2 de novembro de 2015

Três

— Você não deveria estar de saída para a escola?
Giro a tampa de minha garrafa de elixir e olho para a mesa da cozinha, à qual Sabine está sentada. Reparo que seus cabelos louros, na altura dos ombros, estão acomodados atrás da orelha, que sua maquiagem perfeitamente coordenada está aplicada sem falha alguma, que seu terninho está passado, limpo e com um caimento perfeito, sem nenhuma dobra estranha ou vinco à vista, e não consigo deixar de imaginar com é ser ela. Como é viver em um mundo em que tudo é tão ordenado, obediente, metódico e organizado.
Onde todos os problemas têm uma solução lógica; toda pergunta, uma explicação acadêmica, e todo dilema pode ser resumido em um simples veredicto de inocente ou culpado.
Um mundo em que tudo é preto e branco, e todos os tons de cinza são rapidamente eliminados.
Faz muito tempo que vivi nesse mundo, e, agora depois de tudo o que vi, é impossível voltar a viver nele.
Ele continua a olhar para mim, com o resto sério, a boca em uma expressão austera, prestes a repetir o que disse, quando falo:
— Damen vai me levar hoje. Ele já deve estar chegando.
Noto que seu corpo enrijece à simples menção do nome dele. Ela insiste em culpá-lo por meu inesperado mau comportamento, embora ele estivesse bem longe da livraria naquele dia.
Ela assente, seus olhos me examinando vagarosamente. Analisando-me, observando com cuidado cada detalhe, de cabeça aos pés, e depois subindo novamente e recomeçando o trajeto. Em busca de maus sinais, luzes piscando, placas de aviso, qualquer coisa que sinalize perigo. Algum tipo de sintomas revelador sobre o qual seus livros de educação infantil a alertaram.
Mas consegue pouco mais que a imagem de uma garota loura, de olhos azuis, ligeiramente bronzeada, descalça e usando um vestido branco de verão.
— Espero que não tenhamos mais confusões neste ano. — Ela leva a caneca á boca e olha para mim por sobre ela.
— E a que tipo de confusão está se referindo? — pergunto, odiando como minha voz se enche de sarcasmo tão facilmente, mas ainda assim cansada de ficar sempre na defensiva por causa dela.
— Acho que você sabe. — Suas palavras são curtas e sua testa se enruga. Eu respiro fundo e tento revirar os olhos de um modo que ela não possa ver.
Fico dividida entre me sentir completamente chateada por termos chegado a esse ponto — a longa lista de recriminações diárias que nunca serão apagadas — e me sentir totalmente furiosa por ela se recusar a aceitar minha palavra, a aceitar o que eu digo como verdade, que eu sou assim, aconteça o que acontecer.
Mas, ainda assim, dou de ombros e digo:
— Bem, então ficará feliz em saber que não bebo mais. Parei pouco depois de ter sido suspensa. Principalmente porque não fazia tão bem para mim. Mesmo que você não queira ouvir isso, e provavelmente nem vai acreditar, estava entorpecendo meus dons da pior maneira possível.
Ela fica furiosa, eriçada, quando uso a palavra dom. Já me rotulou de triste, patética, carente, falsa, alguém que está obviamente gritando por ajuda... Ela realmente passou a odiar mais que tudo que eu use essa palavra. Odeia que eu me recuse a ceder, que me recuse a sucumbir à sua forma de pensar.
— Além disso — digo, batendo a garrafa no balcão, olhando fixamente para ela — não tenho dúvidas de que já convenceu Muñoz a me espionar e a fornecer um relatório completo ao fim de cada dia. — Arrependo-me das palavras assim que termino de falar, porque, ao mesmo tempo em que isso pode ser verdade, não é justo com Muñoz. Ele tem sido muito legal e compreensivo comigo, ele pareceu intrigado, fascinado e surpreendentemente bem-informado. É uma pena que não consiga convencer a namorada disso.
Mais, ainda assim, se ela está tão relutante em me aceitar como sou, então por que tenho que aceitar tão rápido o fato de ela estar apaixonada por meu professor de história velho?
Mas eu devo.
E não porque a soma de duas coisas erradas quase nunca é a certa, mas porque, apesar do que ela possa pensar e apesar do que possa dizer, no fim das contas tudo o que eu quero é que ela seja feliz.
Bem, isso e que ela supere tudo para que possamos voltar a viver com antes.
