2 de novembro de 2015

Onze

Eu corro, cobrindo os blocos em uma questão de segundos, aparecendo como um borrão que se move rápido para todos os quais eu passo, mas eu não me importo com isso, não me importo com o que eles pensam, com o que eles vêem. Eu apenas me importo com uma coisa: livrar-me desse horrível invasor, esse intruso místico para que meu antigo eu retorne.
Correndo através da porta enquanto Jude está prestes a trancar, quase derrubando ele, apesar dele rapidamente pular fora do meu caminho. — Eu preciso de ajuda. — Eu paro na frente dele ofegante, chiando irremediavelmente — Eu... eu não sei onde mais eu posso ir.
Ele me olha, olhos apertados, sobrancelha junta com preocupação, me levando na direção da sala dos fundos, onde ele puxa uma cadeira com o pé e faz um movimento para eu me sentar.
— Calma— ele murmura, — respira fundo, sério Ever, o que quer que seja eu tenho certeza que tem conserto.
Eu chacoalho a cabeça e me inclino em direção a ele, agarrando os braços da cadeira, lutando pra me manter plantada, pra não voltar lá. — E se você estiver errado?— eu digo com os olhos selvagens, bochechas vermelhas, voz aguda e tremendo, — E se não puder ser concertado? E se... E se eu tiver me quebrado pra sempre?
Ele se move em volta da mesa dele e cai na cadeira girando pra frente e pra trás, enquanto ele me olha, o rosto parado, plácido, impossível de ler. Mas
algo sobre o movimento, aquele giro constante gentil e imediato me acalma, permitindo que eu me acomode no meu acento e diminua a respiração e me concentre na forma que os dreadlocks dele se espalhem pela foto de Ganesh que está estampada na camiseta dele.
— Olha só— eu digo finalmente, começando a me sentir melhor, quase humana de novo, — Eu... eu sinto muito ter vindo aqui desse jeito, eu estava no caminho pra te entregar isso.— Eu alcanço na minha bolsa procurando pelo pequeno pacote branco e então entrego a ele, assistindo ele dar uma espiada no conteúdo enquanto eu digo — É sua receita, eu peguei mais cedo e eu tinha a intenção de deixar na sua mesa, mas aí eu esqueci sobre isso, até agora.— Ele chacoalha a cabeça em silêncio por um momento me estudando com cuidado enquanto ele diz, — Ever, isso é sobre o que quer realmente? Claramente você não está aqui pra falar sobre os meus remédios. — Ele empurra as pílulas pro lado, com o seu gesso, pegando meu olhar quando ele acrescenta — Confie em mim, eu não tenho nenhum plano de tomá-las, analgésicos e eu não somos uma boa mistura, como eu tenho certeza que você testemunhou.
E quando ele olha pra mim, eu sei que ele se lembra de tudo, confissão total que ele fez. Eu pressiono meus lábios juntos e abaixo o olhar brincando com a barra do meu vestido, sabendo que estou apenas enrolando quando eu digo — Bom, você poderia tomar os antibióticos pelo menos, tipo pra evitar infecções e tal.
Ele se encosta de volta na cadeira e coloca os pés em cima da mesa, cruzando as pernas nos tornozelos e os incríveis olhos verdes dele se encolhem em mim — O que você acha da gente pular essa parte e ir direto ao ponto, o que realmente está acontecendo com você?
Eu respiro fundo alisando meu vestido sobre os joelhos, antes de tentar encontrar seus olhos — eu vim aqui realmente pra te entregar seus remédios, mas no caminho pra cá aconteceu alguma coisa e —, eu olho pra ele sabendo que eu preciso ir ao ponto e falar logo antes que ele perca a paciência comigo — eu acidentalmente prendi Roman a mim.
Ele olha pra mim tentando, se esforçando pra não hesitar, mas ele meio que hesita.
— Ou melhor, eu me prendi ao Roman. Mas, não foi de propósito, foi um acidente, eu queria fazer exatamente o contrário, mas ai quando eu tentei desfazer eu piorei as coisas e apesar de você não ter absolutamente razão nenhuma pra me ajudar acredite ou não eu não tenho nenhum lugar pra recorrer.
— Nenhum lugar? Você tem certeza sobre isso?— Ele levanta a sobrancelha falhada dele.
Juntando as minhas palavras, esperando que elas funcionem em convencê-lo, eu dou um suspiro audível quando eu digo — Eu sei o que você está pensando, mas é melhor você esquecer, eu não posso contar a Damen, ele não pode saber nunca, ele não trabalha com magia e não confia de qualquer forma, então não é como se ele pudesse fazer alguma coisa para ajudar, eu só vou magoá-lo e desapontá-lo sem nenhuma razão boa pra isso, mas você é diferente você sabe o jeito para se trabalhar com um feitiço e como eu preciso de ajuda com alguém que está familiarizado com esse tipo de coisa, bem, eu pensei que você poderia me ajudar a acertar as coisas.
