2 de novembro de 2015

Seis

Fico parada diante da porta, os olhos fechados, fazendo uma pausa para praticar uma das minimeditações rápidas e simples que Ava me ensinou para reunir forças. Imagino uma luz branca brilhante percorrendo todo o meu corpo e penetrando em todas as células enquanto meus dedos procuram ansiosamente pelo amuleto que uso no pescoço. A seleção de cristais com a função de me afastar do perigo e proteger todos os meus chacras, sobretudo o quinto — o centro da falta de discernimento e do mau uso de informações —, minha principal fraqueza, que, se atingida, me condenará ao abismo infinito.
Tiro um segundo para me comunicar com Damen, avisá-lo de que há uma grande chance de que tenha começado ao mesmo tempo em que relembro a ele sua promessa de não interferir a menos que eu peça ajuda.
Então respiro fundo e abro caminho, atravessando o piso horroroso de ladrilhos cor-de-rosa e paro perto da fileira de pias brancas na parede. Minha postura está relaxada, os braços soltos ao lado do corpo. Observo Haven chutar a porta de cada uma das cabines, para ter certeza de que estamos sozinhas, antes de se virar, colocar as mãos na cintura, inclinar a cabeça de lado e me avaliar com um olhar que não altera em nada seu novo rosto.
— E então começa o último ano. — Ela dá um sorriso. A safira em sua testa absorve a luz fluorescente e brilha enquanto ela sorri de um jeito que praticamente não se reflete nos olhos. — O que está achando até agora? Os professores, as aulas tudo está como sempre sonhou?
Dou de ombros, recusando-me a dar qualquer informação, recusando-me a participar de seu jogo. Esse é o mesmo tipo de conversa inútil que Roman adorava, e se eu não entrava na dele, certamente não darei bola para ela.
Ela continua a me analisar, nem um pouco intimidada por meu silêncio. Na verdade, isso parece até estimulá-la.
— Bem, quanto a mim, está sendo melhor do que planejei. Sei que já notou quanto sou popular. Na verdade, não consigo decidir se tento entrar para o grupo de líderes de torcida, se concorro a representante de turma ou se participo de ambos. O que acha? — Ela faz uma pausa, dando-me tempo suficiente para opinar, mas, como nada digo, ela dá de ombros e continua: — Bem, sejamos realistas. Certamente você percebeu o modo como as pessoas olham para mim, o modo como me seguem. É como se... — Seus olhos se iluminam, o rosto fica corado e ela passa os braços ao redor do corpo, abraçando-se em um surto de presunção. — É como se eu fosse uma estrela do rock ou algo assim... Eles não se cansam de mim!
Eu suspiro alto o suficiente para ela ouvir. Cruzo seu olhar superconfiante com um tédio total e completo e digo:
— Pode ter certeza de que notei. — E apago instantaneamente o sorriso triunfante de seu rosto quando acrescento: — Pena que não é real. Bem, você sabe disso, não é? É você quem está causando tudo. Está atraindo as pessoas deliberadamente, tirando o poder de escolha delas, o livre-arbítrio, do modo como Roman fazer. Nada disso é verdadeiro.
Ela ri, dispensando minhas palavras com um aceno e andando devagar, em círculos, antes de parar e dizer:
— Parece que alguém está com inveja de grama do vizinho. — Ela faz beicinho e balança a cabeça. — É sério. O que há com você, Ever? Está com inveja por eu ter conseguido me sentar à mesa dos populares enquanto você ainda é uma grande idiota, presa para sempre na terra dos otários?
Reviro os olhos, lembrando-me de minha antiga vida em Eugene, no Oregon, quando eu era um clichê de popularidade ambulante e falante. E, embora eu costumasse sentir falto disso, a saudade era da simplicidade, das regras de obediência que pareciam tão fáceis de seguir na época. Eu não voltaria àquela vida por nada. Hoje em dia, ela não me parece nem um pouco tentadora.
— Não mesmo. — Encarando-a com os olhos semicerrados. — Mas estou surpresa em ver como você se envolveu. Considerando quanto costumava zombar deles. Acho que fazia isso só para ocultar o desejo de ser um deles. Fingia não ligar quando a esnobavam, mas, aparentemente, você ligava, sim. — Balanço a cabeça, observando-a com pena, e, pelo jeito como ela me olha, concluo que deixando-a ainda mais nervosa. — Mas acho que não me chamou aqui para isso — acrescento, tentando retomar o assunto. — Por que não vai em frente e diz logo? O que você está tão desesperada para me contar que não pode esperar ou dizer em outro lugar que não seja este banheiro horroroso?
