2 de novembro de 2015

Quinze

— Ever, por favor.
Seus dedos acariciam a parte de baixo de meu queixo, insistindo para que eu abra os olhos para ele.
Eu abro. Relutando em levantar as pálpebras e encará-lo.
O surpreendente azul-esverdeado de seu olhar contrasta completamente com o marrom da pele, com o bronze dourado dos dreadlocks que caem sobre o rosto e com os dentes brancos e ligeiramente tortos.
— Eu desejo isso há tanto tempo... Há tantos anos. Mas primeiro, antes de fazermos isso, preciso saber...
Espero pela pergunta... Mal conseguindo respirar.
Nunca esperei que ele dissesse essas palavras.
— Por que eu? Por que agora?
Estreito os olhos e me inclino para trás. Aquele fascínio, aquela atração por ele que parecia irresistível segundos atrás, começa a esmorecer. Só resta um leve traço disso enquanto balanço a cabeça e digo:
— Não sei o que você quer dizer com isso.
Meus dedos soltam sua camisa e vejo um pequeno quadrado de tecido caindo no chão quando começo a me afastar. Mas ele não me deixa ir. Agarrando minhas duas mãos e segurando-as com força, diz:
— O que estou querendo dizer com isso é: o que aconteceu? O que mudou entre Damen e você a ponto de você ao menos pensar em mim?
Respiro fundo, pego em suas mãos, seus dedos se entrelaçando nos meus, seu pulso apoiado no pingente de ferradura de cristal que Damen me deu na pista de corrida de cavalos. Agora, quando estou pronta para seguir em frente, eu vou. Minha respiração volta lentamente ao normal, o encantamento dele diminui à medida que me afasto.
Sei que ele merece uma resposta, que não posso deixar a situação assim, então respiro fundo e digo:
— Descobri algo. — Olho de relance para ele e logo desvio o olhar. — Algo do passado... Algo que... — Engulo em seco e recomeço, com a voz mais clara, mais forte, dizendo: — Algo que ele estava escondendo de mim havia muito tempo.
Jude olha para mim sem demonstrar surpresa alguma. Ele já havia comentado em mais de uma ocasião sobre Damen ter segredos. Sobre sua incapacidade de uma luta justa, principalmente ao lutar por mim.
Mas, em defesa de Damen, preciso lembrar que ele sempre admitiu isso. Na verdade, ele sentia tão mal, tão destruído pela culpa, que preferiu não interferir por algum tempo, para que eu pudesse fazer minha escolha.
E eu fiz.
Eu o escolhi.
Para mim nunca houve competição. Desde que nos conhecemos, ele é o único que consigo enxergar.
Mas e se eu estiver errada?
E se, durante esse tempo todo, Jude estivesse destinado a ser meu grande amor?
Ele ficou a meu lado em todas as minhas vidas... Incluindo aquela que acabei de descobrir. E ainda assim ele é sempre vencido, sempre aquele que é derrubado. Sempre quem termina sozinho.
Mas e se não fosse para acontecer desse modo?
E se fiquei tão encantada e influenciada por Damen todo esse tempo a ponto de sempre fazer a escolha errada?
Por que Jude e eu continuamos voltando um para o outro repetidas vezes? Seria para termos outra chance de acertar as coisas — de finalmente ficarmos juntos depois de todo esse tempo?
Olho para Jude parado diante de mim — ele é fascinante. Não do mesmo modo como Roman, com seu brilho ardiloso e dourado, nem como o calor e o formigamento moreno e sexy de Damen. Não. Jude se parece mais com um sonho tranquilo: comum por fora, mas muito mais que isso por dentro.
— Ever... — ele começa a falar, travando uma batalha entre o desejo de simplesmente me agarrar e me beijar e a vontade de mostrar algum controle, conversando comigo primeiro. — Ever, o que você viu? O que foi tão ruim a ponto de trazê-la até mim?
O modo como fala, tão ciente de sua antiga posição de rejeitado... Bem, faz meu coração se partir.
Eu me viro, observando as arquibancadas, o chão de madeira gasta, a rede de basquete com um buraco na lateral, esperando que o que sobrou de seu encanto desapareça e que a lógica e longa lista de perguntas tome seu lugar.
Decidindo ser firme e sincera, apenas relatar os fatos como ocorreram e ver até onde levam, eu me viro para ele e digo:
— Um tempo atrás, você meio que... — Balanço a cabeça. — Não, meio não, você com certeza mencionou conhecer algum tipo de segredo sobre nosso passado juntos. Foi depois de ir aos Grandes Salões do Conhecimento pela primeira vez. Você saiu de lá completamente diferente. E quando perguntei o que havia acontecido lá dentro, você pareceu bastante vago. Mas depois mencionou algo sobre Damen não ter jogado limpo antes, sobre tudo estar prestes a mudar porque, como disse: conhecimento é poder e, graças a Summerland, você o tinha em grande quantidade. Ou algo assim. De qualquer modo, preciso saber o que quis dizer com aquilo.
Fico parada diante dele, em silêncio, esperando uma resposta. Vejo-o fechar os olhos e esfregar o espaço entre eles, apertar com força, antes de deixar os braços caírem e olhar para mim.
— Por onde quer que eu comece? — Ele balança os ombros e em seguida dá uma risada que está mais para brusca e hostil que para qualquer coisa que lembre alegria.
Penso em dizer qualquer lugar, comece por onde quiser, imaginando que seria bom deixa-lo tomar a iniciativa desta vez e revelar aquilo que acha que devo saber. Mas depois penso melhor. Embora Damen tenha editado todas as minhas vidas, o que significa que todas elas escondem algum segredo que ele prefere que eu não saiba, bem, há apenas uma vida — um segredo — que realmente preciso conhecer no momento.
Apenas um, específico, que me trouxe a este ponto, que me fez querer beijar Jude para ver até onde isso me levava.
— O Sul. — Olho para ele. — O Sul antes da guerra civil. O que sabe sobre nossa vida naquela época, quando você e eu éramos escravos?
Ele empalidece, fica realmente muito pálido. A luz se esvai de seus olhos tão rápido que mal acredito que acabei de testemunhar isso. Murmura algo inaudível bem baixinho enquanto percorre tudo em volta com os olhos, parando no mascote da escola pintado na parede enquanto suas mãos e pés iniciam uma dança inquieta.
Ao vê-lo reagir desse jeito, bem, imagino se não revelei sem querer algo que ele ainda não soubesse.
Mas seu pensamento logo desaparece quando ele finalmente se vira para mim e diz:
— Então você sabe. — Ele respira fundo e balança a cabeça. — Devo confessar, Ever, que fico surpreso por ele ter lhe contado sobre isso. Preciso admitir: não importa o que pense sobre ele, foi muito corajoso. Ou apenas imprudente, quem sabe?
— Ele não me contou — digo sem conseguir me impedir. — Bem, não exatamente. Digamos que eu... Dei de cara com algo que ele definitivamente não queria que eu visse.
Jude balança a cabeça, num gesto que traduz compreensão. Seu olhar muda enquanto ele se move lentamente em minha direção. Sua voz é grave e séria quando diz:
— Não posso culpa-lo. Aquela foi realmente uma das piores situações para nós. Talvez pior. — Ele dá de ombros. — Pelo menos foi como que acabou sendo para mim...

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