3 de novembro de 2015

Quarenta e dois

Faço um rápido desvio antes de ir para a casa de Damen.
Uma pequena parada para utilizar meu poder de materialização enquanto ainda posso.
Uma breve distração que espero que se transforme em algo que Damen e eu possamos aproveitar juntos.
Se não for possível, suponho que alguém aproveitará por nós.
Mas não posso pensar assim.
Não posso permitir que nenhum fragmento de negatividade chegue perto de mim.
Sei que a negatividade de Damen já vale por nós dois, então não preciso acrescentar mais nada.
Aceno para Sheila, a segurança que está no portão, que por incrível que pareça — considerando o tempo que fiquei fora — acena de volta e faz sinal para que eu entre. Então subo a colina e percorro várias curvas até chegar à rua dele. Lembro-me da primeira vez em que estive aqui. Fui obrigada a entrar pela janela da cozinha porque não fora convidada e encontrei o lugar totalmente sem móveis, não apenas vazio, mas assustadoramente vazio. Bem, assustadoramente vazio, exceto pelo quarto no andar de cima, onde ele guardava as lembranças mais queridas de seu passado — um quarto que levei certo tempo para aprender a apreciar.
Deixo o carro na entrada e caminho até a porta. Não me preocupo em tocar a campainha ou bater, apenas entro. Passo direto pelo enorme vestíbulo e pelas escadas, pois sei exatamente onde encontrá-lo, exatamente onde ele fica quando está se sentindo perturbado desse jeito.
Encontro-o parado na janela, de costas para mim, os olhos fixos em algum lugar distante, quando diz:
— Houve um tempo em que você achava este quarto assustador. Quando me achava assustador.
Paro perto do antigo canapé de veludo, sem me preocupar em negar o que ele disse. Observo a coleção de tapeçaria feita à mão, os lustres de cristal, os candelabros de ouro, as obras de arte em molduras folheadas a ouro — uma visão que me faz pensar em uma vida longa e cheia de aventuras, que me faz lembrar que o que estou prestes a pedir a ele não é pouco.
— Houve um tempo em que era grande seu ressentimento em relação a mim pelo que fiz a você, pelo que fiz de você.
Confirmo com a cabeça. Não adianta negar isso também, ambos sabemos que é verdade. E, embora eu queira que ele me encare, embora implore com a mente para que ele se vire e me veja, ele continua imóvel onde está. — E está claro que você ainda guarda esse ressentimento. É por isso que estamos aqui. Separados desse jeito.
— Não guardo ressentimento de você — digo, olhando fixamente suas costas. — Sei que tudo o que fez foi por amor. Como eu poderia me ressentir disso? — Minha voz é abafada por tapetes antigos, cortinas pesadas, amontoados de almofadas de seda, mas, ainda assim, ecoa de volta para mim, soando muito menor que eu previa.
— Mas agora estamos em uma encruzilhada. — Ele faz que sim com a cabeça, enquanto seus dedos brincam com algo que ele segura perto do peitoril da janela, algo que ele mantém fora de meu campo de visão. — Você quer apagar o que eu fiz e voltar a ser como era, enquanto eu quero ficar como sou, continuar com a vida a que me acostumei. — Ele suspira. — E receio que, à luz disso tudo, não há como chegarmos a um acordo. Chegamos a um ponto crítico, um momento em que precisamos encontrar um jeito de concordar em compartilhar um destino ou seguir em direções diferentes e levar vidas separadas.
Fico em silêncio, odiando o som de suas palavras — o modo como fazem meu estômago apertar e se revirar —, mas sei que isso é verdade. Precisamos fazer uma escolha e precisa ser logo.