Olho para ela pacientemente, esperando que comece a falar, enquanto repito em silêncio as promessas que fiz a mim mesma:
Não começarei a briga.
Não darei o primeiro golpe, soco, nem nada do tipo.
Tentarei todas as outras possibilidades antes de a situação chegar a esse ponto.
Não darei fim à sua vida a menos que a minha ou a de outra pessoa estejam ameaçadas.
Deixarei que ela dê o primeiro passo.
Mas, quando ela o fizer, bem, daí em diante não me responsabilizo pelo que acontecer a ela...
Ela revira os olhos e solta um suspiro irritado, olhando para mim como se me ver causasse dor, e diz?
— Ah, então agora você está preocupada em ser pega vadiando no banheiro no primeiro dia de aula? — Ela emite um som de reprovação e levanta a mão para admirar os anéis prateados e azuis que usa em cada dedo.
— Não consigo entender por que insiste em agir como se fosse tão normal, tão ridiculamente comum. Quer dizer, é sério. Você realmente é desperdício de imortalidade mais lamentável que já vi. Roman estava certo: tanto você quanto Damen são desperdícios de espaço. — ela expira, expulsando de seus pulmões uma rajada que joga um frio amargo no ar. — O que você espera ganhar com isso? Uma estrela dourada, um certificado emoldurado declarando que, sim, você é realmente a queridinha do professor?
Ela coloca a língua para fora e gira os olhos de um modo que me faz lembrar a antiga Haven, aquela que costumava ser minha amiga, mas a impressão se esvai rapidamente quanto ela diz:
— E o mais importante, por que você liga? Caso não tenha notado, as regras da escola o que bem entendermos, quando bem entendermos, e ninguém pode nos impedir. Então você deveria não apenas relaxar e desencanar, para variar, como também usar seus dons para algo melhor. Porque, se está determinada a ficar bem com alguém, deveria ser comigo. — Ela franze as sobrancelhas e olha dentro de meus olhos. — Quer dizer... Você já arruinou Damen. Desde que ele começou a ficar com você, parece que foi parar na Tediolândia. — Ela para um segundo para rir da observação. — Ainda assim, estou pensando em pedir transferência para a aula de inglês avançado que ele tem no quinto tempo, e provavelmente me sentar ao lado dele. Isso a incomoda?
Dou de ombros, ocupando-me de minhas unhas, mesmo estando limpas, uniformes, sem esmalte e tão curtas que não á muito pra ver. Mas não cedo a suas implicâncias, e certamente não lhe darei o prazer que busca.
Não que ela se importe, já que certamente prefere mesmo é ouvir o som da própria voz.
Então segue adiante:
— Quer dizer, por um lado, ele perdeu mesmo aquela empolgante pegada bad boy que eu amava tanto. Mas, por outro, aposto que ainda tem uma boa parte dela enterrada em algum lugar lá no fundo. Bem, bem lá no fundo. — Seu olhar brilha quando recai sobre mim. — Porque, quando alguma coisa está arraigada desse jeito, quando alguma coisa vem de séculos, bem, é difícil apagar por completo, se é que você me entende.
Além de não entender, não tenho como olhar em sua mente para ver por mim mesma, já que seu escudo é forte demais para me permitir isso. Tudo o que posso fazer é ficar ali parada, fingindo não me importar. Agir como se suas palavras não estivessem gerando a mínima curiosidade ou interesse, embora vergonhosamente eu deva admitir que estivessem sim.
Ela sabe de algo. Isso está bem claro. Não é apenas dissimulação. Ela conhece algo sobre Damen — algo sórdido sobre seu passado — e está praticamente me implorando para obrigá-la a revelar.
E é exatamente por isso que não posso.
— Quer dizer, como já deve desconfiar, Roman me contou umas histórias sórdidas. Algumas que você provavelmente já conhece, então é inútil repetir, mas outro dia desses eu estava vasculhando alguns dos pertences dele e encontrei uma pilha de diários. — Ela faz uma pausa, dando-me tempo suficiente para absorver suas palavras. — Bem, você precisava ver. Eram... pilhas e pilhas. Caixas inteiras. No fim das contas, Roman documentou tudo. Manteve centenas, não, talvez milhares de diários. Eu até perdi a conta. Não importa. Pelo que vi, eles datam de séculos atrás. Ele não estava colecionando apenas antiguidades e artefatos. Estava colecionando história. A história dele. A história dos imortais. Há fotos, retratos pintados, cartões, cartas... Tudo. Diferentemente de Damen, Roman manteve contato. Não seguiu simplesmente com a vida e tudo os outros órfãos se virarem sozinhos, ele cuido deles. E depois de cento e cinquenta anos, quando seu elixir começou a perder o efeito, preparou um novo.