— Ouça — digo, antes que ela tenha a chance de reagir, sabendo que preciso evitar que a situação piore ainda mais. Antes que isso se agrave e fique como as “competições de gritos” que temos desde que ela me pegou fazendo leitura mediúnica para sua amiga, com o codinome Avalon. — Eu não quis dizer isso. É sério. Desculpe. — Balanço a cabeça, reforçando o que disse. — Então podemos, por favor, fazer uma trégua? Você me aceita, eu a aceito e todos vivemos felizes para sempre, em paz, alegria, harmonia e tudo o mais?
Olho para ela, meu olhar praticamente implorando para que ceda, mas ela apenas balança a cabeça e resmunga baixinho. Algo sobre eu ir direto da escola para casa por enquanto, até ela decidir o que fazer.
Mas, mesmo que eu a ame, mesmo que seja grata por tudo o que ela fez, não vou me sujeitar a restrições, castigos, nada disso. Porque a verdade é que eu não preciso viver aqui.
Não preciso aguentar essas coisas. Tenho opções. Muitas opções. E ela não tem ideia de quanto eu me esforço para parecer que eu não tenho.
Finjo me alimentar, mesmo que não precise mais; finjo estudar, quando não é mais necessário; finjo se como qualquer garota normal de dezessete anos, que depende dos adultos em sua vida para ter o que comer, ter um teto para morar e ter dinheiro, e para praticamente tudo o que diz respeito a seu bem-estar. Mas não estou nem perto de ser essa garota. Estou o mais longe possível disso. E é minha responsabilidade me assegurar de que ela não descubra mais do que já sabe.
— Que tal isso — eu digo, mexendo meu elixir, vendo-o brilhar enquanto sobe e desce pela lateral da garrafa. — Vou me esforçar para não me meter em confusão e não ficar em seu caminho, se concordar em fazer o mesmo. Combinado?
Ela olha para mim, sobrancelhas unidas, claramente tentando determinar se estou sincera ou fazendo algum tipo de ameaça. Aperta os lábios por um instante, tempo suficiente para reunir as palavras e dizer:
— Ever... Eu... Eu só estou muito preocupada com você. — Ela balança a cabeça e passa os dedos na borda da caneca. — Queira admitir ou não, você está profundamente perturbada, e eu não sei mais o que fazer para lidar com você, como chegar até você, como ajudá-la.
Coloco a tampa de volta na garrafa, e o que me restava de boa vontade se dissolve em um segundo. Olho em seus olhos e digo:
— É, bem, talvez isto ajude. Primeiro: se quer tanto me ajudar, como diz, poderia começar não me chamando de louca. — Balanço a cabeça e calço as sandálias, e sinto Damen estacionando na entrada, bem na hora. — E segundo... — Jogo a mochila nos ombros enquanto nossos olhos se encontram. —... Poderia parar de se referir a mim como carente, profundamente perturbada, fraude... Ou qualquer variação do tipo. — Faço que sim com a cabeça, para reforçar minhas palavras. — Só essas duas atitudes já seriam um belo começo para me ajudar, Sabine.
Não lhe dou tempo para reagir. Saio da cozinha, e da casa batendo a porta com mais força do que pretendia, deixando tudo para trás enquanto sigo para o carro de Damen.
Escorrego para o banco de couro macio e olho para ele enquanto diz:
— Então chegou a esse ponto?
Olhos para onde seu dedo aponta, para a janela em que está Sabine. Ela não se dá o trabalho de olhar pela persiana, em mesmo pela fresta entre as cortinas. Não tenta esconder o fato de que está me vigiando. Vigiando nós dois. Apenas continua ali, com a boca fechada, o rosto severo, as mãos no quadril enquanto nos observa.
Eu suspiro e olha para ele, evitando-a de propósito.
— E fique feliz por eu tê-lo poupado do interrogatório que aconteceria se você entrasse. — Eu assinto com a cabeça. — Acredite, havia um motivo para que eu tenha pedido para esperar aqui fora — acrescento, ainda olhando para ele.
— Ela ainda está nessa?
Faço que sim e reviro os olhos.
— Tem certeza de que não posso falar com ela? Talvez ajude.
— Esqueça. — Balanço a cabeça, desejando que ele engate logo a ré no carro e me tire deste lugar. — Não já argumentos com ela... Ela é completamente irracional, e acredite, se tentar falar com ela só vai tornar a situação pior.
— Pior que a cara feia que ela fez para mim da janela? — Ele alterna o olhar entre mim e o espelho retrovisor enquanto engata a ré, curvando os lábios de um modo um pouco mais brincalhão do que eu gostaria.
