3 de novembro de 2015

Quarenta e três

Embora tenha concordado, ele ainda hesita. Sua mão treme, o olhar é tão cheio de preocupação que me obriga a dizer:
— Olhe para mim.
Ele respira fundo, mas faz o que peço.
— Deixe que isto seja a prova.
Ele inclina a cabeça, sem entender muito bem.
— Deixe esta fantasia ser a prova de como sempre volto para você. Aconteça o que acontecer, sempre estaremos juntos, sempre encontraremos um modo de encontrar um ao outro. Seja eu Adelina, Evaline, Abigail, Chloe, Fleur, Emala, Ever, ou, mais tarde, qualquer outra pessoa completamente distinta. — Sorrio. — Não importa a aparência que minha alma resolva usar, sempre voltarei para você. Assim como sempre voltei.
Ele assente com a cabeça e me olha nos olhos, leva o copo à boca enquanto faço o mesmo.
Fico surpresa ao descobrir que não é doce como eu pensava, mas, ainda assim, mal noto a amargura — o modo como não cai tão bem na língua. Apenas engulo o fruto. Estimulo-o a fluir por meu corpo como se fosse a mais doce ambrosia que qualquer deus pudesse criar, e Damen faz o mesmo.
Quando vejo como o quarto cintila e brilha, quando vejo como os móveis vibram e todas as pinturas ganham vida, entendo exatamente o que fez Misa, Marco e Rafe gritarem de emoção.
Tudo está vivo. Tudo explode em cores, pulsa com energia e está conectado a nós. Somos parte um do outro, parte de tudo o que nos cerca... Não existe nenhum tipo de fronteira.
O mundo se parece com o que era quando morri como Adelina.
Quando planei pelo céu e olhei para baixo.
Só que não estou morta. Na verdade, é o oposto. Nunca estive tão viva. Encaro Damen, imaginando se ele mudará, se eu mudarei. Mas, exceto por meu cabelo, que deixou de ser ruivo como eu havia materializado e voltou ao louro natural, exceto pela aura violeta que me cerca e pela luz índigo que envolve Damen, não parece que houve grandes mudanças.
Estendo a mão para ele e ele para mim. Hesitantes, as pontas dos dedos estão prestes a se tocar quando ele se encolhe, se afasta, fazendo com que eu olhe para ele e diga:
— Mesmo que não dê certo, mesmo que venhamos a descobrir que nosso DNA ainda está amaldiçoado, mesmo que um de nós morra na tentativa, vamos nos encontrar novamente. E de novo. E mais uma vez. Como sempre nos encontramos. Como sempre nos encontraremos de agora em diante. Aconteça o que acontecer, nunca ficaremos separados. Somos realmente imortais agora. É como quando estamos no pavilhão, quando estamos prestes a entrar na cena e eu sempre paraliso... O que você me diz todas as vezes?
Ele olha para mim, sua expressão mais suave, e diz:
— Acredite.
E é o que fazemos. Damos aquele grande salto de fé e acreditamos.
O silêncio é rompido por dois suspiros no momento em que nos aproximamos, nos tocamos.
As pontas de nossos dedos se encostam, se encontram, parecendo se fundir umas com as outras, até que é impossível dizer quem é quem, determinar onde ele termina e eu começo. Não consigo deixar de ficar impressionada com sua ternura, com a onda de formigamento e calor que ele traz. E logo, sem nos contentar apenas com aquilo, querendo algo muito mais profundo, caímos um nos braços do outro.
Minhas mãos estão em seu pescoço, as dele em minha cintura, agarrando-me com força, puxando-me para perto, e depois para mais perto ainda. Ele explora a linha de minha coluna antes de enroscar os dedos em meus cabelos volumosos, levando-me em sua direção, ajeitando com destreza o ângulo de meus lábios, de forma que encontrem os dele. A firmeza suave e macia de sua boca me faz lembrar a primeira vez que o beijei — nesta vida e em todas as outras. Todo o nosso mundo se encolhe até que não haja nada além disso.
Um perfeito beijo infinito.
Com o corpo colado, descemos até um tapete antigo sobre o qual andaram algumas das figuras mais ilustres da história. Damen se deita a meu lado, envolvendo-me, ambos completamente maravilhados um com o outro, maravilhados por estarmos juntos. Depois de termos esperado tanto, mal podemos acreditar que este momento chegou.
A maldição finalmente foi quebrada.
O universo não está mais contra nós.
Damen se afasta, absorvendo-me com os olhos enquanto seus dedos redescobrem a sensação de tocar minha pele. Explora a extensão entre minhas têmporas, a maçã do rosto, a boca, o queixo, o contorno do pescoço e mais embaixo, enquanto meus lábios se elevam na expectativa dos seus, experimentando avidamente, dando pequenos beijos em sua mão, no ombro, no peito, no que estiver ao alcance. Quero cada vez mais. Não posso evitar desejá-lo.
Desejá-lo por inteiro.
Agora.
