3 de novembro de 2015

Seis

Ele realmente foi depressa.
Posso dizer só de olhar.
Em geral ele é perfeitamente tudo-em-seu-lugar, garoto-propaganda da serenidade suprema, da calma e do total equilíbrio em qualquer ocasião. Mas, parado diante de mim, com o rosto levemente corado, o cabelo caindo nos olhos e as roupas um pouco desarrumadas — bem, em qualquer outra pessoa não seria nada extraordinário —, é evidente sua expectativa.
— Bem, isso foi inesperado. Agradável. Na verdade, mais que agradável, não me entenda mal, mas ainda assim foi inesperado.
Estou encolhida no grande sofá branco que mais parece um marshmallow e me ajeito quando ele chega. Livro meu rosto da expressão de desapontamento e trato de substituí-la por entusiasmo para combinar com o de Damen — o que é uma façanha difícil de se realizar pouco depois de ter visto meu último recurso dar errado.
Ainda assim, é hora de seguir em frente, agora tenho certeza, então forço um sorriso, que se torna natural assim que vejo a tulipa recém-colhida que Damen traz nas mãos. Seu rosto se ilumina com um sorriso que fica mais largo à medida que ele se aproxima de mim, percorrendo a distância em poucos passos, parecendo um rápido borrão escuro. Quando percebo, ele está colocando a tulipa em meu colo, sentando-se a meu lado e olhando para o controle remoto que ainda está em minha mão.
— Encontrou Jude? — pergunto, querendo tratar dos assuntos sérios antes de ficar distraída demais com nosso passado.
Ele faz que sim com a cabeça, chega mais perto, passa o braço a meu redor.
— E? Ele descobriu algo?
Damen olha para mim. Um leve não com a cabeça é tudo de que preciso como resposta.
Mesmo que isso me faça murchar um pouco (O.K., talvez mais que um pouco), não suspiro, resmungo, nem faço nada do tipo. Na verdade, não faço nada que deixe transparecer como essa notícia me afeta.
Parte de mim sabe que é melhor assim. Logo quando Damen e eu estamos indo tão bem, completamente comprometidos um com o outro como nunca antes, logo quando ele está preparado para me levar em férias a um lugar maravilhoso, exótico e romântico (ainda indefinido) — bem, a última coisa de que preciso é jogar areia em nossa felicidade, sobretudo depois de tudo pelo que passamos para chegar até aqui.
A última coisa de que precisamos é que eu nos coloque em uma busca inútil, ignorando solenemente o óbvio, o fato gritante e impossível de não ver de que todos os sinais deixam claro que estou errada. Sei muito bem que essa é uma daquelas horas em que é melhor estar errada, em que estar certa só resultaria em uma série de aborrecimentos.
Sim, parte de mim sabe disso muito bem.
E, quanto à outra parte, bem, ela terá de aprender a se render.
— E então, qual vai ser? — pergunta Damen, apressando-se em roubar o controle remoto.
Estreito os olhos, franzindo a testa para ele de um modo brincalhão.
Lembro a última vez em que ele não pegou o controle a tempo, deixando-me apertar uma série de botões que revelaram uma trágica, porém esperançosa, vida de escravidão que ele pretendia manter em segredo.
— Não é por causa disso — diz ele, interpretando mal minha expressão e tentando me devolver o controle. Ele quer que eu tenha certeza, sem qualquer sombra de dúvida, de que realmente já vi tudo, de que testemunhei todas as minhas vidas, mesmo as partes ruins.
Mas eu logo deixo para lá. Tudo que tentei até agora deu errado, então fico feliz em deixá-lo assumir daqui em diante.
Fito seus olhos, incapaz de impedir meu rosto de corar, e digo:
— Que tal Londres? — Fico vermelha. Não consigo evitar. Por mais frívola e superficial que eu tenha sido, gostei bastante de minha vida como a bela e mimada jovem de cabelos escuros, filha de um rico proprietário de terras. Deve ser porque eu não tinha problemas naquela época, porque era uma vida tão livre de fardos. Minha morte pelas mãos de Drina foi a única parte sombria em toda aquela existência.
Damen estreita os olhos, os dedos a postos nos botões.
— Tem certeza? Londres? Por que não Amsterdã? — Ele me lança um olhar irresistível de cão sem dono.
Dou um sorrisinho como resposta, sabendo exatamente por que Damen sempre quer voltar a Amsterdã. Apesar de ele sempre dizer que é por causa da pintura (sendo a arte seu segundo amor, depois de mim), conheço muito bem seus motivos. Sei que é porque ele pode me pintar seminua, como sua musa sedutora e muito pouco modesta, de cabelos castanho-avermelhados.
