3 de novembro de 2015

Trinta e cinco

Não vou para a casa de Damen.
Pretendo ir, tenho toda a intenção de ir, mas há algo que preciso fazer antes. Então, depois de materializar um carro, sigo diretamente para a casa de Jude. Quero encontrá-lo antes que vá para a loja e quase bato em seu jipe enquanto ele sai de ré bem na hora em que estou entrando.
— Ever? — Ele me vê pelo espelho retrovisor depois de brecar seu carro e salta do banco.
Fico encarando-o. Não consigo evitar. Ele está completamente diferente da última vez em que o vi.
Seu cabelo foi raspado.
E, sem sua marca registrada, o emaranhado de longos dreadlocks cor de bronze e ouro, ele está praticamente irreconhecível — ou pelo menos até seus olhos encontrarem os meus. Aquele olhar verde-água brilhante é muito familiar, sem contar a onda de energia calma e serena que me alcança, me perpassa, me rodeia, exatamente como vem acontecendo nos últimos séculos.
Ciente de minha reação, Jude passa a mão pela cabeça recém-raspada, e seu olhar tropical encontra o meu quando ele diz:
— Achei que já era hora de mudar, mas, pela sua cara, estou pensando em deixar crescer de novo.
Desço do carro, tentando ao máximo não encará-lo demais. Mesmo continuando bonito, na verdade mais que bonito, ainda preciso me adaptar a seu novo visual.
— Que nada! — Abro um grande sorriso e faço que não com a cabeça. — Deixe como está. Quer dizer, por que voltar atrás quando se pode seguir adiante?
Ele fixa os olhos em mim, permitindo que as palavras fiquem suspensas entre nós até quebrar o silêncio e dizer:
— Você parece ter passado por poucas e boas. — Ele indica o estado deplorável de minhas roupas. — Mas conseguiu voltar, e é isso o que importa. É bom ver você, Ever. — E posso notar pelo tom de sua voz e pelo brilho de seus olhos que, pela primeira vez em muito tempo, suas palavras significam exatamente o que dizem. Minha presença não produz mais nele a nostalgia de antes.
— É bom ver você também. — Sorrio ao dizer essas palavras, querendo que ele saiba que também não estou falando da boca para fora.
Ficamos um diante do outro, deixando que o silêncio impere. Mas não é um silêncio constrangedor, mas o tipo compartilhado por duas pessoas que passaram por algo tão extraordinário que não há como traduzi-lo em palavras.
— Quando você voltou? — pergunto, imaginando se ele ficou lá por muito tempo também.
Ele olha para mim, estreita os olhos e diz:
— Há muito tempo. Bem antes de você. Pensei em ir atrás de você, tentar encontrá-la, mas Lótus disse que era melhor não ir, disse para eu não me envolver. — Jude balança as chaves e aponta para a porta de casa.
— Quer ir lá para dentro?
Aperto os lábios, pensando no dentro. A cozinha onde lavei a louça uma vez, a velha cadeira em que eu costumava sentar, a porta antiga que Jude usa como mesinha de centro, o sofá marrom de veludo onde ele confessou o que sentia por mim...
— Não, eu — Olho para ele, engulo em seco e começo de novo. — Eu só queria ter certeza de que você voltou de Summerland. Queria ter certeza de que correu tudo bem, e... — Dou de ombros, olho em volta, vendo as peônias voltando a florescer, grandes tufos vibrantes coloridos de um rosa e violeta surgindo no alto de caules verdes e resistentes. — E parece que está tudo certo, então...
Mas ele não me deixa escapar com tanta facilidade, não permite que eu simplesmente vá embora.
— Deveríamos conversar sobre isso? — pergunta ele, dizendo com o olhar que está mais que disposto, se eu quiser.
E, ainda que pudéssemos muito bem conversar, penso: para quê?
Quer dizer, o que ainda restou para falarmos? Agora já sabemos de tudo. Revivemos os acontecimentos pessoalmente. Então para que voltar ao que já sabemos?
Faço que não com a cabeça e direciono meu olhar para nossos pés — ele usa os chinelos marrons de borracha de sempre, eu uso botas sujas e enlameadas. Depois levanto a cabeça e digo:
— Acabaria sendo redundante agora, não acha?
Ele ergue os ombros e continua a olhar para mim.
— Mas deve ter sido um alívio saber que você, na verdade, não me amou e me perdeu todos aqueles anos, não?
Ele inclina a cabeça, confuso com minha declaração.
— Quer dizer, ao menos pelo que entendi depois de juntar todas as peças, ficou bem claro que você estava apenas tentando afastar Damen de mim para que ele não me transformasse em imortal. Sabe? Para que ele não conseguisse fazer o que tentou naquela nossa primeira vida, quando você era Heath, ele era Alrik, e eu, Adelina.
— Foi isso mesmo que você deduziu? — Ele se inclina em minha direção com um olhar tão penetrante que me faz concordar com a cabeça, engolir em seco e coçar o braço. Cedo a todos os meus tiques de nervosismo, um atrás do outro, o que me faz pensar em por que insisti em dizer aquilo, se só podia resultar em constrangimento para mim mesma. Mas, ao ver meu desconforto, ele deixa passar e diz: — Então, diga... você conseguiu? Conseguiu completar a jornada? Encontrou a árvore que estava procurando?
