2 de novembro de 2015

Onze

— Que porcaria é essa, Ever? Largou a escola e se esqueceu de me dizer?
Levanto os olhos da caixa registradora, onde estou ocupada com uma venda, e vejo Miles atrás da cliente, que não está gostando nem um pouco disso.
Lanço-lhe meu melhor olhar de agora não, passo o cartão da cliente e embrulho seus livros e CDs de meditação em papel de seda roxo antes de colocá-los em uma sacola da mesma cor e liberá-la.
— Muito bem. — Faço um gesto com a cabeça, minhas palavras competindo com o bater do sino quando ela solta a porta ao sair. — Tenho certeza de que não a veremos novamente.
Miles ignora e dá de ombros, dizendo:
— Não importa. Acredite, tenho assuntos muito mais importantes para discutir do que a movimentação bancária de Jude.
— É? Tipo o quê? — Enfio o recibo na caixa roxa onde são guardados, ciente do olhar pesado de Miles, que quer minha atenção para que possa revelar o motivo real de sua visita.
— Bem, tipo você, por exemplo.
Ele me observa sentar no bando e cruzar os braços na frente do corpo. Tenho o cuidado de manter o olhar neutro, sem expressão, com se não estivesse nem um pouco ansiosa ou preocupada, como se apenas esperasse pacientemente que ele continuasse.
— Para começar, exceto pelo primeiro dia de aula, ainda não a vi na escola. O que quer dizer que você não tem ido à escola, porque tenho procurado por você. Espero na porta de suas salas de aula, perto de seu armário, na mesa de almoço, mas... nada, niente, você com certeza não tem aparecido.
Encolho os ombros, sem querer confirmar nem negar... Pelo menos por enquanto. Primeiro preciso ver a força dos argumentos que ele planeja usar contra mim.
— Mesmo sabendo que você vai dizer que tem seus motivos, que seus dias de ausência, ou enormes férias de verão, se preferir, não são da minha conta, só quero que saiba que está errada. Isso é da minha conta. Na verdade, é muito da minha conta. Porque, como seu amigo, um de seus melhores amigos, estou aqui para dizer que seu ostracismo afeta não apenas a mim, mas a todos nós. Mesmo as pessoas que não considera suas amigas, acredite se quiser, também são afetadas.
Dou de ombros. Não sei o que dizer, mas tenho noção de que esta não é mesmo a melhor hora para isso. Miles adora um monólogo, e, pelo que posso perceber, esse não está nem perto de terminar.
— Sabe, pessoas como eu... Damen... e, bem, Haven talvez nem tanto, mas, ainda assim, deixe isso para lá. Cuidaremos desse assunto depois. O que estou querendo dizer é que é como se você... — ele para com os polegares enfiados nos passadores da frente dos jeans enquanto olha ao redor, em busca da palavra certa. Finalmente, volta a olhar para mim e diz: — É como se você estivesse nos ignorando totalmente. Como se tivesse nos dispensando. Como se tivesse deixado de se importar conosco...
— Miles... — começo a falar, apertando os lábios enquanto tento pensar na melhor forma de prosseguir. — Ouça, entendo o que está dizendo. Entendo de verdade. E, acredite, compreendo totalmente por que pode estar enxergando a situação desse jeito, mas há muito mais coisas do que consiga pensar. Muito mais do que possa sequer imaginar. É sério, seu eu fosse contar a verdade que está por trás disso tudo... — Fecho os olhos e balanço a cabeça, sabendo que, na maior parte do tempo, eu mesma tenho dificuldades em acreditar. — Não importa. De qualquer modo, não posso entrar em detalhes, mas acredite quando digo que, se soubesse uma fração do que está realmente acontecendo, bem, definitivamente estaria me agradecendo por mantê-lo fora disso.
Faço uma pausa, dando-lhe a oportunidade de absorver minhas palavras, esperando que veja como estou falando sério. Então prossigo: — sinto muito por achar que eu o estou ignorando e que não ligo para você, mas isso não tem nenhum fundamento. É sério, nem um pouquinho. Você é praticamente o único amigo de verdade que me resta. E realmente quero compensá-lo, juro. Com certeza. Mas agora estou apenas... Estou apenas um pouco... Preocupada. Só isso.
