2 de novembro de 2015

Trinta e oito

Ela olha para mim, claramente incapaz de acreditar no que acabou de ouvir.
Então repito, sem deixar margens a dúvidas:
— É sério. Não vou escolher. Não vou entrar neste jogo. Então parece que precisará inventar outra coisa... E que seja algo um pouco mais original, um pouco mais singular. Mas leve o tempo que for necessário. — Dou de ombros de forma deliberadamente calma e indiferente. — Não tenho pressa. Embora você possa querer pegar mais leve com o pobre do Jude. A não ser, é claro, que tenha decidido matá-lo mesmo e, nesse caso, sinta-se à vontade para apertar com mais força ainda e acabar logo com isso. De qualquer maneira, estarei bem aqui. Não vou a lugar algum até conseguir o que vim buscar.
Haven olha para mim e suas mãos começam a tremer por conta do esforço, a raiva tomando conta dela de novo. Seu olhar fatal, cheio de ódio, aponta em minha direção enquanto ela diz:
— Eu juro, Ever, vou queimar essa camisa matar Jude, e não há nada que possa fazer para impedir.
— Não, não vai. — Minha voz permanece firme enquanto olho fixamente em seus olhos. Noto que ela afrouxou as mãos só um pouquinho, e faço o que posso para não deixá-la perceber que vi, com medo de que simplesmente aperte mais e provoque dor em Jude de novo. — Conheço pelo menos dois bons motivos para que não nem tente.
Ela olha para mim, seu corpo todo tremendo cada vez mais, e rapidamente larga tudo o que estava segurando até agora.
— Um, porque já faz um bom tempo desde que bebeu pela última vez e já está começando a sofrer com a abstinência. — Balanço a cabeça e faço um som de desaprovação, manifestando uma expressão de pena. — Olhe só para você, Haven, está arrasada, trêmula, com os olhos fundos e o rosto abatido.
Levou anos, provavelmente séculos, para que Roman desenvolvesse tolerância a uma quantidade de bebida igual à que você vem tomando só nesses últimos poucos meses. Você não consegue lidar com isso, está muito além de sua capacidade. Apenas olha para você, está bem?
— E dois? — pergunta ela com a voz áspera, ácida, demonstrando sua extrema insatisfação a meu respeito.
— E dois. — Sorrio, sem nunca tirar os olhos dos dela. — Está prestes a ser minoria. Damen está aqui.
Posso sentir a presença dele, senti-lo passar pela entrada, correr pela porta da frente em direção ao labirinto do corredor. Aviso a Miles que se mantenha parado, não se envolta, nem se aventure a fazer nada ao entrar furiosamente na saleta, e Haven olha para eles. E vê Damen parado bem ao meu lado, enquanto Miles espia pela porta, recusando-se a obedecer ao aviso de Damen para que fique fora do caminho.
Ela estreita os olhos e diz:
— Ah, vejam só isso... Damen trouxe seu próprio reforço. Que fofo!
Eu me viro e vejo Miles de relance. Sua aura tem um brilho fraco e seus ombros estão encolhidos. Ele se arrepende do instante em que decidiu entrar nesta sala quando vê a aparência horrível de sua antiga melhor amiga.
Haven o fuzila com os olhos cheios de fúria e comenta:
— Escolheu o lado errado, Miles. — Ela estreita ainda mais os olhos, até o ponto em que tudo o que consigo ver são duas fendas vermelhas. — Não acredito que você se revelou um traidor.
Miles olha em seus olhos e, se está com medo, não demonstra. Ele apenas endireita as costas, firma os ombros e passa os dedos pelo cabelo. Sua aura se ilumina e fortalece quando ele diz:
— Não escolhi nada. Posso não concordar com suas decisões mais recentes, posso ter preferido me distanciar um pouco, mas até onde sei, nunca deixamos de ser amigos. Sério, Haven, até hoje, já passei por sua fase bailarina, por sua fase patricinha, por sua fase gótica, por sua fase emo e, agora, por sua fase de bruxa imortal superassustadora. — Ele levanta os ombros de forma casual e aproveita para olhar ao redor da sala. — E o fato é que não vou a lugar nenhum. Para começar, ainda não desisti de você, e depois, bem, estou curioso demais para ver que papel vai decidir representar da próxima vez.
Ela revira os olhos, com a voz mais áspera do que nunca e diz:
— Bem, odeio dar as más notícias, mas não haverá próxima vez, Miles. Quer você goste quer não, isso é tudo. Esta é minha versão nova e melhorada, infinita. Atingi todo o meu potencial. Sou tudo o que poderia querer ser.
Miles balança a cabeça.
— Realmente gostaria que repensasse isso, ou pelo menos olhasse para um espelho.
Mas, se ouviu o que ele disse, Haven escolheu ignorar, e em vez disso voltou a atenção para Damen.