— Sim, consegui — digo a ele, com a voz ficando rouca à medida que minha cabeça vai se enchendo com aquela visão maravilhosa. Algo que eu gostaria que ele pudesse ver também, e só há um modo de fazer isso. — Feche os olhos — digo, constrangida com a velocidade com que ele obedece. — E agora abra sua mente. — Coloco as mãos nos dois lados de sua face, esticando as palmas sobre os planos angulosos de suas maçãs do rosto, que parecem ainda mais pronunciadas devido ao novo corte de cabelo. As pontas de meus dedos buscam a leve curva de suas têmporas, pressionando-as com cuidado. Então projeto aquela cena maravilhosa e radiante de minha mente para a dele, mostrando a árvore tal como me lembro, em toda a sua glória e exuberância.
— Uau — diz ele, em um tom de voz que parece um suspiro. — Deve ter sido... especial. — Ele me encara, os olhos sondando-me intensamente.
Confirmo com a cabeça, começo a tirar as mãos de seu rosto, mas ele pressiona as próprias mãos sobre elas, segurando-as onde estão.
— Preciso ir. — Tento me afastar, mas ele me segura com mais força, mantendo-me bem ali em sua frente.
— Ever... — Sua voz é grossa, áspera, um tom que conheço bem.
Passo os olhos sobre ele, notando a camiseta e a calça jeans que acabaram de ser lavados, o cheiro de sabão, ar fresco e mar que exala de sua pele, e sei que esse esforço foi por Honor, não por mim.
— Jude, você está feliz? — pergunto, esperando ardorosamente que esteja, que a estrela que materializei tenha realizado meu desejo, ou que pelo menos que realize logo.
Ele fixa em mim um olhar demorado, que dura tanto tempo que estou certa de que não responderá quando enfim me solta, enfia as mãos nos bolsos e diz:
— Estou tentando. — Ele dá de ombros. — Acho que estou chegando mais perto. E você?
Começo a disparar uma resposta alegre e leve, do tipo que se usa quando alguém lhe pergunta como está e você sabe que a pessoa não vai esperar pela resposta, mas logo paro. Jude respondeu com sinceridade, e o mínimo que posso fazer é responder com sinceridade também. Mas preciso de um momento para avaliar qual deve ser a resposta. Não parei para pensar em meu próprio estado de felicidade. Pelo menos não por um bom tempo.
Vejamos, passei em todos os testes durante minha jornada e cumpri meu destino, o que quer dizer que me realizei no sentido mais amplo da palavra. Ainda assim, mesmo depois de tudo isso, ainda falta claramente uma coisa. Ou melhor, duas coisas: uma importantíssima, outra um pouco menos importante. Mas, depois que sair daqui, também enfrentarei essas coisas.
— Idem — digo enfim. — Também estou tentando. — Completo as palavras com um rápido sorriso. — Mas acho que estou fazendo um grande progresso, chegando bem perto.
Começo a me virar para andar na direção do carro, mas ele me puxa de volta e diz:
— Ei, Ever...
Eu o encaro.
— Só para você saber, você entendeu tudo errado.
Estreito os olhos, sem a menor ideia do que ele quer dizer.
— Não era aquilo que eu estava fazendo em todas aquelas vidas, ou pelo menos não só aquilo. O outro motivo pelo qual estava tentando separar você e Damen é porque queria ter você só para mim... Ainda quero. — Ele dá de ombros, tenta rir, mas não por achar graça. Está muito resignado para isso. — Lembra-se do que me disse... no dia em que nos conhecemos?
Estreito os olhos ainda mais. Eu disse tanta coisa naquele dia. Na verdade, dei uma bela lida em sua mão, contei tudo sobre seu passado... bem, pelo menos sobre seu passado mais recente.
— Você disse que tenho um sério histórico de me apaixonar pelas garotas erradas.
Ah, sim. Isso.
— E pelo visto você estava certa. — Vem aquela risada de novo, mas dessa vez é mais leve, mais iluminada, indicando a promessa de dias melhores pela frente. — Mal sabia você que era apenas uma única garota, sempre a mesma, várias vezes. Mal sabia que era você.
Engulo em seco, meu estômago revira e fica estranho.
— Sempre foi você. — Ele dá um sorriso triste.
Chego mais perto de meu carro, sem saber o que dizer ou fazer, mas tudo bem, porque ele corta o constrangimento por mim.
— E então, o que acha de Honor? — pergunta.
Nossos olhares se encontram e se sustentam, até que consigo gaguejar:
— De verdade?
Ele faz que sim, passando a mão na cabeça do mesmo jeito que fazia quando tinha os cabelos compridos e torcidos, só que agora não há muito em que pegar e ele volta a colocar o braço ao lado do corpo.
— O que você me disse naquele dia? Se sou tolo o suficiente para perguntar, então você é tola o suficiente para responder. — Ele ri e continua: — Então, sim, que se dane! Diga logo. O que acha de Honor? Ou, melhor ainda, o que vê em nosso futuro? Nós teremos um futuro?
Ele me estende a mão, querendo que eu lhe diga tudo o que vejo. Fico ali parada em sua frente, sabendo que só preciso baixar meu escudo paranormal, pressionar o dedo em sua pele, e tudo o que ele quer saber, inclusive o que preferia não descobrir, será revelado.
Estou inclinada a fazer isso quando me lembro do que Damen me disse uma vez, então decido citá-lo.
— A vida não é uma prova com consulta — digo, virando-me para o carro e indo embora.

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