3 de novembro de 2015

Sete

— Quando concordei em ajudar na pesquisa, achei que seria nos Grandes Salões do Conhecimento. O que vamos fazer aqui? Acampar pelos próximos seis dias? — Damen olha para mim, horrorizado só de pensar. Fica mais que consternado por estar ali, já que dava como certo que seus dias sem as facilidades com as quais agora se acostumou, como magia e materialização, isso sem contar água encanada, eram coisa do passado. — E se ela não voltar? O que faremos?
Ele se acomoda a meu lado, apoiando-se com mais força que o necessário, ou pelo menos é o que me parece. Seus movimentos fazem com que a lona afunde e balance, resultando em um som nojento de algo pegajoso quando o solo borbulha e afunda sob nós.
O barulho me faz ter um ataque de risos, não consigo evitar. Mas Damen faz um gesto de reprovação com a cabeça e revira os olhos, sem a mínima paciência.
Fomos espertos o suficiente para materializar duas grandes lonas — uma na qual nos sentarmos e outra para nos proteger da fúria constante da chuva —, além de alguns outros itens essenciais antes de chegarmos a este lugar, a parte de Summerland onde a magia não funciona, a materialização não existe, mas não consigo deixar de pensar que deveríamos ter feito mais alguma coisa — como um trailer todo equipado, que poderíamos ter estacionado aqui perto. Ainda assim, estou determinada a fazer o melhor possível, esperar até que a velha apareça novamente.
E é melhor que ela apareça, ou nunca conseguirei superar isso tudo.
O solo continua a afundar e espirrar água toda vez que um de nós faz o menor movimento, forçando-me a conter um novo ataque de risos e voltar minha atenção a Damen quando digo:
— Em vez de se preocupar com o que você fará se ela não vier, talvez fosse melhor começar a pensar no que fará quando ela aparecer. No fim das contas, não é para isso que estamos aqui?
Ele olha para mim, passa a mão nos cabelos, tirando-os da testa, e diz:
— Sinceramente, Ever? Só estou aqui porque jurei lealdade eterna a você. Sabe aquela parte que diz "na alegria e na tristeza"? Imagino que este seja um momento de tristeza, o que significa que, daqui em diante, só pode melhorar.
Olho para ele, tentada a fazer algum comentário sobre não sermos casados, mas decido que é melhor não abusar da sorte, então deixo para lá.
— E então, o que vai fazer se ela vier? — Damen se inclina para trás e olha para a lona pendurada sobre nós, sem magia, sem materializações, sem nada melhor para fazer.
— Confrontá-la diretamente. Direi para parar de falar em códigos e ir logo ao ponto. Eu...
Ele olha para mim, esperando para ouvir mais. Mas não há mais nada. Meu plano só vai até aí. Então coloco as mãos no colo e encerro o assunto.
— Certo, e enquanto ela não vem? — Ele ergue a sobrancelha.
Olho para ele sem expressão até me lembrar da mochila que materializei antes. Corro para pegá-la, jogo-a na frente dele e observo enquanto ele se senta e olha lá dentro, encontrando um suprimento de revistas, alguns livros, baralho, jogos de tabuleiro e várias garrafas de elixir gelado.
— Não estou entendendo — diz, aparentemente confuso com o farnel. — O que é tudo isso?
— É algo que gosto de chamar de "tirar o melhor de uma situação não muito boa". — Balanço a cabeça para enfatizar, prendendo o fôlego enquanto ele hesita, fica em silêncio e então decide prosseguir.
Damen levanta a tampa da caixa de um jogo de tabuleiro e começa a arrumar as peças, então me sento a seu lado.
Estico as pernas até estarem quase alinhadas com as dele, olhando ao redor na expectativa de encontrar a senhora. Nada vejo além da paisagem usual de céu cinzento, terra encharcada e uma chuva que se recusa a cessar ou diminuir de intensidade, faço um pedido em silêncio para que ela apareça o mais rápido possível e volto a me concentrar em Damen, sinalizando para que ele comece a partida.

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