3 de novembro de 2015

Trinta e nove

Talvez eu tenha me empolgado.
Talvez tenha idealizado demais.
Mas, no final, sinto dizer que a formatura é... bem... um pouco frustrante.
Não me entenda mal, é bastante organizada, corre tudo bem. Na verdade, é bastante parecida com o que se vê em filmes e na TV, com capelos e becas, discursos: risada, lágrimas, lembranças, promessas entusiasmadas de manter contato. Mas, apesar de Sabine e Muñoz estarem no meio da multidão sorrindo e acenando sempre que olho para eles (e mesmo quando não olho), apesar de Miles, Honor e (ainda é um pouco chocante para mim, mas estou começando a me acostumar) Stacia assobiarem, aplaudirem e torcerem por mim quando é minha vez de subir ao palco... falta Haven. Falta Damen.
E são essas duas ausências que praticamente apagam todo o resto.
Então, quando jogo o capelo para cima, aproveito para fazer um pouco de magia. Mando-o para bem alto no céu, muito mais alto que todos os outros, e o observo descendo primeiro na forma de uma tulipa, depois na de um símbolo de infinito, até que o deixo voltar ao normal, observando-o em queda livre na direção do chão.
Estou indo até Sabine e Muñoz quando Stacia me encontra na multidão, passa o braço pelo meu e diz:
— Então nos vemos na festa? — Ela corre os dedos pelos longos cabelos cheios de mechas louras e me encara.
Pisco ao observar sua aura amarelo-brilhante, surpresa por ver que ela está sendo sincera.
Antes que eu possa responder, Honor nos alcança e diz:
— Pensamos em chegar um pouco antes, para ajudar você na arrumação. Olho para as duas e me pergunto quando me acostumarei com esse novo lado delas. Apesar do esforço conjunto para me ajudarem a chegar até aqui, cada gesto amável que elas fazem chega a mim como uma grande surpresa, e sei que isso não é nada justo. Elas estão se esforçando tanto para melhorar que o mínimo que posso fazer é permitir.
Stacia levanta a cabeça, esperando que eu responda, enquanto Honor gira o anel de malaquita de Jude no dedo.
— Hum, é muito gentil de sua parte, mas vocês não precisam ir. É sério. — Espero que elas não me entendam mal, mas não sei se as quero lá. — Quer dizer... sei que têm coisa melhor para fazer, festas mais legais para ir, então ...
— Melhor que essa festa? Duvido! — Stacia me lança um daqueles habituais olhares que dizem você está louca e depois, lembrando que não faz mais aquilo, rapidamente muda a expressão. — Além disso, já temos as fantasias e tal! — Ela olha para Honor a seu lado, que confirma com a cabeça. — Depois de tudo o que fizemos para ajudá-la a se formar, não pode nos desconvidar agora!
Fico boquiaberta, surpresa por ouvir aquilo, já que não me lembro nem de tê-las convidado. Mas também, eu não estava encarregada dos convites; era tarefa das gêmeas. E nem sabia que ia ser uma festa à fantasia. Na verdade, não tenho ideia de como isso aconteceu, como elas sequer sabem da festa, como o evento ganhou essa proporção. Quer dizer, a princípio, era para ser uma pequena reunião. Apenas imortais. Não imaginava que se transformaria na maior festa de formatura de todas. O acontecimento mais esperado do ano.
— Eu dei um duro danado para fazer minha fantasia — diz Stacia, em tom acusador. — De jeito nenhum você vai me impedir de usá-la. Todos vão enlouquecer quando virem!
— A de Jude é surpresa — diz Honor. — Mas ele disse que não será surpresa para você, que já a viu. — Ela olha para mim de um jeito que demonstra que já sabe de tudo o que há para saber sobre mim e Jude e que ainda não tem certeza de como se sente a respeito disso. — Mas eu também tenho uma surpresinha. Algo que Romy e Rayne me ajudaram a bolar.
— Estou bastante animada. Acredite, Ever, essa festa será épica. E você está louca se acha que uma de nós a perderia!
Fantasias?
Épica?
E eu que achava que seria algo para convencer um punhado de imortais a comer do fruto.
— Você viu os convites, não viu? — pergunta Stacia, passando os olhos sobre mim.
Faço que não com a cabeça, percebendo tarde demais que não os vi. Só vi o envelope preto e cor-de-rosa que deixei perto do lago. Nem me ocorreu olhar o que havia dentro. Estava tão sobrecarregada com o que tinha que fazer para me formar que nem pensei em perguntar nada. Não me ofereci para dar palpite no planejamento, nem quis saber como estava indo a preparação. Todos pareciam tão felizes com suas tarefas que deixei por conta deles, pensando que só precisaria aparecer na hora certa, com o fruto — mas agora parece que preciso de uma fantasia também.
— Certo, pois fique sabendo que é uma festa "Venha do Jeito que Você Era". Entendeu? Como era em uma vida passada — diz Stacia. — E fique sabendo que nós vamos, queira você ou não. — Ela me lança um olhar desafiador, do tipo que me lembra os velhos tempos, quando cheguei aqui e ela me perseguia sem dar trégua.
A única diferença é que, ao contrário de antes, desta vez eu mereço. Ela se esforçou muito para me ajudar a mudar o rumo das coisas, cedeu seu tempo generosamente, e o mínimo que posso fazer é reconhecer seu empenho e o avanço enorme que fez.
— Ainda vai ser na casa de Ava? — pergunto, imaginando como todos caberão em sua casinha agora que a lista de convidados se multiplicou.
— Não. — Miles sorri, parando ao lado de Honor e se intrometendo na conversa. — Vai ser em sua casa. E, acredite, Sabine e Muñoz vão bancar tudo, sem medir gastos. Esse evento vai superar aquela sua festa de Halloween. — Ele confirma com a cabeça. — Então, se eu fosse você, iria para casa materializar uma boa fantasia, tipo... agora. Porque a festa começa às sete.

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