2 de novembro de 2015

Trinta e nove

— Você tinha que fazer isso. — Damen olha para mim com a expressão séria, as sobrancelhas arqueadas de preocupação. — Tomou a atitude certa, não tinha escolha.
— Ah, sempre há uma escolha. — Suspiro, encontrando seu olhar. — Mas a única razão que faz com que me sinta mal é a pessoa que ela se tornou, a forma que escolheu para usar seu poder, sua imortalidade. Não me sinto mal pela escolha que fiz. Sei que fiz a coisa certa.
Ponho a mão no ombro de Damen e deixo que me envolva com o braço. Imagino que, apesar de saber que fiz a única escolha que as circunstâncias realmente permitiam, isso não torna a situação mais fácil. De qualquer forma, decido não dizer isso, para não deixar Damen mais preocupado.
— Sabe, um de meus professores de teatro costumava dizer que é possível saber muito sobre uma pessoa vendo como reage em momentos de grande estresse. — Miles alterna o olhar entre nós, com o pescoço ainda marcado e avermelhado, a voz rouca e áspera, mas, ainda bem, já se recuperando. — Ele disse que o verdadeiro caráter é revelado pelo modo como as pessoas reagem aos maiores desafios de sua vida. E, embora eu certamente concorde com isso, também acho que o mesmo se pode dizer sobre como as pessoas lidam com o poder. Odeio dizer isso, mas não estou tão surpreso assim com a reação de Haven. Acho que todos nós sabemos que ela era assim. Voltando a época do ensino fundamental, e até onde consigo me lembrar, ela sempre teve esse lado realmente sombrio. Sempre foi movida pela inveja e a insegurança. Acho que o que quero dizer é que não foi você que a deixou daquele jeito, Ever. — Ele olha para mim com os olhos injetados e o rosto pálido, mostrando sua dor por ter perdido uma amiga, por quase ter sido assassinado por ela, mas ainda assim desesperado para que eu acredite no que diz.
— Ela simplesmente era como era. E, assim que percebeu o poder que tinha, assim que começou a achar que era invencível, bem, ela apenas se tornou mais ainda ela mesma.
Olho para Miles, agradecendo silenciosamente e acenando com a cabeça.
Então dou uma espiada rápida em Jude, que está num canto, examinando a pilha de pinturas a óleo encostada à parede, determinado a manter-se em silêncio, ficar na dele, sentindo-se responsável por tudo o que acabou de acontecer e arrependido por, mais uma vez, ter atrapalhado muito meus planos.
E, ainda assim, apesar de desejar que ele não tivesse agido daquela forma, apesar de ter definitivamente resultado em um desastre de proporções colossais, também sei que ele não fez de propósito. A despeito de sua tendência em interferir em minha vida, sempre dando um jeito de se colocar entre mim e o que mais desejo neste mundo, não é como se ele estivesse tentando ficar em meu caminho. Não é nem um pouco intencional. Na verdade, é quase como se ele fosse induzido a fazer isso.
Como se fosse guiado por alguma força superior, embora eu nem tenha certeza do que isso significa.
— Então, o que vamos fazer com todo o restante dos objetos? — Miles pergunta, depois de já ter ajudado Damen e eu a recolhermos os diários de Roman, ou pelo menos todos que conseguimos encontrar.
A última coisa de que preciso é que outra pessoa depare com eles e leia o relato em primeira mão sobre a muito extravagante (e extravagantemente longa!) vida de uma pessoa muito extravagante — mesmo que provavelmente a pessoa apenas suponha se tratar de uma obra de ficção.
— Vamos encaixotar e doar para a caridade, acho — diz Damen, passando a mão por minhas costas enquanto observa uma casa completamente abarrotada com todos os tipos de antiguidades de épocas diferentes. Basicamente tudo o que antes ficava guardado em um depósito ou na loja foi trazido para cá. Embora ninguém saiba o que Haven planejava fazer com isso. — Ou fazemos um bazar e doamos o dinheiro para a caridade — Ele dá de ombros, parecendo um pouco impressionado com a tarefa.
