2 de novembro de 2015

Treze

No fim da tarde de sábado, não há como evita-los. Sabine está na cozinha picando um monte de legumes para uma salada grega e Muñoz está a seu lado, recheando generosamente tortinhas com carne de peru moída.
— Ei, Ever. — Ele olha para a frente, com um breve sorriso. — Quer se juntar a nós? Há muitas outras de onde vieram estas.
Olho para Sabine, vendo como enrijece os ombros, como sua faca bate na tábua um pouco mais forte enquanto ela fatia um tomate, e eu sei que ainda falta muito para ela me perdoar, para me aceitar, e simplesmente não posso lidar com isso agora.
— Não, hã, na verdade, estou de saída — digo, mal olhando em seus olhos, tentando evitar parar e conversar, ansiosa demais para sair logo dali.
Estou chegando à porta, quase livre, quando ele termina de preparar as tortas, olha para mim e pede:
— Você poderia segurar a porta para mim?
Eu paro, pois sei que não é só segurar a porta. Ele quer conversar comigo em um lugar silêncioso e reservado, onde sua namorada não possa nos escutar. E, como eu sei que não há como fugir dessa, eu o sigo até o lado de fora e depois até a churrasqueira elétrica, onde ele briga com a tampa, gira os botões e começa a preparar os hambúrgueres.
Fica tão entretido com a tarefa que estou prestes a sair, achando que entendi completamente errado, quando ele diz:
— Então, como está a escola neste ano? Não a tenho visto muito por lá... se é que a tenha visto. — E olha rapidamente para mim, antes de se voltar de novo para o que estava fazendo, derramando algum tipo de tempero secreto na carne enquanto eu fico ali parada, tentando imaginar uma resposta.
Não faz sentido mentir para alguém que pode facilmente consultar as listas de presença, então levanto os ombros e digo:
— Bem, talvez seja porque faltei todos os dias, à exceção do primeiro. Na verdade, tirando esse dia, nem apareci por lá.
— Ah... — Ele concorda, balançando a cabeça, coloca o vidro de tempero no balcão de granito, depois se vira e olha para mim de cima a baixo.
— Um caso grave de ultimoanite, imagino.
Coço o braço, embora ele não esteja coçando, e tento não demonstrar que estou mais nervosa do que já deixei transparecer. Desvio o olhar para a janela em que Sabine monta guarda, e a mera visão dela me deixa com vontade de escapar.
— Normalmente os sintomas não surgem antes do ultimo semestre, que é quando as coisas começam a dar errado. Mas parece que você pegou o vírus mais cedo. Há algo que eu possa fazer para ajudar?
Sim, pode dizer para sua namorada parar de me julgar... Pode dizer para Haven não me matar... Pode dizer a Honor não me ameaçar... E pode descobrir a verdade escondida há muito tempo sobre mim e Damen... Ah, e em seu tempo livre, pode pôr as mãos em certa camisa branca manchada e manda-la para análise em um bom laboratório de criminalística... Isso seria perfeito!
É claro que não digo nada. Em vez disso, apenas dou de ombros e suspiro bem alto, na esperança de que ele ouça e capte a mensagem.
Mas se ele capta, prefere ignorar.
— Sabe, só para o caso de achar que está sozinha no meio disso tudo... Não está mesmo.
Estreito os olhos, sem saber bem aonde ele pretende chegar.
— Conversei com ela, sabe? Falei um pouco da pesquisa com a qual deparei com pessoas que passaram por experiência de quase morte.
Apesar de meu desejo de sair dali, coloco as mãos nos quadris e avanço mais um pouquinho em sua direção.
— E como exatamente você deparou com esse tipo de pesquisa? — pergunto. — Quer dizer, fala sério! Não seria o tipo de coisa da qual se vai atrás?
Ele se concentra na carne, transferindo-a do prato para a grelha. Sua voz soa baixa e monótona quando explica:
— Vi uma matéria na TV uma vez e a achei fascinante. Tão fascinante que comprei um livro sobre o tema, que levou a outros livros e... Assim por diante. — Ele aperta a espátula sobre o hambúrguer, fazendo com que o sumo da carne borbulhe e chie. — Mas você... Você é a primeira pessoa que conheci que realmente passou por uma experiência assim. Já pensou em fazer parte de algum desses grupos de pesquisa? Ouvi dizer que estão sempre à procura de novos casos.
— Não — digo, mal dando a ele a chance de terminar a pergunta.
Minha resposta é firme, definitiva, sem lhe dar tempo para pensar de verdade na possibilidade. A última coisa de que preciso é fazer parte de alguma pesquisa barata.
Mas ele apenas ri, levanta as mãos enluvadas em sinal de rendição e diz:
— Não atire. Estou só perguntando.
Ele vira os hambúrgueres, um depois do outro, provocando estalos e chiados, a trilha sonora do churrasco que ouvimos ao ficar parados ali.
Então, tão logo as carnes ficam prontas, ele as retira e joga mais uma vez no prato, parando por tempo suficiente para olhar para mim e dizer:
— Ouça, Ever, é só dar a ela algum tempo para que se sinta confortável com a ideia. Não é fácil ter todas as suas crenças postas em xeque, sabe? Mas, se você ajudar só um pouquinho, ela mudará de opinião. Com certeza. Prometo a você que continuarei tentando convencê-la, se prometer que também fará sua parte. E, antes que perceba, tudo terá passado. Você vai ver.
É essa a sua previsão? Eu quero perguntar, mas — ainda bem — engulo as palavras. Ele está apenas tentando ajudar. Não importa se acredito ou não nele ou se Sabine vai ou não mudar de opinião sobre mim. Ele está apenas tentando criar uma relação comigo, e o mínimo que posso fazer é permitir.
— Mas, no que se refere à escola e à sua frequência... — Ele me lança um olhar severo. — É apenas questão de tempo até que ela saiba. Então, tente não deixar a situação pior do que já está para você, tudo bem? Ou pelo menos pense a respeito. Além disso, até onde sei, conseguir um diploma do ensino médio não faz mal a ninguém. Na verdade, só ajuda.
Resmungo algum tipo de resposta sem entusiasmo, faço um gesto rápido para me despedir e sigo na direção do portão. Não sei se a conversa terminou de verdade, mas tenho certeza de que a minha parte nela, sim. Esse tipo de coisa, as regras às quais ele se referiu, não se aplica mais. A pompa e a circunstância de se formar no ensino médio servem para as outras pessoas.
Pessoas normais.
Pessoas mortais.
Não para mim.
Bem antes de chegar onde o carro está estacionado, dou a partida nele com a mente. Passo pelo portão em direção à rua e acelero para o lugar no qual combinei com Jude de nos encontrarmos.

2 comentários:

  1. E eu feito uma imbecil acreditando que não tinha mais possibilidades dela ficar com Jude!
    EVER VAI LOGO ATRÁS DO DAMEN!

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  2. BIXA BURRA!FICA COM O DAMEN LOUCAAAAAAA!!!

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