2 de novembro de 2015

Trinta e dois

Queria poder dizer que as palavras de Haven não me incomodaram. Que fui capaz não só de refutá-las, mas também de contra argumentar de forma tão convincente que ela imediatamente ficou do meu lado. Mas a verdade é que não fiz nem disse muita coisa. Só dei de ombros, fingindo não dar importância, e ela tocou um monte de músicas que tinha no iPod e que eu nunca tinha ouvido, de bandas que eu nem sabia que existiam, e folheamos uma pilha de revistas. Nós duas passando o tempo juntas do mesmo jeito que costumávamos fazer. Como nos velhos tempos. Mas isso era o que parecia superficialmente. No fundo, ambas sabíamos que tudo era, agora, completamente diferente.
Depois que fui embora, enquanto estava na casa de Damen, as palavras de Haven continuaram ecoando em minha mente, e fiquei me perguntando qual de nós dois amava mais o outro. E, para ser sincera, as palavras continuam comigo até hoje. Durante todo o café da manhã com Sabine fiquei imaginando; durante toda a reposição das prateleiras, com todo o tilintar da caixa registradora na loja, perguntei a mim mesma: era eu ou ele? Mesmo depois de todas as leituras que estavam agendadas para — Avalon—, incluindo a que estou terminando agora, a pergunta continuou ecoando em minha mente.
— Uau, isso foi... — Ela olha para mim com os olhos arregalados de surpresa. — Isso foi extraordinário mesmo, mesmo, mesmo. — Balança a cabeça e tateia a bolsa, no rosto uma mistura de empolgação, dúvida e vontade de acreditar, o olhar que vejo habitualmente depois das leituras.
Concordo com a cabeça, sorrindo educadamente enquanto recolho as cartas de tarô que havia espalhado só para disfarçar, mas que não uso de fato. É mais fácil simplesmente ter algum tipo de objeto ou ferramenta... Fica mais distante e impessoal desse jeito. A maioria das pessoas surta com a ideia de alguém ser capaz de espiar sua cabeça e ouvir todos os seus pensamentos e sentimentos mais profundos, ainda mais se souber que um breve toque pode revelar uma longa e complexa sequência de eventos.
— É que... Você é tão mais Jovem do que eu esperava. Há quanto tempo faz isso? — ela pergunta, pendurando a bolsa no ombro enquanto continua a me analisar com os olhos.
— Ser médium é um dom — digo, embora Jude tenha me pedido especificamente para não dizer isso, imaginando que desestimularia eventuais alunos a se matricularem em sua aula de desenvolvimento mediúnico. Mas, já que o curso ficou praticamente reduzido a ele e a Honor, realmente não vejo que mal isso pode causar. — Não tem limite de idade — continuo, apressando-a mentalmente para que pare com o deslumbramento e vá embora. Tenho planos, outro lugar para ir. Minha noite está cuidadosamente planejada, tim-tim por tim-tim, e se ela ficar por muito mais tempo vai bagunçar completamente minha agenda. Mas, ao ver um olhar de ceticismo começando a se formar, digo: — É por isso que para as crianças é tão natural, elas estão abertas a todas as possibilidades. Só mais tarde, ao descobrir como a sociedade franze a testa para esse tipo de dom, é que o desejo de ser aceito toma conta e as pessoas passam a esconder. E você? Não tinha um amigo imaginário quando era criança? — Volto meu olhar para ela, sabendo que teve, porque vi no momento que a toquei.
— Tommy! — diz ofegante, colocando a mão sobre a boca, surpresa por ter deixado escapar.
Sorrio, pois eu mesma já havia visto.
— Ele era real para você, certo? Ajudou a enfrentar momentos difíceis? Ela olha para mim com os olhos arregalados, balança a cabeça e diz:
— Sim... Ele... Bem... Eu costumava ter pesadelos, — Ela levanta os ombros e olha em volta como se estivesse constrangida pela confissão. — Quando meus pais estavam se divorciando, bem, tudo era tão instável, financeira e emocionalmente, e foi aí que Tommy apareceu. Ele prometeu que me ajudaria a superar, a manter todos os monstros longe, e foi o que fez. Acho que parei de ver Tommy na época em que completei...
