3 de novembro de 2015

Quarenta e um

Quando termino, paro diante do espelho e me avalio. Confiro minha lista mental, garantindo que tudo esteja presente e representado. Ouço a voz de Damen em minha cabeça, as palavras exatas que ele usou ao me explicar. Certifico-me de que cada peça — dos cabelos vermelhos parecidos com fogo ao vestido elaborado, do olhar sedutor à força interior e à humildade — tenha origem no passado, enquanto meus olhos continuam imutáveis, eternos, não importa qual aparência minha alma resolva escolher. Sei que cheguei o mais perto possível de imitar a pintura que ele fez (incluindo algumas novas referências a Emala e Adelina, vidas que eu não conhecia naquela época), até que me lembro de um último detalhe. Uma última coisa que não sei se posso usar.
As asas delicadas.
Assim que as materializo nas costas, sinto-me tola. Tola e constrangida e, bem, um pouco aflita.
Não posso de jeito algum aparecer assim diante dos convidados. Eles não entenderiam. Interpretariam mal. Pensariam que eu me acho tão especial que realmente descendi dos anjos para andar entre eles. E isso está bem longe de ser a verdade.
Comprimo os lábios, prestes a fechar os olhos e fazê-las desaparecer, quando me lembro de que não estou fazendo isso por eles. Estou fazendo por Damen. Bem, por Damen e por mim.
Na noite em que ele pintou meu retrato no Getty Center, alegou que elas estavam lá — afirmou que só ele podia vê-las. Disse que só porque eu não podia enxergá-las, não significava que não fossem reais. E, embora eu tenha certeza de que ninguém entenderá o que pretendo, o que importa é que Damen saberá. Minha fantasia me ajudará a convencê-lo do que precisamos fazer.
Só espero que ele ainda me veja dessa forma...
Só espero não estar tentando recuperar algo que não exista mais. Brinco com o cabelo, acostumada a vê-lo ruivo só quando estou no pavilhão como Fleur, mas gosto da mudança nesta vida também. Então, passo as mãos pelo vestido longo e leve, dou uma última olhada e sigo para a porta antes que perca a coragem.
Todos os efeitos do que Sabine, Muñoz e sua talentos a equipe de decoradores imaginaram foram realizados, fazendo com que eu me sinta em um mundo mágico, místico, viajando no tempo, ao notar que cada cômodo é diferente do outro e, ainda assim, temático até o último detalhe.
A cozinha é a Grécia Antiga, a saleta é a Renascença italiana, o lavabo remonta à Idade Média (só que a pia e o vaso sanitário funcionam!), a sala de jantar é a Idade das Trevas, a sala de estar remete aos tempos vitorianos e o quintal é puro anos sessenta. E, quando a casa começa a se encher de pessoas fantasiadas, fico surpresa por ver como a ideia foi divertida.
A festa acabou de começar e os favoritos do passado já estão representados. Cleópatra não está apenas ao lado de Marco Antônio, mas também de Maria Antonieta e Joana D'Arc, Janis Joplin, Alexandre, o Grande, Napoleão e Einstein, além de um cara de túnica, barba e um bigode longo e fino, que acho que pretendia ser Confúcio. Há também alguém com uma grande barba grisalha, que fica gritando profecias, e eu acho que deve ser Nostradamus. Não consigo deixar de achar graça no modo como todo mundo sempre pensa que foi alguém famoso. Ninguém nunca se imagina como camareira ou escrava, como eu fui.
Miles, de mãos dadas com Holt, é o primeiro a me encontrar. E, antes que eu pergunte, ele aponta para si mesmo e diz:
— Leonardo da Vinci. Bonito, talentoso, completo e absolutamente genial. Faz todo o sentido, não faz?
Concordo com a cabeça e semicerro os olhos para observar Holt, seus impactantes cabelos brancos e a camisa preta de gola alta e dizendo:
— Certo, você é Andy Warhol ou Albert Einstein...
Mas, antes de ouvir a resposta, Stacia aparece de Marilyn Monroe (grande surpresa), ao lado de Honor, vestida de Pocahontas (o que realmente é uma grande surpresa).
— Uau, belas fantasias! — Assinto para cada uma.
Stacia passa as mãos pelo vestido frente única branco, enquanto Honor balança as longas tranças negras e diz:
— Bem, não fui exatamente Pocahontas. Mas vi uma vida em que fui índia.
Estreito os olhos, imaginando se isso significa que ela conseguiu ir a Summerland.
