2 de novembro de 2015

Quatro

Só a vejo na hora do almoço.
Todo mundo a vê.
É impossível não notar.
Como um turbilhão glacial repentino — como uma escultura de gelo delineada em curvas bem-definidas. Ela é atraente, exótica e estupenda, como um frio invernal inesperado em um dia quente de verão.
Um grande número de alunos se agrupa a seu redor — as mesmas pessoas que antes passavam direto por ela.
É impossível não notá-la agora.
É impossível não notar sua beleza extraordinária, seu encanto irresistível.
Ela não é a Haven de sempre. Está totalmente diferente. Transformada.
O que antes era desbotado agora brilha.
O que antes repelia agora atrai.
E o que costumava ser seu visual padrão de cigana rock n’roll, com couro preto e renda, foi trocado por um tipo de glamour lânguido, hipnotizante e levemente mórbido. Como a versão ártica de uma noiva sombria e fúnebre, ela está usando um vestido longo e justo, com um decote profundo em V na frente, mangas compridas e bufantes e várias camadas de um tecido macio de seda azul que se arrasta atrás dela, varrendo o chão, enquanto seu pescoço quase se curva com o peso das joias que traz — uma combinação de pérolas taitianas brilhantes, safiras lapidadas em cabochão, grandes turquesas brutas e um conjunto de águas-marinhas reluzentes. Os cabelos são longos e pretíssimos, sedosos, em ondas soltas que vão até a cintura. A mecha platinada que marcava a franja agora está tingida do mesmo tom profundo de cobalto que cobre as unhas, contorna os olhos e cintila na joia, posicionada com um bindi, entra as sobrancelhas bem-feitas e arqueadas.
Um visual que a antiga Haven nunca usaria. Teriam rido dela antes mesmo de tocar o sinal da primeira aula — mas não agora.
Murmuro baixinho enquanto Damen vem até mim. Seus dedos agarram os meus no que deveria ser um aperto reconfortante, mas estamos tão hipnotizados quanto todas as outras pessoas da escola. Incapazes de tirar os olhos do resplendor de sua pele alvíssima, da forma como reluz em um mar azul e negro. O resultado é um visual estranhamente frágil, etéreo — como um hematoma recente —, camuflando por completo a determinação que está por baixo dele.
— O amuleto — Damen sussurra, olhando rapidamente em meus olhos antes de se voltar mais uma vez para ela. — Ela não está usando. Ele... sumiu.
Meus olhos localizam instantaneamente o pescoço dela, vasculhando o emaranhado de pedras escuras e brilhantes, e vejo que ele está certo. O amuleto que demos a ela, que deveria mantê-la a salvo do perigo, a salvo de mim, não está mais lá. E sei que não é por acaso, nem nada do tipo. É um recado para mim. Para me dizer em alto e bom som:
Eu não preciso de você. Já a superei. Já a transcendi completamente.
Depois de atingir o ápice de um poder criado por ela mesma, Haven está agora em uma posição em que não tem mais medo de mim. Embora sua aura não seja visível desde a noite em que fiz com que bebesse o elixir que a tornou imortal como eu, não é necessário que ela tenha uma para que eu sinta o que está pensando.
Para que eu saiba o que está sentindo.
Sua tristeza pela morte de Roman, combinada com a raiva que sente por mim, foi o que gerou tudo isso. Ela está sendo completamente guiada, completamente redefinida por um sentimento avassalador de ira e de perda, e agora está tentando se vingar de todas as pessoas que lhe fizeram mal.
A começar por mim.
Damen para de repente e me puxa para seu lado, dando-me a ultima chance de me render e sair dali, mas eu não quero. Não Posso. Embora eu esteja totalmente comprometida a deixá-la dar o primeiro passo, no instante totalmente comprometida a deixá-la dar o primeiro passo, no instante em que ela o fizer, não terei problema algum em lembrar a ela quem é que manda aqui. É para isso que venho treinando. Mesmo que ela esteja se sentindo confiante e segura de si, eu sei de algo que ela não sabe:
Ela pode se sentir forte, poderosa e completamente invencível... Mas seus poderes não chegam nem aos pés dos meus.
Damen me observa com preocupação, ciente do olhar penetrante de Haven, pequenas flecha de ódio apontadas diretamente para mim. Eu apenas dou de ombros e continuo andando, acompanhando-o até nossa mesa de sempre, aquela que Haven certamente considera indigna dela. Sabemos que os olhares de ódio são só o começo, algo com que é melhor nos acostumarmos se tivermos alguma esperança de sobreviver até o final do ano.
— Você está bem? — Ele se inclina, preocupado, em minha direção, a mão em meu joelho.
Faço que sim com a cabeça, sem deixar de olhá-la nem por um momento sequer. Se ela for apenas um pouco parecida com Roman, sei que arrastará essa situação como os gatos fazem com os ratos, brincando com a presa antes de matá-la.