— Dez anos. — Levanto-me da cadeira, uma indicação de que a sessão terminou e de que ela deve fazer o mesmo. — O que, para ser sincera, é uma idade mais avançada do que a maioria das pessoas, mas, ainda assim, você não precisava mais dele e então ele... Partiu. — Balanço a cabeça, abrindo a porta e levando-a para o salão, onde, espero, seguirá para o caixa para fazer o pagamento.
O problema é que ela não vai até o caixa. Em vez disso, vira-se para mim e diz: — Você tem que conhecer minha amiga. É sério. Ela vai pirar. Ela não acredita mesmo nessas coisas, na verdade, até fez piada por eu ter vindo, mas vamos jantar mais tarde, um encontro de casais, e, bem... — Ela faz uma pausa para espiar o relógio, dá um riso forçado para mim e diz: — Bem, na verdade, ela deve estar chegando agora, ou daqui a pouco.
— Eu adoraria. — Sorrio, como se realmente estivesse disposta. — Mas preciso ir a um lugar e...
— Oh, é ela chegando ali! Perfeito!
Suspiro e olho para baixo, desejando que fosse possível usar minhas habilidades de materialização para fazer as pessoas pagarem e desaparecerem... Ou pelo menos desta vez, que seja.
Sinto que meus planos estão prestes a ser adiados por mais tempo ainda, mas não tenho ideia do quanto até que ela, com as mãos em concha ao redor da boca, chama:
— Sabine! Ei, aqui. Tem alguém aqui comigo que você precisa conhecer!
Meu corpo inteiro fica gelado. Paralisado, rígido e gelado. Gelado tipo: Oi, iceberg, apresento-lhe o Titanic.
E antes que possa impedi-la, antes que possa fazer qualquer coisa, Sabine está vindo em minha direção. Não me reconhece de cara, e não é por eu estar usando uma peruca preta, porque não estou, desisti dela há muito tempo, quando concluí que fazia Avalon parecer uma louca, mas porque sou a última pessoa que ela esperava encontrar. Na verdade, ela ainda estreita os olhos e pisca, mesmo estando parada bem na minha frente, com Muñoz a seu lado, que, aliás, parece estar tão desesperado quanto eu.
— Ever? — Sabine olha para mim fixamente, como se tivesse acabado de despertar de um sono profundo. — Que... — Ela balança a cabeça, como se estivesse se livrando de teias de aranha, e começa tudo de novo. — O que diabos está acontecendo aqui? Eu não entendo.
— Ever? — A amiga dela olha para nós, apertando os olhos, desconfiada. — Mas... mas achei que tinha dito que seu nome era Avalon!
Respiro fundo e concordo com a cabeça, sabendo que agora está tudo acabado. Minha cuidadosamente elaborada vida de mentiras, evasivas e segredos deu nisso.
— É Avalon — confirmo com a cabeça, evitando o olhar de Sabine. - Mas também é Ever... Depende.
— Depende de quê? — minha cliente grita, como se estivesse pessoal e profundamente ofendida, sentindo-se enganada. Sua aura se incendeia subitamente, estremece, como se duvidasse não só de mim, mas de tudo que passei a última hora lhe dizendo, não importa o quanto minhas previsões foram precisas. — Quem diabos é você, afinal? — pergunta, olhando para mim como se fosse me denunciar para... Bem, ela não havia decidido ainda... Mas para alguém. Alguém aceitaria a denúncia, com certeza.
Mas Sabine voltou a si e, com a voz calma, contida e parecendo um pouco uma advogada, diz:
— Ever é minha sobrinha. E, aparentemente, tem muito a explicar.
E quando estou prestes a fazer isso... Bem, não exatamente explicar, pelo menos não do jeito de que ela gostaria... Mas, ainda assim, quando estou prestes a dizer alguma coisa que com alguma sorte acalmará todo mundo e esclarecerá a situação, Jude aparece e diz:
— Tudo certo com a leitura?