— Então, Damen Auguste Esposito. — Ela sorri, o rosto brilhando a ponto de incomodar, os olhos injetados piscando. Usa um nome que foi atribuído a Damen muito tempo atrás, na época em que seus pais foram assassinados e ele foi entregue ao orfanato onde viveu até quando a peste negra devastou toda a região e ele se salvou fazendo o elixir. Um nome que ele não usa há pelo menos alguns séculos e que demorou um pouco para reconhecer.
— Sei tudo a seu respeito. Não tenho certeza se Ever mencionou, mas Roman guardava anotações muito boas, muito detalhadas. E você, bem, apenas digamos que foi um garoto muito, muito travesso, não é?
Damen dá de ombros, tomando cuidado para manter o rosto impassível, as emoções bem ocultas.
— Trouxe mais elixir para você. Deixei uma caixa grande na porta, e, acredite, há muito mais de onde aquele veio. Então, por que não vem comigo e dá uma olhada? Pode até provar, se quiser.
— Por que não poupa meus passos e os traz para mim? — Ela pisca, tentando sorrir de forma que costumava fazer: engraçadinha, encantadora, sedutora, com uma pitada de adorável estranheza. Mas está tão distante daquela antiga versão que acaba parecendo apenas sinistra. — Como pode ver, estou um pouco ocupada. Ever e eu estávamos apenas acertando os detalhes de um acordo que fizemos e, se não me engano, o fato de ter chamado você significa que ela não confia mais em mim. O que é bem irônico se considerarmos não só que foi ela quem me deixou deste jeito, mas, por tudo o que vi nos diários de Roman, bem, que ela não tem nenhum bom motivo para confiar em você também, não é?
— Já basta de falar dos diários. — digo, ansiosa por acabar com tudo isso. — Eu sei de tudo, Haven. Não sobrou nada para você se gabar por saber, então por que não...
— Está certa disso? — Seus olhos se alternam rapidamente entre nós, como se ela soubesse de algo que não sei e mal pode esperar para revelar.
— Sabe do passado dele com Drina? Como simulou a própria morte em um incêndio? Sobre a pequena escrava que tirou da família? Sabe de tudo isso? — Ela olha para nós todos, inclusive Jude, mas ele apenas devolve o olhar sem entregar nada.
— Ela sabe. — Damen olha para Haven. — E, por sinal, não tirei a escrava de ninguém, eu a comprei para poder libertá-la. Infelizmente, era como se fazia na época. Foi um período muito sombrio de nossa história. Mas não creio que esteja realmente tão interessada em relembrar isso. Então, por favor, não tome mais nosso tempo com essas coisas sem sentido. Apenas solte o Jude e entregue a camisa. Agora.
— Agora? — ela se recusa, arqueando a sobrancelha. — Ah, não, não creio que farei isso agora, ou em nenhum outro momento, para ser sincera. Não é assim que se faz neste jogo. Na verdade, isso é de certa forma contrário às regras. E, já que chegou tão atrasado para a festa, deixe-me explicar. Basicamente, uma escolha deve ser feita. Você pode: A: salvar Jude, ou B: salvar a camisa. Então, Damen, qual vai ser: a vida de uma pessoa ou seus próprios interesses? Parece com o que Roman obrigou a Ever a fazer quando ela me deu a bebida, bem aqui, nesta sala. Bem, pelo menos é o que ela alega. Não posso dizer ao certo, já que estava inconsciente. Embora lembre como as coisas aconteceram nesse sofá. — Ela aponta parta ele com a cabeça. — Esse, suponho, é o provável motivo de ela se recusar a jogar desta vez. Deve ser uma lembrança dolorosa, já que é bem óbvio que ela se arrepende dessa decisão. É bem óbvio que ela gostaria de ter me deixado morrer. Mas só porque ela não joga, isso não significa que você não possa. Então diga, Damen, como será? Apenas me diga, e o que escolher vai ser seu, e só seu!
Damen olha para ela e se prepara para se energizar, derrubá-la e pôr um fim a isso tudo.
Posso sentir o modo como sua energia muda. Posso enxergar o plano tomando forma em sua mente. Mas rapidamente lhe aviso para não fazê-lo, peço a ele que continue calmo e imóvel e não faça nada. Ela o está atormentando, esperando nada menos que uma chance para atacar de surpresa, e há muito em jogo para brincar desse jeito.
— Haven, ninguém vai escolher nada. — digo. — Porque ninguém aqui está participando de seu joguinho estúpido. Então por que não solta logo Jude, entrega a camisa e tenta retomar controle de si mesma e de sua vida? Acredite se quiser, ainda quero ajudá-la. Ainda quero deixar todas as coisas ruins para trás, para que possa se recuperar. É sério. Apenas...entregue a camisa, solte Jude e...
— Escolha! — Ela grita. Seu corpo inteiro treme tanto que meu estômago quase sai pela boca quando vejo quanto a camisa está perto das chamas. — Escolha logo de uma vez!
Embora ela esteja falando a sério, embora seus olhos brilhem de raiva, limito-me a olhar para ela e balançar a cabeça.
