3 de novembro de 2015

Três

Depois de duas semanas inteiras acordando na cama de Damen, envolta em seus braços, seria certo imaginar que eu já estivesse acostumada.
Mas não.
Nem um pouco.
Eu bem que poderia me acostumar.
Eu gostaria de me acostumar.
De me acostumar à segurança de seu corpo pressionado contra o meu, ao calor de sua respiração em meu ouvido...
Mas, por enquanto, não estou nem perto disso.
Sempre fico um pouco desorientada no início. Preciso de alguns instantes para juntar as peças, avaliar as novas circunstâncias. Determinar minha localização, minha situação e como vim parar aqui.
E é sempre essa última parte, esse como-vim-parar-aqui, que me desanima.
E esse nunca é o melhor jeito de saudar um novo dia.
— Buongiorno — sussurra Damen, com a voz um pouco rouca devido às horas de desuso. Ele começa cada manhã com um dos muitos idiomas que domina. Hoje escolheu italiano, sua língua materna. Ele mergulha o rosto na cortina de longos cabelos louros que repousa em meu pescoço e respira fundo.
— Buongiorno para você também — digo, a voz abafada pelo travesseiro macio no qual meu rosto está enterrado.
— Dormiu bem?
Viro de barriga para cima, tiro o cabelo dos olhos e desfruto um belo e longo momento simplesmente admirando Damen. Noto que isso é mais uma coisa com a qual não estou tão acostumada: olhar para ele. Ver sua beleza pura e impressionante. É uma imagem que causa admiração.
— Sim. — Dou de ombros, fazendo uma pausa para fechar os olhos e materializar um hálito mentolado antes de prosseguir. — Bem, não me lembro, então deve ser um bom sinal, certo?
Ele sai de baixo do lençol e se apoia no cotovelo, descansando a cabeça na palma da mão para me ver melhor.
— Você não se lembra? De nada? — pergunta ele com um tom de voz ridiculamente esperançoso.
— Bem, vejamos... — Finjo estar pensando, tamborilando o indicador no queixo. — Lembro-me de você ter apagado as luzes e deitado a meu lado... — Observo-o pelo canto do olho. — Eu me lembro de suas mãos... ou pelo menos da quase sensação de suas mãos ...
Seu olhar fica levemente perdido, sinal claro de que também está se lembrando.
— E acho que me lembro vagamente da quase sensação de seus lábios... mas, como eu disse, a lembrança é bem vaga, então não tenho certeza...
— Vaga? — Ele sorri, e seus olhos brilham de um modo que deixa bastante claro seu desejo de refrescar minha memória.
Retribuo o sorriso, mas ele logo desaparece quando digo:
— Ah, sim, e acho que me lembro de alguma coisa relativa a uma viagem de última hora a Summerland durante a madrugada e da velha louca no local onde enterramos os pertences de Haven e de como você concordou, meio relutante, em me ajudar a descobrir o sentido daquela mensagem maluca e enigmática... — Olho em seus olhos e, sim, é como imaginei: ele me encara como se eu tivesse aberto uma torneira e jogado um balde de água fria em sua cabeça.
Damen vira de barriga para cima e fica olhando para o teto, refletindo em silêncio absoluto, depois se senta e balança as pernas fora da cama, numa luta para desenrolar o lençol do joelho.
— Damen... — começo a falar, sem saber o que dizer em seguida. Mas não importa, porque ele preenche rapidamente os espaços vazios.
— Esperava que passássemos nossas férias de inverno fazendo outras coisas. — Ele segue na direção da janela, onde para e olha para mim.
— Que tipo de coisas? — Estreito os olhos, imaginando de que ele pode estar falando.
— Bem, para começar, não acha que já é hora de resolvermos essa situação com Sabine?
Agarro o travesseiro do lado dele e cubro meu rosto, uma atitude que sei que, além de incrivelmente inútil, é imatura, mas na hora nem me importo.
Se não quero nem pensar em Sabine, então acho que posso dizer que também não quero falar sobre Sabine. Mas lá está ele, querendo conversar sobre meu tabu, o assunto proibido número 1 — pelo menos por enquanto.