— Parece que você está colocando muita fé em mim. — Ele joga os dreadlocks dele sobre os ombros e descansa os braços no colo dele.
— Talvez— eu dou de ombros, — Mas também eu verdadeiramente acredito que é garantido, quer dizer, agora que você provou que não é mau— eu sacudo a cabeça na direção dos braços dele, a visão deles me deu uma ideia, algo que eu posso abordar em algum ponto, e que pode ser a maneira perfeita para compensá-lo, mas só no futuro, não agora, primeiro eu tenho que passar por isso, me esforçando pra engolir enquanto eu abaixo meu olhar horrorizada por ter que admitir isso, de ter que falar essas palavras em voz alta, mas sabendo que é a única forma. — É como se eu estivesse obcecada pelo Roman.
— Eu olho rapidamente pra ele, vejo ele ficar levemente pálido e sou grata pelo esforço de se conter. — Eu estou totalmente fixada nele, é tudo que eu consigo pensar, sonhar e não importa o que eu faça eu não sou capaz de parar.
Ele chacoalha a cabeça balançando levemente como se estivesse contemplando profundamente, tipo como se ele estivesse consultando mentalmente o livro de reversão de feitiços procurando pela cura certa. — Essa é difícil, Ever.— Ele respira fundo e nivela o olhar ao meu. — É complicado.
Eu aceno com a cabeça, mãos cruzadas no meu colo, já dolorosamente ciente disso.
— Feitiços de ligação. — Ele esfrega o gesso no queixo. — bem, eles nem sempre podem ser desfeitos.
Eu inclino pra frente, lutando pra manter a calma e falar além da minha respiração agitada. — Mas, eu pensei que tudo pode ser desfeito, você só tem que fazer o feitiço certo na hora certa, certo?
Os ombros dele sobem e descem num movimento que faz meu estômago mergulhar, com olhar dele no meu ele diz — Desculpa, eu só estou dizendo o que eu aprendi com os meus anos de estudo e prática dessas coisas, mas você tem o livro, e você tem esse suposto código que passa o código, então você pode me dizer.
Eu suspiro me reclinando de volta ao meu acento, dedos mexendo com a barra do meu vestido. — O livro não é de muita ajuda, quer dizer eu basicamente fiz exatamente o que Romy e Rayne disseram, usei os mesmo elementos, e ...
Ele olha pra mim — Os exatos mesmos elementos?
— Bem, sim. — Eu dou de ombros. — Na maioria das partes, quer dizer, em ordem de reverter o feitiço, você precisa repetir os mesmos passos de antes, é o que diz no livro e Romy e Rayne confirmaram.
Ele acena, não diz uma palavra, só acena, mas suas tentativas pra se conter são bem claras.
— Então, eu consigo imaginar o que deu errado, a princípio eu pensei que havia acertado, mas então escapou de mim completamente e começou a se reverter por si só de novo, repetindo a mesma sequência de eventos de antes.
— Ever, eu sei que você repetiu seus passos, mas você usou as mesmas ferramentas? As mesmas ervas? Os mesmos cristais e qualquer outra coisa que você tenha usado?
— Alguns novos, alguns velhos. — Eu dou de ombros sem exatamente entender qual é o ponto dele.
— Qual a principal ferramenta que você utilizou, a que realmente faz o feitiço funcionar?
— Bem depois que eu me banhei, eu— Eu cerro os olhos e penso, a resposta vindo instantaneamente. — A adaga, eu olho para ele, nós dois já sabendo aonde eu errei. — Eu usei para a troca de sangue, e...
Os olhos dele se abrem, as bochechas ficam pálidas e a aura dele treme de um jeito meio assustador.
 — Foi a mesma adaga que você usou em mim?— ele pergunta e a preocupação fica clara.
Eu sacudo a minha cabeça vendo o rosto dele se inundar com alívio. — Não, aquela foi uma réplica manifestada rapidamente. A verdadeira está em casa.
Ele acena obviamente contente de saber, mas determinado a seguir em frente. — Bem eu odeio dizer, mas aquela era a única coisa que você devia ter renovado, você necessita oferecer a Deusa algo novo e puro e sem uso. Você não pode servi-la com as mesmas ferramentas maculadas que você usou para servir para a rainha do submundo.
Oh.
Ele olha pra mim, olhar entristecido, olhos puxados para baixo nos cantos, quando ele diz. — Eu gostaria de te ajudar, eu realmente gostaria, mas esse tipo de coisa vai além dos meus conhecimentos, talvez você deva consultar Romy e Rayne, elas parecem saber o que estão fazendo.
