2 de novembro de 2015

Trinta e dois

— Então, como foi? — Olho de relance para Damen e o vejo se ajeitar no banco do passageiro e fechar a porta enquanto me afasto do meio-fio.
— Bem... — ele balança a cabeça, fechando os olhos por um instante enquanto abaixa a capota com a mente, e inspira bem fundo o ar frio da noite para depois olhar para mim e dizer:
— Vamos surfar neste fim de semana.
Fico boquiaberta, um pouco mais que surpresa por ouvir aquilo. Pensei que ele teria sorte se conseguisse o cessar-fogo, mas nunca nem de longe considerei que pudessem se tornar amigos.
— Então, é tipo um encontro? — provoco, imaginando quanto tempo faz desde a última vez que Damen pôde ter um amigo, um amigo real e verdadeiro, um que de fato soubesse a verdade a seu respeito.
— Nunca. — ele olha de relance para mim. — Nunca tive um amigo que soubesse a verdade a meu respeito. E, para ser sincero, faz muito, muito tempo desde que tentei me relacionar assim com alguém. — Ele desvia o olhar, prestando atenção às lojas, às arvores, aos pedestres que lotam as calçadas e as ruas, depois se vira e diz: — As amizades sempre foram muito curtas para mim, já que não tinha escolha senão mudar de lugar a cada certa quantidade de anos. As pessoas desconfiam quando se permanece exatamente igual enquanto elas envelhecem e, depois de algum tempo, bem, apenas parece mais fácil evitar esse tipo de situação.
Engulo em seco e tento me concentrar no trânsito. Ainda que não seja a primeira vez que ele me conta isso, não significa que seja mais fácil de ouvir. Especialmente quando relaciono isso a mim, à minha vida e à longa lista de despedidas que tenho pela frente.
— Importa-se de me levar para casa? — ele pergunta.
O pedido me arranca de mais meus pensamentos enquanto olho para ele boquiaberta com a surpresa. Tinha certeza de que tentaria me arrastar para o pavilhão novamente e, para ser sincera, não planejava recusar.
— Miles vai se encontrar comigo lá em casa. Disse a ele que o ajudaria a decorar algumas falas de uma peça para a qual vai fazer um teste.
Balanço a cabeça e rio, virando à direita na Coast Highway antes de dar uma espiada rápida nele.
— Tem algum tempo aí para mim, sabe, no meio de todos esses seus compromissos? — provoco apenas um pouco enquanto acelero e passeio pelas curvas sinuosas.
— Sempre. — Ele sorri, inclinando-se para me beijar, mas acaba me distraindo tanto que quase saio da estrada com o carro.
Eu o empurro e acerto o volante. Olho para o mar, observo as ondas se transformando em espuma branca ao quebrarem na praia, limpo a garganta enquanto me volto para ele e digo:
— Damen, o que vamos fazer a respeito do antídoto? — Vejo seus ombros enrijecerem, sinto sua energia se alterar, mas ainda assim vou em frente, pois sei que isso precisa ser dito. — Bem, estou totalmente comprometida com você, conosco, acho que a essa altura já sabe disso. E, por mais que goste do tempo que passamos no pavilhão, bem... — Engulo em seco. Nunca fui muito boa em discutir esse tipo de assunto, sempre acabo com o rosto corado, constrangida, atropelando as palavras, mas, ainda assim, estou determinada a chegar ao ponto. — Sinto sua falta. Sinto falta de poder tocá-lo nesta vida. Sem dizer que esperava que um dia pudéssemos quebrar esse encanto de quatrocentos anos e...
Reduzo a velocidade em frente ao portão dele para acenar para Sheila, que nos faz um sinal para entrar. Subo a colina e passo pela série de curvas que levam à rua dele. Depois paro na entrada da casa e me ajeito no assento até ficar cara a cara com ele.
Estou quase completando o raciocínio quando ele diz:
— Ever, eu sei. Acredite, sei mesmo. — Ele se aproxima, passa a mão em meu rosto, com os olhos fixos nos meus. — e não desisti. Até cheguei ao ponto de transformar a adega em um tipo de laboratório de química. Tenho passado cada minuto livre lá, na esperança de poder fazer uma surpresa para você.
Arregalo os olhos, tentando calcular exatamente quanto tempo se passou desde que apareci na casa de Damen pela ultima vez, percebendo que já faz bastante. Quando não o estava evitando por um motivo ou outro, ou estávamos treinando ou namorando no pavilhão.