Dou uma espiada em minha cliente, a amiga de Sabine, e sei que minha energia está tão aperfeiçoada, tão aumentada com as meditações de purificação e cura a que Ava tem me submetido, que foi uma das melhores leituras que fiz na vida... Mas mesmo assim não consegui prever esta situação. Também vejo como ela se mostra relutante em pagar, agora que me reconhece como a jovem sobrinha delinquente de sua amiga, que faz um bico como Avalon, a Médium Duvidosa, mas não lhe dou chance de reagir. Apenas me intrometo e digo:
— Não se preocupe, essa é por minha conta. — Jude estreita os olhos, alternando o olhar entre nós, mas apenas confirmo com firmeza: — É sério. Não se preocupe. Estou cuidando de tudo.
Enquanto isso parece ter acalmado a cliente, e talvez também Jude, não ajudou muito com Sabine. Sua aura está extremamente agitada e os olhos fixos nos meus. — Ever? Não tem algo a dizer em sua defesa?
Respiro fundo e olho em seus olhos. Sim, tenho muito a dizer, mas não aqui, nem agora. Tenho um compromisso!
Estou prestes a dizer isso, só que de um modo mais agradável e gentil, para não deixar Sabine ainda mais irritada, quando Muñoz vem em meu socorro e diz: — Vocês podem discutir isso amanhã de manhã, mas agora acho melhor nos apressarmos. Não queremos correr o risco de perder nossa reserva depois do trabalho que tivemos para consegui-la.
Sabine suspira, cedendo à sabedoria do argumento de Muñoz, mas ainda não está disposta a me deixar escapar tão facilmente. Suas palavras vêm entredentes quando diz:
— Amanhã de manhã, Ever. Espero ver você assim que acordar. — Depois, vendo a expressão em meu rosto, completa: — Sem. Mas.
Concordo, mesmo não planejando comparecer ao compromisso. Se tudo funcionar como estou pretendendo, amanhã de manhã estarei o mais longe possível da mesa daquela cozinha. Em vez disso, estarei esparramada em uma suíte no Montage, com Damen a meu lado, finalmente pondo em prática aqueles planos feitos há muito tempo...
Mas é claro que não vou contar isso a ela, então apenas concordo com a cabeça e digo:
— Hum, certo. — Sei que ela, como advogada, sempre insiste em uma resposta verbal, de modo que o significado não possa ser distorcido ou desconstruído. E quando eu acho que o pior já passou, pelo menos por enquanto, ela insiste que eu me desculpe com sua amiga, como se eu tivesse cometido algum tipo de crime contra ela. Mas, mesmo sabendo que pagarei depois, não farei isso.
Em vez de me desculpar, apenas olho para ela e digo:
— Nada disso muda o que falei lá dentro. — Aponto para a sala dos fundos. — Seu passado, Tommy, seu futuro... Sabe que o que eu disse é verdade. Ah, e sobre aquela escolha que terá que fazer? - Alterno o olhar entre ela e seu acompanhante. — Bem, por mais que possa duvidar de mim agora, ainda será sábia o suficiente para seguir meu conselho.
Olho para Sabine, sua aura irrompendo em uma onda de raiva que só é um pouco contida pela presença do braço de Muñoz abraçando-a com força. Ele pisca para mim e a faz virar para o outro lado e eles caminham para a porta, seguidos por seus amigos.
Assim que os quatro saem, Jude olha para mim e diz:
— Cara, que azar você deu. Acho que vou defumar o local com um pouco de sálvia, para ajudar a purificar. — Ele balança a cabeça. — O que aconteceu? Achei que já tivesse contado para ela.
Olho para ele.
— Está brincando? Você viu o que acabou de acontecer. Aquele tipo de cena é exatamente o que eu queria evitar.
