2 de novembro de 2015

Trinta e cinco

Exatamente quando ela está indo embora, com uma única garrafa de elixir apertada com força contra o peito, Sabine entra pela porta lateral.
Fazendo malabarismo para carregar sua pasta em uma mão e uma sacola de compras na outra, ela para e olha, e leva um instante para reagir, até que diz:
— Haven? Não a vejo há... muito tempo. Você está...
Sabine faz uma pausa, ergue a sobrancelha e lentamente examina. Embora Haven esteja bem melhor que quando chegou, ainda está longe de parecer qualquer coisa próxima de apresentável. E para aqueles que não estão acostumados com seu novo visual, bem, ela está absolutamente assustadora.
Mas Haven apenas ri, oferecendo a Sabine um sorriso amigável com seus dentes quebrados, e diz:
— Não se preocupe. Acredite, minha mãe também não gosta. Por sinal, esse é um dos muitos motivos pelos quais estou me emancipando.
Sabine olha para nós duas, visivelmente perplexa com a declaração.
Mas Haven rapidamente preenche as lacunas.
— Estou me separando legalmente de todos eles, na verdade, tanto de meus pais quanto de meu irmãozinho. Eu me separaria da empregada também, se pudesse. — Ela ri, e o som é tão artificial, tão perturbador, que deixa Sabine nervosa. — Seja como for, para resumir, eu mudei. Estou no meio do processo de emancipação, então não tenho mais que lidar com as besteiras deles.
Sabine franze as sobrancelhas e estreita os olhos de um jeito que conheço bem, com uma expressão que sinaliza claramente sua indignada desaprovação.
Mas Haven é imune a tudo isso. Na verdade, apenas parece atiçá-la mais. Fazendo com que abra um sorriso ainda maior e diga:
— Eles se recusaram a me aceitar do jeito que sou, então apenas arrumei minhas malas e disse: Adiós!
Sabine passa os olhos por nós duas, provavelmente se perguntando se tenho alguma participação nisso, se fiz a cabeça de Haven, disse a ela exatamente o que falar e quando. Mas, muito embora as palavras claramente se apliquem ao modo como Sabine tem me tratado, não tenho nada a ver com isso. Haven está num espetáculo solo.
— Bem, tenho certeza de que sentem muito sua falta. — Sabine balança a cabeça, usando seu tom de voz de advogada no tribunal.
Mas Haven não está nesse jogo em que todas as pessoas agem de forma educada e politicamente correta, fingindo que o que foi dito na verdade não foi e que tudo vai dar certo no fim das contas, apesar das evidências que se acumulam contra essa teoria.
Ela também já superou faz tempo o jogo de pai e/ou guardião, no qual se faz hora extra tentando mostrar o melhor de si para que os pais de seus amigos gostem de você, confiem em você e o convidem para voltar.
Porque Haven e eu não somos amigas.
E ela não se importa com o que Sabine pensa a respeito dela ou se será convidada a voltar. Então ela dá de ombros, revira os olhos e cantarola:
— Duvido!
O que torna o olhar de Sabine imediatamente mais severo e voltado para mim como se eu fosse de alguma forma responsável por isso, como se meu silêncio, o fato de não falar nada, não fazer nada para interromper aquilo, mostrassem algum modo de consentimento. Quando na verdade só estava esperando que isso acabasse. Esperando que Haven finalmente calasse a boca e Sabine finalmente desistisse e fosse para a cozinha guardar as compras, para que eu enfim pudesse fazer algum progresso e selar meu acordo com Haven.
No entanto, infelizmente, Haven ainda está longe de terminar. Ela visivelmente saboreia cada vestígio de tensão que causa e, ávida por mais, diz:
— Mas também não sinto falta deles, então acho que isso nos deixa quites.
Sabine olha para mim, pronta para falar, mas Haven apenas acena, perdendo temporariamente o controle do suco e olhando enquanto cai rapidamente na direção do chão, faiscando e cintilando ao ser derramado pelas bordas das garrafas, até que ela o alcança e o agarra em pleno ar. Seus olhos brilham quando vê como Sabine pisca, balança a cabeça e imediatamente tenta negar o que viu, convencida de que ninguém consegue se mover assim tão rápido, de que a cena não aconteceu do jeito que ela imaginou.
— Ops! — Haven ri. — Bem, pessoas, não quero prender vocês. Só vim aqui pegar um pouco desse elixir da Ever. — Ela segura a garrafa diante de si, balançando-a de um lado para o outro, o que faz com que o líquido faísque e cintile. Depois aponta para a caixa que seguro com força, onde está o resto do suprimento.
— Você veio pegar.... O que dela? — Sabine estreita os olhos, esforçando-se para encontrar um sentido naquilo, olhando desconfiada para mim e para a garrafa, depois fica na ponta dos pés e olha dentro da caixa, perguntando-se por que não tinha reparado nela até agora. Ela coloca a sacola na mesa e vai em direção à garrafa que Haven entregará tudo com muito prazer.
Mas isso já foi longe demais, e não há possibilidade de que eu a deixe continuar.
Não posso permitir que Sabine pegue o suco.
Não posso deixar que Haven brinque assim comigo.