Um melhor. Depois localizou todos eles e fez com que o bebessem novamente. E assim continuou todos esses anos, sem nunca deixar ninguém na mão.
Sem nunca deixar alguém passar dificuldades, ou definhar, ou morrer, como Damen fez. Ele pode ter tido os problemas dele com vocês, mas não há dúvida de que teve bons motivos: vocês eram os únicos inimigos. Os únicos que o viam como um imortal terrível e diabólico, que mereceu o destino que teve. Para os outros, ele era um herói. Ele se importava com eles, ofereceu-lhes uma vida melhor, eterna. Ao contrário de vocês dois, ele acreditava em compartilhar as riquezas. E as compartilhou sem restrições com aqueles que acreditava ser dignos.
Estreito os olhos ainda mais. Minha paciência está chegando ao fim, e quero que ela saiba disso.
— Então por que ele não compartilhou sem restrições com você? — Meus olhos queimam, olhando fixamente para os dela. — Por que todo aquele jogo? Por que me enganou para que eu o fizesse?
Haven faz um gesto de desdém com a mão, ignorando.
— Já falamos sobre isso, ele estava apenas se divertindo um pouco. Eu nunca corri perigo. Ele teria me trazido de volta se precisasse. — Ela revira os olhos e balança a cabeça, claramente irritada com a interrupção. — Seja como for — ela diz, enfatizando a expressão —, sobre os diários, fotos e afins... Digamos apenas que parte seria de grande interesse para você. — Ela faz uma pausa, obviamente esperando que eu aproveite a oportunidade e implore para ouvir mais.
Mas não vai acontecer. Mesmo que suas palavras me façam lembrar instantaneamente algo que Roman Jude insinuaram quando falaram sobre segredos sórdidos do passado de Damen, mesmo que eu não consiga parar de pensar sobre o que aconteceu ontem no pavilhão, quando deparei com uma vida que Damen tentava desesperadamente esconder de mim, não posso pedir que ela conte mais nada. Não posso deixá-la saber que está funcionando, que eu me importo, que suas palavras estão impregnadas em minha pele. Não posso deixá-la ganhar esta.
Então apenas levanto os ombros e suspiro, como se estivesse extremamente entediada e não me importasse nem um pouco com o que mais ela tenha a dizer.
O que faz com que ela franza a testa e diga:
— Dane-se! Você não pode me fazer de idiota com todos esses suspiros e levantar de ombros. Eu sei que você quer saber. E não posso culpá-la por isso. Damen tem segredos. Segredos importantes, interessantes, sombrios e sujos. — Ela se vira para o espelho, inclinando-se na direção dele enquanto alisa o cabelo e admira a si mesma, hipnotizada pelo próprio reflexo. — Mas, por mim tudo bem deixar para outro dia. Quer dizer, eu entendo seu ponto de vista. Mas não importa. Ele é tão alto, moreno e sonhador... Quem se incomoda com a atrocidades que ele cometeu nas ultimas centenas de anos, certo?
Ela ergue uma sobrancelha e se vira para mim, inclina a cabeça para o lado e deixa as ondas escuras e brilhantes de seus cabelos caírem sobre a frente do vestido, vindo em minha direção lenta e deliberadamente, enrolando uma mecha de cabelo entre os dedos, dando seu melhor para me intimidar.
— Sua única preocupação agora deveria ser com seu futuro. Já que, ambas sabemos, ele pode não ser tão longo quanto pensava. É claro que não acredita mais que eu deixarei você ficar por aí por toda a eternidade. Terá sorte se eu deixar que chegue ao final do semestre. — Ela para bem perto de mim com o olhar provocador, resplandecente, e deixa as palavras no ar como a maçã diante de Eva. Quase me suplicando para experimentar.
Eu apenas engulo em seco e, mantendo a voz firme e equilibrada, digo:
— Damen e eu não temos segredos. E eu sei muito bem como é o coração dele... E é bom. Então, a menos que tenha algo a acrescentar, estou indo embora...
Sigo para a porta com a intenção de sair, de colocar um ponto final nisso antes que vá longe demais, mas, antes que consiga alcançá-la, quase como fendas, diz:
— Você não vai a lugar nenhum, Ever. Ainda não estou nem perto de terminar o assunto que tenho com você.

2 comentários:

  1. Agora a luta ira começar de verdade! Primeiro Round!
    Ass: Bina.

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    Respostas
    1. Quem será que vencerá o Primeiro Round?! Minha torcida vai para a Ever!

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