Ele dá de ombros, contando o dinheiro na gaveta enquanto diz:
— Bem, talvez fosse melhor se você tivesse avisado, se ela não estivesse se sentindo tão enganada quando entrou e viu que estava trabalhando aqui... Fazendo leituras.
Faço cara feia, procurando em minha carteira o dinheiro que devo pela leitura grátis que fiz involuntariamente.
— Tem certeza de que quer pagar por isso? — ele pergunta, recusando-se a pegar o dinheiro.
— Por favor. — Eu entrego as notas para ele, vejo suas sobrancelhas se levantarem e percebo que está prestes a insistir novamente, então continuo: — E fique com o troco. Considere como pagamento pelo azar que eu trouxe. É sério. Se isso não tivesse acontecido, talvez ela se tornasse cliente regular, então encare como pagamento por toda a renda perdida.
— Não tenho tanta certeza de que perdeu a cliente — ele diz, enfiando o dinheiro no caixa e fechando a gaveta. — Se fez uma boa leitura, como eu acho que fez, ela vai voltar, ou pelo menos vai recomendar a algumas amigas, que virão nem que seja apenas por curiosidade. É muito difícil para muita gente resistir a esse tipo de coisa. Você sabe, advogada séria surpreende sobrinha golpista que, sem seu conhecimento, passa o tempo livre trabalhando como médium cuja precisão é incrível... Poderia ser um livro, ou pelo menos um filme.
Dou de ombros, aproveitando para retocar a pouca maquiagem que uso, olhando em meu pequeno espelho de mão, e digo:
— Sobre isso... — Ele olha para mim. — Acho que meus dias de Avalon estão acabados. — Ele suspira, claramente desapontado. — Não me entenda mal, eu gostei muito, e hoje, bem, antes de acontecer esse fiasco, senti que realmente estava ficando boa nisso... Como se fosse capaz de entender as pessoas, ajudar.
 Mas agora... Bem, talvez seja hora de trazer Ava de volta. Além disso, as aulas estão prestes a recomeçar e...
— Está pedindo demissão? — Ele franze a testa, nem um pouco animado com a ideia.
— Não. — Nego com a cabeça. — Não, só preciso diminuir o ritmo, e não quero causar mais problemas do que você já tem.
— Não se preocupe. — Ele dá de ombros. — Já coloquei Ava de volta na programação, imaginei que precisaria diminuir suas horas de qualquer jeito, mas, Ever, pode recomeçar quando quiser, os clientes adoram você, e eu... bem... — Seu rosto cora. — Fiquei muito impressionado com seu desempenho também. Como funcionária. — Ele aperta a ponta do nariz, balança a cabeça e acrescenta: - Cara, eu não sou nem um pouco sutil.
Apenas ignoro, imaginando quem se sente mais desconfortável, ele ou eu. — E então, alguma ideia do que vai dizer a ela amanhã? — ele pergunta, desesperado para mudar de assunto.
— Não. — Jogo o gloss labial na bolsa e a fecho. — Nem imagino.
— E não acha que deve pensar a respeito? Bolar algum tipo de plano? Não quer ser surpreendida antes de tomar sua primeira xícara de café, não é?
— Não tomo café. — Dou de ombros.
— Certo, de elixir, que seja... — Ele ri. — Você entendeu o que eu quis dizer.
Coloco a bolsa no ombro e olho para ele.
— Olhe, não me leve a mal, eu amo Sabine. Ela me acolheu quando eu perdi tudo, e não fiz nada para retribuir além de transformar a vida dela em um inferno permanente. Embora eu deseje ser sincera, no mínimo porque, depois disso tudo, ela merece saber a verdade, ou pelo menos algo parecido com a verdade, não vou dizer nada amanhã de manhã. — Mesmo tentando não sorrir ao dizer, não consigo me conter. Quando penso em meu plano, meu plano à prova de defeitos, todo o meu rosto se ilumina.
Por enquanto, toda a minha energia, toda a minha luz, toda a minha sorte, como diz Jude, precisa ser poupada e canalizada exclusivamente para Roman. Preciso estender meu amor, minha paz e minha boa vontade a ele, porque me aproximar dele desse modo é a única forma de vencer. A única forma de conseguir o que eu quero.