Isso é sério.
Eu estou falando a sério.
E, mesmo que não seja tão sério para ele, ainda é importante para mim.
Quando olho novamente para ele, no entanto, decido deixar para lá e dar um desconto.
Lembro-me de qual a mera amplitude de seus anos, seus séculos de vida, o deixou mais ou menos inabalável em relação a dramas menores da vida cotidiana que sempre parecem ocupar tanto espaço.
Pelo ponto de vista de Damen, tudo o que não seja eu cai na categoria “não vale a pena”. Chega a parecer que a única real preocupação dele hoje em dia, a única coisa na qual se concentra, até mais do que encontrar um antídoto para que finalmente possamos ficar juntos após quatrocentos anos de espera, é proteger minha alma de Shadowland. Para ele, todo o resto é insignificante quando comparado a isso.
E, mesmo realmente tendo uma visão mais ampla de tudo, não consigo deixar de me preocupar também com as coisas “menores”.
E, infelizmente para Damen, a melhor forma de eu entender tudo em minha cabeça é discutindo repetidas vezes.
Acredite, você foi poupado. E muito. Se tivesse insistido em entrar, teria sido muito pior. As palavras passam de minha mente para a dele enquanto olho pelo para—brisa diante de mim, impressionada por ver como o dia já está incrivelmente claro, quente e ensolarado, mesmo não tendo passado muito das oito da manhã. Não consigo evitar pensar se um dia me acostumarei a isso. Se algum dia deixarei de comparar minha nova vida em Laguna Beach, na Califórnia, com a que deixei para trás em Eugene, no Oregon.
Se algum dia serei capaz de parar de olhar pra trás.
Meus pensamentos voltam ao assunto quando Damen aperta meus joelhos e diz:
— Não se preocupe, ela vai mudar de ideia.
No entanto, mesmo que sua voz soe confiante, sua expressão diz o contrário. As palavras estão mais baseadas em esperança que em convicção. Sua vontade de me deixar aliviada supera facilmente seu desejo pela verdade. Porque o fato é que, se Sabine não mudou de ideia até agora, é muito difícil que mude, pelo menos em um futuro próximo.
— Sabe o que mais me incomoda? — digo, ciente de ele já sabe, de que já ouviu isso antes, mas continuo mesmo assim: — Não importa o que eu diga a ela, não importa quantas vezes eu tente provar a ela, lendo a mente dela e revelando todo tipo de pequenas coisas sobre o passado, o presente e o futuro, as quais eu não teria como saber se não fosse paranormal... É como se não adiantasse. Na verdade, parece que o resultado é exatamente o oposto. Só a convenço a bater o pé com mais força, recusando-se totalmente a considerar qualquer um de meus argumentos ou qualquer ideia de eu tenha a dizer sobre o assunto. Ela se recusa por completo a abrir a sua mente, nem que seja um pouquinho. Em vez disso, apenas me lança aquele olhar severo e crítico, totalmente convencida de que estou fingindo, inventando tudo em uma tentativa patética de chamar a atenção. Como se eu tivesse enlouquecido de vez. — Balanço a cabeça e coloco os longos cabelos louros atrás da orelha, enquanto meu rosto esquenta e fica corado. Essa é a parte que realmente me faz prosseguir, que me deixa vermelha e agitada todas as vezes. — Mesmo depois de eu ter perguntando por que gastaria tanto tempo e esforço para manter minhas habilidades em segredo se quisesse apenas atenção, mesmo depois de implorar que ela ouvisse os próprios argumentos estúpidos e visse que não fazem o menor sentido, ele ainda se recusa a mudar de opinião. Quer dizer... Ela realmente me acusou de ser uma fraude! — Fecho os olhos e enrugo a testa, lembrando o momento com tanta clareza que é como se estivesse acontecendo bem diante de mim
Sabine entrando em meu quarto sem ser convidada na manhã seguinte à morte de Roman, logo após eu ter perdido todas as esperanças de algum dia ficar realmente com Damen, de conseguir o antídoto. Não me dando nem chance de acordar direito, lavar o rosto, escovar os dentes e me preparar de algum modo.
Confrontando-me com uma fúria que se acredita virtuosa, encarando-me com seus olhos azuis, e dizendo: “Ever, não acha que me deve uma explicação pelo que aconteceu ontem à noite?”.