— Ever — ele sussurra, olhando para mim do mesmo jeito que Alrik fez, só que desta vez é melhor, pois está acontecendo em tempo real.
Levanto a cabeça, capturo seus lábios e o puxo de volta para mim. Meu corpo está quente, vibrando, não quero nada além de aprofundar esse sentimento — descobrir até onde ele pode ir.
— Ever. — Sua voz é grossa, rouca, as palavras requerem grande esforço quando diz: — Ever, não aqui. Não assim.
Eu pisco. Esfrego um lábio no outro, como se acordasse de um sonho.
Vejo que ainda estamos no chão quando há outros lugares mais confortáveis em que poderíamos estar, incluindo aquele que materializei pouco antes de chegar aqui.
Eu me levanto e o conduzo escadaria abaixo. Entramos no carro e percorremos a sinuosa Coast Highway até encontrarmos, no alto de uma rocha, uma bela casa antiga de paredes de pedra e janelas do chão ao teto dando vista para o mar agitado — uma morada que não estava ali há uma hora.
— Você fez isso? — Ele se vira para mim. Faço que sim, sorrindo.
— O que posso dizer? Esperava que chegássemos a um acordo. Eu ia reservar aquele quarto no Montage, mas achei que assim seria melhor, mais reservado, mais romântico. Espero que tenha gostado.
Ele agarra minha mão e saímos correndo naquela direção. Subimos um lance longo e sinuoso de escadas, que parece sem fim, até que chegamos ao alto, sem fôlego, porém mais devido à expectativa que à subida.
Abro a porta e faço um sinal para que ele entre, e vejo como ri quando pisa no antigo chão de calcário e vê que, apesar do tamanho deste lugar, apesar de sua área gigantesca, ele consiste apenas em um grande quarto com uma lareira a lenha, uma enorme cama com dossel, um maravilhoso tapete antigo, um banheiro bem-equipado e nada mais.
Eu coro. Não consigo evitar. Murmuro rapidamente algo sobre não ter tido muito tempo e que podemos completar o ambiente se decidirmos ficar aqui por um período maior.
Damen apenas sorri, interrompendo a corrente de desculpas ao pressionar o dedo com delicadeza contra minha boca, logo substituindo-o por seus lábios e transformando meu silêncio repentino em um beijo agradável, longo e emocionado. Ele me puxa para si, na direção da cama, e sussurra suavemente:
— Você é tudo o que eu quero. Tudo de que eu preciso. Não poderia pedir mais nada.
Ele me beija de forma gentil, mas completa, sem pressa, esforçando-se para ser cuidadoso. E, mesmo sabendo que nosso tempo juntos é infinito, que estaremos sempre juntos, estou ávida por mais.
Puxo seu suéter pela barra, arranco-o pela cabeça e o jogo de lado. Paro para explorar seu peito — as elevações sinuosas dos ombros, a depressão ondulada do abdome — até que meus dedos mergulham mais abaixo, abrem um botão, um zíper, passam por um elástico. Mesmo não sendo a primeira vez que o vejo, não consigo evitar que um suspiro escape de minha garganta. Não consigo me impedir de consumir a incrível visão dele.
Ele também tira minhas roupas. Os dedos se movem com destreza, habilidade, com muito mais prática que os meus. E não demora muito até que não haja mais nada entre nós — nem físico nem místico.
Somos apenas ele e eu. Sem barreira de nenhum tipo.
Ele passa a perna sobre mim, a meu redor, até que seu corpo cobre o meu. Tudo dentro de mim vibra com o formigamento e o calor que ele me causa, enquanto fecho os olhos ao ardor de seu ser, de seu toque, erguendo de forma preguiçosa as pálpebras e encontrando seu olhar queimando o meu. Ambos somos levados pelo embalo hipnótico e pelo balanço um do outro, e não demora muito até que ele desça o corpo e nos tornemos um só.
Um só como Alrik e Adelina. Um só como sonhamos durante todo esse tempo. Mas é muito melhor que qualquer coisa que tenha acontecido antes. Porque é real. É certo. É a confirmação final de que fomos feitos um para o outro.
Destinados a ficar juntos.
Para todo o sempre.
Nossos corpos sobem, levantam, flutuam cada vez mais alto — o momento cresce, se expande, permanece pelo maior tempo possível... Até que desmoronamos no calor um do outro, e o teto se abre, fazendo chover um dilúvio de belas tulipas vermelhas.

4 comentários:

  1. Cara isso foi lindo (,= choveu tulipas <3

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    1. O melhor livro dos 6 foi esse lindaaa essa historia deles adorei

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    2. O melhor livro dos 6 foi esse lindaaa essa historia deles adorei

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  2. Ai que lindo gente...Amei esse capitulo o melhor de todos!
    Damever

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