3 de novembro de 2015

Quinze

É uma pedrinha na janela que me acorda. Uma batida brusca, seguida de outra, e mais outra, até que desperto por completo.
Visto o penhoar, paro um instante para passar as mãos brevemente pelos cabelos antes de prosseguir, ansiosa por ver quem é.
Esperaria qualquer pessoa, menos a que encontro.
— Rhys? — Estreito os olhos, observando seus olhos azuis profundos e os cabelos castanho-dourados. — O que houve? — Meu coração bate três vezes mais rápido com a enxurrada de possibilidades, uma pior que a outra, que me vem à mente. Alrik sofreu um acidente, Alrik ficou doente, Alrik mudou de ideia a meu respeito... Até que por fim tenho o bom-senso de perguntar: — Aconteceu alguma coisa com Alrik? Está tudo bem?
Ele ri de um modo que ilumina seu rosto — de um modo que o torna irresistível a mulheres de todas as idades, em todas as situações: casadas, princesas, até as mais humildes camareiras. Todas, menos eu, quer dizer.
— Acredite, seu precioso Alrik está bem. Está como pinto no lixo, mal pode esperar para vê-la. Por isso me mandou aqui para buscá-la e levá-la até ele.
— Não acredito em você — digo, e as palavras vêm antes de eu ter a chance de vetá-las adequadamente. Mas, depois de ditas, percebo que não me arrependo delas. — Alrik nunca enviaria você. Pelo menos não para me buscar. Ele conhece bem sua crueldade, Rhys. O modo humilhante como gosta de me tratar.
Rhys sorri, passa a mão pelas ondas douradas e brilhantes de seus cabelos, os olhos azuis faiscando no escuro, enquanto diz:
— Não vou negar nem me desculpar pelo que fiz. Na verdade, admito que considero meu irmão um idiota por escolher você quando poderia ter a adorável e encantadora Esme. Mas acontece que a idiotice de meu irmão está agindo a meu favor. Por causa dessa bizarra atração por você, Esme, minha bela deusa de cabelos de fogo estará livre para mim. Assim, nessas circunstâncias, meu irmão e eu fizemos uma trégua. Ele me enviou para buscá-la enquanto se ocupa com suas obrigações. Então, venha logo. Seu casamento a espera. Não me faça acordar a casa toda.
— Agora? — Pisco no escuro, certa de que ele se enganou.
— Sim, agora. Será tudo às escondidas, em segredo. Então, venha. Pegue o que precisa, vista-se e saia pelos fundos. Meu cavalo está lá.
Apesar de suas instruções, permaneço imóvel, recusando-me a sair da janela, sabendo muito bem que Rhys não é nem um pouco confiável. Estou certa de que, se Alrik mandasse alguém para me buscar, seria Heath, não Rhys, o irmão em quem não confia. O irmão que ele detesta.
Rhys suspira. Suspira e balança a cabeça. Enfia a mão no bolso do sobretudo e diz:
— Certo. Aqui está. Leia e chore. Mas ande logo. Gostaria de voltar para minha cama em algum momento. Há uma criada rechonchudinha esquentando meus lençóis agorinha mesmo.
Contendo o ímpeto de revirar os olhos, finjo ignorar a última parte e o vejo escalando habilmente a treliça pelo lado de fora da minha janela. Rhys move-se rápido como um gato e joga um papel dobrado em minha mão enquanto se empoleira no peitoril.
Afasto-me, aperto o penhoar na cintura e jogo meus longos cabelos louros sobre os ombros, de modo que eles me cubram na frente. Tento evitar seus olhos, que passeiam ávidos por mim, parando em todos os lugares que não deviam, sem sequer ter a cortesia de tentar disfarçar.
Reconheço o lacre de cera vermelha que Alrik sempre usou para selar as inúmeras cartas que me enviou, desdobro o papel com pressa, aliso-o, e leio:

Minha querida Adelina:
Se está lendo isso, é porque se recusou a acreditar na palavra de Rhys.
Muito bem!
Você me deixou orgulhoso novamente. Mas, apenas desta vez, peço que confie nele. Parece que meu irmão e eu enfim chegamos a um acordo e estamos trabalhando juntos — trabalhando por um bem maior, por assim dizer. Então é com tranquilidade e consciência limpa que suplico que você vá com ele.
Não consegui localizar Heath e, na necessidade de um aliado, recorri a Rhys. Presumi corretamente que ele ficaria feliz com a notícia de nosso casamento secreto, ou, como ele prefere dizer: "A ridiculamente romântica e imprudente estupidez de Alrik." Por mais que ele possa rir, receio que o motivo de piada seja ele, que nunca vivenciará o tipo de amor que encontramos um no outro.
Ainda assim, apesar de zombar, Rhys é esperto o suficiente para entender que meu casamento com você o deixa livre para cortejar Esme e, em última análise, ir atrás da coroa e, provavelmente, da posição de "filho favorito e herdeiro de nosso pai" que ocupei certa vez. Mas nada disso importa à luz do que ganharei: a possibilidade de realizar meu sonho de tanto tempo de viver a seu lado.
Espero por você, minha querida... minha noiva... minha esposa!
Por favor, corra para mim!
Para sempre seu,
Alrik

— E então, o que acha? Passa em seu teste? — Rhys está acomodado na janela, uma perna pendendo para o interior de meu quarto e a outra dobrada no peitoril, servindo de apoio para suas mãos.
Alterno o olhar entre ele e o bilhete, e preciso admitir que certamente foi escrito pelas mãos de Alrik e que não foi sob coação. Então respiro fundo e confirmo com a cabeça.
— Muito bem. — Rhys é rápido ao estender a mão e pegar o papel de volta. Enfia-o no fundo do bolso sem se dar ao trabalho de dobrá-lo direito, olha para mim, manda que me apresse, pula pela janela e some de meu campo de visão.

4 comentários:

  1. Pelo o que entendi, Alrik é Damen, Adelina é Ever, Heath é Jude, e talvez, em teoria, Rhys seja Roman, Fiona seja Haven e Esme seja Drina. De acordo com a estoria contada até agora faz sentido.

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  2. Gente isso é meio um ciclo né? Ever e Damen se Amam. Damen ama Ever, Drina ama Damen , Roman ama Drina e Haven ama Roman
    (Ever - Damen - Drina - Roman - Haven.)

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  3. Isso tá quase idêntico ao poema de Drummond de Andrade, "Quadrilha". João amava Teresa que amava... Hahaha mds

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