3 de novembro de 2015

Nove

— E a que conclusão vocês chegaram? — Ava joga os cachos castanho-avermelhados sobre o ombro e mira os olhos castanhos em mim, sentando-se em uma das velhas cadeiras dobráveis de plástico que Jude levou para o escritório, em uma tentativa de acomodar a todos nesta reunião improvisada.
— O que acham que tudo isso quer dizer?
Arrisco um olhar na direção de Damen, que recusou a cadeira e preferiu ficar recostado na parede, com os braços cruzados e uma expressão no rosto que diz claramente: Já não encerramos essa história? Não pedi que aquela mulher se afastasse? Você não falou que pretendia apenas passar por aqui para pegar um ou dois livros e que iríamos logo embora?
Rebato com uma expressão que quer dizer: Você me prometeu uma semana, e ela ainda não acabou. A menos, é claro, que queira me dizer o que a velha lhe mostrou.
Ele franze a testa, desvia o olhar, assim como imaginei que faria, então me viro para Ava.
— Não tenho ideia do que significa — admito, esforçando-me para fingir que não escutei Damen suspirar, mesmo ficando claro que a intenção tenha sido essa mesmo.
Jude alterna o olhar entre nós dois com cautela, sentindo corretamente a tensão que se instalou no paraíso e querendo mais do que tudo ficar fora disso. Ainda assim, como já havia prometido ajudar, toma seu lugar do outro lado da mesa, inclina a cadeira para trás e finge estar perdido em pensamentos profundos, olhando para o vazio, quando, na verdade, está apenas sonhando estar em outro lugar. Summerland seria meu palpite.
— Então ela acha que você é Adelina, ou que foi Adelina, ou... que seja... — Miles franze a testa, batendo a caneta nas páginas do diário com capa de couro que lhe dei antes que ele viajasse para Florença, fazendo anotações detalhadas, tentando entender alguma coisa, enquanto me ocupo em observá-lo. Noto que seu novo corte de cabelo o deixa muito mais parecido com o antigo Miles, aquele que me acolheu de bom grado no primeiro dia de aula, embora as bochechas redondas que tinha antes de passar as férias na Itália, participando de um acampamento de atores, tenham ido embora para sempre, transformando-o de fofinho em, bem, um cara muito, muito bonito.
— Sim — confirmo, ainda pouco acostumada em falar com tanta franqueza a esse respeito, pelo menos com ele, embora Miles esteja a par de praticamente tudo, saiba de quase todos os detalhes mais sórdidos de nossa vida. Graças à interferência de Roman e ao fato de ele ter estado presente na noite em que matei Haven, preso na armadilha dela, os olhos prestes a saltar das órbitas enquanto ela o estrangulava.
Ao matá-la, eu o salvei. E, ao fazer isso, perdi todas as esperanças de pôr as mãos no antídoto.
Mas faria tudo de novo se fosse preciso. Ele é um de meus melhores amigos e não havia feito absolutamente nada para merecer aquilo de Haven.
— Não tenho ideia de quem ela seja. — Faço uma careta. — Só sei que chama a si mesma de Lótus e está convencida de que sou Adelina. — As palavras saem de um modo que parece que estou falando sozinha.
Sou retirada dessa onda de confusão quando Romy e Rayne levantam a voz e dizem:
— Precisamos começar do início.
Olho para elas, tão perplexa com tudo que nem sei onde fica o início.
Antes que eu possa responder, elas se levantam das cadeiras, saem pelo corredor e vão para a loja. Voltam alguns instantes depois, retomam seus lugares e examinam o livro que abrem sobre o colo de Romy.
A voz de Rayne quebra o silêncio quando ela se debruça sobre a irmã gêmea, com os enormes olhos castanhos se arregalando sob as franjas desfiadas, e diz:
— Então, você disse que o nome dela é Lótus, certo?
Assinto com a cabeça.
— De acordo com o que diz aqui, o lótus cresce na lama, lutando contra a sujeira para conseguir alcançar a luz. E, uma vez que chega, floresce e se transforma em algo extraordinário, algo muito, muito bonito.
Respiro fundo e me dou conta de que talvez tenhamos feito algum progresso. Lama, sujeira, velha louca chamada Lótus — tudo se encaixa, mas o que significa?
— É um símbolo do despertar — diz Ava, interrompendo o que Rayne estava prestes a falar. — Do despertar para o lado espiritual da vida.
— Mas também representa a vida em geral — diz Jude, colocando a cadeira para a frente, apoiando os cotovelos na mesa e afastando os dreadlocks do rosto ao olhar para nós. — Sabe, superar as dificuldades e provações da vida e se transformar em seu verdadeiro eu, a bela criatura que está destinado a ser.