— Ever... — Ele puxa o travesseiro, mas eu o agarro com mais força. — Você não pode deixar ficar desse jeito. Não está certo. Mais cedo ou mais tarde terá que voltar lá. — Ele puxa o travesseiro mais uma vez, mas logo suspira e retorna a seu lugar perto da janela.
— Está me mandando embora? — Desço o travesseiro para a barriga, viro de lado e o envolvo com os braços, como se fosse servir de escudo para o que viesse em seguida.
— Não! — Damen nega rapidamente com a cabeça, passando os dedos nos cabelos embaraçados e ajeitando-os. Seu olhar é de total perplexidade quando ele diz: — Por que eu faria isso? — Os braços voltam para a lateral do corpo, alinhados às pernas. — Amo ir dormir com você, assim como amo acordar a seu lado. Achei que soubesse.
— Tem certeza disso? — arrisco, percebendo o desalento em seu olhar. — Quer dizer, não é frustrante? Você sabe... nós dormirmos juntos sem podermos realmente dormir juntos? — Aperto os lábios, sentindo o calor subir para meu rosto.
— Só o que acho frustrante é você tentar se esconder debaixo de um travesseiro para não precisar falar sobre Sabine.
Fecho os olhos, deixando os dedos puxarem sem qualquer cuidado a costura da fronha, ciente de que estou ficando alterada, de que meu humor está mudando e se pondo contra Damen, e espero conseguir parar antes de ir longe demais, antes que isso nos afaste.
— Não há nada a dizer. Ela acha que sou louca. Eu acho que não sou. Pelo menos não do jeito que ela pensa. — Olho para ele, tentando dar um pouco de leveza, mas ele nem nota. Está levando isso muito a sério. — Bem, ela está tão convencida disso que minhas únicas opções são concordar ou ir embora. Foi essa a escolha que ela me deu. E, sim, mesmo admitindo abertamente que isso magoa, que magoa muito, parte de mim ainda não para de pensar que talvez tenha sido melhor assim. Você entende?
Seus olhos se estreitam, pensando, ponderando, até que ele cruza os braços, fazendo com que seus músculos se contraiam e relaxem.
— Não, não entendo. Por que não me explica?
— Bem, é como você sempre diz: mais cedo ou mais tarde, terei que dar adeus às pessoas. E será mais para cedo que para tarde. Segundo você, essa é a realidade, certo? Então de que adianta fazer as pazes, insistir em ficar por perto por mais alguns meses, se precisarei me afastar de qualquer modo? Foi você quem disse. Não vai demorar até que ela desconfie. Até que todos desconfiem. Ela vai perceber que não envelhecemos nem um dia sequer. E, como não existe um jeito lógico de explicar algo assim, e como Sabine é uma pessoa que não espera nada diferente da lógica absoluta, preto no brancobem, não há muito o que fazer, há?
Trocamos um olhar, e, embora eu tenha apontado todos os motivos, incluindo os que ele mesmo deu, está claro que não foram suficientes. Ele ainda não está convencido da razão pela qual não devo me levantar da cama, ir até lá e tentar fazer as pazes. O que significa que ele está sendo incrivelmente teimoso, ou que eu não consegui defender minha tese, ou ambas as hipóteses.
— Por que adiar o inevitável? — Engulo em seco e abraço o travesseiro novamente. — Talvez tudo isso tenha acontecido por um motivo. Você sabe como eu temia a despedida, mas agora que isso aconteceu talvez torne tudo mais fácil. Talvez seja a solução que venho buscando, talvez seja como um presente do universo! — As palavras vêm tão rapidamente que paro a fim de recuperar o fôlego, embora fique claro só de olhar em seus olhos que ele não está acompanhando meu raciocínio. Então decido mudar de marcha, tentar outra abordagem, esperando que funcione um pouco melhor. — Diga a verdade, Damen: em todos esses anos que você viveu, com tantas partidas e chegadas, por assim dizer, alguma vez já começou uma briga, ou mesmo usou uma briga, para ter um motivo para ir embora?
— É claro que sim. — Ele evita olhar, mexendo no elástico da cueca preta de algodão. — Mais de uma vez, pode ter certeza. Mas não significa que foi a coisa certa a fazer.
Fico quieta, não tenho mais nada a dizer. Estreito os olhos quando ele se vira para ajustar as persianas, saudando os débeis raios de luz do que parece ser um dia cinzento de meado de dezembro.