Concordo, imaginando que é o mínimo que posso fazer depois de todo o tempo que passei chateando-o nos Grandes Salões do Conhecimento. Leva apenas alguns segundos para que a tela pisque diante de nós, ele pegue em minha mão, levante-se do sofá e me conduza até ela.
Mas, como sempre faço, paro um pouco antes de alcançá-la. De onde estou, parece uma placa dura, pesada, sinistra — do tipo que provocaria uma grande concussão a quem fosse tolo o suficiente para tentar se fundir com ela. Não há qualquer sinal de que se trata de algo que cederia o suficiente para alguém entrar.
E, como sempre faz, Damen olha para mim e diz:
— Acredite.
E eu acredito. Respirando fundo e fechando os olhos como se estivesse prestes a mergulhar em uma piscina bem funda, pressiono o corpo contra a tela, continuando a fazer força até estarmos do outro lado... Até sermos parte da cena.
A primeira coisa que faço é enterrar as mãos nos cabelos. Passo os dedos pelos fios e sorrio ao sentir as madeixas macias e sedosas. Adoro esse cabelo. Sei que é vaidade, mas não posso evitar. As cores formam o mais belo vermelho flamejante, como um pôr do sol exuberante com uma pitada de dourado. Quando olho para meu vestido, ou, mais precisamente, para o pedaço de seda rubra que me envolve, preso por um nó frouxo atrás do pescoço, bem, sempre me surpreendo com o tanto de confiança de que preciso para usar algo assim. Quando estou aqui, vestida como ela, não me sinto nem um pouco tímida.
Mas não sou mais a Ever de dezessete anos — ela foi substituída por Fleur, de dezenove, uma linda garota holandesa que não duvida de sua beleza, não duvida de si mesma.
Não há dúvidas a respeito do amor inesgotável que brilha nos olhos do belo artista moreno diante do cavalete ao pintá-la.
Ando com graça e desenvoltura pelo campo de tulipas. Deleito-me com a sensação das pétalas macias e sedosas e com os caules que roçam em mim, paro na hora certa e me viro para ele, sustentando a pose que ele me pediu para manter.
Meu olhar vai das flores até o céu riscado de nuvens. Simulo que estou preocupada, cativada pela dádiva da natureza que me cerca, quando, na verdade, estou apenas esperando pelo momento inevitável em que ele troca a pintura por mim.
Deixo meus olhos repousarem nos dele e permito apenas a sombra de um sorriso quando vejo o modo como seu pincel treme — sinal claro de que em alguns segundos ele largará o prazer de me capturar na tela pelo prazer de me capturar nos braços. Posso ver o desejo, a chama ardente que irrompe em seu olhar.
E não demora muito para que ele deixe a tela de lado e venha em minha direção. Seu caminhar é lento, cauteloso, mas completamente calculado, o fogo em seus olhos é tão intenso que posso sentir o calor de onde estou. Finjo estar tão concentrada na pose a ponto de não me dar conta de sua proximidade, do formigamento e do calor que correm por meu corpo, dentro de mim, a meu redor — um jogo de sedução de que ambos gostamos.
No entanto, em vez de me tomar em seus braços, ele para bem diante de mim, os dedos tremendo quando enfia a mão no bolso e pega um pequeno frasco prateado. Um recipiente que contém a mistura vermelha e leitosa que ele sempre bebe. Seus olhos continuam queimando sobre os meus, mas, atrás da sombra do desejo de sempre, esconde-se algo novo — algo tão impossível de descobrir quanto de negar.
Seus dedos tremem enquanto ele pega o frasco e o levanta, oferecendo-o a mim. Seu corpo quer que eu aceite, que experimente, mas seu olhar atormentado diz o oposto. Ele trava uma batalha interior, até que, finalmente, dominado por um medo indefinido, sua expressão muda, mostrando uma determinação tão amarga e brutal que o faz guardar o frasco e estender a mão para mim.
Seus braços me envolvem, apertando-me com força contra o peito. Seu corpo emana tanto amor, tanta reverência, que fecho os olhos e me afundo nele. Afundo na sensação de seu toque, de seus lábios encontrando os meus, fico perdida no sentimento maravilhoso, flutuante e leve de estar com ele. É como deslizar entre as nuvens, surfar em arco-íris — somos à prova de gravidade, sem fronteiras. Estamos enlaçados em um beijo tão comovente e prolongado que não conseguimos mais voltar para casa, para o plano terreno.
