2 de novembro de 2015

Trinta e cinco

— Então funcionou — diz Damen, com a voz suave, distante. — Realmente existia.
Eu respiro fundo e olho para meus joelhos, meus pés enroscados em cima do banco macio de couro do carro, lembrando como ele me encontrou justamente quando eu estava deixando a casa de Roman, Jude atrás de mim, enquanto Haven continuava a gritar toda uma lista de ameaças parada na porta. Chegou apenas segundos depois de o filme acabar. Nem se deu o trabalho de passar no Montage, onde eu planejara nosso encontro, sentindo que havia algum problema no momento em que leu minha mensagem.
Olho em direção à minha casa, lembrando aquele momento de triunfo, quando tudo se resolveu, quando o antídoto estava praticamente comigo. Apenas para dar tudo errado em seguida.
Nossos sonhos foram arrancados de nossas mãos naquele horrível instante.
Balanço a cabeça e suspiro, ciente de que amanhã de manhã terei de encarar Sabine. Vou precisar falar a verdade sobre meu emprego, minhas habilidades paranormais, meu bico como Avalon... E pensar em como algumas horas antes eu achava que esse seria o pior de meus problemas.
— Funcionou mesmo, de verdade — digo, encontrando o olhar de Damen, não só querendo, mas precisando que ele acredite. — Ele tinha o antídoto, mostrou para mim e tudo mais. Era tão, tão pequeno... só um minúsculo frasco cheio de um líquido verde e borbulhante. — Dou de ombros. — E então ele colocou o vidrinho no bolso e... — Engulo em seco, sem querer viver aquilo outra vez. Pelo menos não verbalmente. Não quando a cena continua se repetindo várias vezes em minha cabeça.
Ele franze a sobrancelha, pois já viu o que aconteceu quase tantas vezes quanto eu.
— Então Jude apareceu... — Ele suspira e balança a cabeça. Olha para mim com desgosto, dentes cerrados de um jeito que nunca vi. — Por que confiou nele? Por que revelou a ele nossas fraquezas... Nossos chacras... Como nos derrotar? Por que você faria uma coisa dessas? — E olha para mim, desesperado para entender.
Engulo em seco, tentando desfazer o grande nó em minha garganta, e penso:
Bem, aí está... A culpa que estive procurando todo esse tempo. Ele finalmente está me julgando... Mas desta vez mais pelo que Jude fez do que pelo que eu fiz.
E quando olho para ele de novo, vejo que não é isso. Ele está simplesmente tentando encontrar um sentido em tudo. Ainda assim, apenas dou de ombros e digo:
— É meu quinto chacra. Meu ponto fraco. Sou péssima para discernir, uso as informações do jeito errado e, aparentemente, confio em todas as pessoas erradas em vez de confiar naquelas que foram leais o tempo todo. — Olho de lado para Damen, sei que ele precisa de mais, merece mais, então abaixo a cabeça e continuo: - A verdade é que ele me pegou em um momento de fraqueza... — Faço uma pausa, lembrando o quanto aquele era mesmo um momento de fraqueza... Como cheguei perto de cruzar a ponte que leva para o outro lado. E embora tenha contado a Damen tudo sobre a magia e sobre ter procurado Jude antes de procurar por ele, não consegui contar aquela parte, principalmente por estar muito envergonhada. — Um momento de incrível fraqueza. — Suspiro. — O que posso dizer?
Damen se vira, fazendo ranger o assento de couro, e olha para mim.
— E eu aqui torcendo para que você tivesse aprendido a confiar em mim o suficiente para me procurar nos momentos de fraqueza, e não Jude. — Sua voz é tão tranquila, tão solene, que parte meu coração ouvir as palavras sendo ditas em alto e bom som.
Fecho os olhos e me recosto no assento, sinto as lágrimas que ameaçam aparecer e sussurro:
— Eu sei. Devia ter contado a você. Mas apesar de todas as garantias que me deu, apesar do que me disse, eu simplesmente não acreditei... Não pude acreditar. Não achava que merecia isso. E, Damen, se acha que sabe a pior parte, bem, pense novamente. Receio que as coisas tenham ficado ainda piores...
Eu me viro até ficar cara a cara com ele e pressiono as mãos contra suas bochechas. Ciente do véu de energia que agora paira entre nós, permitindo que eu quase sinta sua pele, e sabendo que é isso mesmo - isso é o máximo que conseguiremos ter. Não tenho opções... Nós não temos opções. Roman está morto e levou o antídoto consigo. Então respiro fundo, fecho os olhos e compartilho tudo. Cada um dos momentos horríveis e humilhantes é revelado, fluindo de minha mente para a dele. Passo a versão sem cortes, aquela noite terrível com Roman, em que quase perdi minha virgindade, seguida da cena na Ponte das Almas - cada horrível segundo revelado em alta definição, em sua degradante glória. Sei que ele merece saber a verdade sobre mim: o que eu fui, onde estive e quem sou agora. Toda a sórdida jornada.
E quando termina, ele apenas dá de ombros, segura minhas mãos e diz: - Nada disso muda minha opinião sobre você. Nem um detalhe sequer.
