3 de novembro de 2015

Quarenta e quatro

Eu me viro de lado e chego mais perto dele, corro meus dedos por seu tórax até o abdome e depois desço mais um pouco. Estou maravilhada pela sensação real de Damen, seu calor e a maravilha que ele é — e imagino como consegui ficar tanto tempo sem isso.
— Em que está pensando? — ele pergunta, roçando os lábios no lóbulo de minha orelha.
— Ah, você sabe... — Sorrio, flertando, e meu dedo mindinho desliza lentamente de volta, encontrando o umbigo e brincando ao redor dele, enquanto Damen ri e me puxa para seu peito. Ele dá um beijo no alto de minha cabeça, enquanto minha mente se ocupa com uma só palavra: satisfação.
Estou total e inteiramente satisfeita.
E também feliz, relaxada e em paz.
Tenho tudo o que poderia querer.
Minha vida está completa.
Olho demoradamente para ele, desejando que pudéssemos ficar assim por mais tempo, prolongar o momento tanto quanto possível, mas Damen tem outros planos, diz que precisamos ir a um lugar importante.
— Sentirei falta daqui — diz ele, levantando-se e pisando no tapete de pétalas de tulipa que continuaram a cair até que o chão estivesse coberto.
— Não seja tão categórico... A casa não sairá daqui. — Sorrio. — A menos que estejamos indo para outro lugar. Estamos indo para algum lugar? — Eu o observo, em busca de uma pista. Mas seu rosto está impassível, ele não deixa transparecer nada.
Dou de ombros e coloco vestido que fui esperta o bastante para materializar antes, pois não quero mais usar a fantasia alada.
Assim que nos vestimos, ele agarra minha mão e me leva até a janela, e ficamos observando as ondas que batem nas pedras lá embaixo.
— Você ainda vê? — Ele me olha de relance.
Faço que sim. Então tento algo que estava nervosa demais (para não dizer preocupada) para tentar antes e penso: E você? Vê?
Ele olha para mim, sorri e pensa: Sim. E, o que é ainda melhor, continuamos a ouvir um ao outro!
Eu me recosto nele, pensando em quanto tempo isso durará. Sei que as cores vibrantes, o canto lírico do universo esmorecerão em algum momento. Até quando Misa, Marco e Rafe exaltaram a experiência, eles falaram no pretérito. Ainda assim, mesmo que esmoreçam, nunca desaparecerão de minha mente. Agora que sabemos a verdade sobre tudo, sobre como o universo funciona, o mundo continuará tão mágico e incrível como sempre, inclusive para mortais como nós.
— Está pronta? — ele pergunta, de mãos dadas comigo. O borrão de nossa energia combinada é a prova de que eu precisava de que nós dois somos um só, de que tudo é uma coisa só.
Confirmo com a cabeça, andando a seu lado até meu carro. Passo por um instante de pânico quando tento dar partida com a mente, como sempre faço, e depois relaxo ao lembrar que fui previdente e trouxe a chave, uma vez que, pelo que posso ver, esse tipo de magia com a mente não funciona mais.
E, quando Damen tenta materializar uma tulipa para mim, ela infelizmente não vai além de uma imagem em sua cabeça. Mas, antes que ele possa começar a se sentir mal, logo comento que, se é verdade o que dizem sobre o universo, se os pensamentos realmente criam, então em algum momento aquela tulipa aparecerá.
Quando chegamos a minha casa, subo correndo as escadas e vou direto até o guarda-roupa, para aprontar minha bagagem às pressas, enquanto Damen vai para a saleta e grita:
— O que devo fazer com tudo isso?
Fecho a mochila e a jogo no ombro, feliz por ver que ainda tenho ao menos minha força e meu vigor de imortal, já que basicamente joguei dentro dela tudo o que coube.
Vou até ele e vejo que aponta para as garrafas de elixir guardadas em meu frigobar. Só que a quantidade diminuiu bastante desde a última vez que olhei. Dou a volta no balcão e me ajoelho enquanto as conto rapidamente. Conta que, após repetir várias vezes, sempre me leva à mesma conclusão: nem todos os imortais escolheram o fruto.