Se aprendi alguma lição com tudo isso, é que a resistência nunca funciona.
Combater o que eu não quero serve apenas para materializar exatamente isso. E foi por esse motivo que o poder de Roman sobre mim enfraqueceu quando apelei a Hécate... Porque parei de ficar obcecada por ele por cinco minutos, e, então, ele começou a se deteriorar. Com tudo isso em mente, acho que é seguro presumir que, colocando minhas energias naquilo que quero - paz entre nós e os imortais perigosos, além do antídoto do antídoto -, bem, só pode resultar na vitória.
Então, quando for até ele esta noite, não será como inimiga, como alguém que planeja conspirar e brigar para conseguir o que quer. Em vez disso, vou abordá-lo como um ser superior, a forma mais pura e clara de mim.
E darei a ele a oportunidade de sair das profundezas e me encontrar no mesmo nível.
Estou tão perdida em meus pensamentos, tão perdida na empolgação de meu plano, que nem escuto Jude quando pergunta:
— Aonde você vai? — E olha para mim com seu radar mediúnico bem alerta.
Eu apenas olho para ele, incapaz de não sorrir, e digo:
— Estou indo fazer algo que deveria ter feito há muito tempo. — Faço uma pausa quando vejo como ele inclina a cabeça e enruga a testa, como sua aura se movimenta e brilha. Queria poder ficar aqui e garantir a ele que ficarei bem. Mas não posso, já perdi muito tempo. Então, apenas olho para ele e digo: - Não se preocupe. Desta vez, sei o que estou fazendo. Desta vez, tudo vai ser diferente. Você vai ver.
— Ever... — Ele tenta me alcançar, esticando a mão no ar e pegando o vazio.
— Não se preocupe. — Dou de ombros. — Sei exatamente o que fazer.  Sei como lidar com Roman agora. — Faço um gesto positivo com a cabeça, olhando para seu grosso emaranhado de dreadlocks, vendo como as últimas semanas de surfe os deixaram mais claros, com um tom de louro desbotado pelo sol. — Sei exatamente como consertar tudo isso, exatamente como agir — acrescento, vendo como ele inclina a cabeça, apoia-se no banco e coça o queixo, pensativo. Seu anel de malaquita brilha diante de mim, quase no mesmo tom de verde de seu olhar tropical, agora concentrado, analítico, cheio de preocupação. Mas eu ignoro. Pela primeira vez em muito tempo, finalmente me sinto poderosa, segura de mim, e não darei espaço para ninguém plantar nem uma sementinha de dúvida. — Fui aos Grandes Salões do Conhecimento... — Faço uma pausa, sabendo que ele precisa de algo mais convincente do que apenas minha palavra. — E... Bem, digamos que tive uma boa orientação. Uma orientação muito boa. - Aperto os lábios e jogo a bolsa no ombro, sabendo que devo interromper a conversa.
Ele olha para mim, esfregando as mãos na frente da camiseta, passando os dedos no símbolo yin-yang branco e preto enquanto inclina a cabeça e diz:
— Ever... Não estou tão certo de que deva ir por esse caminho novamente. Quer dizer, se você se lembra, da última vez que ficou cara a cara com Roman, as coisas não acabaram muito bem, e realmente não acho que tenha passado tempo suficiente para tentar de novo. Pelo menos não tão cedo.
Levanto os ombros, as palavras dele me atingem como água encontrando óleo, sem produzir efeito algum, o que, pela expressão em seu rosto, parece apenas preocupá-lo mais.
— Anotado — digo, pondo os cabelos atrás da orelha. — Mas aí é que está... Vou fazer, de qualquer jeito. Vou tentar. Uma última vez, por assim dizer. — Quando? Agora? Está falando sério? — Ele me encara, juntando as sobrancelhas, com o olhar fixo no meu de um jeito que me deixa preocupada.
