3 de novembro de 2015

Treze

— Adelina!
A voz que me chama é abafada, sussurrada, fazendo questão de ser ouvida apenas por mim.
— Adelina, minha querida, por favor, diga que veio por minha causa!
Saio do canto, da escuridão, para a tênue luz adiante. Esforço-me para o tom de voz calmo, firme, e digo:
— Eu vim por você, Alrik.
Curvo-me diante dele, com as mãos enterradas nas dobras da saia para que ele não possa vê-las tremendo, desesperada por esconder minha agitação, por parecer respeitável, refinada, tranquila.
Mas, assim que levanto a cabeça, assim que vejo como seus olhos escuros me encaram, parcialmente toldados pelas ondas negras que lhe caem sobre os cílios volumosos, sobre o nariz reto e ao longo do ângulo sinuoso de suas maçãs do rosto belamente esculpidas — quando vejo o modo como sua silhueta alongada e esguia preenche a entrada da porta —, meu rosto me entrega.
Meu olhar faísca, as bochechas coram, os lábios começam a tremer. Sou incapaz de conter a onda de prazer extremo e alegria que a mera visão dele me traz.
E, a julgar por sua expressão, fica claro que ele sente o mesmo. Posso dizer pelo jeito como ele para na soleira da porta e eleva a tocha, permitindo que a luz se derrame sobre mim.
Permitindo que seus olhos me devorem.
Posso ver, por sua respiração mais forte, pelo maxilar que se enrijece e pelo olhar perturbado de desejo, que exercemos o mesmo efeito um sobre o outro.
E todas as minhas dúvidas desaparecem quando ele percorre o espaço que há entre nós em apenas alguns passos e me abraça com força, quando cobre meu rosto com seus beijos e seus lábios capturam os meus, fundindo-se a eles, explorando. É só nisso que me concentro.
No aqui.
No agora.
Todo o meu mundo se encolhe até que nada mais exista.
Nada além da pressão de seus lábios, do calor de sua pele e da onda de formigamento e calor que sempre consegue me encontrar quando ele está por perto.
Recuso-me a pensar em um futuro que nunca poderá ser nosso.
Recuso-me a pensar em questões cruéis como classe e posição social, em compromisso e no estranho jogo de azar resultante da ordem do nascimento.
Recuso-me a pensar que, apesar de tanto amor, nunca poderemos pertencer um ao outro do modo como queremos. Uma sentença estabelecida muito antes de nos conhecermos. Nosso futuro determinado por outros, não por nós.
Apesar de ele me amar e de eu amá-lo, nunca nos casaremos.
Não podemos nos casar.
Ele foi prometido a outra desde pequeno.
A outra que vem de uma família muito mais rica que a minha.
A outra que, por acaso, é minha prima, Esme.
— Adelina — ele sussurra. Meu nome é como uma oração em seus lábios. — Ah, Adelina, diga-me que sentiu tanto a minha falta quanto eu senti a sua.
— Sim, milorde.
Afasto-me rapidamente. Vivo a glória de alguns momentos antes de ser brutalmente oprimida pela realidade em que nos encontramos. Lembro-me de quem sou: um parente pobre da prima distante com quem ele se casará. Penso em quem ele é: o futuro rei de nossa pequena cidade-estado. Recordo-me de onde ambos estamos: uma baia vazia e escura em seus estábulos. O ar tem cheiro de cavalo e de feno. Há um monte de palha nova a nossos pés.
— Milorde?
Ele franze a testa, passando os olhos escuros sobre mim até encontrar meus olhos azuis, e imagino se ele vê em meu olhar o mesmo que vejo no dele: decepção, dúvida e um desejo ardente, porém inútil, de mudar a situação.
— O que é isso? É assim que me vê agora? Como um lorde?
— Bem, e você não é? Pelo menos em tese?
É insolente, eu sei, mas também é verdade. Mas ele gosta disso em mim, do fato de eu não fazer os joguinhos usuais, principalmente no que diz respeito a fazer a corte. Não sou boba, nem do tipo namoradeira, e às vezes tendo a ir mais para o lado moleque que para o feminino. Mas sou franca, direta e faço o possível para me expressar desse modo.
Faço o possível para viver sem arrependimentos.
Ele segura meu rosto entre as mãos, passa o dedo desde minha têmpora até o queixo, erguendo-o, obrigando-me a olhar em seus olhos.
— Qual o motivo de toda essa formalidade? Está agindo como se tivéssemos acabado de nos conhecer. E, mesmo assim, se não me falha a memória, você não foi nem um pouco formal naquele dia, me empurrou direto na lama, e de cara. Certamente não teve modos, mas conseguiu me impressionar. Tenho certeza de que comecei a amar você naquele momento, coberto de sujeira dos pés à cabeça. Logo soube que minha vida nunca mais seria a mesma.
