3 de novembro de 2015

Quatro

— Alguma descoberta? — Damen esfrega uma toalha nos cabelos molhados para tirar o excesso de água, joga-a de lado e se penteia com os dedos.
Afasto-me de sua escrivaninha e giro a cadeira para mais perto dele, arrastando-a para a frente e para trás e de um lado para o outro enquanto digo:
— Fiz várias buscas... Pesquisei os números que ela mencionou, imaginando que poderia ser uma data, um código ou ter relação com um trecho importante de uma canção, um salmo, um poema, ou... qualquer coisa. — Dou de ombros. — Também procurei aquele nome que ela mencionou, Adelina. Mas nada encontrei. Então investiguei os números e o nome juntos, mas, ainda assim, nada. Pelo menos nada que parecesse estar ao menos remotamente relacionado a nós.
Ele faz um gesto afirmativo com a cabeça, desaparece no closet por um instante e volta em seguida, vestindo uma calça jeans básica e um suéter preto de lã. Eu, por minha vez, opto pela atitude mais fácil, e um tanto preguiçosa, de materializar minhas próprias roupas, que acabam sendo bastante parecidas com as dele.
Só que meu suéter é azul. Ele gosta quando uso azul. Diz que realça a cor de meus olhos.
— E então, por onde começamos? — Ele se senta na poltrona e calça alpargatas da marca TOMS, uma das poucas coisas que ainda compra, mas só porque parte dos lucros é revertida para projetos sociais.
As botas italianas de motoqueiro costuradas à mão que ele usava quando nos conhecemos já foram abolidas. Agora são chinelos de borracha baratos no verão e TOMS no inverno, com exceção de sua opulenta e enorme mansão multimilionária e do BMW M6 Coupé preto, reluzente e todo equipado na garagem (carro que eu praticamente o forcei a materializar de novo e a manter), parece que ele está mesmo disposto a cumprir seus votos um tanto recentes de levar uma vida menos extravagante e materialista, mais simples e consciente.
— Durante a próxima semana sou todo seu. — Ele se levanta, aproveitando para balançar as pernas e ajeitar a barra da calça.
— Só durante a próxima semana? — Paro diante do espelho de corpo inteiro encostado na parede, tentando obrigar meus cabelos a não ficarem totalmente lisos. Materializo um ondulado que não combina comigo e acabo voltando ao estado anterior, prendendo os fios em um rabo de cavalo frouxo.
— Não há prazo de validade para ficarmos juntos, mas para esse seu projeto sim, como você claramente concordou. Então, diga-me, por onde começamos? — Ele olha para mim e espera pelas instruções.
Eu me olho de perfil, alisando com as mãos os fios de cabelo desgarrados que insistem em escapar nas laterais. Penso que deveria tentar outro penteado, já que não estou muito satisfeita com a imagem que vejo refletida, mas respiro fundo e me forço a aceitar.
Sempre que olho minha imagem, só enxergo coisas que gostaria de mudar.
Sempre que Damen olha para mim, só enxerga um lindo presente do universo.
A verdade está em algum lugar no meio do caminho.
— Vamos. — Paro de olhar meu reflexo e me viro para ele, ciente de que não temos tempo a perder, que uma semana cheia como a que planejei pode parecer apenas um ou dois minutos quando tudo for resolvido.
Agarro sua mão e ficamos lado a lado, ambos visualizando o suave véu dourado de luz brilhante, aquele que nos leva a Summerland.
Passamos pelo vasto campo perfumado com flores radiosas e árvores vibrantes, e optamos por aterrissar ao pé da larga escadaria que conduz diretamente aos Grandes Salões do Conhecimento. Paramos por um instante, nossos pensamentos silenciados, os olhos arregalados, admirando tanto aquilo que nossa respiração fica presa na garganta.
Observamos as belas esculturas, o teto grandioso e inclinado, as colunas imponentes, as esplêndidas portas de entrada — todas as suas vastas e variadas artes mudando rapidamente, formando imagens das grandes pirâmides de Gizé, transformando-se no Templo de Lótus, depois no Taj Mahal, e assim por diante. O prédio se reconstitui, muda de forma, até que as maiores maravilhas do mundo sejam representadas em sua fachada mutante, que admite apenas aqueles que conseguem vê-lo pelo que realmente é — um local inspirador, criado a partir do amor, do conhecimento e de tudo o que é bom.