— E quanto a Damen? Vai compensá-lo também?
Olho para ele sem nem ao menos tentar esconder meu choque. Não posso acreditar que ele está me confortando com isso.
— Por favor, não presuma que sabe mais do que sabe. — digo, um pouco mais dura do que pretendia. — Há muitas outras questões. Questões que você não entende. Nada é tão simples quanto parece e, acredite, isso vai muito além... As raízes são bastante profundas.
Ele fita o chão, afundando a ponta do sapato no carpete, demorando um tempo para articular os pensamentos e decidir a melhor forma de me confrontar, depois levanta a cabeça, mira bem em meus olhos e diz:
— E uma dessas questões que sou incapaz de entender tem a ver com o fato de você ser...
Nosso olhares se encontram, deixando-me paralisada, incapaz de respirar. A palavra corre em minha direção, bate direto em meu campo de energia antes mesmo dos lábios de Miles pronunciarem.
E não há nada que eu possa fazer a respeito, não há como voltar atrás ou impedi-lo de dizer:
— ... imortal?
Ele me encara. Fixamente. Não importa quanto eu queira, não consigo desviar.
Minha pele está fria quando ele continua:
— Ou o fato de ser paranormal? Dotada de todo tipo de poder mental e físico. Ou talvez com o fato de que permanecerá jovem e bela para sempre. Sem nunca envelhecer, nunca morrer, assim como seu companheiro, Damen, que está por aí há seiscentos anos e que recentemente decidiu transformá-la em alguém como ele? — seus olhos se estreitam e ele analisa meu rosto.
— Diga-me, Ever, estou no caminho certo? Era a essas questões que estava se referindo?
— Como você... — começo.
Mas as palavras são abafadas por sua voz:
— Ah, e não vamos esquecer de Drina, que por sinal também era imortal. E, é claro, Roman. Sem contar Marco, Misa e Rafe, os três chatinhos inseparáveis com que Haven escolheu andar sabe-se lá por qual razão. E não acredito que quase me esqueci de mencionar a adição mais recente à turma dos eternamente belos, nossa querida amiga Haven. Ou devo dizer minha querida amiga e sua mais recente inimiga mortal, mesmo que tenha escolhido transformá-la em alguém como você.
Engulo em seco, impressionada a ponto de não conseguir falar e incapaz de pensar em algo melhor do que ficar sentada, olhando para ele. Mesmo sentindo-me chocada por ter tudo isso alinhado diante de mim dessa forma: a sequência de fatos de minha estranha vida revelada de um modo tão neutro, tão normal que mal parece verdade, mesmo para mim... Também há uma pequena parte de mim que está aliviada.
Venho guardando esse segredo há tanto tempo que não posso deixar de me sentir mais leve, mais alegre, como se finalmente tivesse sido libertada de uma carga pesada demais para carregar sozinha.
Mas Miles não terminou. Ele apenas começou. Então balanço a cabeça e volto a me concentrar em suas palavras, lutando para acompanhar o que ele diz:
— E o mais irônico é que, se parar para pensar, se parar para refletir de forma metódica e lógica, bem, então acho que fica claro que eu deveria estar evitando você.
Estreito os olhos, sem entender muito bem como ele chegou a essa conclusão, mas sei que está prestes a explicar.
— Quer dizer... Imagine como é descobrir que os amigos que pensei que conhecesse tão bem, os mesmos em que confiava para partilhar tudo, além de não serem nada do que parecem, também são, todos eles, membros de um clube superexclusivo e supersecreto. Um clube no qual é óbvio que todos são bem-vindos. Todos, menos eu.