Nós nos beijamos de um modo que, apesar de ser muito melhor que em casa, também se restringe aos acontecimentos de antes.
Seus dedos rastejam para cima, chegando ao fraco nó de seda em meu pescoço. Prestes a desatá-lo, a me desatar, quando eu (ela!) emito um pequeno som de protesto e o afasto. E, bem, naquele momento não consigo deixar de xingá-la.
Fleur estúpida.
Que garota estúpida eu era!
Se ela era tão confiante — tão despreocupada e segura de si —, por que o interrompeu bem quando chegaram à parte boa, bem quando estavam prestes a...
Dominada pelo aborrecimento de ver que a decisão que tomei naquela época me assombra até hoje — determinando o que somos capazes de fazer, até onde temos permissão para ir —, minha frustração cresce tanto que, quando vejo, sou lançada para fora da cena.
Fico ali parada, olhos arregalados, recuperando o fôlego. Surpresa por ainda fazer parte do cenário, poder observar tudo o que se desenrola diante de mim, embora não esteja mais dentre os protagonistas.
Não sabia que podia fazer isso. Não tinha ideia de que podia escolher ser apenas espectadora. Não imaginava que isso fosse possível.
Mas, enquanto estou ali parada, observando tudo com admiração, Damen continua completamente alheio. Envolvido demais para notar. Imerso demais no momento para se dar conta de que a garota que ele tenta despir está, digamos, desocupada, por falta de uma palavra melhor.
— Damen. — Suspiro, mas ele não se vira, não percebe que ela é apenas uma casca vazia, sem alma. — Damen — repito, com um pouco mais de firmeza dessa vez. Mas, droga, já chega. É como ver seu namorado beijar outra pessoa, mesmo que essa outra pessoa tenha sido você. Mesmo assim, é muito estranho. Está me enlouquecendo.
Ele se afasta relutante, virando-se para mim com um olhar que só pode ser descrito como profundamente confuso. Um grande rubor sobe de seu pescoço para o rosto quando ele se dá conta de que passou os últimos segundos agindo, na versão Summerland, como uma pré-adolescente que pratica beijos em um travesseiro.
Ele alterna o olhar entre nós — entre a versão de mim viva que se mexe e respira diante dele e a versão desocupada e um tanto translúcida de Fleur a seu lado. E, mesmo que ela continue quase tão atraente quanto antes, o fato de ela estar congelada nessa pose, com os olhos apertados, os lábios franzidos e os cabelos jogados para o lado, bem, me faz rir. Mas Damen não parece concordar, pois não ri junto comigo.
— O que está acontecendo? — Damen franze a testa, arrumando a camisa larga de algodão que usava na época.
— Desculpe... eu só... — Olho em volta, esforçando-me para suprimir o riso, pois sei que ele está já está bastante constrangido. — Acho que eu... — Dou de ombros e começo de novo. — Bem, não tenho muita certeza do que aconteceu. Num minuto eu estava me deixando levar por tudo e, no minuto seguinte, estava tão irritada com ela por afastar você que isso me expulsou da cena, me expulsou dela.
— E quanto tempo faz isso? Há quanto tempo está aí assistindo? — ele pergunta, quando o que realmente quer descobrir é o tamanho de seu constrangimento.
— Não muito. É sério. — Confirmo vigorosamente com a cabeça, na esperança de que ele acredite.
Damen concorda, obviamente aliviado. Sua cor vai voltando ao normal enquanto ele se aproxima de mim.
— Desculpe, Ever. De verdade. Tudo o que tentei até agora deu errado. Não consigo descobrir o antídoto de Roman, embora tente com afinco. — Ele me olha com expressão de derrota. — E, enquanto eu não conseguir pensar em outra opção, em algo que ainda não tenha tentado, receio que só possamos chegar até aqui. Mas, se o pavilhão está deixando você frustrada, talvez devêssemos parar de vir. Pelo menos por algum tempo.
— Não! — Olho para ele e nego com a cabeça. Não foi isso que quis dizer, nem chega perto. — Não, não... — Sou rápida em descartar a ideia. — Não é que eu não estivesse envolvida com o momento também, eu estava. Estava gostando do jogo de sedução dela, assim como você. E acredite: também estou surpresa com o que aconteceu. Bem, eu certamente já tive um pensamento ou outro que parecia meio fora de contexto, mas essa é a primeira vez que um desses pensamentos me tirou da personagem. Eu nem sabia que isso era possível... Você sabia?