As portas se abrem diante de nós, e corremos pelas escadas e pela espaçosa entrada preenchida com uma luz brilhante e calorosa — um esplendor luminoso que não parece emanar de um lugar específico e, como o restante de Summerland, permeia cada canto, cada espaço, impedindo que existam sombras ou pontos escuros (exceto aqueles que causei).
Andamos por entre colunas de mármore branco que parecem ter saído diretamente da Grécia Antiga, juntamente com várias fileiras de mesas de madeira esculpida e bancos cheios de padres, rabinos, xamãs, todos os tipos de pessoas que estão em busca de algo, inclusive... Jude?
Assim que seu nome aparece em minha mente, ele levanta a cabeça e olha para mim. Pensamentos são matéria, são energia em seu estado mais puro, e aqui em Summerland podem ser escutados por praticamente qualquer um.
— Ever... — Ele leva a mão à testa, alisando a área logo acima das sobrancelhas unidas, e depois afasta do rosto o emaranhado de longos dreadlocks cor de bronze. — E Damen... — Sua expressão permanece impenetrável, ilegível, embora fique claro que está se esforçando muito para deixá-la assim.
Ele se levanta, um pouco relutante. Mas, quando Damen vai em sua direção com um sorriso largo que ilumina seu rosto, Jude faz o possível para corresponder, deixando as covinhas aparecerem.
Fico parada, assistindo ao ritual de saudação masculino que sempre inclui um aperto de mão e um tapinha nas costas. Tento apreender o significado por trás das bochechas coradas de Jude, sem contar o lampejo de desapontamento em seus olhos verde-água.
Bem, embora ele e Damen tenham dado uma trégua, embora ele esteja praticamente a par de todos os nossos maiores segredos e não pretenda espalhá-los por aí, embora eu tenha certeza absoluta de que sua capacidade excepcional de frustrar meus melhores planos não é premeditada — mas que outra coisa, uma força superior, o impulsiona a fazer isso, a sempre interferir na pior hora possível —, não consigo deixar de hesitar, não consigo superar minha relutância em cumprimentá-lo.
Leva apenas um instante para que eu reconheça o que minha hesitação realmente significa.
Culpa. A boa e velha culpa.
Nada mais, nada menos. O tipo de culpa que vem de compartilhar um passado longo, complicado e às vezes romântico com alguém e, mesmo assim, sempre escolher outra pessoa no final. Não importa quanto Jude tenha tentado, sempre escolhi Damen em vez dele. E foi o que fiz de novo recentemente.
E, embora eu saiba que fiz a melhor escolha, a escolha certa, a única possível, mesmo que instintivamente eu pressinta que há outra pessoa para Jude, alguém muito mais apropriado que eu, ele não pensa assim.
Ele alterna o olhar entre nós, parando em mim de forma que faz com que uma inconfundível onda de calma serena e lânguida percorra meu corpo — fenômeno que só experimentei com ele, tanto nesta vida quanto nas anteriores. E, por mais que ele tente ficar distante e neutro, é impossível não notar o lampejo de saudade em seus olhos — uma sementinha de esperança da qual ainda não se livrou. Apesar de durar apenas um segundo, apesar da rapidez dele em substituí-la por outro sentimento, que traga muito menos dor, que seja muito mais agradável, materializo uma estrela da noite a brilhar acima de sua cabeça e, mais uma vez, faço um pedido para que ele encontre logo a pessoa predestinada a ele, aquela que é muito mais adequada que eu jamais poderia ser.
Então faço a estrela da noite desaparecer antes que eles possam vê-la.
— O que você está fazendo aqui? — Forço um sorriso e o mantenho até que ele comece a parecer natural.
Jude hesita, balança o corpo para a frente e para trás enquanto segura desajeitadamente nos passadores da calça. Selecionando os pensamentos, pesando com cuidado as opções, decidindo entre a honestidade total e a parcial e, por fim, optando pela total ao dizer:
— Eu gosto daqui. Não consigo evitar. Embora Ava me diga para não exagerar, parece que não consigo me manter afastado.