Alinho os ombros, cruzo os braços sobre o peito e, olhando em seus olhos, indago:
— Por quê? Está planejando me seguir, para tentar me impedir?
— Talvez. — Ele dá de ombros e imediatamente continua: — Eu vou fazer o que for preciso.
— O que for preciso para... o quê exatamente? — Ergo a cabeça, desafiando-o com meu olhar.
— Manter você a salvo. Proteger você dele.
Respiro fundo e olho para ele, e quero dizer que olho para ele de verdade.
Começo pela parte de cima daqueles dreadlocks e desço até a cintura, onde, por causa do balcão, minha visão é interrompida.
— E por que faria isso? — finalmente pergunto, voltando os olhos para os dele. — Por que pensaria em tentar interferir em meu plano? Achei que quisesse que eu fosse feliz, mesmo que isso queira dizer que eu fique com Damen. Pelo menos foi o que me disse.
Ele aperta os lábios e se ajeita na cadeira, um movimento tão esquisito, tão claramente desconfortável, que me sinto mal por ter dito isso. Fui longe demais. Só porque abrimos nosso coração no passado, compartilhando mais do que provavelmente deveríamos, não significa que eu tenho o direito de questioná-lo ou de usar o que me contou. Não significa que devo insistir em ter uma resposta quando a pergunta obviamente o magoa. Mas, ainda assim, algo sobre o jeito como se moveu, não só física, mas energicamente, faz com que eu me pergunte, tente adivinhar... Faz com que eu me sinta um pouquinho insegura...
Eu me viro e caminho para a porta, e ele me segue até a viela atrás da loja onde ambos estacionamos os carros.
— Devo me encontrar com Honor mais tarde... Quer passar lá? Pode levar Damen se quiser, não me importo.
Eu paro e olho para ele.
— Bem, até me importo, mas disfarço bem... Palavra de escoteiro. — Ele levanta a mão direita.
— Então você está saindo com Honor? — pergunto, observando enquanto ele abre a porta de seu jipe preto antigo e entra.
— É, você sabe, sua amiga da escola, aquela que foi à sua festa de aniversário.
Começo a dizer que ela não é minha amiga, que pelo que eu vi outro dia na praia, pela energia que ela emitiu, provavelmente é tudo, menos isso... Mas quando vejo a expressão em seu rosto, a alegria que enruga sua testa, decido guardar para mim mesma.
— Honor não é tão ruim assim, sabe?— Ele coloca a chave na ignição e liga o motor, fazendo muito barulho. — Talvez devesse dar uma chance a ela.
Olho para ele, lembrando-me do que disse naquele primeiro dia, quando nem o conhecia direito, muito antes de saber sobre nós, algo sobre ele sempre se apaixonar pela garota errada, e fico imaginando se não aconteceu de novo. Mas quando vejo como seu olhar muda, sua aura brilha e se inflama, sei que a garota errada ainda sou eu. Honor nem está na jogada. E não sei o que me incomoda mais: perceber isso ou o alívio repentino que me invade.
— Ever...
Ele me olha de um jeito que me faz perder o fôlego. Sua expressão é tão conflituosa que fica claro que ele está lutando contra o que vem em seguida, mas no fim apenas estreita os olhos, aperta os lábios, respira fundo e indaga: — Você vai ficar bem? Tem certeza de que sabe o que está fazendo?
Faço que sim com a cabeça e entro no carro sentindo-me mais confiante e poderosa do que nunca. A escuridão se foi, derrotada pela luz, e não há como isso dar errado. Fecho os olhos, ligo o motor, olho para Jude e digo:
— Não se preocupe. Desta vez eu sei o que estou fazendo. Desta vez, tudo vai ser diferente. Você vai ver.

2 comentários:

  1. Não sei porquê mais não tô acreditando nisso: "Desta vez, tudo vai ser diferente." Ainda acho que vai acabar fazendo burrada ou que não vai dar certo e vai ficar sem o que quer!

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  2. Meu sensor tá apitando e dizendo insistentemente qu VAI DAR MER...

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