Ao contrário de Roman, Damen nunca foi um acumulador. Ele deu um jeito de sobreviver por séculos apenas com os itens de que precisava no momento, guardando só os que realmente tinham significado para ele. Mas Damen sabe como materializar coisas. Sabe que o universo é verdadeiramente cheio de recursos. E Roman nunca adquiriu esse dom, provavelmente nem sabia que era possível, e em vez disso se tornou ganancioso, acreditando que nunca era o bastante e que, se não agarrasse algo, outra pessoa o fariam então era melhor que ele alcançasse primeiro.
As únicas vezes em que esteve disposto a ceder ou desistir de algo foi porque isso resultaria em um benefício maior para ele.
— Por outro lado, se vir algum objeto que realmente queira, sinta-se à vontade para pegar — ele continua. — Não vejo razão para manter isso, nada disso me interessa.
— Tem certeza? — Jude pergunta, falando pela primeira vez desde que tudo aconteceu. Desde que matei minha ex-melhor amiga e a mandei direto para Shadowland. — Nada interessa a você? Nem mesmo isto?
Eu me viro, todos nos viramos e damos de cara com Jude parado à nossa frente, com as sobrancelhas levantadas, as covinhas totalmente visíveis, segurando uma tela com uma pintura a óleo gloriosa e vibrante, o retrato de uma bela garota de cachos castanho-avermelhados em um campo sem fim de tulipas vermelhas.
Eu suspiro. Engulo um bocado de ar, instantaneamente reconhecendo aquela garota como eu... eu de minha vida em Amsterdã... Mas incerta sobre quem seria o artista.
— É bonito, não? — Jude alterna o olhar entre nós dois, embora termine fixando em mim. — Caso esteja se perguntando, está assinado por Damen. — Ele mostra o rabisco feito à mão no canto inferior, à direita. Balançando a cabeça, prossegue: — Eu era bom em minha vida anterior, sem dúvida. Pelo que vi em Summerland, Bastiaan de Kool certamente foi bastante talentoso... Teve uma boa vida também. — Ele sorri. — Mesmo assim, por mais que tenha me esforçado, nunca consegui retratá-la da forma que Damen fez. — Ele dá de ombros. — Simplesmente parece que não consegui dominar essa... técnica.
Ele me entrega a pintura, enquanto meus olhos continuam a observá-la. Vejo como tudo está lá: eu, as tulipas e, apesar de Damen não ter sido representado, consigo sentir sua presença.
Consigo ver em cada pincelada o amor que sentia por mim.
— Eu não me apressaria em encaixotar tudo antes de dar pelo menos uma boa olhada — diz Jude. — Quem sabe que outros tesouros podem estar aqui?
— Quer dizer, como este? — Miles veste o robe preto de seda que Roman usou na noite de meu aniversário de dezessete anos, a noite que chegou tão perto de dar tragicamente errado, até o momento em que finalmente criei a coragem, encontrei a força em meu coração para tirá-lo de cima de mim. — Devo ficar com ele? — pergunta, amarrando a faixa bastante apertado ao redor da cintura e fazendo uma série de poses, como se fosse um modelo. — Bem, se me pedirem para fazer um teste para o papel de Hugh Hefner, tenho a roupa perfeita para usar.
E começo a dizer não.
Começo a pedir-lhe para, por favor, apenas tirar aquilo e deixar num canto.
Começo a explicar como aquilo carrega lembranças ruins demais para mim.
Mas então me lembro do que Damen disse uma vez sobre lembranças, que elas são coisas que assombram.
E por me recusar a ser assombrada pelas minhas, apenas respiro fundo, sorrio e digo:
— Sabe, acho que fica ótimo em você. Deve mesmo ficar com ele.

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