— Talvez você esteja certa. — Ele observa a paisagem. — Talvez seja a maneira menos sofrida de partir. Você não pode mesmo dizer a verdade. Só colocaria mais lenha na fogueira. Ela não aceitaria a verdade. E se por algum milagre aceitasse, bem, então não aprovaria. E o pior é que ela estaria com a razão. O que eu fiz... no que transformei você... não é natural. Vai contra qualquer lei da natureza. — Ele faz uma pausa e vira para mim com um olhar de arrependimento genuíno. — Uma certeza eu tenho: não estamos levando a vida que deveríamos. Nosso corpo é imortal, isso é verdade, mas está claro que nossa alma não é. Nossa vida zomba das leis mais fundamentais da natureza. Somos o oposto do que deveríamos ser.
Começo a falar, começo a dizer qualquer coisa, simplesmente porque odeio vê-lo assim. Mas ele não deixa. Não terminou ainda, está determinado a expor mais alguns argumentos.
— Shadowland pelo menos serviu para me dar certeza disso. Você esteve lá, Ever. Duas vezes, se não me falha a memória. A primeira, por meu intermédio, e, mais recentemente, por causa de Haven. Então me diga, é capaz de negar o que acabei de dizer? É capaz de negar que seja verdade?
Respiro fundo, pensando naquele dia horrível em que Haven golpeou minha garganta. Bem no alvo — meu quinto chacra, centro de minha falta de discernimento, mau uso de informação e confiança nas pessoas erradas. Um soco foi o suficiente para me matar, acabar comigo, me jogar, estraçalhada e vacilante, em uma espiral de escuridão e esquecimento. O abismo. Lar da alma dos imortais. Lembro-me de como rodopiei pela escuridão, perdida no vazio, atacada por um fluxo infinito de imagens de todas as minhas vidas anteriores, forçada a reviver os erros que cometi, todas as decisões equivocadas, os enganos — sentindo a dor dos outros tão intensamente quanto a minha. Encontrei a saída apenas quando a verdade enfim foi revelada. Fui poupada de uma eternidade de isolamento profundo quando não restaram mais dúvidas em minha mente de que Damen era O Único.
Minha alma gêmea.
Ele e só ele por toda a eternidade.
A revelação repentina, junto com minha declaração, reconhecendo total e completamente a verdade sobre mim e Damen, sobre nosso amor, foi o que me curou, me absolveu.
A única coisa que me livrou do ônus de meu chacra fraco.
O único motivo pelo qual estou aqui hoje.
Concordo com a cabeça, sem nada a acrescentar. Ele sabe o que vi, pelo que passei, quase como se ele próprio estivesse lá.
— Somos só você e eu, Ever. Temos apenas um ao outro. Uma perspectiva que pode ser mais interessante para mim que para você, mas só porque já me acostumei com uma vida de lobo solitário.
— Temos Miles — digo, apressando-me em lembrar Damen de que agora ele sabe de nosso segredo imortal. — E Jude. — Minha respiração falha. Ainda me sinto um pouco estranha ao mencioná-lo na presença de Damen, apesar de eles recentemente terem decidido enterrar o passado e começar de novo. — Então não estamos totalmente sem amigos, não é?
Ele apenas dá de ombros, provavelmente pensando na parte que não mencionei, na parte que é dolorosa demais para ser dita. O fato de que algum dia Miles e Jude estarão velhos, grisalhos, jantando cedo e esperando ansiosamente por uma partida estimulante de dominó, enquanto Damen e eu continuaremos exatamente iguais, inalterados.
— Só não gosto de ver sua relação com Sabine terminar assim — ele finalmente diz, com uma espécie de suspiro velado no olhar. — Mas talvez você esteja certa, talvez seja uma forma tão válida quanto qualquer outra. Já que é inevitável, e tudo mais.
Jogo o travesseiro de lado e estendo a mão em sua direção. Odeio quando ele fica tão triste, quando fica introspectivo e começa a se culpar. Faria o que fosse preciso para mudar de assunto, para apagar isso tudo de vez. Mas ele já se virou antes de ver minha mão estendida, então recolho o braço e fico mexendo no edredom.