— Mas se a adega é um laboratório de química, onde guarda o elixir? — pergunto, franzindo a sobrancelha enquanto tento imaginar a resposta.
— Na nova adega, que fica onde costumava ser a lavanderia.
— E a lavanderia?
— Já era. — Ele ri. — Mas até aí, nunca vi razão para ela existir, já que posso materializar roupas novas e limpas sempre que precisar. — Mas seu sorriso largo desaparece quando diz: — Ever, não quero aumentar suas expectativas, porque, embora não tenha desistido, bem, pelo menos até agora, tudo está seguindo bem devagar. Não tenho ideia do que Roman colocou naquela bebida, mas tudo o que tentei até agora deu errado.
Suspiro, pressionando a bochecha com força contra a palma de sua mão, quase sentindo sua pele contra a minha. Digo a mim mesma que é o bastante, que sempre será o bastante, mas, apesar de estar totalmente comprometida com isso, não consigo evitar querer mais.
— Temos que pegar aquela camisa. — Olho nos olhos dele. — Temos que encontrá-la. Sei que ela ainda a tem. Não se livraria dela de forma alguma. Ou a está guardando por razões sentimentais ou porque sabe do valor que tem para mim, ou ambos. Mas, de um jeito ou de outro, é praticamente nossa única esperança a esta altura.
Ele olha para mim exatamente do mesmo jeito que fez da ultima vez em que discutimos isso, concordando plenamente que ela é mesmo importante, mas nada disposto a depositar todas as esperanças nisso.
— Certamente não é nossa única esperança. — diz.
Mas balanço a cabeça. Não sou paciente como ele. Não quero gastar os próximos anos em breves reencenações das minhas várias vidas passadas só para que possamos desfrutar um pudico contato corporal de vez em quando, enquanto ele perde tempo com besteiras em sua ex-adega-transformada-em-laboratório. Quero desfrutar esta vida. A que estou vivendo agora.
Quero desfrutá-la de forma tão completa e normal quanto qualquer outra garota faria.
E quero desfrutá-la ao lado dele.
— Não tenho como convencê-la a não fazer isso, tenho? — ele diz, com tanta resignação na voz quanto no suspiro.
Faço novamente que não com a cabeça.
— Então vou com você.
— Vai aonde? Não disse que ia a lugar nenhum.
— Hã, talvez não, mas certamente há um plano tomando forma. Posso ver em seus olhos. Então é melhor abrir espaço para mais um, porque vou junto.
— Não, fique com Miles, eu ficarei bem. É sério.
Apesar de meu protesto, ele pega o telefone e envia uma mensagem a Miles dizendo que tem uma missão a cumprir e que por isso se atrasará um pouco.
— Então, por onde começamos? — pergunta, colocando o celular no bolso.
— Pela loja. — Faço um sinal com a cabeça, tendo acabado de confirmar a ideia para mim mesma. — Mas, é sério, não precisa ir, ficarei bem sozinha — continuo, dando a ela uma última chance para voltar atrás.
— Esqueça. — Ele recoloca o cindo de segurança. — Vou junto, goste você ou não. E só para que saiba, toda essa rejeição, bem, está mesmo começando a me deixar complexado.
Olho para ele, sem a mínima ideia do que quis dizer com isso.
— A última vez. Quando invadiu a casa de Haven e preferiu arrastar Miles em vez de me levar.
Olho para ele, pensando que não arrastei Miles, sem contar que na verdade nem tive a chance de convidá-lo, já que estava ocupado protegendo Stacia. Mas, por outro lado, não é isso o que importa. O que realmente quero saber é como ele descobriu isso quando nem cheguei a inteirá-lo de todos esses detalhes ainda.
— Miles me contou. — ele diz, respondendo ao meu pensamento.
Dou uma espiada pela janela, com os olhos semicerrados, e digo:
— É assim que vai ser, agora que você é o Sr. Popular com todos os seus novos amigos? — E me viro para ele. — Vai passar todo o seu tempo livre convencendo-os a revelar meus segredos?
— Só as partes boas. — Damen sorri, encostando brevemente os lábios nos meus enquanto dou a ré na entrada de sua casa e sigo em direção ao portão. — Só as partes que preciso saber de verdade.

2 comentários:

  1. Jude e Damen amigos?! Isso vai ser demais!
    Ass: Bina.

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