Balanço a cabeça e apago aquela imagem da mente. Meu olhar encontra o de Damen enquanto digo:
— Porque, de acordo com ela, poderes paranormais, percepção extrassensorial e coisas do tipo não existem. Segundo ela, ninguém pode prever o futuro. Isso é apenas uma mentira inventada por um bando de charlatões inescrupulosos, ávidos por dinheiro, fraudes como eu! E eu me envolvi intencionalmente em uma fraude a partir do momento em que aceitei dinheiro por minha primeira leitura mediúnica. E, caso você não saiba, há consequências legais para esse tipo de coisa, que é claro, ela teve o prazer de listar para mim. — Olho para Damen, agitada e com os olhos tão arregalados quanto na primeira vez que contei a história.
— Então, ontem à noite, quando ela se atreveu a tocar de novo no assunto, perguntei se podia me recomendar um bom advogado, já que eu estava com um problema tão grande. — Reviro os olhos, lembrando-me de como aquilo terminou mal.
Meus dedos mexem nervosamente na barra de meu curto vestido brando de algodão enquanto equilibro a garrafa aberta de elixir no joelho, dizendo a mim mesma para me acalmar, para não me importar. Já passamos por isso um zilhão de vezes, e isso apenas me deixa mais tensa que antes.
Olho pela janela enquanto Damen diminui a velocidade até parar, deixando passar uma mulher mais velha que carrega uma prancha de surfe em uma das mãos e a guia de um labrador amarelo na outra. O cão me fez lembrar tanto de meu antigo cachorro, Buttercup — com seu rabinho abandando, o pelo amarelo brilhante, olhos castanhos e alegres e um nariz rosado engraçadinho —, que preciso olhar duas vezes enquanto aquela pontada familiar me atinge bem fundo, uma lembrança constante de tudo o que perdi.
— Você já disse a Sabine que foi ela quem a apresentou a Ava, o que inadvertidamente levou ao emprego na Mística e Raio de Luar? — diz, Damen, trazendo-me de volta ao presente enquanto tira o pé do freio e pisa no acelerador.
Faço que sim com a cabeça, espiando pelo retrovisor lateral, e velo o reflexo do cachorro ficar cada vez menor.
— Mencionei na noite de ontem, e sabe o que ela disse?
Olho para ele, permitindo que a cena flua de minha mente para a sua. Sabine no balcão da cozinha, diante de uma pilha de vegetais esperando para ser lavados e picados, eu em minha roupa de corrida, determinada a sair de casa sem ser perturbada, para variar. Ambas interrompemos de repente o que estamos fazendo quando ela decide dar inicio ao round quinze da eterna batalha contra mim.
— Ela disse que era uma brincadeira. Coisa de festa. Apenas para divertimento. Que não era para ser levado a sério. — reviro os olhos e balanço a cabeça.
Estou prestes a continuar, nem perto de terminar, quando ele olha para mim e diz:
— Ever, se aprendi alguma lição em meus seiscentos anos de vida, é que as pessoas odeiam mudanças quase tanto quanto odeiam que suas crenças sejam desafiadas. É sério. Veja o que aconteceu com meu pobre amigo Galileu. Ele foi completamente excluído por ter tido a audácia de sugerir que a Terra não era o centro do universo. A ponto de ser julgado, considerado suspeito de heresia, forçado a negar as próprias crenças. Depois passou o resto da vida em prisão domiciliar, quando, é claro, todos nós sabemos que ele estava certo desde o princípio. Ao comparar sua situação com a dele, eu diria que você está escapando sem grandes consequências. — Ele ri, olhando-me de um modo que praticamente implora para que eu relaxe um pouco e ria também, mas ainda não estou pronta. Talvez algum dia eu ache graça disso tudo, mas isso está em um futuro distante que ainda não sou capaz de enxergar.
— Acredite — digo, colocando minha mão sobre a dele, ciente do véu de energia que paira entre nós —, ela queria me pôr em prisão domiciliar, mas eu não acatei de jeito nenhum. É realmente injusto que eu tenha que aceitá-la sem questionamentos, admitir o mundo preto e branco em que ela escolheu viver, e que ainda assim ela não me dê uma chance de me explicar. Não chega nem a considerar o meu lado. Ela me rotula automaticamente como uma adolescente louca, carente e emotiva além da conta porque tenho habilidades que não se encaixam em sua visão limitada. E às vezes isso me deixa tão irrita que... — Faço uma pausa, apertando os lábios, sem saber se devo mesmo me permitir dizer isso em voz alta.
Damen olha para mim, esperando.