— Certo. Fora a reunião com Sabine, o que mais você tem em mente? Sabe, para nossas férias de inverno? — pergunto, esperando expulsar aquela nuvem carregada.
Ele demora um tempo para responder, para superar o desespero. Mas, quando consegue, vale muito a pena. O sorriso que ilumina seu rosto clareia de imediato o que ainda há pouco indicava um dia sombrio e triste.
— Bem, pensei que talvez pudéssemos fazer algo espontâneo, um pouco maluco até. Poderíamos tentar nos divertir um pouco de verdade, para variar. Você ainda lembra o que é diversão, não lembra?
— Vagamente. — Balanço a cabeça, entrando na brincadeira.
— Acho que poderíamos tirar férias em algum lugar... — Ele me olha de um jeito misterioso, travesso, e depois faz um sinal na direção da poltrona de couro creme do outro lado do quarto, pega o roupão de seda escuro que largou ali na noite passada e o veste depressa. Seu corpo se movimenta com tanta fluidez que é como se o roupão e ele fossem um só.
Analiso-o com cuidado, imaginando se realmente planejou algo assim ou se está apenas tentando me seduzir com um plano bolado às pressas.
— Mas... — Ele para, apertando a faixa do roupão, mas deixando-o aberto e folgado no corpo, permitindo que boa parte do peito e do abdome definido fique à vista.
Recosto-me na cabeceira da cama e puxo o lençol até o queixo — sua seminudez me deixa ciente da minha própria. Ainda não estou acostumada a viver como um casal, com tanta intimidade, e as manhãs sempre me deixam um tanto tímida e inibida.
— Ever, sei como está ansiosa para resolver logo todas as questões que a estão incomodando. E, como eu disse ontem à noite, estou disposto a ajudar...
Olho para ele, preparando-me para o grande impacto de sua afiada e refinada capacidade de negociação. Praticamente consigo ver os argumentos em seus olhos.
— Então concordo em lhe dar uma semana. Uma semana inteira de minha atenção total e ininterrupta no quesito desvendar-o-enigma-da-velha-doida. E, quando a semana terminar, se não tivermos chegado a lugar algum, bem, só peço que aceite a derrota de bom grado para que passemos ao meu plano, que será muito melhor, muito mais brilhante, muito mais divertido. O que me diz?
Mordo a parte interna da bochecha, esperando para responder:
— Bem, depende.
Ele me olha, movendo-se de um jeito que afrouxa um pouco mais o roupão. Ampliando a área visível. Trapaceando.
— Depende desse seu plano. — Mantenho o olhar fixo no dele. — Preciso saber em que estou me metendo. Aonde pretende me levar. Não posso simplesmente concordar às cegas com qualquer coisa. Tenho meus padrões, sabe? — Desvio os olhos na direção de minhas mãos, evitando encará-lo em toda a sua glória e optando por focar minhas cutículas.
Ouço uma risada como resposta. O som é como um rugido profundo e alegre que toma conta do quarto e preenche meu coração. Fico feliz em saber que o momento sombrio de instantes atrás foi esquecido por enquanto.
Ele se vira e caminha até o banheiro, e suas palavras passam por cima dos ombros quando diz:
— Férias. Só você e eu em um glorioso lugar exótico. Férias de verdade e apropriadas, Ever. Longe de tudo e de todos. Férias em um local que eu escolherei. Só precisa concordar. Deixe os detalhes comigo.
Sorrio para mim mesma, amando o que ele diz e as imagens que surgem em minha cabeça e que não pretendo revelar, então digo a ele apenas:
— Veremos. — As palavras são abafadas pelo som de água jorrando que vem do enorme chuveiro.
— Veremos. — sussurro, tentada a me juntar a Damen, sabendo que é exatamente isso que ele quer, mas, como tenho apenas uma semana para decifrar o enigma, corro para o laptop.

4 comentários:

  1. Será que é só eu que estou pirando com o peitoral de Damen?!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
  2. Nãoooooooooo nem um pouco ! Estou pirando também

    ResponderExcluir
  3. Ela é retardada cara em vez dela ir com ele ele vai pro laptop

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Verdade ela e muito boba em nao ir com ele

      Excluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!