Mas ela me corrige logo quando diz:
— Romy e Rayne me hipnotizaram.
Estreito ainda mais os olhos. Não tenho ideia do que ela está falando.
— Sabe? Fizeram uma regressão comigo. Elas são muito boas. Estávamos pensando em deixar que trabalhem na loja, com a ajuda de Ava, é claro.
— Uau, eu não fazia ideia. — Não consigo deixar de me sentir um pouco deprimida em relação a tudo o que perdi, vendo como as coisas seguiram facilmente sem minha presença. Então balanço a cabeça, afasto aquele pensamento, olho para Miles e pergunto: — Você também foi hipnotizado? Isso quer dizer que você realmente foi Leonardo da Vinci?
Quando ele está prestes a responder, Jude, que veio como o artista conhecido (bem, pelo menos eu conheço) como Bastiaan de Kool, para diante de mim. Ele me olha, tentando entender minha fantasia. Observa-me por tanto tempo que fico inquieta, nervosa e desconfortável o suficiente para olhar de relance para Honor, sabendo que ela não ficará feliz com toda essa atenção.
— Entendi — diz ele, ainda com os olhos semicerrados. — Você pegou partes de cada uma delas. — Ele balança a cabeça, surpreso. Passa os olhos por mim e acrescenta: — Que ideia ótima! Queria ter pensado nisso.
— Queria ter pensado nisso também. — Olho em volta, acenando para Sabine e Muñoz, que estão vestidos de princesa viking e William Shakespeare, respectivamente, depois volto a Jude, dizendo: — Foi ideia de Damen.
— Ele está aqui? — pergunta Stacia, corando quando percebe como posso interpretar seu interesse, que posso tirar uma ideia errada depois de tudo pelo que passamos. — Quer dizer... não que eu me importe. — Ela faz uma pausa, mas nota que a frase deve ter soado ainda pior e se apressa em acrescentar: — Bem, eu me importo... Só não me importo do jeito que, hum, você acha que me importo.
Coloco a mão em seu braço, querendo confortá-la, dizer que está tudo bem, e sou tomada por uma onda tão forte de energia que é como se entrasse no meio de seu tornado pessoal. Embora consiga me afastar logo em seguida, não demoro muito para perceber que não foi de todo ruim. Pelo menos consegui ver internamente seu progresso e que ela foi sincera. Olho para ela, tentando parecer mais animada que realmente estou, e digo:
— Sinceramente? Não sei se ele vai aparecer, mas tenho esperança.
Ava, vestida de John Lennon, acena para mim do outro lado do cômodo, convidando-me a juntar-me a ela na saleta, onde também estão Rayne, usando luvas brancas novas em folha, um tailleur perfeito, o pequeno chapéu e o penteado de Jackie O., e Romy, vestida de Jimi Hendrix, com uma guitarra a tiracolo. É o oposto do que eu imaginaria, mas, mesmo depois de todo esse tempo, eu nunca consegui entendê-las direito.
Estou prestes a agradecer pelo ótimo trabalho que fizeram e pela ajuda que me deram durante este último ano quando alguém sai detrás de mim e diz:
— Então está feito.
Eu me viro, reconhecendo instantaneamente a voz.
Ela parece mais velha. Tão frágil e delicada que não consigo deixar de me preocupar com sua saúde. A bengala que a vi usando uma vez está de volta. E não demoro muito a perceber o motivo — é a primeira vez que a vejo no plano terreno. Depois de passar tanto tempo em Summerland, a gravidade aqui começa a pesar bastante.
— Desde a primeira vez que vi seu brilho, eu soube.
Olho para ela e noto que é a única a não usar fantasia. Mas, com a túnica e a calça de algodão combinando, muita gente deve pensar que está fantasiada.
— Mas eu não brilho — digo, ainda com os olhos fixos nela, reparando como sua aparência é estranha agora que está aqui. Como parece estar fora de contexto. — Não tenho aura — continuo. — Nenhum imortal tem.
Mas ela ignora.
— Auras são um reflexo da alma — diz ela. — E a sua é adorável. Você já notou a presença dela, viu de relance, não foi?
Olho para minhas mãos e lembro como as vi brilhar em um lindo tom de violeta em Summerland, quando ainda estava realizando a jornada. Lembro-me da sensação da cor vibrando em algum lugar lá no fundo — lembro-me da intensidade da sensação dizendo-me como eu devia proceder. Depois me lembro de que Drina também viu, de que comentou isso logo depois que libertei sua alma de Shadowland, e agora Lótus também vê. O que me faz imaginar se é mesmo real e se ainda estará comigo depois que eu comer do fruto.