Ele olha para mim, dá de ombros.
Sempre fica muito envolvido com o momento para se dar o trabalho de pensar a respeito.
— Mas, mesmo assim, agora que estamos aqui... — Faço uma pausa, pensando se realmente devo seguir com isso, e decido que nada tenho a perder.
— Bem, há uma coisa que quero fazer, algo em que pensei recentemente.
Ele espera, espera que eu pare de enrolar e vá direto ao ponto.
Aperto os lábios e olho em volta, tentando organizar meus pensamentos, reunir as palavras certas. Na verdade, não pretendia levantar essa questão, não tinha intenção de tocar no assunto, mas mesmo assim nada me impede de me virar para ele e, em palavras precipitadas, dizer:
— Estive pensando... Certo, não sei bem como dizer isso, mas, você sabe, sempre que vimos para cá, escolhemos dentre as minhas vidas.
Damen confirma pacientemente com a cabeça, embora seu olhar denuncie a sensação oposta.
— Bem, parte de mim não para de pensar: por que sempre escolhemos dentre as minhas vidas? E se Damen Augustus Notte Esposito não tiver sido sua primeira vida?
Ele não fica boquiaberto, admirado, não se encolhe, não vacila, não se atrapalha nem resmunga, não tenta ganhar tempo com alguma manobra que eu poderia apostar que ele usaria.
Nada. Apenas continua ali parado, com o rosto completamente vazio, desprovido de expressão, como se não estivesse pensando na ideia que acabei de levantar. Olhando como se eu tivesse acabado de falar em um dos poucos idiomas que ele não domina.
— Pouco antes de você chegar aqui, usei o controle remoto para digitar os números. Você sabe: oito, oito, treze, zero, oito. Achei que pudesse ser uma data importante, ou algo assim... uma época em que ambos vivemos. Nada aconteceu, mas mesmo assim não consigo deixar de pensar que seja uma possibilidade real. Bem, ambos sabemos que já fui uma empregada parisiense chamada Evaline, não é? E a filha de um puritano chamada Abigail; uma socialite mimada de Londres, Chloe; a musa de artista... — aponto para ela —, Fleur. E a jovem escrava Emala. Mas e se você nem sempre tiver sido Damen? E se você já foi, há muito tempo, alguém muito diferente?
Não pronuncio a última frase, mas sei que ele a ouve mesmo assim. As palavras giram ao nosso redor de um modo que não pode ser ignorado, mesmo estando claro que é exatamente isso que Damen pretende fazer.
E se você também reencarnou?
A rigidez de seus ombros e o olhar sério são praticamente o oposto de minha agitação e meu rosto radiante. Mesmo que eu tente manter a calma, não adianta. Estou tão empolgada com a nova ideia — com essa possibilidade talvez desconhecida — que quase posso sentir a energia tremulando a meu redor. Se eu possuísse uma aura — nenhum imortal tem, mas se eu possuísse —, tenho quase certeza de que estaria brilhando em violeta com muitos e muitos pontos dourados, porque é exatamente assim que me sinto.
É assim que sei que estou certa.
Mas aparentemente sou a única que acha isso, porque Damen se vira e vai embora sem dizer em absoluto nada deixando-me sozinha e boquiaberta em um campo de tulipas vermelhas.
Saio de Summerland e apareço novamente na casa, encontrando Damen visivelmente desanimado, jogado no sofá.
Olho para mim, notando que a faixa de seda é na mesma hora substituída pela calça jeans e o suéter azul de antes, assim como a bela camisa branca e as calças pretas de Damen são trocadas pelas roupas que ele escolheu pela manhã.
Mas, infelizmente, a mudança é só nas roupas, seu humor não se altera.
Analiso seu rosto em busca de um pouco de ternura, algum tipo de abertura para mim, mas nada consigo além de um olhar impassível em troca. Então me dirijo para uma parede próxima e paro ali, decidida a ficar encostada pelo tempo que for necessário até ele dar o próximo passo. Não sei o que o irrita mais: eu ter saído da cena ou a ideia de que ele possa ter vivido antes.
O que quer que seja, obviamente libertou algum tipo de demônio interior.
— Achei que tivéssemos superado isso — ele diz finalmente, olhando em meus olhos antes de continuar. — Achei que estivesse pronta para seguir em frente e se divertir um pouco. Achei que tivesse entendido que não estava chegando a lugar algum, de que estava errada sobre Summerland, sobre sua parte sombria, sobre a velha... sobre tudo. Achei que quisesse passar no pavilhão para que pudéssemos nos divertir um pouco antes de sairmos de férias. E então, assim que começamos a aproveitar, você muda de ideia. O que posso dizer? Estou um pouco decepcionado, Ever. É sério.