— Porque eu quero que você saiba que eu estou aqui. Sempre estarei aqui. Mesmo que não tenhamos aula juntos, graças a você, devo acrescentar. — Ele balança a cabeça. — Quero que saiba que não vou a lugar algum. Não vou matar aula, sair de fininho, fugir do colégio, nem nada desse tipo. Frequentarei até a última aula dessa minha grade miserável. O que significa que, se precisar de mim, tudo o que precisa fazer é chamar que eu venho.
  Olho em seus olhos, mas apenas por um instante antes de voltar a ela. Observo-a se deleitar em sua recém-adquirida posição de rainha da turma dos populares, sentada em um lugar de destaque a uma mesa da qual, há alguns meses, não podia nem passar perto, muito menos sentar. E imagino que Stacia e Honor tenham decidido aproveitar o novo privilégio concedido aos alunos do ultimo ano, de sair da escola para o almoço, já que nunca permitiriam que isso acontecesse se estivesse por perto — o que me faz pensar em como vão reagir quando voltarem e virem que Haven tomou o lugar delas.
— Ouça— digo, girando a tampa de meu elixir, e tomo um gole. — Já discutimos isso e eu estou bem. Posso lidar com a situação. Posso lidar com ela. É sério. — Viro-me para ele com um olhar que mostra o quanto estou falando a sério. — Temos uma eternidade juntos, só você, eu e o infinito. — Sorrio. — Então não precisamos nos sentar juntos na aula de física também, não é?
Meu coração praticamente salta no peito ao ver o modo como seus olhos se iluminam, seu humor fica mais leve, e ele sorri também.
— Não precisa se preocupar comigo. Pelas sessões de meditação com Ava e meu treinamento com você, já sou uma versão nova, melhorada e mais poderosa de mim! E sou capaz de lidar com Haven, acredite. Não tenho dúvidas quanto a isso.
Ele alterna o olhar entre nós duas, seu rosto é uma máscara de apreensão, claramente lutando contra a própria dúvida insistente e o desejo de acreditar. Apesar de minhas contínuas garantias, seu temor por minha segurança — sua crença de que é o único culpado por tudo isso desde o dia em que decidiu a transformar — o impede de confiar e se entregar.
— Tudo bem, mas só mais uma coisa. — Ele levanta meu queixo até que nossos olhos fiquem no mesmo nível. — Apenas lembre-se de que ela está com raiva, é poderosa imprudente. Uma combinação perigosa como nenhuma outra.
Concordo com a cabeça, sem perder o ritmo, e respondo:
— Bem, isso pode ser verdade, mas não se esqueça você de que sou centrada, mais poderosa e tenho muito mais controle do que ela jamais terá. O que significa que ela não pode me machucar. Não importa quanto queira, não importa quanto se esforce, ela não vai ganhar essa. Isso sem contar que eu tenho algo que ela não tem...
Ele me olha com os olhos semicerrados, sem prever essa mudança repentina no roteiro que ensaiamos tantas vezes.
— Você. Eu tenho você. Sempre tive e para sempre terei, certo? Pelo menos foi o que me disse ontem à noite, quando estava tentando me impressionar no interior da Inglaterra...
— Ah, quer dizer que era eu que estava tentando impressionar você? Tem certeza disso? Ele ri, fechando os olhos enquanto pressiona os lábios contra os meus, a princípio, com suavidade; depois, de forma mais intensa. Ele me beija de um modo que faz com que todo o meu corpo desperte com o formigamento e o calor que só ele pode me proporcionar. Então se afasta rápido, ciente de que não podemos correr o risco de perder o foco dessa maneira.
Essas coisas podem esperar. Haven, não.
Mal tive a chance de me acalmar e me recompor quando Miles aparece no meio da multidão, saindo da mesa dela e vindo em direção a nós. Ele para a apenas alguns passos de distancia, dá uma volta completa, permitindo—nos vê-lo com trezentos e sessenta graus, e termina em uma pose de modelo, coroada com um olhar duro, beicinho e as mãos no quadril.
— Notaram algo diferente? — Ele alterna os olhos entre nós dois. — Porque, desculpem-me dizer, mas Haven não foi a única que teve um verão transformador, sabem? — Ele desfaz a pose e se aproxima. — Caso não tenham ouvido da primeira vez, permitam-me repetir: Notaram. Algo. Diferente? — Ele pronuncia as palavras propositalmente devagar, demorando um pouco para pronunciar cada uma delas.
Quando olho para ele — quando olhamos para ele —, é como se tudo parasse num súbito estrondo. Nossa respiração, o movimento das pálpebras e as batidas do coração são substituídos instantaneamente por um espanto abrupto e constrangedor que nos deixa boquiabertos, reduzindo—nos a nada mais do que imortais paralisados, sentados lado a lado, imaginando se não estariam olhando para um terceiro.
— E então? Vamos, digam... O que acham? — Miles canta, dando mais uma voltinha rápida e fazendo outra pose, na qual ficará até que um de nós fale algo. — Holt nem me reconheceu.
O que eu acho? Acho que a palavra diferente não é capaz de descrever o que estou vendo.
Olho para Damen e depois volto a olha Miles. Nossa, nem radicalmente alterado nem completamente transformado dão conta! Balanço a cabeça.