E isso, é claro, me faz pensar em Damen, imaginar se ele concordará em comer do fruto comigo.
— Ele precisa de tempo — diz Lótus, lendo meu pensamento. — Diferentemente de mim. Eu já esperei muito.
Concordo com a cabeça, oferecendo a mão para ajudá-la a subir as escadas, mas ela se recusa e se apoia na bengala.
Penso em dar o fruto primeiro a ela, servindo-a em particular antes de reunir os outros, mas sou surpreendida quando ela lê minha mente mais uma vez e diz:
— Eles já estão reunidos, esperando por você.
De fato, quando entramos na saleta que leva a meu quarto, somos recebidas por um grupo impressionante de indivíduos eternamente jovens e belos, com o melhor conjunto de fantasias que já vi. Alguns optaram por interpretar o tema literalmente, vestindo-se como pessoas mesmo, e alguns escolheram interpretá-lo de forma livre, fantasiando-se de objetos como flores e árvores. Há até uma estrela cadente no canto. E, se é verdade que tudo é energia, se é verdade que estamos todos conectados, não há mesmo nada que nos separe da natureza — somos parte do todo.
Eles se viram e olham para mim, mais de cinquenta pessoas que Roman considerou que mereciam ser transformadas, o que dá aproximadamente três por século — um grupo muito menor que eu imaginava, mas, ainda assim, maior que eu tinha esperança que fosse.
Para falar a verdade, quando começo a observá-los, cada um deles, sinto-me um pouco ridícula em relação à proposta que estou prestes a fazer.
Essas pessoas vieram de muito longe com o único objetivo de manter a vida com a qual já se acostumaram. Essas pessoas são tão avançadas em todos os aspectos concebíveis, tão viajadas, experientes, cosmopolitas — bem, são intimidadoras, para dizer o mínimo —. Não deixo de pensar quais motivos teriam para sequer considerar me ouvir: uma garota de dezessete anos cuja maior conquista até agora (além de ter localizado a árvore) foi ter, aos trancos e barrancos, acabado de completar o ensino médio.
Por que considerariam abrir mão de tudo o que conheceram e amaram durante tantos anos em nome de uma ideia desconhecida, completamente esotérica, que posso explicar com facilidade, mas não comprovar?
Mas então olho para Lótus, vejo-a fazer um gesto encorajador com a cabeça, torcendo por mim com aqueles velhos olhos embaçados, e aquilo me estimula a engolir os medos e me dirigir a todo mundo:
— Sei que estão esperando ver Roman, mas ele não está mais aqui, então vou assumir seu papel. E, embora eu saiba que não posso competir com ele, agora que já estão aqui espero que pelo menos considerem ouvir o que tenho a dizer.
Minhas palavras geram burburinho. Muito burburinho. Com uma boa quantidade de resmungos também. O ruído começa a ficar tão alto que não tenho escolha a não ser colocar dois dedos na boca e soltar um assobio alto para que fiquem quietos.
— Quando eu disse que Roman não está mais entre nós, eu me referi ao âmbito físico. Seu corpo pereceu, mas a alma ainda vive. E eu sei disso porque o vi. Eu me comuniquei com ele. A alma nunca morre. Ele agora é realmente imortal.
Faço uma pausa, à espera de mais explosões, mas fico surpresa com o silêncio que se segue.
— Assim, embora saiba que estão esperando o elixir, vou lhes oferecer outra coisa. — Olho para as inúmeras garrafas de suco vermelho que deixei gelando no frigobar e de repente mudo de ideia, dizendo: — Não, na verdade vou lhes oferecer uma escolha. — Encaro Lótus, com medo do que ela possa pensar, mas a vejo concordar com a cabeça, nem um pouco perturbada por minhas palavras. — É justo que tenham uma escolha. Mas quero que a considerem com muito cuidado, porque, depois de hoje, talvez nunca mais tenham essa chance. Em resumo, vou lhes oferecer um gole do elixir que estenderá a vida que conhecem, preservando sua juventude, beleza e vitalidade por mais cento e cinquenta anos. Mas devem saber que ele vem com um preço. Vocês ainda podem morrer. Se um de seus chacras fracos for atingido, seu corpo virará pó e a alma ficará presa em Shadowland, um lugar terrível, que vocês não gostariam de visitar. Ou... — Faço uma pausa, sabendo que a próxima parte é essencial, e quero abordá-la corretamente, enfatizar toda a sua importância, antes que parem de prestar atenção. — Ou podem comer um pedaço do fruto que colhi da Árvore da Vida, o fruto que oferece a verdadeira imortalidade, a imortalidade da alma. Só para que saibam, comê-lo reverterá tudo o que são hoje. Seu corpo irá envelhecer, e, sim, com o tempo vocês irão morrer. Mas o ser, a verdadeira essência, a alma, será eterno como sempre deveria ter sido. — Mordo os lábios e fico com as mãos agitadas, sabendo que já disse tudo o que podia. A escolha agora é deles. E, embora eu considere essa escolha óbvia, ainda é uma grande decisão a tomar.
