20 de novembro de 2015

Prólogo

— Ste-fan? — Elena estava frustrada. Ela não conseguia fazer a palavra em que pensava sair do jeito que queria.
Stefan — ele recitou, inclinado sobre um cotovelo e olhando-a com aqueles olhos que sempre a faziam quase esquecer o que estava tentando dizer. Eles brilhavam como folhas verdes na primavera a luz do sol. — Stefan — ele repetiu. — Você consegue dizer, meu amor?
Elena olhou para ele solenemente. Era tão bonito que partia o seu coração, com seu rosto pálido e o cabelo escuro caindo descuidadamente sobre sua testa. Ela queria colocar em palavras todos os sentimentos que estavam trancados atrás daquela língua desajeitada e daquela mente teimosa. Havia tanta coisa que precisava perguntar a ele... E dizer a ele. Mas os sons ainda não saíam.
Estavam presos em sua língua. Não conseguia nem mesmo enviar telepaticamente, tudo era apenas imagens fragmentadas.
Afinal, era apenas o sétimo dia de sua nova vida.
Stefan lhe disse que logo que despertou, assim que voltou do outro lado após a sua morte como vampira, ela fora capaz de andar, falar e fazer todo tipo de coisas que agora parecia ter esquecido. Ele não sabia por que ela tinha esquecido, nunca tinha conhecido alguém que tivesse voltado da morte exceto os que viravam vampiros. O que Elena uma vez foi, mas certamente não era mais.
Stefan também dissera entusiasmado que ela estava aprendendo mais rápido a cada dia. Novas imagens, novas palavras mentais. Mesmo às vezes sendo mais fácil se comunicar do que outras, ele tinha certeza de que ela seria ela mesma novamente em breve. Então agiria como a adolescente que realmente era. Deixaria de ser uma adulta com uma mente infantil, do jeito que os espíritos claramente escolheram que ela fosse: crescendo, vendo o mundo com olhos novos, com os olhos de uma criança.
Elena pensava que os espíritos haviam sido um pouco injustos. E se Stefan encontrasse alguém nesse meio tempo? Alguém que pudesse andar e falar e escrever? Elena se preocupava com isso.
Foi por isso que, algumas noites atrás, Stefan acordara e a encontrara fora de sua cama. Ele a encontrou no banheiro, encarando ansiosamente um jornal, tentando ver sentido nos pequenos rabiscos que sabia que eram palavras, pois isso já tinha aprendido. O jornal estava salpicado com suas lágrimas. Os rabiscos não significavam nada para ela.
Mas por que, amor? Você aprenderá a ler de novo. Por que a pressa?
Isso foi antes de ele ver as pontas de lápis, quebradas por apertar tão forte, e guardanapos usados como papel. Ela os tinha usado para tentar imitar as palavras. Talvez se pudesse escrever como as outras pessoas, Stefan deixasse de dormir em sua poltrona e dormiria abraçado a ela na cama grande. E não iria à procura de alguém mais velha ou mais inteligente. Ele saberia que ela era uma adulta.
Viu Stefan compreendendo isso lentamente em sua mente, e viu as lágrimas encherem seus olhos. Ele achava que jamais seria possível chorar novamente, não importa o que acontecesse. Mas virou as costas para ela e respirou lenta e profundamente por um tempo que pareceu longo demais.
Então a pegou do chão, erguendo-a para levá-la de volta para a sua cama. Olhou em seus olhos e disse:
Elena, me diga o que quer que eu faça. Mesmo que seja impossível, vou fazer. Eu juro. Diga-me.
Todas as palavras que queria passar mentalmente para ele estavam encravadas em seu interior. Seus próprios olhos derramaram lágrimas, que Stefan removeu lentamente com os dedos, como se pudesse arruinar uma inestimável pintura por tocar muito bruscamente.
Então Elena virou o rosto para cima, fechou os olhos e entreabriu os lábios levemente. Ela queria um beijo. Mas...
Mentalmente, você é apenas uma criança agora — Stefan disse, agonizado. — Como posso tirar proveito de você?
Havia algo que eles tinham feito em sua antiga vida, que Elena ainda se lembrava. Apontou abaixo de seu queixo bem aonde era mais macio... Uma, duas, três vezes.
Isso a fez se sentir desconfortável, por dentro. Como se fosse demasiadamente impertinente. Isso significava que ela queria...
Stefan gemeu.
Não posso...
Tap, tap, tap... Ela continuou apontando para o pescoço...
Você ainda não voltou ao que era antes...
Tap, tap, tap... Ela continuou...
Escute-me, amor...
Tap! Tap! Tap! E continuou insistentemente a apontar, olhando pra ele firmemente, com um olhar implorativo. Se ela pudesse falar, teria dito “por favor, me dê algum crédito – não sou totalmente estúpida. Por favor, escute o que não posso dizer a você.”
Você magoa. Você realmente magoa — Stefan havia interpretado o que ela pensava. — E se eu – se eu... se eu só tomar um pouco...
E então de repente os dedos frios e decididos de Stefan estavam movendo sua cabeça, levantando-a, virando-a no ângulo correto, e ela sentiu a dupla picada, convencendo-a mais do que tudo que ela estava viva e não um era mais um espírito.
E então tinha certeza de que Stefan a amava e a ninguém mais, e que podia contar a Stefan algumas das coisas que ela queria. Mas tinha que dizer-lhe entre exclamações – não de dor – como estrelas, cometas e feixes de luz caindo ao seu redor. E agora era Stefan quem não era capaz de pensar em uma única palavra para ela. Stefan era quem tinha ficado mudo.
Elena apenas achava que era justo. Depois disso, ele a abraçou durante a noite, e ela estava infinitamente feliz.

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