— Mas, será que elas sabem mesmo?— eu espremo os olhos, incerta de onde estou indo com isso — Porque o negócio é o seguinte, eu ouvi elas, eu fiz o que elas disseram, tipo eu dou um desconto porque elas não gostaram da adaga, disseram que eu fiz errado e queriam que eu derretesse em um bloco, mesmo assim quando eu me recusei elas não ligaram, em nenhum momento elas me disseram que eu não podia usá-la novamente ou que eu deveria usar um novo conjunto de ferramentas em ordem de reverter o feitiço, de alguma forma elas falharam em me compartilhar isso comigo.
Nossos olhos se encontraram, ambos imaginando a mesma coisa. Porque elas fariam isso? Foi de propósito? Elas realmente não gostam de mim a esse ponto? Jude desconsiderou isso antes de mim, mas também ele não conhece nosso histórico, nossa história é tão complicada e volátil que eu não consigo deixar pra lá.
— Tipo, elas são extremamente próximas a Damen, elas o amam na mesma medida que me odeiam, sério. — Eu balanço a cabeça sabendo que não é um exagero, é completamente verdadeiro. — E apesar do fato delas supostamente serem bruxas boas, eu não acho que isso seria difícil acreditar que elas fizeram isso para me dar uma lição, ou tipo até mesmo pra manter Damen e eu separados, quem sabe o que elas podem ter planejado? Mas, que não tenha sido intencional, mesmo se elas simplesmente não sabiam melhor que isso, não tem a menor possibilidade de eu abordá-las, porque se elas fizeram de propósito, elas contaram para Damen e ele não pode saber disso sob nenhuma circunstância, eu não posso magoá-lo dessa forma e, se elas não sabiam, eu apenas vou dar mais munição para o arsenal de coisas que elas tem para me ridicularizar.
Jude se inclina na minha direção quando diz. — Ever, eu entendo seu dilema, realmente, mas você não acha que está sendo um pouco paranoica, esses dias?
Eu cerro meus olhos e me inclino na minha cadeira imaginando se ele ouviu alguma palavra do que eu acabei de dizer.
— Tipo, primeiro você me acusa de ser um traidor, o que a propósito, eu ainda não sei o que você quis dizer, a não ser que isso tem alguma coisa a ver com Roman, o que não apenas, bem de acordo com você, é o chefe de sua própria tribo de malfeitores, e o qual você parece detestar e cobiçar devido a um feitiço de ligação que deu errado. E apesar de você não poder ter certeza é bem provável, pelo menos na sua mente, que Romy e Rayne querem te pegar, e por isso elas omitiram um detalhe crucial propositalmente nas instruções delas, para você bagunçar tudo e manter você e Damen separados, e por falar no Damen você também está convencida de que ele jamais te perdoará dessa bagunça que você fez...— ,ele sacode a cabeça, — Você vê onde eu estou querendo chegar?
Eu franzo a testa, braços cruzados e olhos apertados, me recuso a reconhecer isso, além disso, não é tão simples, vai muito além disso.
— Ever, por favor, eu quero te ajudar, você deveria saber disso agora, mas eu também estou determinado a fazer a coisa certa, você tem que levar isso para Damen, eu tenho certeza que ele vai entender e...
— Eu já expliquei. — Eu digo. — Ele não confia em magia e ele já havia me alertado contra a utilização dela e eu não posso suportar que ele saiba que eu não ouvi e quão baixo eu afundei.
Jude se encosta e me estuda de perto, sua voz é um suspiro quando ele diz. — Ah, mas você não tem nenhum problema comigo sabendo, é isso?— ele me dá um meio sorriso que não alcança seus olhos.
Eu respiro fundo e olho para ele determinada a atirar direto e da forma mais aberta possível. — Confie em mim, isso não é confortável pra mim também, mas eu não tenho pra onde ir, mas tipo se você não quer se envolver, é só dizer, e eu vou...
Eu agarro o descanso de braço me levantando e me preparando pra ir, sou impedida pelo apelo daqueles olhos verdes profundos me coagindo a retornar a minha cadeira enquanto ele abre uma gaveta e procura no conteúdo e diz. — Olha, eu já estou envolvido, vamos ver o que eu posso fazer.

2 comentários:

  1. Já pensou se aquela faca que Ever usou para atacar o Jude, fosse a mesma na qual ela fez o ritual. Nessa hora o Jude estaria com desejo e sede de Roman, o que séria muito engraçado! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Ass: Bina.

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