Ele para, balançando a cabeça enquanto segue para a frente da loja, olhando para as vitrines e para a rua colorida pelo sol. Sua voz carrega o peso de suas palavras ao dizer:
— Preciso lhe dizer, Ever, isso magoa. Realmente magoa muito. Do modo como vejo que é o único modo se poderia ver, mas ainda assim, do modo como eu vejo, é como se você não quisesse que eu fosse imortal também. Como se não quisesse me conhecer, nem mesmo ser minha amiga, por nenhum tempo que chegasse nem perto da eternidade.
Ele se vira e fica de frente para mim, e só de olhar para seu rosto sei que é pior do que eu pensava. Sei que tenho que dizer algo rápido, para amenizar tudo isso, mas antes que eu possa abrir a boca ele volta para o segundo round, forçando-me a sentar e esperar minha vez.
— Sabe o que mais me mata? Sabe quem decidiu finalmente me contar tudo?
Ele para, como se estivesse esperando uma resposta, mas não digo nada, porque a pergunta foi claramente retórica. O show é dele, o roteiro é dele, não tenho intenção alguma de roubar a cena.
— A única pessoa de toda a sua turma supersecreta dos eternamente belos, a única pessoa disposta a se sentar e ser honesta comigo, sem esconder nada ou tentar me enrolar com bobagens, a única pessoa que quis me olhar nos olhos e revelar tudo, para minha surpresa, foi...
Antes que ele terminasse... Antes que dissesse o nome, eu já sabia.
Damen.
Lembro-me de quando Miles enviou por e-mail os retratos que descobriu em Florença, os retratos que Roman queria que ele encontrasse.
O modo como os dedos de Damen tremeram quando lhe passei o telefone, o modo como suas pálpebras se fecharam, o maxilar ficou apertado, e ele aceitou corajosamente a descoberta repentina de seu segredo de séculos atrás.
O modo como prometeu ser sincero com Miles, parar de esconder, parar de mentir, e finalmente dizer a verdade e abrir o jogo.
Mas nunca acreditei que ele realmente faria isso.
— Damen — Miles confirma enfaticamente com um gesto de cabeça sem deixar de olhar em meus olhos. — E pensar que eu o conheço há... Quanto tempo?... Menos de um ano. Menos tempo do que conheço você, isso é certo, e certamente muito menos tempo do que conheço Haven. E mesmo assim foi ele quem me contou. Apesar de eu falar com ele muito, muito menos do que com vocês duas... Foi ele quem escolheu ser direto comigo. Mesmo sendo sempre um cara quieto, na dele. E agora sei o motivo. Mas, de qualquer forma, mesmo sem ter ligação alguma com ele, por assim dizer, foi ele quem me tratou como um verdadeiro amigo. Como alguém em que podia confiar e se abrir. Ele simplesmente se sentou comigo e relatou tudo. Contou a verdade sobre você, sobre ele, sobre... Sobre tudo... Tudo!
— Miles... — começo a falar com a voz hesitante, sem saber o que dizer, sem saber se ele está realmente pronto para me ouvir.
Mas quando ele para por tempo suficiente e olha para mim, com a cabeça inclinada para o lado e a sobrancelha erguida e desafiadora, sei que está. Ainda assim, antes de começar a citar toda a lista de motivos pelos quais o mantive propositalmente alheio, todas as razões muito boas e válidas pelas quais ele deveria sentir-se feliz por não saber de nada, eu precisava ver com meus olhos.
Precisava ver o que Damen contou a ele.
As palavras exatas que usou.
E, ainda mais importante, por que decidiu divulgar tudo agora, quando certamente uma boa parte poderia ser guardada para depois... Bem depois, na verdade.
Fecho os olhos por um instante, permitindo que minha mente se una à de Miles. Sei que estou quebrando minha promessa de nunca espionar os pensamentos e lembranças mais íntimos de meus amigos, a menos que seja extremamente necessário, mas sigo em frente mesmo assim, desesperada por ver exatamente o que se passou naquele dia.
As palavras me perdoe preenchem o espaço entre nós, florescendo, crescendo, até que praticamente vejo as letras tomarem forma.
Espero que ele possa sentir as palavras também e logo encontre um modo de me perdoar pelo que estou prestes a fazer.

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