3 de novembro de 2015

Oito

Três jogos, uma soneca (Damen, não eu) e duas garrafas e meia de elixir depois, ela aparece.
Ela simplesmente... aparece. Em um minuto somos só nós, sem sinal de mais ninguém, e no outro ela está parada diante de nós, com aqueles olhos envelhecidos focados em mim como se nunca tivesse ido embora.
— Damen! — Olho para ele, vendo como se mexe e começa a se virar. Agarro sua perna, balançando uma, duas vezes, e repito: — Damen, acorde! Ela está aqui.
Digo como se a mera visão de sua pessoa prometesse algo muito bom; como se eu tivesse acabado de ver Papai Noel em um trenó cheio de presentes puxado por renas voadoras.
Damen se senta de repente levanta apressado e passa a mão rapidamente pelos olhos para afastar o sono antes de se virar para mim. É um atraso que faz com que ele não me alcance e perca a chance de me puxar para perto de si, pois fico de pé e ando na direção dela. Não tenho ideia do que dizer, mas esperei muito tempo debaixo da chuva para perder essa oportunidade.
— Você... — ela começa a dizer, levantando lentamente o braço, mas eu logo a interrompo.
Não é necessário entrar no "modo cantante", não quando já ouvimos tudo e não precisamos ouvir novamente.
— A esse respeito... — Fico parada diante dela, tomando cuidado para deixar alguns metros entre nós, mesmo que, por sua idade avançada, eu duvide de que ela tenha condições de fazer algo que possa me machucar. — Ouvi a música, memorizei a letra e, é sério, não quero desrespeitá-la, mas será que podíamos nos comunicar falando normalmente? Ou pelo menos usando o tipo de linguagem com que estou acostumada, o tipo que faz sentido?
Passo os olhos sobre ela, observando suas mechas prateadas, os olhos impressionantes, a pele tão frágil e fina que parece que vai rasgar. Procuro por uma reação, algum sinal de que se tenha ofendido com minhas palavras, mas não encontro resposta alguma além de um olhar velho e cansado que se volta para Damen assim que ele aparece a meu lado. Os ombros dele estão alinhados, as pernas, firmes, os pés, bem-apoiados, pronto para entrar em ação, fazer o que for preciso para me defender dessa estranha centenária, caso haja necessidade.
Esse pensamento parece tão idiota que eu poderia facilmente ter outro ataque de riso se a ocasião não fosse tão séria.
Fico na ponta dos pés, bem, o máximo possível, tendo em vista que estou com lama até os joelhos, lembrando que, numa das últimas vezes em que a vi, Misa e Marco me surpreenderam aparecendo detrás dela, mas, pelo que posso ver, hoje eles não estão aqui.
Por enquanto somos só Damen, a velha louca e eu. E parece que ela não está nem um pouco surpresa por estarmos aqui esperando.
Estou prestes a falar de novo, determinada a seguir em frente e conseguir o que vim buscar — resolvida a limpar minha consciência dessa dúvida que me corrói a alma, de que Damen possa estar certo, afinal, e isso tudo seja só mais uma cruel brincadeira cósmica, de que eu esteja sendo enganada da pior forma possível e nenhum de nós dois tenha tido quaisquer outras vidas antes —, quando ela olha para mim e diz.
— Adelina.
É isso. Ela diz apenas "Adelina". Depois baixa as pálpebras e se curva de leve, levando as mãos ao peito, dirigindo o movimento a mim como se ela fosse algum tipo de adoradora e eu, uma divindade.
— Hum, veja, o negócio é o seguinte — começo a dizer, insegura a respeito de como responder a um gesto tão estranho e ansiosa para acabar logo com isso, fingir que nunca aconteceu. — Não tenho ideia do que está falando. Meu nome é Ever, e esse é Damen... — Olho para ele, que me encara com uma expressão de terror absoluto, insatisfeito por ter sido envolvido no assunto. Franzo a testa para ele, depois reviro os olhos e volto meu foco para a mulher, dizendo: — ...como a senhora já sabe. — Lanço outro olhar rápido para Damen, lembrando-o de que sua identidade não é segredo algum para ela. Na verdade, ela parece saber tudo sobre ele. Ou pelo menos sabe o nome dele completo. — Não tenho ideia de quem seja essa Adelina ou do que ela possa ter a ver comigo, então talvez a senhora possa me deixar a par de tudo, o que acha?
— Sou Lótus — diz com a voz sussurrada, os olhos fixos nos meus.
Beeem, não foi exatamente isso que perguntei, mas já é um progresso. Eu acho.
— Damen é a razão. — Sua cabeça se vira para ele. — O amor de vocês, o sintoma. — Ela alterna o olhar entre nós dois. — Mas você, Adelina, é a cura. A chave. — Ela olha fixamente para mim.
Aimeudeus.
Só porque não suspirei, não quer dizer que não pensei: Lá vamos nós de novo, mais divagações cifradas que não fazem sentido algum.
— Ouça, é o seguinte: como acabei de dizer, meu nome é Ever, não Adelina. Na verdade, nunca fui Adelina. Já fui Evaline, Abigail, Fleur, Chloe e Emala, mas nunca Adelina. Está falando com a pessoa errada.
Suspiro e viro as costas, irritada com aquele jogo. Há um vislumbre de alívio no olhar de Damen... alívio que logo se transforma em fúria quando a senhora dá um passo à frente e agarra minha manga.