— Summerland é assim. — Damen assente com a cabeça, como se entendesse completamente, como se ele próprio lutasse contra a mesma tentação. Quem sabe se ele já não passou por isso e não tivemos ainda a chance de tocar no assunto? — A atração é muito grande — acrescenta. — Evitá-la é um trabalho diário.
— Está fazendo alguma pesquisa específica? — Esforço-me para manter um tom leve e casual, embora esteja na ponta dos pés para tentar espiar o tablet em que ele estava estudando quando entramos. Mas ele é esperto e apaga tudo assim que percebe o que estou fazendo.
E é por isso que fico tão chocada quando ele diz:
— Para ser honesto, estava fazendo uma pequena pesquisa sobre você. — Ele me olha fixamente, levando Damen a semicerrar os olhos, tentando captar o que Jude quis dizer.
Alterno o olhar entre os dois, procurando algo para dizer, mas Jude é mais rápido:
— Estava tentando descobrir por que sempre entro em seu caminho.
Faço uma pausa, minha garganta fica seca de repente, forçando-me a pigarrear para conseguir falar.
— E chegou a alguma conclusão? — pergunto, a voz, a postura, a expressão, o comportamento, quase tudo em mim deixando claro que meu interesse no assunto praticamente não tem limite.
Ele balança a cabeça, estampando no rosto um pedido de desculpas que palavra nenhuma seria capaz de expressar.
— Não. Pelo menos nada concreto — diz.
Meus ombros afundam, um suspiro escapa de meus lábios e imagino como teria sido bom se Jude já tivesse feito todo o trabalho por mim, mas nunca é tão fácil assim.
— Mas encontrei algo...
Ele consegue de volta toda a minha atenção. E a de Damen também, pelo que posso notar.
— Não é algo que eu tenha visto exatamente, é mais como um pensamento que não para de aflorar. Um pensamento que não consigo evitar.
— É assim que Summerland funciona — afirmo, balançando a cabeça, um pouco vigorosamente demais. — Pelo menos os Grandes Salões. Nem sempre é algo concreto, sabe? Nem sempre é algo que se lê ou experimenta. Às vezes é apenas um pensamento persistente que se recusa a partir até que você lhe dê atenção.
Ele concorda, dobra os polegares nos passadores de cinto da calça e olha em nossa direção.
— Bom, sei que isso pode soar como uma crítica, mas acho que, a esta altura, vocês já sabem que não é essa minha intenção. É que não consigo deixar de pensar que todos os seus problemas, todos os seus... Obstáculos... Bem... Não consigo deixar de pensar que tiveram origem na imortalidade.
Ele olha para Damen, e eu faço o mesmo. Ambos sabemos que ele tem total consciência disso.
— O que quero dizer é que toda essa coisa do elixir e, bem, do que mais seja necessário, não que eu conheça os detalhes, mas, ainda assim, meu argumento é que não é natural, sabem? Nós não somos feitos para ter imortalidade física. Por isso existe a alma. A alma é nossa parte imortal. Ela volta em um ciclo infinito, pelo que vi, mas nunca morre. Devemos transcender o mundo físico, não... não ficar nele e apenas nele ... — Ele vacila, mas agora que começou sabe que não tem escolha a não ser ir até o fim. Além disso, podemos muito bem ouvir as palavras em sua cabeça, escutá-las vacilantes em nossa direção quando ele diz: — Vocês não deviam encarar o mundo físico como se fosse a última parada, como se fosse tudo o que existisse.
Fico quieta. Damen também. Ambos admirados pelo modo como as palavras de Jude são uma espécie de eco sombrio e muito familiar do que Damen disse um pouco antes, no quarto.
Não consigo deixar de imaginar se há um motivo para isso, se era para eu ouvir. Ouvir de verdade e talvez fazer algo a respeito.
Talvez eu deva dar atenção, não simplesmente deixar passar, como estou mais inclinada a fazer.