Um sorriso brota em meu rosto quando me lembro do momento com a mesma clareza que ele. Eu com dez anos, ele com treze. Eu estava na casa de parentes ricos e fiz uma visita a ele com minha prima mimada Esme, que adorava se gabar de sua riqueza para mim, sempre comparando seus vestidos elegantes com os meus, mais simples. Era um fardo tolerá-la. Então, irritada com sua constante presunção e ostentação sem fim sobre a beleza de seu futuro marido, sobre a riqueza dele e sobre como seria maravilhoso quando ela se tornasse rainha e eu fosse obrigada a me curvar e beijar seus pés, bem, não aguentei: fui direto até ele, peguei-o desprevenido e o empurrei no lago. Depois me virei para ela e disse: "Ainda acha que ele é bonito?" Ela começou a chorar e gritar e correu para contar a alguém o que eu havia feito.
— Era um lago — digo, olhando para ele.
— Um lago bem lamacento. — Ele assente. — A sujeira nunca saiu de minhas roupas. Ainda tenho a camisa manchada.
— E, se me lembro bem, paguei um preço alto por aquilo. Fui mandada para casa imediatamente e Esme nunca mais me convidou para visitá-la. O que, pensando bem, não foi uma punição, não é?
— E, mesmo assim, você acabou encontrando o caminho de volta. Pelo menos de volta para mim. — Ele coloca os braços ao redor de minha cintura, os dedos percorrendo minhas costas para cima e para baixo. A sensação é tão calmante e suave que faço o possível para me concentrar para não ceder a seus encantos.
— Sim — digo. Minha voz não passa de um murmúrio. — Ficou feliz com isso? — Sei que ficou, mas é sempre bom ouvir dele.
— Se fiquei feliz? — Ele joga a cabeça para trás e ri de um modo que mostra seu lindo pescoço, e preciso reunir todas as minhas forças para não beijá-lo. — Posso lhe mostrar o tamanho de minha gratidão?
Ele me beija novamente, primeiro de um modo brincalhão, com uma série de bitocas e mordidinhas, mas depois fica mais sério, muito mais sério. Tento responder com o ardor de sempre, mas algo está errado. E ele também nota.
— O que aconteceu desde a última vez em que nos encontramos? Você está diferente. Aconteceu algo que mudou seus sentimentos por mim?
Obrigo-me a desviar o olhar. Obrigo-me a respirar, falar. Mas a fala que ensaiei no caminho para cá de repente me escapa.
— Adelina, por favor, diga-me. Você não me ama mais?
— Não é nada disso! É claro que amo! Como pode dizer uma coisa dessas?
— Então o que é? O que aconteceu que você está me rejeitando?
Reúno as palavras, luto para levá-las da cabeça aos lábios, mas não consigo. Não consigo dizer o que precisa ser dito. Então, covardemente — palavra que nunca foi usada para me descrever —, olho para baixo.
— É o Rhys? Meu irmão está incomodando você novamente? — Seu maxilar fica tenso e seus olhos começam a se inflamar.
Nego com a cabeça, antes que o assunto se estenda.
Seu irmão Rhys tem cabelos perfeitos e um rosto mais perfeito ainda. Seus atributos físicos são o oposto do interior sombrio — do fato de ele ser dominado pela inveja enorme que nunca será capaz de superar.
É o segundo não apenas na linha de sucessão ao trono, na oportunidade de liderar o pequeno reino ibérico do pai, mas também na atenção do progenitor. Além disso, a garota que ama, minha mimada prima Esme, está prometida ao irmão — aquele que, na opinião de Rhys, tem tudo de mão beijada, mas nada merece.
Embora eu tenha tentado olhar para Rhys com compaixão, pelo menos porque temos algo em comum — o fato de nos haverem negado a verdadeira felicidade, de nos obrigarem a ficar longe daqueles que amamos por motivos políticos, financeiros e tradições que mal entendemos, minha simpatia logo foi frustrada por sua tendência à maldade e pela desprezível crueldade que demonstrou em relação a mim.
Como se eu tivesse feito isso. Como se fosse minha culpa o fato de Alrik estar prometido à amada de Rhys.
Como se eu mesma não estivesse disposta a mudar tudo, se pudesse.
Como se eu não quisesse reverter a situação, mudar a ordem em que eles nasceram para que eu pudesse viver feliz com Alrik e Rhys pudesse viver feliz com Esme, e todos viveríamos felizes para sempre, de preferência bem longe um do outro.
Mas, infelizmente, não é assim.
Para começar, Esme não tem interesse algum em Rhys. Ela ama Alrik. Mal pode esperar para se casar com ele.
