2 de novembro de 2015

Quarenta e um

— Para onde vamos agora?
Damen limpa a terra de seu jeans enquanto dou de ombros e olho ao redor. Sei que o pavilhão está fora de questão, já que seria totalmente inapropriado depois de tudo o que aconteceu, e também não quero voltar para casa tão cedo...
Ele olha para mim logo depois de ouvir meu pensamento, então resolvo admitir e digo:
— Sei que uma hora dessas terei que ir para casa, mas, acredite, enfrentarei um problema dos grandes quando chegar.
Balanço a cabeça, deixando toda a situação desagradável com Sabine passar de minha mente para a dele, inclusive o que aconteceu depois que saí correndo de casa, quando materializei um buquê de narcisos e um BMW bem na frente de Muñoz, e vejo a expressão de desagrado de Damen com essa visão.
De repente, tenho uma ideia completamente nova e, sem saber bem como abordá-lo, olho à nossa volta e digo:
— Mas talvez... — faço uma pausa, sabendo que ele não vai gostar mas decidida a mencioná-la assim mesmo. — Quer dizer, é só uma ideia, mas o que me diz de visitarmos aquele lado negro de novo?
Olho para ele com curiosidade e o vejo reagir com um olhar que parece indagar você está louca? E sim, talvez eu esteja. Mas também tenho uma teoria, e estou ansiosa para saber se estou certa.
— Eu só... Tem algo que quero ver — digo para ele, pois sei que ainda está longe de ser convencido.
— Então deixe-me entender direito. — Ele passa os dedos no cabelo. — Você quer que visitemos aquela parte assustadora de Summerland, onde não há magia, não há materialização, nada além de uma chuva constante, umas tantas plantas moribundas, quilômetros e quilômetros de lama profunda e pantanosa que praticamente dobra de tamanho quando vira areia movediça, e, as, sim, uma senhora sinistra que obviamente é maluca, e que, por sinal, tem uma enorme fixação por você?
Confirmo com a cabeça. Isso meio que resume tudo.
— Prefere fazer isso a lidar com Sabine?
Confirmo mais uma vez e agora dou de ombros também.
— Posso perguntar por quê?
— Lógico. — Sorrio. — Mas provavelmente não vou responder até chegarmos lá, então apenas confie em mim está bem? Tem algo que preciso ver primeiro.
Ele olha para mim, claramente relutante em fazê-lo, porém mais relutante ainda em se recusar, e rapidamente materializa um cavalo para cavalgarmos enquanto fecho os olhos e o encorajo a nos levar para a parte mais obscura de Summerland.
E quando percebo, estamos lá. Nossa montaria para abruptamente enquanto Damen e eu lutamos para continuar em seu dorso. O cavalo recua e pinoteia e bate os cascos na terra, forçando Damen a murmurar suavemente em seu ouvido, garantindo-lhe que não precisa ir adiante e acalmando-o o bastante para que possamos descer e dar uma boa olhada à nossa volta.
— Então, bem do jeito que lembrávamos — diz Damen, ávido para trocar este lugar por outro mais quente, mais claro, melhor.
— Será? — Arrisco-me indo até o ponto onde a lama começa e a toco de leve com o pé. Texto sua firmeza e profundidade, tentando determinar se mudou de alguma maneira.
— Não sei aonde quer chegar. — Ele olha para mim com curiosidade.
— Mas, até onde posso ver, continua tão úmida, estéril, lamacenta e deprimente quanto da última vez que estivemos aqui.
Confirmo com a cabeça.
— Tudo isso é verdade, mas não parece, de algum forma... Maior? Tipo, não sei... Como se estivesse... crescendo ou se expandindo de algum jeito?
Ele estreita os olhos, sem entender muito bem qual é a minha intenção com isso.
Sei que me arrisco a parecer louca ou, na pior das hipóteses, completamente paranoica, mas, mesmo assim, escolho seguir em frente, já que de fato poderia me beneficiar com uma segunda opinião.
— Tenho uma teoria...
Ele olha para mim.
— Bem... — Respiro fundo e olho ao redor. — Não consigo parar de pensar que eu possa, de alguma forma, ser a causa de tudo isso.
— Você? — Damen estreita os olhos, juntando as sobrancelhas em uma expressão de preocupação.
Mas ignoro e logo continuo. Desesperada para acabar logo com isso, expressar tudo com palavras antes que tenha tempo o bastante para realmente parar e ouvir o que estou dizendo, antes que perca o controle.
— Veja — digo, com a voz tensa e acelerada. — Quer dizer, sei que soa estúpido, mas, por favor, ouça primeiro.
Ele concorda e mostra as palmas das mãos, indicando que não planeja me interromper.
— Acho que talvez... bem, talvez este lugar tenha começado a crescer quando todas as coisas ruins começaram a acontecer.
— Coisas ruins?
— É, você sabe, como quando matei Drina.
— Ever... — ele começa, pronto para refutar, apagar toda a culpa.
Mas, antes que ele consiga terminar, estou falando de novo.
— Quer dizer, você tem vindo para cá há bastante tempo, certo?
— Desde os anos sessenta. — Ele dá de ombros.
— Tudo bem, certo, e então, tenho certeza de que, com todo esse tempo, você tenha dado uma boa olhada em volta, tenha explorado bastante, especialmente no começo.
Ele concorda balançando a cabeça.
— E em todas essas vezes, disse que nunca vira nada parecido com isto, certo?
Ele concorda e suspira, embora também seja rápido em completar:
— Mas, por outro lado, Summerland é um lugar muito grande. É bem possível que seja infinito, pelo que sabemos. Não é como se eu algumas vez tivesse encontrado qualquer tipo de muro ou fronteiras, então é bem possível que isto tenha estado aqui o tempo todo e eu não tenha visto.