Concordo com a cabeça, ciente de que é verdade. Finalmente entendo o que é realmente um amor verdadeiro e incondicional.
— Ever — ele diz, com urgência na voz, o olhar fixo no meu. — Você precisa repensar o jeito como vê a si mesma e as escolhas que fez.
Reviro os olhos, sem entender muito bem.
— O que você vê como erros enormes, gritantes... bem, não são erros, de modo algum. A realidade nada tem a ver com o jeito como escolheu enxergá-la. Você acha que fez uma coisa horrível ao me dar o elixir de Roman para beber, quando a verdade é que salvou minha vida! Evitou que eu fosse para Shadowland! Não teria resistido até Romy voltar, mesmo com o círculo mágico que Rayne havia feito. Estava perdendo e retomando a consciência. Nem aqui, nem lá, e se você não tivesse feito o que fez, quando fez... Se tivesse se recusado a me deixar beber... Bem, eu teria morrido, e minha alma teria sido perdida, abandonada, deixada à deriva no escuro e na solidão por toda a eternidade.
Olho para ele com os olhos arregalados por nunca ter pensado nisso. Estive tão ocupada me autoflagelando, concentrada em como não podíamos mais tocar um no outro da forma que queríamos, que deixei de perceber que, na verdade, impedi que sua alma fosse parar naquele abismo para todo o sempre.
— E tem mais. — Ele leva a mão até meu queixo, o quase toque de seus dedos causa uma onda quente de formigamento. — Você conseguiu falar com Roman de verdade! E teve sucesso sem trapacear e sem usar uma esperteza calculada, mas recorrendo ao mais profundo senso de humanidade que havia nele... Uma humanidade que o restante de nós não conseguiu enxergar e que tínhamos certeza de que nem existia. Mas você foi capaz de ir mais fundo que isso e enxergou o que não conseguimos. Você viu potencial na pessoa que todos nós desprezamos. Tem ideia de como isso é fantástico... De como isso me deixa orgulhoso?
— Mas e a transformação de Haven? — sussurro, lembrando-me da ameaça que ela fez e sem ter dúvida de que pretende cumpri-la.
— Não fiz a mesma escolha quando salvei você? — ele pergunta, os lábios ao pé de minha orelha.
— Mas você não sabia sobre Shadowland. Eu sabia, e condenei a alma dela.
— Dou de ombros, distanciando-me para ter uma visão melhor de seu rosto.
Mas Damen apenas balança a cabeça e me puxa de volta para perto dele. — Sei que disse para você agir de outra forma, mas se estivesse em seu lugar teria feito o mesmo. Onde há vida há esperança, certo? Pelo menos esse tem sido meu lema nos últimos seiscentos anos.
Encosto-me nele, coloco minha cabeça no vão de seu ombro enquanto olho na direção da casa e vejo a luz do quarto de Sabine se apagar. Aperto a mão de Damen e digo:
— Romy e Rayne estavam certas, sabe? Sobre a magia. Se for usada por motivos egoístas e malignos, termina em um carma que volta triplicado.
Mudamos de posição, nossos olhares se encontram enquanto o ar se torna pesado entre nós.
— O primeiro foi quando fui obrigada a ficar naquela situação com Haven e a mudei, transformei minha melhor amiga em uma adversária determinada a me destruir. O segundo foi minha atração por Roman, a chama negra que queimou dentro de mim. E agora... E agora isso... Roman... A morte da alma dele e, junto com ela, a destruição do antídoto. — Olho para ele. — Quer dizer, esse é o terceiro, certo? Ou minha atração por ele era uma coisa só minha? Um monstro que eu mesma criei, uma sombra de mim que já existia, e agora ainda há mais um carma por aí, em algum lugar, esperando apenas pelo momento certo para nos atacar de volta? Alguma fatalidade que não notaremos até que seja tarde demais?
Luto para recuperar o fôlego, subitamente tomada pelo pânico, o mau pressentimento de que ainda não acabou, de que há mais a caminho, e que está vindo em nossa direção.
Logo sou confortada pela sensação de seus braços fortes me segurando com força, o formigamento e o calor, e por saber que agora há uma luz branca e brilhante acesa dentro de mim. E por isso, por tudo que passei, agora sou forte o bastante para enfrentá-lo... Meu carma, meu destino, em qualquer forma que possa tomar...
Sinto o hálito quente de Damen em minha orelha, ecoando meus pensamentos ao dizer:
— De qualquer forma, enfrentaremos isso juntos. É assim que funciona com as almas gêmeas. É o que elas fazem.

5 comentários:

  1. Hohhhhhhhhh! Que fofo amo esse casal!
    Ass: Bina.

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  2. Achei que poderia ser melhor. Porem não tem como negar que foi fofo!

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  3. ahhhhhhhhhh que lindoooo <#

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  4. Eu Queria Mais Desse Novo Roman Que A Ever Conquistou:(

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