3 de novembro de 2015

Trinta e dois

Logo depois que alcanço o topo — logo depois que me ergo sobre a saliência e me deito de bruços, ofegando na terra —, levanto-me e corro como o vento.
Ignoro a dor lancinante em minhas pernas e os pés machucados e uso todos os poderes imortais que tenho para encontrar o caminho ao longo da raiz com alguma velocidade. Às vezes tropeço, às vezes caio, mas sempre me levanto rapidamente e sigo adiante, ciente de que preciso chegar lá antes que seja tarde demais, que estou tão para trás que não tenho tempo a perder.
Preciso me virar sem a ajuda da lanterna, que deve ainda estar em queda livre na fenda, com minha mochila. Atravesso a neblina até que a trilha se torna menos traiçoeira, mais fácil de seguir, chegando a um ponto em que finalmente tudo se resume a uma questão de sobreviver à escalada, seguir adiante e me ajustar à altitude cada vez maior.
Uma altitude cada vez maior, do tipo que nunca enfrentei antes.
Uma altitude cada vez maior, que me deixa tonta, sem fôlego, e que certamente exigiria o uso de um tanque de oxigênio se eu estivesse no plano terreno.
E, antes mesmo que eu possa ver, sei que estou perto.
Pelo modo como o céu escurecido começa a brilhar e cintilar.
Pelo modo como a névoa começa a vibrar e pulsar.
Palpitando com todo um espectro de cores — um arco-íris em tons brilhantes de azul, rosa, laranja e violeta —, todos reluzindo com os mais belos pontos prateados e dourados.
Corro ao longo da enorme raiz, notando como ela se eleva e cresce, ficando mais alta e larga ao se misturar a outras raízes, emaranhando-se e entrecruzando-se em um sistema complexo que, pelo que posso ver, parece se estender por quilômetros e quilômetros até chegar a um tronco enorme que mal consigo enxergar daqui.
Faço uma pausa, sem fôlego tanto pelo brilho da visão que se revela diante de mim como pela caminhada. Absorvo a vista maravilhosa — sua largura surpreendente, os galhos que atingem vários quilômetros na direção do céu, as folhas cintilantes que passam do verde ao dourado, a aura vibrante que emana à sua volta —, e noto que o ar fica mais quente apesar da altitude, quando deveria ser exatamente o contrário.
— Então é isso — sussurro para mim mesma, como se estivesse em transe, tomada pela admiração, tão dominada pelas cores que me esqueço de meus inimigos por um instante, me esqueço da dor.
Pelo menos neste momento sou uma pioneira, uma peregrina, uma fundadora desta fronteira maravilhosa. Estou tão espantada com o que testemunho que fico completamente sem palavras. Nenhuma declaração seria capaz de fazer justiça ao que vejo.
Achava os Grandes Salões do Conhecimento incríveis, mas isto... bem... nunca vi algo assim. Nunca vi algo tão magnífico.
Mas minha perplexidade logo passa e volto a ficar alerta. Meu olhar inicial de arrebatamento se transforma em suspeita enquanto observo em volta e analiso atentamente, procurando sinais de meus companheiros de viagem.
Lembro como os olhos de Rafe brilharam em uma ameaça velada quando alegou que o fruto seria dele, e sei que a melhor forma de superá-los é surpreendendo-os, pegando-os desprevenidos. Completamente desavisados.
É melhor ficar quieta, me movimentar em silêncio, não dar qualquer indício de que consegui voltar.
Sigo pelo longo e sinuoso emaranhado de raízes até enfim progredir o suficiente para ter uma visão clara do enorme tronco. Ele tem a largura de um prédio — seus galhos chegam tão alto que parecem arranha-céus da natureza. Acabo de chegar à base quando os vejo.
Vejo-os sangrando e tão acabados como eu mesma devo estar — e sei que eles fizeram isso uns com os outros, que brigaram muito para chegar primeiro à árvore. Apesar de estar sozinho contra Misa e Marco, parece que Rafe ganhou a briga.
Ele está pendurado em um galho — alguns metros acima de outro, em que Misa e Marco se seguram.
E, se aquela visão já não fosse ruim o bastante — se o fato de terem conseguido me vencer com folga já não fosse totalmente desanimador —, o pior é que Rafe não apenas superou todos nós, como também já está com o fruto nas mãos.
Ele conseguiu.
Fez o que eu não consegui.
Posso ver em seu sorriso vitorioso. Posso ouvir em seu grito de triunfo.
Ele ganhou.
Nós perdemos.
Eu perdi.
E devem se passar mil anos até que tenhamos outra chance.
Mas, apesar da óbvia derrota, nada me impede de tentar uma disputa insana. Meus dedos agarram com força na casca da árvore enquanto meus pés procuram desesperadamente um apoio. Mesmo que o fim do jogo esteja claro, mesmo que Rafe seja o vitorioso, eu me recuso a me render. Eu me recuso a perder.
Ele não vai roubar meu destino.
Não vai ficar com minha última chance de acertar as contas com o universo.
Não vou esperar mais mil anos.
Seus olhos de repente me encontram, e ele parece se divertir com meu esforço. Ele ergue o fruto no ar, alto o suficiente para que todos nós o vejamos, e faz uma pausa, saboreando o momento da vitória.
Então abre um grande sorriso e, sem tirar os olhos de mim, enfia o fruto entre os dentes e dá uma mordida.

2 comentários:

  1. ele é idiota acra q vai ficar imortal

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  2. Acho que é uma prova e ele vai morrer! ;)

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