— Você tem que entender, Ever, que, mesmo que seu argumento seja muito forte e válido, mesmo que minha escolha seja errada em vários aspectos, se não em todos... foi tudo o que tive nos últimos seiscentos anos. Foi a essa vida que me acostumei. E, por mais que odeie admitir, não tenho certeza de ter nascido para ser mortal. Embora tenha sido fácil abrir mão de minhas extravagâncias quando achei que meu carma era o culpado por nossos problemas, embora tenha sido extremamente fácil trocar minhas botas de motoqueiro por chinelos de borracha, o que está me pedindo agora, bem, é completamente distinto. Sei que pode soar incrivelmente hipócrita. Por um lado, digo que estou muito preocupado com o estado cármico de minha alma e, por outro, resisto com tanto ardor à única solução real que existe para consertá-la. Mas, ainda assim, é isso. Trocando em miúdos, não estou disposto a abrir mão de minha juventude eterna e da perfeição física para ver meu corpo envelhecer, se desgastar e acabar morrendo. Não estou disposto a abrir mão do acesso à magia e à materialização e das idas fáceis a Summerland. Simplesmente não estou. Talvez seja mais fácil para você, que só é imortal há um ano, contra seiscentos anos de minha existência. Mas, Ever, por favor, tente entender que a imortalidade me define há tanto tempo que não sei quem serei se escolher uma vida sem ela. Não sei quem serei se não for mais o homem que está vendo agora. Ainda vai me amar? Ainda vai ao menos gostar de mim? Não estou disposto a correr o risco de descobrir.
Eu travo. Sério, travo. Mas não importa. Ele não está me vendo. Bem, eu sabia que ele estava receoso, sabia que estava com medo de passar por uma mudança tão grande, mas nunca imaginei que pudesse estar com medo de me perder assim que fosse destituído de sua imortalidade física.
Finalmente, consigo me recompor e dizer:
— Acha mesmo que não o amarei mais? Acha mesmo que toda a sua experiência, seus talentos e crenças, todas as coisas que fizeram com você que se tornasse essa pessoa incrível que eu sei que é vão sumir e deixá-lo como uma casca vazia, tediosa e detestável assim que optar por comer do fruto? Damen, é sério, deveria saber que eu o amo não por ser imortal. Eu o amo por ser você. — Mas, mesmo minhas palavras sendo apaixonadas, ditas de coração, não são o suficiente.
— Não vamos nos enganar, Ever. Primeiro você se apaixonou por meu lado mágico: o carro sofisticado, as tulipas, o mistério. Só depois me conheceu de verdade. E, mesmo assim, é difícil separar os dois. E, se me lembro bem, você não gostava tanto do período a que chamou de "fase monástica".
O argumento é bom, mas eu logo o refuto:
— É verdade que me apaixonei perdidamente por seu lado mágico, misterioso. Mas foi paixão, não amor. Quando o conheci, quando conheci seu coração, sua alma, o ser maravilhoso que você é, bem, foi quando a paixão cresceu, aprofundou-se e se transformou em amor. E, sim, também é verdade que não adorei quando você resolveu abrir mão de todos os seus pertences, mas nunca deixei de amá-lo. Além disso, não foi você mesmo quem me disse que tudo o que pode ser feito em Summerland pode ser feito no plano terreno também? Não alegou que pode demorar um pouco mais para dar resultado, mas que funciona do mesmo jeito?
Vou em sua direção, paro a alguns centímetros de distância e desejo que ele se vire e me encare, mas sei que ainda não está pronto.
— No final — digo, com a voz suavemente persuasiva —, tudo se resume àquilo que você já sabe que é verdade. Você sabe como o universo funciona. Sabe que tudo é energia, que os pensamentos criam, que podemos fazer nossa própria magia bem aqui, no plano terreno, se mantivermos as intenções claras e positivas. Agora é só uma questão de colocar em prática tudo o que sabemos. É só uma questão de ter fé em tudo o que você me ensinou. É só uma questão de confiar o bastante no universo, confiar o bastante em mim e confiar o bastante em si mesmo, em acreditar. Damen, você não quer sossegar? Não quer ficar em um lugar por mais que alguns poucos anos? Não quer construir amizades duradouras e talvez até, não sei, formar uma família algum dia? Droga, não quer voltar a ver sua própria família?
Ele respira fundo várias vezes, então se vira e arregala os olhos escuros quando me vê, quando vê como estou vestida.
— Você é uma visão — diz ele, com a voz cheia de admiração. — Está igual à pintura. Encantamento. Não foi esse o nome que demos?
Mas, enquanto seus olhos estão ocupados me contemplando, os meus estão fixos no que ele segura.
O objeto que escondia quando estava virado para a janela agora está à mostra.