— Muito bem. — ela lança um olhar furioso. — se nenhum dos dois vai escolher, escolho por vocês. Mas se lembrem: tiveram suas chances.
Ela se vira para Jude, os lábios se abrem como se fosse dizer algo, que poderia ser adeus ou boa sorte ou já vai tarde ou... algo do tipo.
Mas não é verdade.
Ela está tentando nos enganar.
Tentando nos fazer pensar que Jude está prestes a morrer, quando nem se importa com ele.
É a mim que ela quer ferir.
É a mim que ela quer destruir.
E está determinada a levar todas as minhas esperanças e sonhos embora.
Então avanço.
Exatamente quando Damen avança para salvar Jude, e Jude avança para matar Haven.
Ele fecha o punho, mira bem no centro do tronco dela, no terceiro chacra, o ponto mais frágil de Haven, como eu havia ensinado a ele.
Só que não dá certo.
Damen o intercepta sem querer e o desvia de seu alvo no último segundo.
Enquanto isso Miles se apressa instintivamente para me ajudar, de forma nobre e estúpida, e cai na armadilha de Haven, que segura a camisa com uma das mãos e agarra seu melhor amigo de infância com a outra.
Seus dedos apertam com força a garganta de Miles enquanto ele chuta e engasga e luta para se libertar.
E basta ver seus olhos para entender que ela está agindo para valer.
Para entender que ela se tornou sombria e má.
Tudo o que compartilham nada significa para ela.
Haven tem toda a intenção de matá-lo sem motivo, apenas para me ferir.
Para me forçar a escolher, quer eu goste ou não.
Ela me lança um último riso sinistro enquanto aperta Miles tão forte que os olhos dele quase saltam das órbitas, e ao mesmo tempo grita de alegria enquanto solta a camisa, que é vorazmente envolvida pelo fogo.
Tudo se desenrola muito rápido, em menos de uma fração de segundo, apesar de parecer em câmera lenta para mim.
Seu rosto assustado, detestável e imoral parece radiante com a vitória, a sensação suprema... de me fazer sofrer.
Enquanto Damen se solta de Jude, puxo o punho para trás, relembrando a versão materializada desta cena que ensaiei por tantos meses, e percebo que não se parecia nem um pouco com a realidade que se desenrola à minha frente.
Principalmente porque não tenho arrependimento.
Nenhum motivo para me desculpar.
Nenhuma escolha a não ser matá-la antes que mate Miles.
Acerto o punho bem em seu peito, sentindo como o soco se conecta a se ponto fraco.
Vejo o lampejo de surpresa em seu olhar enquanto Damen arranca Miles de suas mãos e eu me jogo contra as chamas.
Minha carne chamusca, queima, forma bolhas, descasca.... a dor é quente e lancinante.
Mas eu não dou a mínima.
Simplesmente continuo, tentando alcançar, tentando agarrar, procurando.
Todo o meu foco é direcionado a uma única intenção: tentar salvar a camisa, apesar de ser tarde demais.
Apesar de ela ter sido completamente engolida, consumida pelas chamas, que não deixaram nenhum rastro de sua existência.
Mal noto o som dos gritos frenéticos de Miles e de Jude vindo de algum lugar atrás de mim.
Mal noto os braços de Damen tentando me agarrar, segurando-me, acalmando-me, puxando-me para fora do fogo e abafando o inferno que consome minhas roupas, meu cabelo, minha carne.
Ele me aperta com força contra o peito, sussurra em meu ouvido várias vezes que tudo vai ficar bem, que encontrará uma solução. Que a camisa não importa. O importante é que Miles e Jude estão a salvo e ainda temos um ao outro.
Ele me implora que eu feche os olhos, que olhe para o outro lado e evite a horrenda cena de minha ex-melhor amiga cambaleando, ofegando, morrendo.
Mas não lhe dou ouvidos.
Deixo que meus olhos encontrem os dela.
Vejo seus cabelos emaranhados, seu olhar vermelho brilhante, suas bochechas afundadas, seu corpo esquelético, sua expressão de loucura e sua voz cheia de ódio total e absoluto quando grita:
— Isso é culpa sua, Ever. Foi você quem me deixou desse jeito! E agora vai pagar por isso... Juro que vai..
Não consigo parar de olhar mesmo depois que ela se desintegra, se quebra e rapidamente desaparece.

3 comentários:

  1. Essa saga parece q é sobre a luta da Ever para perder a virgindade! Kkkkkk e cada vez fica mais difícil

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  2. Pelo menos Ever morreu agora é só tentar encontrar outro antidoto.

    ISSO É SE NINGUÉM QUISER ATRAPALHAR NEH

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  3. Mds. Concordo totalmente com o primeiro comentário, eu só tô lendo essa bosta pra ver logo o capítulo que ela tira o cabaço. E vou ficar muito irada se nem isso tiver até o fim da saga, espero de coração que a demora valha a pena, que a droga da autora tenha descrito os mínimos detalhes pra compensar essa demora.

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