O cabelo castanho, que usava cortado bem rente desde que o conheço, agora está mais longo, ondulado, quase como o de Damen. E a gordurinha que acolchoava suas bochechas, fazendo-o parecer uns dois anos mais novo, desapareceu por completo, dando lugar a coisas como maças do rosto, um maxilar quadrado e um nariz mais definido. Até suas roupas, que consistem praticamente no Jeans de sempre, sapatos e camisa, parecem totalmente mudadas — diferentes —, nada como antes.
Como se ele fosse uma lagarta que decidiu abandonar o velho casulo para mostrar suas novas e belas asas de borboleta.
E quando começo a pensar no pior — que Haven chegou a ele antes de mim, — eu a vejo. Nós a vemos. A aura de Miles. É de um laranja brilhante, reluzindo a seu redor... A única coisa que nos permite relaxar e voltar a respirar normalmente.
Ainda precisando de um tempo para processar tudo isso, sem nem saber por onde começar, sinto-me aliviada quando Damen diz:
— Parece que Firenze fez bem para você. Muito bem, na verdade. — Ele dirige um sorriso a Miles e aperta minha mão, para me acalmar.
Miles ri e seu rosto se ilumina de um jeito que atenua todos os novos contornos. Mas o clima dura pouco, a sua aura oscila e tremula fracamente enquanto ele se concentra em Damen. Isso é tudo de que preciso para me lembrar.
Acho que fiquei tão presa a meu drama com Haven e Sabine que me esqueci dos retratos de Damen e Drina que Miles descobriu.
Retratos pintados há séculos.
Retratos que não são fáceis de justificar — não há nenhum tipo de explicação lógica.
E, mesmo tendo jurado nunca fazer isso a não ser que fosse absolutamente necessário, acho que este é definitivamente um daqueles momentos que podem ser chamados de emergência.
Enquanto Damen o distrai com uma conversa fiada sobre Florença, eu discretamente dou uma espiada na mente de Miles. Preciso saber o que ele pensa, do que suspeita, e fico surpresa em ver que ele não está focado em nenhuma das coisas que eu temia. Pelo contrário, ele está focado em mim.
— Estou decepcionado — ele diz, interrompendo Damen e se dirigindo a mim.
Inclino a cabeça de lado, saindo de sua mente segundos antes de ter a chance de ver onde ele quer realmente chegar.
— Volto para casa em uma versão nova e melhorada, como podem ver. — Ele passa a mão pelo corpo, como uma modelo de programa de auditório exibindo o grande prêmio. — E estava planejando que este fosse o melhor ano de todos. Mas agora fico sabendo que minhas amigas ainda estão brigadas, ainda não se falam e ainda estão me forçando a escolher entre elas, mesmo tendo sido bem específico ao pedir que resolvessem tudo antes que eu chegasse, porque não há a menor possibilidade de eu participar desse jogo. De jeito nenhum serei forçado a fazer o papel de Meryl Streep em A escolha de Sofia. Não mesmo. Na verdade...
— Foi isso o que ela disse? — interrompo, sentindo que esse monólogo poderia continuar até o fim das aulas, se eu permitisse. — Ela disse que você tem que escolher? — Abaixo o tom de voz quando um grupo de alunos passa.
— Não, mas nem precisou. Quer dizer... Acho que está bem claro que se você não está falando com ela e ela não esta falando com você, então terei que escolher. Ou isso ou o intervalo de almoço ficará ainda mais estranho que no ano passado. — Ele balança a cabeça, e seus cachos castanhos e brilhantes ondulam suavemente de um lado para o outro. — E não vou tolerar isso.
Simplesmente não vou. Então, basicamente, vocês têm entre hoje e amanhã para dar um jeito nessa situação. Ou serei forçado a passar o intervalo em outro lugar. Ah, e caso não esteja me levando a sério, é bom saber que, agora que tenho a chave do carro antigo da minha mãe, você não tem mais a vantagem da carona. Você e Haven estão no mesmo nível no que diz respeito à minha afeição. O que significa que vocês não têm saída a não ser resolver esse assunto se quiser me ver novamente ou...
— Ou o quê? — Tento manter o tom de voz leve, meio brincalhão, já que não tenho ideia de como dizer a ele que, se houve alguma mudança, conhecendo Haven, nosso problema apenas ficou maior.
— Ou encontrarei uma nova mesa e um novo grupo de amigos — ele afirma balançando a cabeça e alternando o olhar entre Damen e eu, querendo que saibamos que ele pretende levar a ameaça à sério.
— Veremos o que é possível fazer — diz Damen, tentando encerrar logo o assunto.
— Mas não prometo nada — acrescento, querendo atenuar, manter um tom mais realista, e não brincar com quaisquer falsas esperanças que ele possa ter.
Imaginando que estamos acima de qualquer suspeita no momento em que o sinal toca, Damen pega minha mão para me acompanhar até a sala de aula, mas para quando Miles dá um tapinha em seu ombro e diz:
— E você... — Ele faz uma pausa longa o suficiente para olhá-lo lentamente dos pés à cabeça. — Você e eu conversaremos depois. Ainda tem muito o que explicar.

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