Ele olha para mim ao dizer isso, e não há nada que eu possa fazer para impedir meu rosto de corar. Conheço muito bem as dificuldades e provações de Jude, vi muito bem no dia em que fingi ler sua mão para provar que tinha poderes paranormais e garantir um emprego na loja. Vi tudo se revelar como se houvesse estado bem ali, ao lado dele, quando tudo acontecera.
Dotado de habilidades paranormais que seus pais se esforçaram para negar, ele perdeu a mãe muito cedo e, pouco depois, seu pai, consternado, enfiou uma arma na própria boca e a seguiu. Sozinho, Jude acabou morando com uma série de famílias adotivas até que a sequência de maus-tratos se tornou insuportável a ponto de a rua parecer uma opção muito melhor. Sua vida foi salva no dia em que Lina o encontrou, viu esperança nele e conseguiu convencê-la de que não era esquisito, mas uma alma singular e privilegiada. Que a visão limitada dos outros não devia influenciar a pessoa que ele era, o homem que seria.
E agora Lina também se foi.
Comprimo os lábios e olho para ele, imaginando como está lidando com a situação, se é esse o motivo de passar tanto tempo em Summerland ou se é mais por minha causa — sua tentativa de superar a escolha que fiz.
Seus olhos encontram os meus, demorando-se apenas por um instante, mas ainda assim é suficiente para que eu desejasse poder amá-lo. Ele merece ser amado. Mas meu coração pertence a Damen. Apesar de nosso conflito atual, não tenho dúvidas de que fomos feitos um para o outro. Esse é apenas um pequeno obstáculo que logo superaremos.
— Também é uma tatuagem bastante popular. — Jude continua. — Pessoas que superaram tempos difíceis, conseguiram sair da lama, por assim dizer, costumam usá-la como um tipo de marca por terem sobrevivido à jornada e chegado ao outro lado.
— Você tem tatuagem? — Rayne pergunta, arregalando os olhos e se curvando na direção dele, praticamente caindo da cadeira de tanta empolgação.
— Uma ou duas — ele afirma, balançando a cabeça, um esboço de sorriso surgindo no rosto.
Ela fica boquiaberta, mal podendo acreditar que ele só vá responder isso.
Então, é obrigada a perguntar:
— E o que são?
— Uma é um ourobóro... Fica na região lombar.
Mesmo podendo sentir seu olhar correndo em minha direção, desvio totalmente o rosto. Eu a vi. Ah, sim, a tatuagem não passou despercebida.
— Um ourobóro? — Ela estreita os olhos, olhando para a gêmea idêntica, igual em todos os aspectos, exceto pelas roupas. Romy gosta de cor-de-rosa, Rayne prefere preto. Às vezes, quando não estão por perto, refiro-me a elas como Boa & Demais, porque isso faz Damen rir.
— Pensei que ourobóros fossem do mal — acrescenta ela.
— Não são do mal — diz Damen, decidindo colaborar, já que não tem alternativa a não ser ficar aqui até o final da reunião. — É um antigo símbolo alquímico de vida, morte, renascimento... imortalidade. — Ele ergue os ombros, olhando em volta, sem se ater a ninguém em particular. — Muitas correntes teológicas o adotaram no decorrer da história, todas atribuindo-lhe novos significados, mas ele não é do mal. Embora Roman e seus imortais perigosos o tenham adotado e feito parecer algo ruim, o símbolo por si só não tem nada de mau — afirma ele, interrompendo sua fala, pelo menos por enquanto, e voltando a recostar-se na parede.
— Ceeerto... — Rayne dá um sorrisinho forçado. — Se eu tiver que fazer um trabalho sobre isso, falo com você, mas por enquanto voltemos às tatuagens. — Ela balança a cabeça, e só não revira os olhos porque tem adoração total e completa por Damen. — E qual é a outra? — pergunta, voltando-se a Jude.
— A outra é um símbolo japonês para o lótus. Achei que uma flor de verdade seria... Bem... Um pouco feminino demais.
Ela o fita com as sobrancelhas erguidas.
— Eu era mais novo, menos evoluído, o que posso dizer? — Ele levanta os ombros e passa a mão nos cabelos.
— E... Então... Onde é essa outra? — Ela arrisca, mas Jude só ergue a mão e balança a cabeça, encerrando o assunto.
Rayne se vira para Ava, lança-lhe um olhar bravo e sério e estreita os olhos ainda mais quando Ava apenas ri em resposta. Pelo que posso ouvir dos pensamentos trocados entre elas, Rayne tem passado as últimas semanas implorando para fazer uma tatuagem e não consegue entender por que é obrigada a esperar mais cinco anos, até completar dezoito. Rayne já está no mundo há cerca de três séculos, a maior parte desse tempo passada em Summerland, vivendo como refugiada dos Julgamentos das Bruxas de Salém, e não vê motivo algum para que o período que passou lá não seja contabilizado aqui.