Além disso, às vezes, quando me esforço para ser lógica e razoável, lembro-me de que, apesar de não ter dúvidas do amor de Alrik por mim, de que de me ama do mesmo modo que o amo, não sei se acredito quando diz que não tem interesse na coroa.
É seu direito. Como primogênito, como herdeiro do pai, é esse seu destino desde que veio ao mundo. Virar as costas a tudo isso... bem, parece sacrilégio.
— Adelina, por favor, não fique tão triste. — Alrik percorre os lábios em meu rosto, desesperado por iluminar meu humor apagado. — Não quando tenho a mais maravilhosa das surpresas para você.
Olho para baixo, assegurando a mim mesma que posso fazer isso. Que estou realmente preparada para prosseguir, então o fito nos olhos e digo:
— E eu tenho uma para você.
Respiro fundo e reúno forças. A honra não é algo que alguém entregue facilmente, não fora do casamento, ou pelo menos diante da promessa de que haverá um. E se alguém descobrisse, bem, sem dúvida isso me arruinaria. Ainda assim, não me importo. Não me importo com regras e convenções que são norteadas pela cabeça e ignoram solenemente o coração.
Não consigo me preocupar com um futuro que nem posso ver, quanto mais imaginar.
Só sei que Alrik se casará com Esme, e, mais cedo ou mais tarde, alguém se casará comigo. Já recebi propostas. Propostas sérias. Mas pelo menos por enquanto as recusei, mesmo diante das súplicas de meus pais. Mesmo ciente de que um dia vou me deitar com meu marido em nosso leito nupcial, mesmo tendo esperanças de que ele seja um homem bom e gentil, com muitas qualidades, no fundo do coração sei que nunca o amarei como amo Alrik.
O amor que sentimos um pelo outro só acontece uma vez na vida — e, para alguns, nem uma vez sequer.
E é apenas por esse motivo que estou preparada para arriscar tudo.
Se eu não fizer mais nada nesta vida, quero pelo menos experimentar o amor em sua forma absoluta, mais profunda e mais verdadeira. Senão, não vejo motivos para continuar existindo.
— Você primeiro — diz ele, com os olhos brilhando de expectativa, segurando minhas mãos entre as suas.
Ergo a cabeça, levanto os braços para envolvê-lo, junto as mãos em seu pescoço e, olhando diretamente em seus olhos escuros, digo:
— Decidi que estou pronta e disposta a... ser sua.
Ele franze as sobrancelhas, a princípio sem compreender o significado de minhas palavras. Mas ele logo entende e reage de um modo que eu não esperava. Por mais que eu tenha imaginado essa cena na cabeça, nunca pensei que ele responderia com um ataque de riso descontrolado. Uma risada profunda e sincera. Tão profunda e tão sincera que temo que alguém escute e nos encontre escondidos aqui.
Então, com a mesma rapidez, ele me puxa para perto dele, cobre meu rosto de beijos mais uma vez, pressionando os lábios com suavidade contra minha pele, e diz:
— Minha querida Adelina, não há motivos para sacrificar sua honra, já que logo será minha.
Eu me afasto e o encaro. Meu olhar é incrédulo; o dele, determinado.
— Eu... eu não entendo — gaguejo.
— Vamos nos casar. — Ele sorri. — Você e eu. Exatamente como sonhamos. Está tudo sendo organizado. Só você, eu e um membro do clero. Sinto muito que não seja grandioso, o tipo de casamento condizente com minha futura rainha, e sinto muito que sua família não possa estar presente para testemunhar nossa união. Tenho certeza de que entende a necessidade de fazermos tudo em segredo. Mas logo, muito em breve, assim que a notícia se espalhar e meu pai não tiver opção além de aceitar o que fiz e permitir que ambos os filhos construam um futuro com as mulheres que amam, bem, faremos a maior festa que você já viu. Adelina, eu prometo.
Observo seu rosto, desejando corresponder a seu estado de euforia, mas tenho muitas dúvidas até mesmo para tentar.
— Mas como faremos isso? Onde? E, o mais importante, Alrik, seu pai vai matar você!
Alrik apenas ri, desconsiderando a ideia com um aceno impaciente.
— Matar seu primogênito? Nunca! Meu pai irá se acostumar com a ideia. E quando ele conhecer você assim como eu conheço, não resistirá e a amará também. Você verá!
Mesmo querendo muito acreditar, não consigo. Sou menos idealista que Alrik. Cresci com muito menos riquezas e privilégios e já tive algumas das piores decepções que a vida pode trazer.