Há muito burburinho, muitos questionamentos, muita suspeita, e como todos já acham que Lótus é louca e me conhecem como namorada da pessoa a quem foram treinados a odiar, fica claro que meu pequeno discurso não foi tão bem-recebido como eu esperava.
Mas, quando estou certa de que apenas consegui convencê-los a optar por mais cento e cinquenta anos do que já conhecem e amam, a flor, a estrela cadente e a árvore dão um passo à frente, saindo do meio da multidão e dirigindo-se para onde estou. Pisco, surpresa ao ver que são Misa, Marco e Rafe.
Eles estão brilhando. Brilhando muito, com certeza.
Sua aura vibra, cintila de modo inegável, assim como aconteceu quando deixaram a árvore.
Eles continuam de onde eu parei, falam empolgados, vozes se sobrepondo, explicando sobre a transformação milagrosa pela qual passaram assim que provaram o fruto.
Contam à multidão o que eu já havia percebido ser verdade — todos os gritos que deram após terem comido do fruto não foram por pensarem que haviam garantido a imortalidade física, e sim por sentirem a imortalidade da alma restaurada.
Experimentaram a emoção de ter seu carma se acertando com o universo.
Enquanto eles falam, Lótus olha para mim, junta as mãos no peito em uma bênção silenciosa e começa a colocar pequenos pedaços do fruto em copinhos descartáveis, garantindo que haja o suficiente para todos, e depois pega um para si própria. Ela olha para mim, e diz:
— Por favor, me acompanhe.
Hesito. Quero testemunhar o momento em que os imortais, convencidos pelo que ouviram, darão um passo à frente e escolherão seu novo caminho.
Mas Lótus faz que não com a cabeça e afirma:
— Você já fez tudo que podia. O restante cabe a eles.
Olho para trás, vejo como a multidão se aproxima de Misa, Marco e Rafe, depois acompanho Lótus escada abaixo e pela casa, reunindo Ava, as gêmeas, Jude, Stacia, Honor, Miles, Holt e até Sabine e Muñoz pelo caminho, querendo fazer a jornada final ao lado daqueles que a ajudaram a chegar até este ponto.
Ela nos leva até o quintal, onde tira os sapatos, fecha os olhos e suspira ao afundar os dedos do pé na grama. Depois ergue a cabeça, olha para cada um de nós, fixa o olhar em mim e diz:
— Você me libertou. E, embora minha gratidão seja imensa, sua confiança em mim custou-lhe muita coisa. Sinto muito por isso.
Ela faz um gesto de reconhecimento com a cabeça e se curva ligeiramente. Espero que diga mais alguma coisa, fale que eu não me preocupe porque tudo vai melhorar de agora em diante, mas, em vez disso, ela leva o copo à boca e ingere o fruto. Fecha os olhos enquanto levanta as mãos, os dedos desentortando, as palmas abrindo. O quintal fica em silêncio enquanto Lótus começa a emitir o mais belo brilho dourado, impossível de ignorar.
Seu rosto está radiante, luminoso, a bengala foi esquecida, posta de lado — testemunha de algo milagroso, algo que só ela pode ver. Suspiro fundo quando, em vez das cinzas que me acostumei a ver, duas flores de lótus perfeitas brotam da palma de suas mãos.
Ela se vira para mim, coloca uma das flores atrás de minha orelha e a outra em minha mão, fecha meus dedos gentilmente e diz:
— Esta é para Damen. Você deve procurá-lo agora.
Concordo, ansiosa por fazer aquilo, mas também quero ver o que vai acontecer.
Fico dividida entre sair e ficar quando Jude se inclina em minha direção e diz:
— Ele está aqui.
Olho para ele com o coração na boca, pensando que está se referindo a Damen, mas logo percebo que está falando de outra pessoa.