Desvio o olhar e tento agir como se estivesse mais que disposta a desistir disso se ele o fizesse, mas não estou nem um pouco convencida.
Não consigo deixar de sentir que há algo aqui que ou foi causado por mim ou que deva ver, ou ambos. Quer dizer, foi o que me trouxe até aqui, para começar. Simplesmente perguntei a Summerland o que queria que eu soubesse sobre ela, e ela me trouxe aqui. Mas o que não sei é o porquê.
Está ligado, de alguma forma, a todas aquelas almas que, por minha causa, acabaram em Shadowland?
Elas de algum modo estão fazendo com que o lugar cresça?
Como se estivessem adubando uma porção de ervas daninhas?
E, se for isso, significa que vai continuar a avanças e talvez cobrir todo o resto de Summerland?
— Ever — diz Damen — podemos explorar se quiser, mas na verdade não há muito para se ver, não é? Parece apenas que é mais e mais do mesmo, não?
Olho tudo ao redor, relutando em desistir com tanta facilidade, mas ainda sem saber de fato o que estou procurando, ou mesmo como provar minha teoria. Então começo a dar as costas.
Começo a ir na direção dele novamente quando ouço.
A música.
Fluindo atrás de mim, como se fosse carregada por uma longa e distante brisa, mas ainda assim não há como confundi-la.
Não há como confundir a voz... As palavras... A melodia assustadoramente marcante.
E sem olhar sei que é ela.
Viro-me e dou de cara com seu dedo erguido, sua mão deformada e torta, levantada bem alto enquanto ela canta:
Da lama se erguerá
Os vastos céus oníricos alcançará
Como você-você-você também deve fazer...
Só que desta vez ela continua, acrescentando frases que definitivamente não cantou na ultima vez em que estivemos aqui:
Das escuras profundezas
Lutará para atingir a luz
Com apenas uma vontade
A verdade! A verdade de seu ser
Mas você permitirá?
Deixará que se levante e floresça e progrida?
Ou às profundezas a condenará?
Exilará sua alma desgastada e exaurida?
E bem quando imagino que terminou, ela faz a coisa mais estranha de todas.
Segura as mãos em concha no alto, à sua frente, como se esperasse algum tipo de oferenda, e Misa e Marco repentinamente saem de trás dela e ficam parados, um de cada lado.
Os dois ficam a seu lado, olhando atentamente para mim, enquanto a velha fecha os olhos em profunda concentração, como se tentasse materializar algo espetacular.
Mas tudo o que consegue com seu esforço é um punhado de cinzas que emana de suas palmas e cai suavemente a seus pés.
E quando levanta os olhos para encontrar os meus, seu rosto se mostra abatido, e me observa fixamente em tom de acusação.
Damen agarra meu braço e me puxa para longe. Para longe dela. Para longe deles.
Desesperado para fugir deste cenário sinistro.
Nenhum de nós dois tem a mínima noção de que é ela, de onde veio ou do possível significado da canção.
Nenhum de nós dois faz ideia de qual seria sua ligação com Misa e Marco.
Apenas uma coisa está clara: a música é um aviso.
Palavras às quais eu devo prestar atenção.
Ouvir.
Ela continua a cantar. Sua voz é suave, melódica, suas palavras nos perseguem enquanto corremos de volta na direção do cavalo.
De volta ao lugar onde há magia, materialização e tudo o que há de bom.
De volta à relativa segurança do plano terrestre, onde aterrissamos lado a lado em uma praia totalmente deserta.
Nossas mãos estão vagamente entrelaçadas enquanto deitamos na areia e tentamos recuperar o fôlego. Tentamos encontrar sentido nas palavras, na cena perturbadora que acabamos de testemunhar.
Olhamos para o céu negro, sem lua e sem estrelas.
Minha estrela da noite se foi.
Por um instante, sou dominada por uma horrível e agourenta sensação de que nunca mais voltará.
Mas então Damen sussurra meu nome e a sua voz quebra o silêncio e invade meus pensamentos.
E quando me viro de lado para olhar seu rosto, vejo como se aproxima de mim, seu olhar carregado de tamanha admiração, tão amável e gentil que minha mente se enche de alívio.
Minha estrela da noite não está mais aqui por que não preciso mais dela.
Nós dois brilhamos no lugar dela.
— Aquela canção é para mim — digo a ele, exprimindo as palavras que meu coração sabe que são verdadeiras. — A morte de Haven, perder a camisa... — Faço uma pausa e respiro fundo, sentindo o calor reconfortante de seu dedo passando gentilmente por minha bochecha. — Faz tudo parte de meu carma. E agora, aparentemente, já mais uma coisa que devo fazer.
Damen começa a falar, ávido por me confortar, por refutar o que eu disse, por apagar a preocupação em meu rosto.
Mas logo o interrompo, colocando o dedo sobre seus lábios.
Não preciso dessas palavras.
O que quer que signifique a canção da senhora, estou pronta para encarar.
Só que mais tarde, não agora.
— Cuidaremos disso — digo. Minhas palavras ecoam em seu rosto quando puxo Damen para perto de mim. — Juntos, cuidaremos de tudo. Mas por enquanto... — Meus lábios vão de encontro aos dele, prolongando-se ao saborear a sensação suave e doce de quase tocá-los. — Por enquanto, sejamos apenas gratos por isso.

Um comentário:

  1. Que conflitos nos espera no infinito?! Partiu último livro!
    Ass: Bina.

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