— Ei. — A voz de Damen é áspera, mas Lótus o ignora, apertando cada vez mais meu braço enquanto me olha atentamente.
— Por favor. Nós todos esperamos por você tanto tempo. Esperamos por você, Adelina. Você deve voltar. Deve fazer a jornada. Deve encontrar a verdade. É o único jeito de libertá-las. De me libertar.
— Onde estão Misa e Marco? — pergunto, sem fazer ideia do motivo.
Talvez por serem as únicas coisas que parecem tangíveis e reais neste cenário surreal.
— Há muitos esperando por você. A jornada é sua. Apenas sua.
— Que jornada? — pergunto, com a voz trêmula, quase como um choro. — Sinto muito, mas nada disso faz sentido. Se é tão importante que eu faça isso, mesmo não sendo Adelina, talvez a senhora pudesse parar com os enigmas e explicar de um modo que faça sentido para mim.
— A jornada de volta. — Ela abaixa a cabeça novamente, deixando-me com a visão de seus cabelos prateados.
— De volta para onde? — pergunto com o rosto enrubescido, quase histérica, sabendo que preciso me acalmar um pouco.
— De volta para o início. Para a cena que ainda não viu. Para as primeiras origens. Você deve ver. Aprender. Saber. Tudo. Mas deve estar ciente de que é apenas o começo. A jornada é longa, árdua, mas a recompensa é muito boa. A verdade traz a felicidade verdadeira. Mas apenas os puros de coração o podem tê-la. — Ela volta o olhar para Damen e acrescenta: — A jornada é sua e apenas sua, Adelina. Damen não é bem-vindo lá.
Damen entra na conversa, tendo ouvido mais que o suficiente.
— Ouça — diz —, não sei o que está tentando fazer aqui, mas...
Sua raiva é interrompida pela surpreendente visão da palma da mão da velha se erguendo, seguida do choque de vê-la pressionada contra seu rosto. Em um momento ele está gritando a quase um metro de distância, e no outro ela está praticamente colada em Damen, os olhos embaçados sobre os dele, transmitindo algo, algum tipo de mensagem ou lembrança reservada apenas a meu namorado.
Eu observo, fascinada, imaginando o que pode estar se passando entre eles. Sei apenas de uma coisa: seja o que for, está fazendo com que ela brilhe, emitindo uma luz que ilumina tudo ao redor. O espectro de cores é tão intenso que parece nascer de um lugar muito profundo, sem alternativa a não ser escapar e cercá-la por inteiro.
Mas, enquanto ela brilha, Damen faz o oposto. Sua silhueta em geral alta e esguia parece escurecer e encolher, até ele se transformar praticamente em uma casca dele mesmo.
— Damen Augustus Notte Esposito — diz ela. — Por que você me renega?
Eu apenas assisto, em choque por vê-lo tão perturbado a ponto de não conseguir responder, não conseguir encontrar a própria voz, muito menos escapar do que ela está lhe mostrando. Estou prestes a intervir quando ele balança a cabeça, endireita a coluna e se livra do feitiço, recuperando-se o suficiente para dizer:
— A senhora está louca. Está errada louca. Mesmo não tendo ideia do que você está pretendendo, do que está tentando fazer, sei que é melhor você ficar longe de Ever. Bem, bem longe, está ouvindo? Ou não me responsabilizo pelo que lhe acontecer, não importa sua idade.
Mas se ele esperava que ela se afastasse ou fugisse assustada, bem, deve ter ficado tão surpreso quanto eu ao vê-la sorrir. Ambos ficamos observando seu rosto se iluminar, as bochechas se alargarem, os lábios se abrirem o suficiente para mostrar uma fileira espantosa de dentes — espantosa porque a maior parte deles estava acinzentada, amarelada ou faltando.
Sua atenção passa dele para mim, pega minha mão com a sua, ressecada e fina, e diz, confiante e segura:
— O amor dele é a chave.
Olho para ela, desvencilhando-me de sua mão:
— Achei que tivesse dito que Adelina fosse a chave.
— É tudo a mesma coisa. — Ela balança a cabeça, como se fizesse sentido. — Por favor. Por favor, considere a jornada. É o único modo de me libertar. E de libertar você também.
— A jornada de volta... de volta para o início? — digo, sarcasmo despontando. — E onde começa essa jornada? Onde termina? — Olho para ela, notando como ainda parece estar acesa por dentro.
— A jornada começa aqui.
Ela aponta para nossos pés, ou talvez para a lama, não dá para saber. Estou mais confusa agora do que quando tudo isso começou. Mas, quando nos encaramos novamente, percebo que a instrução é literal: a jornada começa naquela sujeira onde estamos.
— E termina na verdade.
Antes que eu tenha tempo de dizer qualquer palavra, antes que peça um pouco mais de esclarecimento, Damen passa os braços ao redor de minha cintura e me leva embora.
— Ninguém vai a lugar nenhum. Não nos incomode de novo.

4 comentários:

  1. Eu não estou entendendo mais nada!
    Ass: Bina.

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  2. Tipo... Como assim?
    Essa história já passou do limite de confusão.

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  3. Concordo com a Ana Novais

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  4. Kkkkkkkkkkkkk...Esse Damen...Kkkkkkkkkkkkkkk!

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