Antes que possamos entrar em detalhes, ouvimos passos, o som inconfundível de botas pisando o caminho lamacento entre as baias. Alguém para em frente à que estamos e bate de leve à porta. Uma voz masculina chama:
— Alrik? Está aí dentro?
— Estou — diz, cobrindo meu rosto de beijos e depois explorando o profundo decote quadrado de meu vestido. — Pode entrar. Mas já estou avisando, não me encontro sozinho, estou aproveitando o tempo com minha noiva.
Começo a me afastar, constrangida pela exposição pública, desejando me retrair para um canto escuro. Mas Alrik não tem vergonha e me puxa de volta para perto dele. Ele encaixa o braço ao redor de minha cintura enquanto Heath entra, faz uma reverência e mal tem tempo de arriscar olhar para nós quando diz:
— Milorde e Esme. — Ele endireita as costas novamente e revela um olhar de puro horror. — Ah, Adelina. Perdoe-me. Cometi um erro. Presumi...
Seu rosto enrubesce e as palavras falham. Não há como voltar atrás, não há um modo elegante de retirar o que disse.
Pior ainda é o fato de Heath ter pedido minha mão em casamento recentemente — algo que apenas ele, meus pais (que me censuraram muito por recusá-lo) e eu sabemos. Felizmente, Alrik não tomou conhecimento disso. Do contrário, certamente não seria tão receptivo com seu mais antigo e querido amigo de infância, e cavaleiro favorito de seu pai, como está sendo agora.
Observo Heath rapidamente, seus cabelos grossos e castanho-dourados, seus incríveis olhos azul-esverdeados, a silhueta esguia e musculosa, e me sinto terrivelmente culpada por ele nos ter encontrado desse jeito, ciente de que minha vida poderia ser muito mais simples se eu pudesse me obrigar a retribuir sua afeição. Mas é como dizer que, se não fosse pela existência do sol ficaríamos satisfeitos em ter chuva todos os dias.
O coração não é racional e raramente se comunica com o cérebro.
Quando Alrik está presente, todo mundo perde o brilho.
E, por mais belo, gentil e bem-intencionado que Heath seja, fica quase invisível ao lado de Alrik. Isso pode parecer cruel, mas é a mais pura verdade.
— Bobagem, meu amigo! — grita Alrik, nem um pouco incomodado com o evidente lapso de Heath. — Venha, junte-se a nós! Mandei chamá-lo por um motivo. Queria que fosse o primeiro a saber da novidade. Adelina e eu vamos nos casar!
— Senhor. — Ele faz uma reverência, mais por respeito, mas em parte para esconder a expressão claramente confusa no rosto. Quando volta à posição ereta, está novamente controlado, embora ainda se esforce para não olhar para mim.
— Confio que manterá tudo em sigilo até a hora da revelação.
— E quando será, senhor?
— Amanhã nos casaremos. E no dia seguinte compartilharei minha alegria com o reino. Por enquanto, tenho que ir. Preciso resolver alguns detalhes de última hora. Posso confiar em você para acompanhar Adelina, minha futura esposa, em segurança até a casa dela?
— É claro, milorde. — Ele se curva mais uma vez. Mas agora, enquanto me afasto do beijo de Alrik, percebo Heath me olhando de um modo que não consigo compreender.
Sua expressão carrega um olhar que continuo analisando bem depois de já ter transformado em outro, mais dócil.
Um olhar que continuo tentando decifrar enquanto saímos do estábulo para o que sobrou da luz do dia.
Um olhar que, embora ainda não consiga definir, se prolonga — e sua insistência me deixa profundamente inquieta.

6 comentários:

  1. Deixa ver se entendi! Adelina é Ever, Alrik é Damen, Heath é Jude, Esme é Drina, e Rhys é Romen?! Que máximo! Mesmo sabendo que vai dar tuuudo errado não consigo conter a animação! Conhecer a origem da historia deles!

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    1. Caramba!Tu Éh Fera Msm Hein...Eu Ñ Tavah Entendendo Nada...

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  2. Isso é melhor do que assistir uma filme! Brigas, ciúmes, intrigas e amigos fura olhos!kkkkkkkkkkk
    Ass: Bina.

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  3. Ok. Diferente de tudo oq imaginei, mas, o que diabos aconteceu de grave nessa vida pra os pobres coitados ainda n terem conseguido tirar o cabaço ainda? Ops, a verdadeira felicidade, quero dizer. :v

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  4. Alguém me explica pq não to entendendo mais nada quem é quem na história tá meio confuso

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