A imagem faz com que eu me lembre da última noite de Roman, quando ele se sentou diante de mim na cama desarrumada, segurando um frasco cheio de um líquido verde e brilhante entre o indicador e o polegar.
Muito parecido com a posição de Damen neste exato momento.
Ele percebe que estou olhando, aperta ainda mais o vidro, fazendo o líquido verde chacoalhar e chegar perto da boca do frasco.
E eu sei que tudo o que precisamos fazer para ficarmos juntos do jeito que queremos é tomar o antídoto.
Só um pequeno gole para cada um basta.
Um pequeno gole e todos os nossos problemas desaparecem.
Isso é o que eu costumava achar. Agora sei que não é verdade. Enquanto o resultado do antídoto é certo, a grande solução, a solução maior, verdadeira, não oferece garantia alguma. Requer um salto de fé — um salto bem grande, definitivamente, mas, ainda assim, estou disposta a saltar.
Mas, pelo que posso ver, pelo modo como Damen ergue o frasco, fica claro que sou a única que pensa assim.
De qualquer modo, fico paralisada ao ver o vidrinho. Paralisada ao perceber que estou pronta para dar as costas a algo que busquei por tanto tempo.
Ergo as mãos diante de mim, segurando a flor de lótus, e digo:
— Eu vi Lótus... pouco antes de ela cruzar para o outro lado. Ela me pediu que lhe entregasse isto. — Encaro Damen, notando como minha presença o hipnotiza, enquanto o antídoto continua girando em sua mão.
Ele não pega a flor, mas consegue dizer:
— Sempre pensei que fosse um mito. Não tinha ideia de que realmente existia.
Chego mais perto dele. Passo por uma mesa antiga com tampo de mármore coberta de livros, uma pilha impressionante de primeiras edições autografadas que facilmente chegariam a centenas de milhares de dólares em um leilão.
— A verdadeira Árvore da Vida! — Ele alterna o olhar entre mim, a flor e o antídoto que segura, balançando lentamente a cabeça ao dizer: — É incrível não apenas você tê-la encontrado, como também ter trazido frutos suficientes para todos aqueles iguais a nós. Enquanto eu não sou capaz nem de provar. Estou impressionado e surpreso por você ter conseguido tal façanha.
Apesar da ternura em seus olhos, tudo o que ouço é: Eu não sou capaz nem de provar.
As palavras ecoam de tal forma que me roubam o ar e fazem meus joelhos quase se dobrarem.
Olhamos um para o outro, e o silêncio vai se formando, aumentando entre nós. Se eu pudesse, faria o momento esticar, crescer e durar para sempre, mas sei que deve ter um fim. Tudo deve terminar. Também sei o que precisa ser dito e que deve partir de mim.
— Então acho que é isso. — Tento não demonstrar o quanto estou arrasada, mas não consigo.
Ele olha para mim com uma expressão que vale por todas as palavras que poderia dizer, então suspiro profundamente, envolvo a flor com os dedos e começo a sair do quarto, a sair de sua vida.
Chegamos à encruzilhada.
Ao ponto crítico.
Não há volta.
A partir de agora, seguiremos em direções diferentes.
Noto a quase sensação de sua mão em meu braço quando ele me puxa para perto e diz:
— Sim.
Olho para ele, sem saber a que esse sim se refere.
— As perguntas que fez antes, sobre querer sossegar, formar uma família, ver minha família. Sim. Sim para todas elas.
Tento engolir, mas não consigo. Tento falar, mas as palavras não saem. Suas mãos me envolvem, puxando-me para perto. Ele larga o frasco, deixa-o cair, quebrar no chão. O líquido verde e brilhante escorre por todo lado enquanto ele diz:
— Mas, principalmente, sim para você.

8 comentários:

  1. Fernanda Boaventura5 de dezembro de 2015 13:04

    Que lindo! Já tava tensa! Quase chorei!

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  2. Meu Deus! Quase tive um infarto! Que capitulo tenso!
    Ass: Bina.

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  3. kaaraaaaamba ...isso foi...
    TENNSO..
    !!! ass...lyka

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  4. Tensoo, coração a mil. O amor foi maior <3

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  5. Que lindo..Ate que fim ja estava tensa

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  6. Queee lindoooooo, me apaixonando por Damen de novo e de novo *-------*

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