrado um ao outro, ambos tão concentrados na visão que não notamos Jude, não o ouvimos, até que seja tarde demais.
Tarde demais para impedi-lo.
Tarde demais para desfazer o que ele faz.
Tarde demais para recuar no tempo e voltar atrás... Voltar para o que era antes... Quando estava tão perto... Tão perto de conseguir o que eu queria.
Antes que eu perceba, sou arrancada dos braços de Roman, e Jude vai para cima dele, o punho direcionado para o centro de seu tronco, e não consegue ouvir meu grito.
Meu grito cheio de agonia:
— Nããããão!
O som enche o quarto e ecoa de novo e de novo.
Esforço-me para me levantar... Para tirá-lo de lá... Para impedi-lo de levar aquilo adiante... Mas é tarde demais. Por mais rápida que eu seja, não consigo acertá-lo... Demorei demais para reagir... Fui posta fora de combate... E Jude já está lá.
Já está em cima de Roman.
Já está acertando um soco em seu centro sacral. Seu chacra mais fraco.
Seu calcanhar de Aquiles.
O centro do ciúme, da inveja e do desejo irracional de possuir.
O conjunto de necessidades que dirigiu as ações de Roman nos últimos seiscentos anos.
O maravilhoso garoto dourado se transforma imediatamente em uma pilha de poeira.
Pulo sobre Jude, agarro-o pelos ombros e o arremesso do outro lado do quarto, ouvindo um som fraco de algo quebrando quando ele aterrissa sobre a cômoda, mas não me preocupo em olhar para trás. Concentro-me apenas em uma coisa, a camisa de linho branca de Roman cintilando com os pequenos cacos de vidro enquanto uma escura mancha verde se espalha por ela.
O antídoto.
O frasco do antídoto foi quebrado... Destruído na briga... Levando embora minhas esperanças.
E agora que Roman se foi, que sua alma partiu para Shadowland, não há mais jeito de recuperá-lo, nunca mais.
— Como pôde? — Eu me viro para Jude com os olhos em chamas.
Como pôde fazer algo assim? — Vejo que ele tem dificuldade para se levantar, o rosto pálido, esfregando as costas. — Você destruiu tudo. Tudo! Estava tão perto ... Tão perto de conseguir o antídoto ... E você o destruiu! Para sempre!
Jude olha para mim com as mãos nos joelhos, as sobrancelhas unidas, lutando para recuperar o fôlego, e diz:
— Ever... Eu... Eu não pretendia... — Ele balança a cabeça. — Precisa acreditar em mim. Pensei que você estivesse com problemas... Parecia que estava com problemas! Não viu o que eu vi... Você estava... Ele estava em cima de você... — E balança a cabeça. — E parecia que você estava lutando... Por dentro, como se não conseguisse lidar com aquilo, não conseguisse combater a atração que sentia por ele. E foi por isso que vim. Foi o único motivo de eu estar aqui. Sabia para onde você estava indo quando saiu da loja e não achei que estivesse pronta para tentar isso novamente. E quando cheguei aqui ainda agora ... E vi você daquele jeito... Bem, não queria que terminasse como da última vez e então... Eu só... Eu...
— Então você o matou? — Arregalo os olhos e minha garganta seca. Usou tudo que compartilhei com você contra mim e o matou?
Ele balança a cabeça e fica parado na minha frente. Está com a camiseta rasgada por eu tê-lo agarrado e jogado do outro lado da sala, a aura tremulando de angústia enquanto ele não para de mexer no anel de malaquita verde que tem na mão que usou para matar Roman.
— Você sempre vive falando sobre como ele é mau... Diabólico... Que lidera uma tribo de imortais perigosos ... E que, por culpa do encanto que lançou, parece não ter como resistir a ele. Você pediu ajuda a mim. Confiou primeiro em mim... Não em Damen. Escolheu a mim, Ever, goste ou não disso! E tudo que eu quis fazer foi salvar você... De Roman... De si mesma. Minha única intenção era... Cuidar de você... Proteger você!
— Era? — Estreito o olhar, uma nova ideia começando a tomar forma. - Era mesmo sua única intenção? De verdade?
— Do que está falando? — Ele revira os olhos, apertando os lábios e tentando entender minhas palavras.