Passo os braços em volta de mim mesma, como se eles pudessem me proteger de suas palavras. Não queria decepcioná-lo; essa não era minha intenção. Ainda assim, não consigo me livrar da ideia de que desvendar o enigma da idosa nos levará a um futuro mais feliz, mais brilhante. É tudo o que quero. E sei que é tudo o que ele quer também, apesar de seu atual mau humor.
Mas não digo nada. Principalmente porque é sempre Damen — minha alma gêmea, o amor de minhas vidas — quem está lá para desarmar minhas bombas emocionais antes que explodam em nossa cara. O mínimo que posso fazer é retribuir o favor.
Ele olha para mim, ainda infeliz. Então mantenho a voz propositadamente suave e melosa, relaxando o corpo e colocando as mãos diante de mim, dedos estendidos, palmas abertas, em um gesto de paz quando digo:
— Está chateado porque eu interrompi a cena e saí da personagem? Ou porque insinuei que você possa ter vivido antes como outra pessoa? Ou... ou as duas coisas? E se forem as duas coisas, o que o chateia mais?
Espero que ele responda. Estou preparada para o pior, preparada para ouvir qualquer coisa a esta altura, e ainda assim sou pega de surpresa quando ele diz:
— Tudo isso é ridículo. Uma vida anterior? Ever, por favor. Já estou por aqui há mais de seiscentos anos. Não é tempo suficiente para você?
— Ceeeerto... — Arrasto a palavra, decidida a manter meu argumento, mas sei que preciso avançar com cuidado, já que o assunto o deixou irritado.
— E eu venho entrando e saindo do mundo há quatrocentos anos... que a gente saiba. — Enfatizo com a cabeça, ciente de que isso certamente o deixará chateado, mas é algo que precisa ser dito.
— Que você saiba? — Ele me encara, levando para o lado pessoal. — Acha que estou escondendo algo mais? Outra escrava, talvez?
— Não. — Nego com a cabeça, refutando rapidamente, desesperado para esclarecer. —Não, nada disso. Estava pensando mais no fato de haver outras vidas das quais... das quais não estamos cientes. Damen, é sério, no mínimo você precisa admitir essa possibilidade. Você acha que o mundo a seu redor surgiu no dia em que Damen Augustus Notte nasceu? Acha que era uma alma recém-criada, sem passado? Sem carma a pagar?
Ele junta as sobrancelhas e seus olhos escurecem, mas a voz continua calma, equilibrada, quando diz:
— Desculpe-me, Ever. Desculpe-me por sufocar sua ideia com a verdade. Mas o fato é que uma alma precisa começar de algum ponto, em algum momento ser "recém-criada", como você disse. E por que não naquele lugar e naquela época? Além disso, se houvesse outra vida, anterior, eu já saberia.
Teria visto em Shadowland.
— Então está me dizendo que não viu? — Não quero deixar o assunto morrer, apesar do argumento inegável que ele levantou, apesar de eu estar ficando sem energia.
— Não vi. — Ele confirma as palavras com uma expressão solene, resoluta, determinado a não se gabar da vitória neste assunto.
Eu suspiro, fecho os olhos e enfio as mãos nos bolsos. Lembro-me de minha própria viagem a Shadowland, o borrão de imagens que surgiu diante de mim — a meu redor —, mas não revelou nada inesperado, nenhuma vida passada da qual eu já não soubesse.
Nenhuma versão de mim com o nome Adelina.
Nada que tenha ocorrido no ano de 1308.
Quando abro os olhos, Damen está diante de mim, com o olhar suave e gentil, colocando um buquê de tulipas em minha mão. As palavras "Sinto muito" pairam entre nós, escritas com uma letra cursiva espessa violeta.
"Eu também", escrevo embaixo. "Não queria decepcioná-lo."
— Eu sei — ele sussurra, envolvendo-me com os braços enquanto fecho os olhos e me afundo nele, saboreando a sensação de seu corpo contra o meu. — E sei que vou me arrepender disso, mas pode pegar sua semana de volta. É sério. Investigue o tanto que quiser e eu farei o possível para ajudá-la. Mas, quando a semana chegar ao fim, Ever, você será toda minha. Tenho grandes planos para nossas férias.

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