Jude contrai o rosto, reduzindo os olhos a duas fendas estreitas do mais brilhante azul-esverdeado — uma faixa de um atraente mar tropical onde seria muito fácil mergulhar.
— E acho... Talvez... Bem, acho que o carma que acumularam ao fazerem essa escolha está impedindo vocês de vivenciar... — Ele se agita, se remexe, então finalmente se recompõe o bastante para dizer: — Bem, acho que está impedindo vocês de vivenciar a verdadeira felicidade. êxtase de verdade. Se é que entendem a que me refiro.
Ah, acho que sei bem a que ele se refere.
Eu suspiro. Damen também. Nós dois parecemos um coro de descontentamento e frustração.
— E o que mais? — Ergo a sobrancelha, percebendo que as palavras saíram muito mais bruscas que eu pretendia, e tento amenizar o tom ao acrescentar: — Quer dizer, alguma ideia de como contornar isso?
Jude aperta os lábios de um modo que faz sua pele morena empalidecer, ganhando um tom de branco que delineia sua boca — que já beijei uma vez, ou duas, não sei ao certo, tantas foram as vidas que nós três compartilhamos. Seu rosto está cheio de sinceridade quando diz:
— Desculpem. Isso é tudo o que sei. Então... Bem, vou deixá-los aqui e...
Ele começa a se afastar, claramente ansioso por encerrar o assunto e seguir com seu dia. Enquanto Damen ainda está perdido em seus pensamentos, perdido em uma nuvem escura de culpa, eu estendo as mãos, agarro Jude pelo braço e o puxo de volta, com força bruta, com uma expressão suplicante nos olhos e um pensamento enviado às pressas, sem tempo algum para ponderar, para editar.
Damen me olha, arrancado de seus pensamentos para se concentrar nos meus. O som claro e talvez um pouco alarmante, um tanto constrangedor de Não, não vá! que passou por minha cabeça rodopiou pela sala antes que eu pudesse impedir.
— Hum, o que eu quis dizer é que não precisa ir embora por nossa causa... Damen estreita os olhos, prestando atenção em mim com muito interesse. Jude também. O resultado são dois pares de sobrancelhas erguidas, uma unida, outra perfeita de todos os modos possíveis, enquanto os olhos que se encontram abaixo delas estão voltados para mim.
Sei que preciso concluir o pensamento antes que ambos cheguem a alguma conclusão horrível, que nos leve mais uma vez de volta ao começo. Então digo:
— O que eu quis dizer foi: você precisa mesmo ir embora? Agora? — Argh. Reviro os olhos para mim mesma. O que há de errado comigo? De mal a pior não dá conta de descrever, e, infelizmente, Jude parece concordar.
— Bem, pensei que seria melhor respeitar sua privacidade, talvez andar um pouco, encontrar Romy, Rayne e Ava. — Ele dá de ombros, deixando claro o tamanho do desconforto que eu causei para ele.
— Elas estão aqui? — Olho em volta, mesmo sem esperar encontrá-las.
É mais uma tentativa de me controlar que qualquer outra explicação.
Jude me lança um olhar estranho, mas se apressa em desfazê-lo.
— Não, estão no plano terreno. Por quê? — Ele abaixa as sobrancelhas e fica sério. — Ever... o que está acontecendo?
A energia de Damen irradia atrás de mim, e eu sei que ele está pensando o mesmo. Então respiro fundo e encaro os dois com cuidado, enquanto obrigo as palavras a saírem por meus lábios:
— Ouça, estou fazendo uma pequena... pesquisa. E como só tenho uma semana para concluí-la — lanço um olhar incisivo a Damen —, pensei que, bem, se não se importar, eu, digo, nós... — Olho fixamente para Damen, praticamente implorando que confie em mim. — Bem, levando em conta a limitação de tempo e as ideias que você compartilhou conosco, pensei que talvez pudesse me ajudar. Acho que sua perspectiva poderia ser muito, muito útil. Mas, claro, é você quem decide...
Jude olha para nós dois, ponderando, considerando, escolhendo se dirigir a mim ao dizer:
— Certo, estou dentro. É o mínimo que posso fazer por estragar tudo com Haven e praticamente todo o resto que diz respeito a você. Então, por onde começamos?

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