Mas esse assunto nada tem a ver comigo, então paro de escutar com a mesma rapidez com que comecei, ansiosa por retomar a discussão anterior.
— Bom, e quanto à canção? — pergunta Miles. — Como é mesmo? Algo sobre levantar da lama em direção ao céu, céu onírico, ou... ou algo assim?
— Da lama se erguerá, os vastos céus oníricos alcançará, como você-você-você também deve fazer... — canto, entoando a mesma melodia usada por Lótus.
— É óbvio que ela acha que você é como a flor do lótus — acrescenta Romy.
Sua irmã gêmea, ainda irritada por causa da tatuagem e não sendo uma de minhas maiores fãs — apesar do abraço recente que me deu em Summerland, depois de ver que sobrevivi ao ataque de Haven —, joga-se na cadeira e me lança um olhar duro. Certamente está duvidando de que uma coisa como essa possa ser verdadeira e escolhe ficar ao lado de Damen, por acreditar que a senhora devia estar louca se viu esse tipo de promessa em mim.
— E o restante, como é? — Miles pergunta.
— Das escuras profundezas, lutará para atingir a luz...
— Novamente uma referência ao lótus — confirma Romy, apontando para a página do livro com a unha pintada de cor-de-rosa, aparentemente satisfeita consigo mesma.
— Com apenas uma vontade... a verdade! A verdade de seu ser.
— Seu destino — diz Ava, frustrando qualquer esperança de que pudesse saber qual é quando continua: — Seja ele qual for.
— Certo, e... — A cabeça de Miles balança enquanto a caneta percorre a página, anotando tudo.
— Hum, certo... — Fico pensando, tentando lembrar como é a continuação. — Ah, sim, depois vem: Mas você permitirá? Deixará que se levante e floresça e progrida? Ou às profundezas a condenará? Exilará sua alma desgastada e exaurida?
— Então basicamente você é a flor do lótus, ou pelo menos a guardiã das flores do lótus, e vai deixá-las cumprirem seu destino e florescerem, ou, o que é mais provável, vai estragar tudo e condená-las às profundezas.
— Rayne! — Ava a censura.
Mas Rayne dá de ombros e diz:
— O quê? Não fui eu quem disse, foi a canção. Eu só estava repetindo.
— Não é disso que estou falando, e você sabe muito bem. Sua intenção pesa mais que as palavras. — A expressão de Ava fica séria.
— Desculpe — Rayne resmunga. Mesmo olhando para mim, fica claro que o pedido é para Ava.
— Sabem o que isso me faz lembrar? — indaga Damen, fazendo com que todos nos viremos, surpresos por ouvi-lo falar novamente. — Isso me faz lembrar 1968, quando os Beatles lançaram o White Album depois de uma temporada na Índia. Todos tentavam interpretar as letras, procurando algum tipo de sentido mais profundo e, no fim das contas, a maioria das pessoas estava errada, algumas tragicamente.
— Charles Manson — emenda Jude, recostando-se na cadeira outra vez, os dedos mexendo no símbolo maia estampado em sua camiseta. — Ele achou que o disco inteiro continha uma mensagem apocalíptica, convocando uma guerra racial, e usou esse argumento para justificar o assassinato de pessoas ricas, cometido por ele e por seus seguidores.
Estremeço. É inevitável. A história é muito assustadora. Ainda assim, não tem muito a ver com o que estamos fazendo aqui, e imagino que Damen saiba disso.
— Mesmo que tudo isso seja verdade — digo, cuidando para evitar seu olhar —, é certo que há uma mensagem aqui. E, segundo Lótus, há também uma jornada que só eu posso realizar. — Então, surpreendendo a todos, inclusive a mim, olho diretamente para Jude e digo: — Todo o tempo que você passou em Summerland... Durante todo esse tempo que estudou suas vidas passadas, nossas vidas passadas, viu alguma que eu não conheça? Uma que o tenha surpreendido? Uma em que eu me chamava Adelina?
Prendo a respiração, permitindo-me soltar o ar só quando ele nega com a cabeça e diz:
— Sinto muito, mas não.
— Certo. — Damen faz um sinal com a cabeça, afastando-se da parede dando a entender que a reunião está sendo oficialmente encerrada. — Acho que tratamos de tudo o que podíamos aqui, não é?
Mesmo querendo protestar e responder que não, apenas faço um gesto positivo e concordo.
Em parte, porque sei que ele só está fazendo o que acha que é certo. Tentando me proteger de Lótus, da parte sinistra de Summerland e talvez até mesmo de mim.
E em parte porque, bem, ele deve estar certo. Provavelmente não há mais o que fazer aqui. Mesmo que eu relute em admitir, parece que discutimos tudo o que podíamos.
Pelo menos por ora.
Quanto ao resto, bem, espero que se revele no decorrer da jornada.

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