— Não é nada — digo, empurrando a caixa para o lado de Haven com bastante força. — É só aquele energético de que gosto.
Mas Sabine não se convence disso. Uma espiada em seu rosto é suficiente para saber que ela entrou em estado de alerta máximo. E de repente enxerga a ligação entre meu comportamento incomum, minha recusa em comer e todos os meus outros hábitos estranhos, inexplicáveis e simplesmente esquisitos, supondo, de certa forma corretamente, que tudo deriva dessa coisa.
Haven ri, estende o elixir para ela, provocando-a, tenta-a, e insiste que Sabine tome um golinho e veja por si mesma como é bom, como é refrescante, como é energizante, com um único gole pode mudar sua vida.
E Sabine está prestes a fazê-lo, seduzida pelo olhar de Haven, pelas faíscas do elixir, está quase mordendo a isca quando Haven ri ainda mais alto e pega a garrafa de volta.
O que faz com que Sabine balance a cabeça, endireite os ombros e logo se recomponha, dizendo:
— Acho melhor você ir embora. — As palavras saem espremidas entre seus dentes cerrados. — Acho que deve ir agora mesmo. E, embora sinta muito por dizer isso, Haven, você está claramente perturbada e precisa de ajuda. Até que encontre uma forma de controlar seu comportamento, não quero vê-la mais por aqui. — Ela pega a sacola de comprar, tira-a da mesa e segura novamente na altura da cintura, enquanto continua a olhar com cuidado para Haven.
— Ah, não se preocupe. — Haven sorri, preparada para sair. — Não me verá novamente tão cedo. Não tenho nenhuma necessidade de voltar, agora que já tenho o que preciso.
Ela vai até a porta e eu sigo logo atrás, determinada a acabar com isso da forma mais rápida e discreta que puder, antes que os efeitos calmantes do suco cessem e Haven comece a ficar irritada novamente.
Mas quando estou prestes a pisar na soleira, Sabine me interrompe agarrando meu braço.
Ela não tem intenção de me deixar sair, não agora, e certamente não com uma amiga que acabou de expulsar de sua casa.
Ela estreita os olhos, seus dedos descem até meu pulso, segurando firme, e diz:
— E aonde exatamente você pensa que vai?
Olho em seus olhos e sei que não tenho escolha a não ser responder da forma mais clara e sucinta que puder. Sem deixar nenhuma dúvida de que, quer ela goste quer não, não poderá me impedir de prosseguir com meu plano.
— Sabine, preciso ir a um lugar com Haven. Não vai demorar muito. Quando eu voltar, poderemos conversar quanto quiser, mas agora preciso ir.
— Não vai fazer nada disso! — ela grita, com a voz aguda, estridente, enquanto me segura com mais força ainda.
Meu pulso começa a ficar em um tom vermelho berrante, mas que vai se curar antes mesmo de ficar contundido.
— Não me ouviu? Não vai mais andar com essa garota. Está claro?
Estou quase puxando o braço para me libertar, quase concordando, dizendo que ela deixou bem claro, mas que a escolha realmente não é dela, quando Haven sorri, tira a caixa de meus braços e diz:
— Não se preocupe, Ever. Fique com sua titia. É óbvio que ela está bem chateada. Posso cuidar do resto.
E observo enquanto ela vai até o carro — o carro de Roman —, larga a caixa no banco do passageiro, entra, liga o motor e ri histericamente enquanto acena e dá marcha a ré em direção à rua.
A mão de Sabine ainda está me segurando, apertando, ainda me impedindo de fazer aquilo que mais quero — e que poderia acabar com essa horrível maldição e colocar minha vida em um rumo totalmente novo de felicidade.
— Vá para seu quarto! — ela grita.
Suas bochechas estão vermelhas, os olhos brilham e o rosto está tão cheio de indignação que me sinto horrível por causar tudo isso.
Mas isso não é nada quando comparado a como me sinto quando me liberto. Puxo o braço tão forte e rápido que a sacola de compras escapa de sua mão e faz com que um bombardeio de latas, frutas, legumes, caixas de ovos e potes de queijo cottage se espalhem por todo o chão, deixando uma trilha de nata, pedaços de polpa e gemas amarelas por todo o mármore travertino polido.
Não é nada quando comparado a como me sinto ao ver sua expressão, um misto horrível de mágoa, indignação, surpresa, e — o que é pior — medo.
Não é nada quando comparado ao arrependimento que sinto ao olhar para ela e para a bagunça, desejando que pudesse fazer tudo desaparecer que nunca aconteceu. Mas, sabendo que isso só serviria para agravar a situação, viro as costas e sigo para a porta.
Desesperada para alcançar Haven, que acabou de usar a oportunidade para quebrar nosso acordo. Sem saber por onde começar, mas ciente de que preciso começar por algum ponto e de que tem que ser agora.
Olhando para trás, digo:
— Sabine, sinto muito. De verdade. Mas há coisas que você simplesmente não entende... Não quer entender... E, acontece que essa é uma delas.

Um comentário:

  1. tem horas que Sabine me irrita.Tudo bem q ela quer cuidar da Ever ais ja ta ficando chata

    Ass: Claudia

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