— Às vezes fico contando os dias para que este ano termine e possamos nos formar e ir para algum lugar distante onde seja possível vivermos nossa própria vida e esquecermos tudo isso. — Solto as palavras tão rapidamente, que saem todas juntas, de modo que uma é praticamente indistinguível da outra. — Eu me sinto mal por dizer isso, principalmente depois de tudo o que ele fez, mas o fato é que ela não descobriu sequer metade do que sou capaz de fazer. Tudo o que sabe é que tenho poderes paranormais. E é isso! Já imaginou como reagiria se eu contasse a ela toda a verdade? Que sou uma imortal com poderes físicos que ela nem de longe conseguiria compreender? Como a materialização instantânea e, ah, sim, não vamos nos esquecer da parte sobre viajar no tempo, que experimentei recentemente, sem mencionar como gosto de passar meu tempo livre em Summerland, uma pequena e um tanto longínqua dimensão alternativa na qual meu namorado imortal e eu nos agarramos em várias vidas passadas! Pode imaginar como isso seria?
Damen olha para mim, os olhos brilhando de um jeito que instantaneamente me enche de formigamento e calor, e sorri enquanto diz:
— O que acha de não descobrirmos, hein?
Ele para no semáforo e me puxa para perto. Seus lábios roçam minha testa, a bochecha e descem pelo pescoço, até finalmente, finalmente, se unirem aos meus.
Afastando-se segundos antes de o sinal ficar verde, ele me olha e diz:
— Tem certeza de que quer continuar com isso?
O calor do seu olhar é profundo e escuro, e permanece um pouco mais que o necessário no meu, dando-me tempo suficiente para dizer que não, que não estou nem um pouco pronta, nem perto disso, e que ele pode pegar um retorno e ir para outro lugar. Um lugar mais agradável, amigável, caloroso — como uma praia distante, ou talvez mesmo um reitor em Summerland. E uma pequena parte dele espera que eu consinta.
Para ele, já basta de escola. Já basta há séculos. Sou o único motivo pelo qual está aqui. O único motivo para ficar. E, agora que estamos juntos, felizmente reunidos depois de vários dolorosos séculos sendo separados diversas vezes, ele não entende o propósito de tudo isso.
Vê como algum tipo de farsa inútil.
E mesmo que eu também nem sempre veja a finalidade disso, já que é realmente muito difícil aprender assistindo ás aulas quando é tão simples ler a mente de nossos professores ou colocar a mão sobre a capa de um livro e intuir seu conteúdo, ainda estou determinada a aguentar firme e ir até o fim.
Em especial porque é praticamente a única parte um pouquinho normal de minha vida totalmente bizarra. E não importa quanto Damen possa sentir-se entediado, quanto implore para que eu jogue tudo para o alto e que vivamos nossa vida, não farei isso. Não posso. Por alguma estranha razão, realmente quero que cheguemos à formatura.
Quero segurar aquele diploma nas mãos e jogar o capelo para o alto.
E hoje estamos dando o primeiro passo rumo a esse final.
Sorrio e concordo com a cabeça, pedindo que continue. Vejo um lampejo de desconforto encobrir seu rosto, que retribuo com um olhar de confiança e força recém-adquiridas.
Endireito os ombros, faço um rabo de cavalo que cai sobre meu pescoço, passo as mãos no vestido para desamassá-lo e me preparo para a batalha.
Mesmo sem saber o que está por vir ou o que esperar exatamente, mesmo sem poder ver meu próprio futuro com tanta facilidade como posso ver o dos outros, se tenho uma certeza é de que Haven ainda me culpa pela morte de Roman.
Ainda e culpa por tudo o que deu errado em sua vida.
E pretende cumprir sua promessa de acabar comigo.
— Acredite, estou mais do que pronta. — Olho pela janela, procurando por minha ex-melhor amiga na multidão, ciente de que é apenas uma questão de tempo até que ela dê o primeiro passo, e espero ter a chance de dar a volta por cima antes que ambas façamos algo de que, sem dúvida, nos arrependeremos.

5 comentários:

  1. Opss Livro errado! Só percebi agora! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    1. Era para eu ler Chama Negra, só que ai não sei muito bem comecei a ler Estrela da noite! E só percebi isso quando estava no meio do terceiro capitulo! Ai tive que ler Chama Negra, para voltar para cá e continuar a ler Estrela da Noite! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk acho que tava um pouco desatenta..._ Tá bom em tava muito desatenta!_ hahahahahahahah

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  2. Não entendi! Pelo anjo, ela da de brincadeira?!kkkkkkkkkkkkkkkk
    Ass: Bina.

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