3 de novembro de 2015

Trinta e oito

Fico diante do grande portão de ferro que Damen destrancou com a mente, vendo-o acenar para que eu me junte a ele do outro lado. E, por mais tentada que eu esteja a fazer isso (e, acredite, estou extremamente tentada), se vou começar a ter uma vida normal, então preciso começar por aqui.
Agora.
Se vou começar a ter uma vida normal, então preciso parar de contar com a magia para me tirar de todos os problemas.
Faço que não com a cabeça, passo por seu olhar perplexo e sigo para a Administração, onde deixo a secretária em estado de completa agitação no segundo em que me aproximo da mesa e digo:
— Oi. Meu nome é Ever Bloom. Estou no último ano, e não apenas cheguei atrasada, como também praticamente perdi os últimos seis meses de aula. Gostaria de saber o que posso fazer para recuperar esse tempo.
Ela arregala os olhos enquanto me encara de cima a baixo, depois aponta para uma cadeira perto da parede e pede que eu me sente e não me mova nem um centímetro, enquanto se vira e vai ao mesmo tempo para o computador e para o telefone. Segura o fone entre o ombro e a orelha enquanto os dedos golpeiam o teclado, alertando o diretor, o vice-diretor, meus professores e Sabine, que já está bem ciente de meu plano e estava esperando por esta ligação. O destino de meu diploma está sendo decidido com pouca ou nenhuma participação minha, e, quando mencionam minha suspensão anterior, tenho certeza de que estou condenada. Mas, por sorte, graças à afiada capacidade de negociação de Sabine, eles me permitem tentar o que certamente consideram impossível: se eu conseguir compensar tudo o que perdi — cada uma das provas e dos trabalhos — nas próximas duas semanas, deixarão que eu me forme.
Seis meses de trabalhos negligenciados que devem ser feitos em apenas catorze dias para que eu use a beca e o capelo com o restante de meus colegas de turma. Caso contrário, não chegarei nem perto de me formar até o ano que vem, se me formar.
Com grande ênfase no se.
Certamente, se existe uma hora ideal para magia, materialização e viagens aos Grandes Salões do Conhecimento, essa hora é agora. Mas, embora eu me recuse a contar com meus poderes, nada me impede de contar com meus amigos — inclusive algumas pessoas que nem pensei que fossem meus amigos.
Então, quando colegas com quem mal troquei uma palavra me oferecem suas anotações, e quando Stacia e Honor (motivadas por Miles, mas ainda assim) se oferecem para me ajudar a recuperar toda a matéria de física que perdi, fico tão chocada que aceito. E, para alguém que evitou qualquer forma de estudo ou trabalho escolar por um ano, é um pouco difícil pegar o ritmo agora.
Também é impossível parar de intuir automaticamente o conteúdo dos livros de minha enorme pilha assim que toco na capa. Consigo me conter para não ler mentes, tudo que preciso fazer é baixar meu escudo paranormal ou usar meu controle remoto quântico, mas impedir a consciência universal que permite simplesmente intuir as coisas é algo que está além de meu poder. Então, em vez de lutar contra isso, decido usar a meu favor para encarar a pilha de leitura que me aguarda, tarefa quase impossível de se realizar do modo convencional. Além disso, ainda tenho que fazer redações, resolver todas as equações e memorizar as fórmulas, de modo que não é como se eu estivesse colando. Mas admito: quanto às provas de segunda chamada, bem, sim, todas as respostas certas aparecem automaticamente. De qualquer forma, também não há nada que eu possa fazer a respeito disso.
Mesmo assim, com a ajuda de meus amigos e meus poderes paranormais, é muita matéria para dar conta em tão pouco tempo. Por isso, enquanto me ocupo com as tarefas escolares, Jude e Ava se oferecem para ler os antigos diários de Roman, numa tentativa de rastrear todos os imortais espalhados pelo mundo — os órfãos que Damen transformou e aqueles que Roman considerou dignos ao longo desses anos. Ao mesmo tempo, Romy e Rayne reúnem seu talento de gêmeas criando convites feitos à mão para a festa e enviando-os a todos os cantos do planeta, enquanto Sabine lida com as inscrições de faculdades, tão atrasadas que, aparentemente, serei obrigada a tirar um ano de férias. O que deve ser a melhor coisa a fazer, pois há tanto tempo não penso em ter um futuro normal que nem sei por onde começar.
Sem contar que sempre presumi que, aonde quer que eu fosse parar, Damen estaria a meu lado.
Sempre presumi que partiríamos juntos, só nós dois.
Nunca considerei que poderia ficar sozinha.
Mas, já que não o vejo desde o dia em que o deixei parado no portão, devo admitir que essa possibilidade existe. Ele está evitando a escola. Está me evitando. E, embora eu esteja disposta a lhe dar o espaço que ele julga necessário, espero que, no final, decida se juntar a mim.
Apesar de todas as evidências apontarem para o contrário, tenho esperança de que, no fim das contas, ele faça a escolha certa.
Se não fizer, não sei o que será de mim. E talvez esse seja o motivo pelo qual aceitei de bom grado esse volume absurdo de trabalhos escolares. Isso tem me distraído do terrível e inevitável fato de que, se Damen não quiser comer do fruto, serei obrigada a fazer uma escolha impossível. Terei que optar entre uma vida equivocada como imortal — em que o universo continuará sempre conspirando para nos separar — e uma vida sem Damen, que é terrível demais para imaginar.
Então, no meio de tanto estudo, leitura, provas e redações, quase sem dormir para dar conta de tudo, finalmente encontro algum tempo para visitar Summerland.
Em parte por estar ansiosa para ver Lótus e contar quanto conquistei, mas também porque, bem, também estou ansiosa por ir até lá enquanto posso, enquanto ainda é uma questão de apenas visualizar o véu dourado e brilhante e passar para o outro lado. Quer dizer, mesmo que eu saiba que muitos mortais conseguem chegar lá, não tenho como saber se ainda conseguirei quando voltar a ser uma, portanto estou determinada a aproveitar enquanto posso.
Depois de passar alguns momentos maravilhosos no vasto campo perfumado em que aterrisso; depois de uma visita aos Grandes Salões do Conhecimento, onde paro diante da fachada mutante e revivo a empolgação de receber permissão para entrar; depois de visitar todos os meus lugares favoritos e os de Damen — a réplica de Versalhes que ele materializou especialmente para mim, o campo cheio de tulipas que cerca o pavilhão que ele fez para meu aniversário de dezessete anos —; depois de voltar ao lugar onde a grama antes era lama e as árvores estavam secas: a antiga entrada de Shadowland; depois de encontrar o caminho do belo lago ainda coberto pelas mais lindas flores de lótus; depois de tudo isso, ainda sem localizar Lótus, decido colocar um dos convites cor-de-rosa e preto feitos por Romy e Rayne embaixo de uma grande pedra na qual já a vi se recostar, na esperança de que ela o encontre.
Depois volto ao plano terreno, mergulho nos estudos e espero.
Espero notícias de Lótus.
Espero que comecem a chegar as confirmações de presença de todos os outros imortais.
Espero notícias de Misa, Marco e Rafe.
Espero para ver se vão permitir que eu me forme.
Espero para ver qual direção meu futuro venha a tomar.
Os dias vão passando com pequenas gotas de novidade — mas sem a notícia que desejo.
Nenhuma palavra de Damen.

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