3 de novembro de 2015

Quarenta

Pelo menos dessa vez Miles não exagerou. Sabine e Muñoz realmente superaram todas as expectativas com a decoração.
Assim que paramos na entrada, fico de queixo caído ao ver como transformaram essa casa genérica ao estilo toscano em algo que parece ter saído diretamente do velho mundo.
— Espere até ver lá dentro! — Sabine olha em meus olhos. — Sei que você queria uma reunião pequena, mas pensei que seria legal dar uma festa grande com todos os seus amigos. Você se esforçou tanto, Ever. Merece se divertir um pouco. E, para ser sincera, Paul e eu também merecemos!
Quando ela me acompanha até lá dentro, enquanto Muñoz nos segue, digamos apenas que se o lado de fora estava impressionante, o interior está incrível.
— E, mais uma vez, isto é só o começo — diz Muñoz, um sorriso se abrindo em seu rosto. — Cada cômodo tem o próprio tema.
— Como vocês... ? — começo a perguntar como eles conseguiram fazer tudo isso sem que eu percebesse, mas depois eu vejo: há decoradores, o pessoal do bufê, garçons e todos os tipos de ajudantes andando pela casa. Não é uma simples festa. É uma festança de arromba de formatura.
— Há muito o que comemorar — diz Sabine. — Então fizemos tudo o que estava a nosso alcance. Pense nisto como uma festa para celebrar feliz retorno, formatura e noivado. Ah, não tivemos oportunidade de contar antes, mas uma editora importante acabou de fazer uma oferta para comprar o livro de Paul, então também é uma festa pela publicação do livro! — Ela olha para Muñoz, o rosto ruborizado com o orgulho de seu sucesso, e eu aproveito para olhá-lo de relance também, vendo-o sorrir e piscar, certa de que ele está se lembrando do dia em que previ que isso aconteceria. — Convidamos muita gente, espero que não se importe. Sei que não é nada parecido com o que planejou, mas achamos que seria divertido. Miles sugeriu o tema, e a partir daí tudo decolou.
Faço um gesto afirmativo com a cabeça, tentando corresponder a seu sorriso, mas só consigo pensar no fruto — o verdadeiro motivo por trás de tudo isso — e em como ficou claro que isso se perdeu pelo caminho.
Mas, logo que penso nisso, Sabine olha para mim e diz:
— Não se preocupe, pensei em tudo. Deixei livre a saleta que dá para seu quarto, para que faça o que for preciso. Só espero que tenha tempo para se divertir um pouco também.
Olho para ela, sem saber o que dizer. Nunca esperei nada nem remotamente parecido com isso e fico um pouco sem reação.
Mas Sabine coloca a mão em meu ombro e diz:
— Agora suba. Vá lá para cima e materialize sua fantasia enquanto Paul e eu vestimos as nossas. Lembre-se de que precisa estar pronta às sete para receber os convidados.
Faço o que ela diz. É mais fácil assim. Depois de subir as escadas, vou direto para meu quarto e me jogo na cama, estupefata com tudo isso. Lembro-me da primeira vez que cheguei aqui, quando Sabine foi me buscar no aeroporto e me trouxe para minha nova casa, minha nova vida. Estava tão perdida em meu luto que mal me dei conta de todo o esforço que ela havia feito para tornar minha vida confortável. Tudo o que conseguia fazer era esconder o rosto e chorar — pelo menos até Riley aparecer e me pôr nos eixos, fazendo-me ver as coisas de seu jeito.
Riley.
Fecho os olhos, tentando impedir o ardor, as lágrimas e o nó na garganta que vêm sempre que penso nela. Mas fico surpresa ao perceber como passa rápido — os sintomas vêm e vão em questão de segundos. E sei que é por causa do fruto.
Embora ainda sinta falta dela, embora deseje vê-la novamente, agora, pela primeira vez em muito tempo, tenho certeza de que verei. E saber disso atenua a dor da falta que sinto dela, de todos eles, inclusive de Buttercup.
Com apenas uma mordida do fruto, meu corpo não será mais imortal.
Voltará ao processo de envelhecimento e enfraquecimento até chegar à morte, e minha alma voltará a seu verdadeiro estado eterno, infinito — livre para cruzar a ponte e chegar ao local onde hoje minha família vive.
Aconteça o que acontecer comigo, minha alma sobreviverá, permitindo que minha família se reúna novamente.
Só espero que Damen e eu estejamos unidos também.
Só espero encontrar um modo de convencê-lo do que nós dois precisamos fazer.
Mas primeiro preciso pensar em uma fantasia para a festa "Venha do Jeito que Você Era".
E, para alguém que já teve sete vidas, a escolha não será fácil.
Devo ir como Adelina, a vida que acabei de descobrir? Evaline, a criada parisiense? Abigail, a filha de um puritano? Chloe, a jovem rica e mimada? Fleur, a musa de um artista? Emala, a pequena escrava triste?
Ou devo ir como todas elas?
Encontrar um jeito de juntar todas as peças de minhas várias vidas em um tipo de colcha de retalhos cármica, por assim dizer?
Fico refletindo por algum tempo, gostando da ideia, mas sem ter a menor noção de como executá-la. Mas, de maneira inesperada, sei exatamente como.
Olho para o relógio ao lado de minha cama e vejo que tenho pouco tempo e muita materialização a fazer. Então me levanto e começo, esperando que o resultado seja igual à imagem que tenho em mente.
Espero que seja mais que uma fantasia. Que forneça todas as evidências, todas as provas de que preciso.

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