— O marido dela. Ele veio para acompanhá-la ao outro lado. — Ele aponta para o lado de Lótus, um espaço que me parece vazio.
Observo Lótus dar um passo à frente, depois outro, e outro, até simplesmente desaparecer. Seu corpo está tão velho, tão desgastado, e a imortalidade é revertida tão de repente que ela não consegue mais suportar a gravidade do plano terreno. Ainda assim, conseguiu exatamente o que queria, o que procurou esse tempo todo. Não deixa para trás nada além de um montinho brilhante de pó dourado.
Todos permanecem em silêncio, relutantes em estragar o momento com palavras.
Todos menos Stacia, que diz:
— Ceeerto... Agora que já terminou, alguém pode, por favor, me dizer onde posso encontrar aquele cara lindo vestido de gladiador?
Miles e Holt caem na gargalhada e a acompanham para dentro, enquanto Ava e as gêmeas continuam com Sabine e Muñoz, falando dos detalhes do casamento. Romy e Rayne imploram para ser damas de honra.
Então Honor alterna o olhar entre Jude e mim e diz:
— Certo, o negócio é o seguinte: estou retirando meu ser vestido de Pocahontas daqui para que vocês dois possam resolver o que quer que precise ser resolvido. É sério, discutam tudo o que têm para discutir, e depois, Jude, quando estiver pronto, quando estiver livre para dedicar toda a sua atenção a mim, bem, sabe onde me encontrar.
Começo a ir na direção dela, começo a dizer que não temos nada a discutir, nada a resolver, que já passamos por isso tudo, que não há mais nada a ser dito. Mas ela se vira, me lança um olhar sério, e eu a deixo ir, concentrando-me em Jude.
— Então, Bastiaan de Kool... — Sorrio, na expectativa de que, mantendo a expressão no rosto por bastante tempo, ela se torne real. Penso em como posso estar tão desolada depois de tantas conquistas. Mas conheço o motivo e pretendo lidar logo com isso. — De todas as suas vidas, Bastiaan foi seu favorito? — Olho para sua fina camisa branca de algodão e para as calças manchadas de tinta.
Jude ri e diz, seus olhos verde-água encontrando os meus:
— Bem, ele é o único que conseguia todas as garotas. Quer dizer, todas menos uma.
Olho pela janela e noto que Honor nos observa. Sua expressão entrega como está ansiosa e preocupada com a ideia de perdê-lo para mim. E, embora eu não tenha como saber se eles são realmente almas gêmeas, eles parecem gostar um do outro, fazer bem um ao outro, ser bons um para o outro, e isso é tudo o que importa agora.
— Dê uma chance a ela — digo, voltando a olhar para Jude. E, quando ele tenta me interromper, ergo a mão e acrescento: — Da última vez, quando me perguntou o que eu achava de Honor, não foi por acaso que não respondi. Na época, eu não tinha certeza. Mas agora tenho, e acho que deve dar a ela uma chance genuína, sincera e completa. Ela progrediu muito desde que a conheci e o adora. — Encaro-o. — E, honestamente, acho que você merece uma garota que o adore. Acho que você merece toda a felicidade possível. Além disso — dou de ombros —, não é mais Bastiaan, e, apesar dos cabelos ruivos — aponto para a cabeça —, não sou mais Fleur. Nem Adelina, ou Evaline, ou Emala, ou Chloe, ou Abigail, nenhuma delas. Foram apenas papéis que interpretei até que fosse hora de mudar para o seguinte. E, embora sempre levemos parte deles conosco, ainda temos muitos outros papéis a interpretar. Pensando nisso, em um contexto maior, nosso tempo juntos é como uma pitada de tempero em uma grande sopa cósmica: importa para a riqueza do sabor, mas não é o ingrediente principal. O passado já foi. Não pode e não deve ser retomado. Só temos o agora. — Aponto com a cabeça para a janela, onde Honor está esperando. — Não acha que é hora de aceitarmos?
Jude fica parado diante de mim, me lança um olhar longo e demorado, então concorda acenando com a cabeça.
— E você? — ele pergunta, permanecendo ali, parado, mesmo depois de eu me virar para me afastar. — É o que pretende fazer também?
Olho por cima do ombro, primeiro para ele, depois para a flor de lótus em minha mão e respondo:
— Sim. A partir de agora.

Um comentário:

  1. Tomara que Damen aceite comer do fruto.

    Ass;Claudia

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