— Sabe exatamente do que estou falando — digo, o corpo tremendo de raiva, revolta e frustração, agarrada à camisa de Roman, a camisa manchada de antídoto. - Fez isso de propósito. — Olho para ele, sem ter uma prova real de que seja verdade, mas, ainda assim, depois de ter dito as palavras em voz alta, a ideia começa a ganhar força e corpo, tanto que eu rapidamente as repito, arriscando-me mais ainda ao continuar: — Fez isso de propósito. Não foi um engano. Sabia exatamente o que estava fazendo quando veio para cá. Então é assim? É assim que acha que vai ganhar um jogo de quatrocentos anos? Essa é sua grande jogada? Tirar de mim, da garota que supostamente ama, aquilo que eu mais quero neste mundo? Assegurando-se de que eu nunca, nunca mais possa ficar com Damen? É desse jeito que está jogando, Jude? Realmente acha que isso vai fazer com que eu desista de minha alma gêmea e escolha você?
Balanço a cabeça e olho para a camisa de Roman, e meu coração quase para quando vejo a mancha que se espalha por ela, quando penso na vida triste e patética de Roman e no que agora aconteceu com sua alma. Sei que estava perto, tão perto de estabelecer uma conexão com ele, de fazer a diferença, de conseguir o que quero... e agora isso.
Tudo perdido em um instante.
— Ever... — Jude implora, a dureza de minhas palavras refletida em sua voz, em seus olhos, quando ele caminha em minha direção. Seus braços buscam por mim, mas não o deixo chegar perto, não deixo que me toque. — Como pode dizer isso? — ele pergunta, finalmente parando, reconhecendo a derrota. — Eu amo mesmo você. Sabe disso. Amei você por séculos, é verdade. Mas não armei a situação intencionalmente, para afastar você desse jeito de Damen. Você é importante demais para mim para eu fazer isso, e eu valorizo sua felicidade, como já disse antes. E quando você finalmente fizer sua escolha, quando escolher entre nós dois, quero que seja justo. Desta vez, estou determinado a fazer com que seja justo.
— Mas eu já escolhi — digo, minha voz agora um sussurro. Não desejo mais brigar. Estou me levantando da cama, ainda agarrada à camisa, quando Haven chega e me pega ali.
Seus olhos ardem enquanto ela observa a cena, imediatamente preenchendo as lacunas e juntando as peças quando vê a camisa de Roman em minhas mãos. — O que você fez? — diz, com a voz tão grave, tão ameaçadora, que um arrepio percorre minha espinha. — O que diabos você fez?
Ela puxa a camisa e a aperta contra seu peito coberto de renda enquanto seu olhar me avalia, presumindo que eu seja a culpada e ignorando quando Jude tenta se aproximar e assumir toda a responsabilidade.
— Eu devia ter percebido. — Ela balança a cabeça, os olhos quase completamente cerrados. — Devia ter percebido o tempo todo... Quando foi à minha casa e tentou ser gentil... Não estava sendo nem um pouco sincera... Estava me usando, brincando comigo, tentando extrair informações ... Tentando perceber quando eu ia sair para poder pegar Roman sozinho e então... Então matá-lo.
— Não é o que está pensando! — grito. — Não é nada disso! — Mas não importa quantas vezes eu repita, ela não aceita. Já formou sua opinião sobre mim, sobre Jude, sobre tudo o que acaba de acontecer.
— Ah, é exatamente o que estou pensando. — Ela me fuzila com os olhos, as mãos segurando os quadris cobertos de couro brilhante. — Exatamente. E acredite em mim, Ever, não vai se safar desta. Não desta vez. Não vai mais interferir em minha vida. Não vai mais tirar de mim as pessoas de quem eu gosto. Isto é guerra. Uma guerra definitiva. Vou fazer com que sua vida seja tão infeliz que vai desejar que seu único problema fosse não poder tocar em seu namorado. Não se engane: nunca viu algo como o que eu pretendo fazer com você. — Ela ergue a sobrancelha e mostra os dentes. — E Jude? — Sem perder tempo, ela se dirige a ele pela primeira vez desde que chegou. — Vai lamentar não ser imortal, porque, depois desta noite, não vai ser capaz de suportar o que está prestes a acontecer com você.

Um comentário:

  1. Merda do Jude! Poxa, por um triz eu pensei que o plano dela iria dar certo!
    Ass: Bina.

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