2 de novembro de 2015

Quarenta

— Acha que alguém já fez isso aqui antes?
Eu me abaixo, afundando os joelhos na terra retirada do buraco que acabei de cavar, e dou uma espiada em Damen ao meu lado. O solo rico e úmido funciona como uma agradável almofada enquanto me curvo e pouso a caixa revestida de veludo em que está o que restou de Haven — suas jóias e roupas — no espaço que acabei de fazer, enquanto Damen me observa.
— Summerland é um lugar muito antigo. — Ele suspira, com a voz tensa, cheia de desconforto e preocupação. — Tenho certeza de que a maioria das coisas já foi experimentada pelo menos uma vez.
Ele coloca a mão em meu ombro, e posso sentir a apreensão que transborda dele. Está preocupado com a possibilidade de que eu esteja apenas fingindo estar bem com minha escolha. Está convencido de que lá no fundo eu não estou tão bem quanto alego.
Mas, apesar de estar incrivelmente triste por minhas ações, não as coloco em dúvida ou as questiono nem por um segundo sequer.
Não sou mais aquela garota.
Finalmente aprendi a acreditar em mim mesma, a ouvir minha intuição, a dar atenção aos meus próprios e impressionantes instintos e, por isso, estou em paz com o que agora sei que tinha de fazer. Mesmo que signifique que mais uma alma perdida tenha sido enviada para Shadowland, Haven era perigosa demais para eu permitir que seguisse com seus planos.
Mas isso não quer dizer que eu não queira homenageá-la.
Não quer dizer que eu não possa manter uma pontinha de esperança por ela.
Como eu mesma já estive nessa situação recentemente — graças a ela —, sei exatamente pelo que vai passar. Cair... Flutuar... Assistir aos erros de seu passado, muitas e muitas vezes. E se eu estava pronta para aprender com a experiência e me aperfeiçoar, bem, talvez ela possa fazer isso.
Talvez Shadowland apenas pareça uma eternidade passada num abismo de solidão.
Talvez haja realmente uma segunda chance em algum momento... Uma possibilidade de redenção para uma alma recém-reabilitada.
Levanto a tampa da caixa, com o desejo de ter um último vislumbre das botas de cano alto, da minissaia justa, do emaranhado de jóias — todas azuis —, dos brincos e do monte de anéis, incluindo o anel de caveira acabaria desse jeito.
Então, pouco antes de fechá-la, materializo um lindo cupcake vermelho com granulado rosa e o coloco bem em cima. Lembro que esse era seu preferido, um dos primeiros e mais inofensivos vícios aos quais ela tão alegremente se entregou.
Damen se ajoelha a meu lado, alternando o olhar entre mim e o cupcake, e pergunta:
— Para que isso?
Respiro fundo, olho uma última vez e então volto a fechar a tampa. Com as mãos em concha, pego montes de terra que deixo cair por entre meus dedos por cima da caixa, e respondo:
— É apenas uma pequena lembrança da antiga Haven, de como era quando nos conhecemos.
Damen hesita e me analisa cuidadosamente.
— E para quem é esse lembrete, para ela ou para você? — ele pergunta.
Eu me viro, passando os olhos por seu queixo, suas bochechas, seu nariz, seus lábios, deixando os olhos por último, e digo:
— Para o universo. É algo tolo, eu sei, mas apenas espero que um pequeno e doce lembrete o convença a pegar leve com ela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!