— Acho que deveríamos destruí-las, ou pelo menos mantê-las trancadas — diz ele. — Odiaria que fossem parar em mãos erradas ou mesmo nas mãos de algum desavisado, sabe? — Damen se vira para mim: — Ei, o que houve? — ele pergunta, alarmado com minha expressão.
— A geladeira estava cheia. — Olho para ele. — Quando saí da festa, estava cheia. E agora... — Faço um gesto negativo com a cabeça, pressionando a mão contra o estômago, começando a me sentir mal. — Esperava de verdade convencê-los... todos eles. Mas talvez eu tenha deixado a festa cedo demais. Talvez devesse ter ficado mais tempo por lá.
Agarro os joelhos, preparando-me para me levantar, quando Damen diz:
— Como pode ter certeza de que foi um imortal?
Olho em seus olhos e de repente o quarto começa a girar, e sou obrigada a me segurar no balcão, em busca de equilíbrio.
Mas logo passa.
No fim, é como Lótus disse: fiz o que podia, o restante dependia deles. Existe algo chamado livre-arbítrio, e, ao que parece, algumas pessoas decidiram exercer o seu.
— Jogue fora — digo. — Jogue tudo. Guardei frutos suficientes para qualquer imortal que se sinta encurralado. Quanto ao elixir, não precisamos dele... É hora de nos livrarmos de tudo.
Começamos o trabalho: eu tirava as tampas e entregava-lhe as garrafas, que ele esvaziava na pia. Quando terminamos, Damen se vira para mim, agarra minhas mãos e me diz para imaginar um véu dourado e brilhante.
— Summerland? — Ergo as sobrancelhas, perguntando-me por que preciso fazer minha mala para ir a Summerland, quando se pode materializar o que quiser lá, e se ainda conseguiremos fazer a viagem. Sei que ficarei arrasada se não formos bem-sucedidos.
Mas ele balança a cabeça e diz:
— Acredite.
E eu obedeço.
Em um instante, estamos passando pela luz, pisando o grande campo perfumado, felizes, satisfeitos, contentes em saber que este lugar ainda faz parte de nossas possibilidades.
Damen olha para mim, tão aliviado quanto eu, e diz:
— E agora, a segunda parte...
Eu espero, prendo a respiração, sem ideia do que pode ser.
— Lembra quando Miles falava sobre fazermos um mochilão pela Europa quando terminássemos a escola?
Faço que sim com a cabeça, cada vez mais perplexa.
— Bem, achei a ideia ótima. E como nunca tivemos aquelas nossas férias devido à jornada até a árvore, e como você só vai para a faculdade mais tarde, achei que pudéssemos levar esse plano adiante.
— Mas Miles não vai para a Europa — digo, pois sei que ele está a caminho de um teste importante em Nova York e que Holt vai com ele. E, se me lembro bem, eu previ que ele passaria no teste. Miles será um grande astro da Broadway e Holt ficará a seu lado por um bom tempo.
— Eu sei. Mas isso não quer dizer que não possamos ir, não é? Se você concordar, acho que podemos começar pela Itália. Mal posso esperar para lhe mostrar os lugares que eu frequentava. Florença é uma bela cidade. Sei que vai amar o lugar. E a comida! — Ele olha para mim, sorrindo ao dizer: — Bem, ouvi dizer que melhorou muito nos últimos seiscentos anos.
— Então... vamos à versão Summerland da Itália? — digo, tentando não parecer tão decepcionada quanto realmente estou.
Mas Damen ri.
— Não. Vim aqui por dois motivos: primeiro, para confirmar se ainda conseguíamos e, segundo, para evitar o trânsito. Vamos sair do aeroporto de Los Angeles. Nosso voo parte em... — Ele olha para o relógio e depois para mim. — Nosso voo parte em quinze minutos.
— Mas temos que passar pela segurança! E chegar ao portão de embarque, e...
Minhas palavras são interrompidas quando ele diz:
— Shhh... Feche os olhos e imagine-se na poltrona 3A, comigo sentado bem a seu lado...

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