3 de novembro de 2015

Onze

Já que é nossa última noite juntos — ou pelo menos a última noite por um período indeterminado — espero que façamos algo especial.
Algo inesquecível.
Algo de que Damen se lembre com um sorriso.
De qualquer modo, provavelmente não vai ser tão inesquecível assim, porque não posso deixar que ele perceba que estou escondendo algo que ainda não quero contar.
Embora eu já estivesse convencida a partir na jornada de Lótus pouco depois de termos deixado Summerland, Damen ainda não foi informado dessa decisão. E, como informá-lo certamente levará a uma briga de proporções gigantescas, espero guardar a notícia para mim mesma até não ter outra opção senão contar a ele.
Então, enquanto ele se mantém ocupado escovando os dentes e se aprontando para dormir, cubro-me com os lençóis e tento pensar em algo para surpreendê-lo. Mas, segundos depois, quando ele para na porta como uma visão magnífica envolvida em seda azul, o melhor que consigo fazer é engolir em seco, encará-lo e materializar uma tulipa vermelha, que flutua de minha mão para a dele.
Ele sorri, percorre o espaço que há entre nós em poucos passos e se deita a meu lado. Passa os dedos suavemente pela linha de minha sobrancelha e afasta o cabelo de meu rosto, me envolve com seus braços e me acomoda perto de seu corpo. Meu rosto está colado em seu peito enquanto fecho os olhos e me perco no som das batidas de seu coração, na quase sensação de seus lábios, no modo como ele brinca com a mão em minha pele. Jogo a perna sobre a dele, prendo-o a mim, concentrando-me em sua essência — sua energia, seu ser — determinada a gravar na mente cada detalhe desse momento, para que nunca escape.
Embora eu queira falar, dizer algo significativo e importante, algo que compense por qualquer problema que possa ter acontecido entre nós, o jeito como ele me acaricia com as mãos suaves e o modo como sua voz se torna um leve sussurro em meu ouvido fazem com que não demore muito para que eu caia em um sono profundo sem sonhos.
Espero até de manhã para contar a ele.
Espero até termos tomado banho, vestido nossas roupas e estarmos na cozinha, sentados à mesa, desfrutando algumas garrafas de elixir gelado enquanto Damen passa os olhos no jornal.
Espero até não ter mais desculpas que me permitam adiar o que sei que precisa ser dito.
É covardia, eu sei, mas espero mesmo assim.
— Então, onde estamos? No segundo ou terceiro dia de sua semana de pesquisa? — Ele levanta os olhos, dobra o jornal ao meio e dá um sorriso irresistível ao levar a garrafa aos lábios. — Acho que perdi a conta. — Ele seca a boca com a mão, depois limpa a mão no joelho.
Franzo a testa, inclinando a garrafa de um lado para o outro, vendo o elixir faiscar e reluzir ao subir até a boca e depois descer novamente. Mordo o lábio, tentando pensar em um jeito de começar, e então decido que é melhor me atirar de cabeça. Não há motivos para adiar o inevitável quando todos os caminhos conduzem ao mesmo destino. Descarto a enrolação de costume: Por favor, não fique bravo, ou outra frase igualmente ineficaz: Por favor, ouça. Opto por dizer a verdade de forma clara:
— Decidi fazer aquela jornada.
Ele me olha com a expressão animada, olhos brilhantes, enchendo-me de alívio — um alívio que dura pouco, desaparecendo assim que percebo que ele entendeu errado o uso da palavra "jornada", confundindo com as férias que estava planejando.
— Ah, não, não... não é essa — murmuro, sentindo-me um nada quando vejo a alegria sumir de seu rosto. — Eu estava falando da que Lótus mencionou. Mas, se tudo correr tão bem como espero, teremos bastante tempo para essa também. — Coloco as mãos no colo e tento forçar um sorriso, sem muito sucesso.
É um deslize meu, e ele percebe também.
Damen se afasta, aparentemente sem palavras por causa do que acabei de dizer. Mas, pelo jeito de seus dedos agarrarem a garrafa de elixir, pelo modo como seu maxilar fica tenso, sei que ele não está sem palavras; está apenas tentando organizá-las e escolher as que vai usar. Ele não ficará em silêncio por muito tempo.
— Você está falando sério. — Ele finalmente me encara. As palavras soam mais como uma afirmação que como a acusação que eu esperava.
Confirmo com a cabeça, pedindo desculpas logo em seguida:
— Sinto muito. Sei que não deve estar muito feliz em ouvir isso.
Ele me olha com uma expressão que não consigo decifrar. Suas palavras são cautelosas e medidas quando diz:
— Não, não posso dizer que estou. — O tom demonstra enorme autocontrole, e sua energia não parece acompanhar. Mesmo sem ter aura visível, posso sentir sua vibração. Posso sentir seu pulso acelerando.
Ele ameaça recomeçar a falar, mas, antes que chegue a dizer qualquer palavra, estendo a mão, sinalizando para que ele pare, e digo:
— Ouça, sei o que vai dizer, acredite. Vai me dizer que ela é louca, perigosa, que preciso ignorá-la e seguir adiante, dar a você mais tempo para descobrir um jeito de podermos nos tocar novamente... — Faço uma pausa muito breve, sem dar a ele tempo suficiente para réplicas, e começo de novo: — Mas o negócio é o seguinte: não se trata apenas de estarmos juntos do modo que queremos. Trata-se de meu destino. Minha sina. Minha razão de ser, o motivo pelo qual continuo voltando, nascendo novamente. Eu preciso ir, não há alternativa. Mesmo sabendo que você não gosta dessa ideia, mesmo ciente de que não gostará ainda que eu tenha bons argumentos, estou disposta a me conformar se você puder ao menos aceitar, ainda que relutante. Basicamente, vou me conformar com o que for. Porque, Damen, mesmo que haja uma boa chance de ela ser completamente doida, há também a mesma chance de que esteja falando a verdade. Sinto, no fundo do coração, que isso é o que preciso... não, é mais: tenho certeza, do fundo da alma, de que é isso que devo fazer. Como Lótus disse, é um destino que apenas eu posso cumprir. E, embora eu queira mais que tudo que você vá comigo, ela deixou bem claro que não é possível. E... — Engulo em seco. O nó na garganta é como uma bola de fogo quente e furiosa, mas, ainda assim, engulo e continuo: — E espero que você seja capaz de aceitar isso, mesmo que não possa me apoiar.
Damen balança a cabeça, ganhando tempo para formular uma resposta. Estica as pernas e cruza os pés enquanto passa a mão na borda da garrafa.
— Está me dizendo então que nada que eu diga poderá impedi-la de prosseguir com isso? De partir sozinha?
Abaixo os olhos, grata por nossa conversa não ter chegado nem perto da gritaria que eu havia previsto, e ainda sim fico surpresa em notar que é pior. Brigas exaltadas são bem fáceis de superar, é apenas uma questão de tempo. Mas isto, essa aceitação relutante que achei que me deixaria satisfeita, bem, faz com que me sinta triste, sozinha, desolada.
— Quando planeja iniciar essa jornada?
— Logo — afirmo, forçando-me a olhar para ele, e continuo: — Agora mesmo. Não há motivos para adiar, não é?
Ele enterra o rosto nas mãos, passa alguns momentos em silêncio, esfregando os olhos, fazendo de tudo para me evitar. E, quando volta a erguer os olhos, fica fitando o vazio, para além do meticuloso paisagismo do jardim, além da piscina, além do oceano, algum cenário que apenas sua mente pode ver, os pensamentos cuidadosamente bloqueados.
— Queria que você não fizesse isso — diz ele, em palavras simples, porém sinceras.
Balanço a cabeça.
— Mas, se insiste, então faço questão de ir com você. — Ele olha para mim. — É muito perigoso. Muito... — Ele franze a testa e afasta o cabelo do rosto. — Muito obscuro, muito incerto ... Não posso deixar que você entre naquela lama sozinha. Ever, não percebe? Você é meu mundo! Não posso deixar que parta em uma jornada sugerida por uma velha louca!
Ele me olha fixamente, mostrando toda a sua determinação. Mas também sou determinada, e as instruções de Lótus foram bem claras: É minha jornada... meu destino... Damen não é bem-vindo lá. E não consigo deixar de pensar que talvez haja um motivo para isso, não consigo deixar de pensar que pode ser minha vez de protegê-lo ao insistir em ir sozinha.
Estou prestes a argumentar isso quando ele estica o braço sobre a mesa, pega em minha mão e diz:
— Ever... — Sua voz falha, forçando-o a engolir, limpar a garganta e começar de novo. — Ever, e se você não voltar?
— É claro que vou voltar! — Praticamente me lanço da cadeira, escorregando até a ponta, mal acreditando que ele chegou a pensar nisso. — Damen, eu nunca deixaria você! Nossa, é por isso que está chateado?
— Não. — responde, agora com a voz mais firme. — Estava pensando em algo mais na linha: E se você não puder voltar? E se ficar presa em uma armadilha? Perdida na lama? E se não encontrar o caminho de volta? — Seu olhar perplexo encontra o meu, e fica claro que ele já está sentindo minha perda, embora eu ainda esteja aqui, sentada diante dele.
Não é que eu não entenda.
Na verdade, entendo perfeitamente.
Ele já me perdeu tantas vezes que tem um medo terrível de me perder de novo justamente quando tinha certeza de que me teria por toda a eternidade. Sua emoção é tão visível e profunda que me tira o fôlego, levando-me a ficar muda, impotente, sem me deixar uma resposta fácil ou um modo simples de confortá-lo.
— Isso não vai acontecer — finalmente digo, esperando convencê-lo. — Fomos feitos um para o outro. É a única certeza que tenho. Mesmo sem saber o que esperar, prometo que farei tudo para encontrar o caminho de volta. É sério, Damen, nada pode nos separar. Pelo menos não por muito tempo. Mas agora preciso ir. E tenho que ir sozinha, Lótus foi bem clara. Então, por favor, por favor, deixe-me fazer isso, por favor, deixe-me ver aonde isso vai dar. Não vou descansar enquanto não fizer isso. Embora saiba que é pedir muito, realmente gostaria que se esforçasse para entender. E, se não conseguir entender, pelo menos tente me apoiar. Pode fazer isso?
Mesmo praticamente implorando que ele olhe para mim, que responda de alguma forma, ele continua sentado, em silêncio, perdido no próprio cenário mental.
Optando por dar um grande salto de fé e esperando que ele faça o mesmo, continuo:
— Damen, sei como se sente. Acredite. Mas não consigo deixar de pensar que nossa história é maior. Uma vida inteira que desconhecemos completamente. Acho que é uma pista, ou talvez a chave, como Lótus disse. A chave que nos levará à razão por trás de todos os obstáculos que nos atormentaram no decorrer destes séculos, inclusive o que estamos enfrentando agora.
Mas, como eu disse, foi um salto.
Um salto que me fez cair de cara no chão quando vejo Damen se levantar da cadeira, afastar-se da mesa e olhar para mim rapidamente. Seu olhar é triste, a voz fria e contida, mostrando que ele está a mil quilômetros de distância quando diz:
— Então acho que é isso. Você está decidida. Nesse caso, eu lhe desejo o melhor e vou ficar esperando ansiosamente pela sua volta.

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